quinta-feira, 2 de maio de 2013

Portugal e o racismo - percursos (parte I).




Enquanto petiz, uma das coisas que mais confusão me fazia no feixe ideológico que constitui a identidade portuguesa era a relação com a diferença "racial", sobretudo com aqueles que auferiam de ascendência africana, os pretos, ou as "pessoas de cor", como dizia a minha avó. Os pretos tomavam conta de nós (crianças), trabalhavam na pujante construção civil dos anos da minha infância (os anos de ouro dos "patos-bravos", os saudosos anos 90) e nas limpezas. Eram, claramente, subalternos. E, contudo, pelo menos ao nível do discurso das pessoas que então me rodeavam, não eram objecto do mesmo tipo de discriminação de outros subalternos (homossexuais, toxicodependentes, criminosos e, mesmo, pobres), estes últimos vítimas de ataques mais directos. O racismo era, então, mais subtil que a homofobia ou a "discriminação de classe". Actuava e existia, mas era, pelo menos, "feio" ou "indelicado" a assunção de posições assumidamente xenófobas, semelhantes às que, por exemplo, seriam mais habituais nos líderes brancos e protestantes dos EUA na altura.

Eu tinha amigos pretos e uma namorada mulata, a Luana, mas rapidamente compreendi que aquilo não era o mais habitual e que o "meu" mundo era bastante mais branco do que a ideologia de "racismo suave" explanada pressupunha - lembro-me, por exemplo, de, certa vez, me ser apresentada por uma amiga uma outra colega de brincadeira "muito simpática, mas que era pretinha" (assim, no diminutivo, porque, na consubstanciação do racismo subtil imperante em Portugal, é, ainda hoje, talvez, muito feio dizer os pretos, ou os negros). Portanto, no ambiente cristão em que cresci, não havia mal nenhum, na aparência, nos contactos branco-preto, simplesmente não aconteciam muito, e não interessava muito pensar sobre isso.

E eu fui crescendo, muitas vezes, sempre inconscientemente, evitando dizer "o preto" (substituía por "o black", terminologia muito comum nos subúrbios de Lisboa) e com muito poucas amizades "africanas", apesar de toda a propaganda católica em que nos emergiam, na escola, sobre a necessidade de rifarmos meia dúzia de porcarias para recolhermos dinheiro para "ajudar" os nossos "irmãos" africanos (a Igreja Católica tem destas coisas, em que somos todos irmãos e filhos do mesmo pai, e deve ser por isto que o sexo é tão mal visto, pois, como bem sabemos, não deve ser feito por membros de uma mesma família).

Entretanto, e por força do crescimento, fui sendo introduzido nos "rendez-vous coloniais", i. e., as reuniões dos retornados das ex-colónias, mormente de Angola, onde haviam vivido os meus avós maternos e nascido a minha mãe, em que o saudosismo do antigo império e as benfeitorias do mesmo eram exacerbados e o sonho de sociedades africanas multiraciais, repetido como mantra daquilo que Angola deveria ter sido e não foi.

A negritude (para utilizar um termo popular a partir da segunda metade de 1950's) era-me, assim, apresentada, não como uma despromoção do ser humano mais civilizado (o branco), mas como algo de diferente, ainda que, por força do desnível económico, com repercussões culturais e sociais fortes, ligeiramente inferior. O racismo em Portugal era, assim, algo de estranho, de antigo, de desactualizado, de pouco sexy e moderno. Se aparecia era aliado ao desconhecimento ou à idade mais avançada do orador. O racismo, tal como me era apresentado, tinha pouco de científico.

As origens deste racismo subtil vim a descobri-las, já homem feito, na Academia e provinham de um discurso pós-colonialista que adoptou uma data de preceitos advenientes do pensamento colonialista tardio (do Estado Novo). Este pensamento alicerçava-se na "teoria" (muito pouco científica, contando, sobretudo, com os inputs da intuição de um autor brasileiro, Gilberto Freyre) luso-tropicalista, que pregava a diferença do colonialismo português, sobretudo quando comparado com os seus congéneres norte-europeus (inglês e holandês). A colonização nacional, para além de periférica quase desde o seu começo, teria, assim, sido marcada por uma forte miscigenação, resultado da especial apetência dos portugueses para os contactos com as populações "tropicais". 

O racismo não tinha, assim, sido característica do colonialismo nacional e não poderia, dessa forma, fazer parte da ideologia do Portugal pós-colonial, que se queria pioneiro do "multiculturalismo" e da cooperação para o desenvolvimento. Ao contrário da homofobia e, mesmo, do machismo/sexismo, o racismo (no sentido branco-preto) foi sempre, de alguma forma, mitigado nas sua exteriorização, optando-se por formas mais subtis (ligadas em primeira instância à inferioridade económica).

E, assim, desmontando toda a lógica histórico-filosófica do Ocidente, a ideologia colonialista portuguesa poderá ter contribuído para o combate do racismo nos decénios seguintes...

terça-feira, 2 de abril de 2013

Caminhos do socialismo. Primeira estação: pensar.



Completaram-se, no mês que findou, 2 anos da manifestação da “geração à rasca”, na qual a esquerda nacional começou a dar os primeiros passos para correr com o “engenheiro” sócrates, principal culpado do avolumar da crise de moral e ética política que vem grassando e desgraçando no/o nosso país desde os sinistros tempos do dr. cavaco (A direita decidiu aderir, através de uma das suas grupetas construtoras de relvas e coelhos – a JSD –, mais não conseguindo que sobreviver ao coro de apupos e vaias sob o feliz mote de “alerta cabrão, está aqui a reacção!”). Depois de 12 de Março de 2011, e com a manutenção no poder do consórcio PSD/PS/CDS/Banca, a contestação foi subindo de tom e os números nas ruas aumentando – em 15 de Outubro do mesmo ano, 15 de Setembro de 2012 e 2 de Março do ano que corre. E, desta forma, em manifestações desvinculadas das principais forças partidárias, foi nascendo uma nova consciência política, sobretudo entre alguns dos mais jovens.


Vem percebendo a população em geral, ou pelo menos aquela que não quer limitar a sua existência à prostração mais inútil na frente de um qualquer ecrã de computador ou televisão, que o regime que se impôs em Portugal logo a partir de meados de 1976, mas que tem mostrado as suas garras mais sinistras, sobretudo, a partir de meados dos anos 2000’s, é injusto e degradante da dignidade que deve ser reconhecida a qualquer cidadão, independentemente da condição económica, cultural, social, intelectual, sexual, rácica, étnica, profissional, etc. Acredito, num inesperado rasgo de optimismo, que o povo (e mesmo aquilo a que os pseudo-intelectuais de esquerda, noblesse oblige, chamam, à boca pequena, o “povão”) têm encetado o caminho de compreensão de que aquilo que lhe foi prometido pelo “capitalismo regulado” (que mais não é do que o entendimento errado de Soares daquilo que lhe dizia o seu “amigo” Olof Palme e as “estrelas” do “socialismo francês”) não se tem cumprido.

Disseram-lhe que, liberto das amarras do fascismo e dos “excessos revolucionários”, poderia reinventar-se, melhorar a sua qualidade de vida, superar a condição de nascimento, libertar-se da armadilha da pobreza e de todas as outras que a pobreza vai montando nos sistemas de ensino, na justiça, no acesso à saúde, na fruição da cultura. 40 anos volvidos, o mesmo povo que se regozijava com o inebriante fulgor revolucionário de 74-75 (e que, como todo o ébrio, deixava que lhe roubassem a esperança a cada passo), apercebe-se de que as armadilhas montadas por um sistema que não reconhece a exacta igualdade de oportunidades para tod@s se agigantam. E, mais, toma consciência de que “ou socialismo, ou nada”, ou socialismo, ou manutenção de um regímen em que a ascensão é prometida pelas mesmas instituições e indivíduos encarregados de, depois, “esculacharem” os sonhos e objectivos mais chãos.

E, desta forma, de há dois anos para cá, o povo português empreendeu, ainda que em pequena escala e em doses moderadas, por enquanto, a perigosa tarefa de pensar. E, ainda que seja para dizer que o cerne do marxismo é a asseveração de que as interacções económicas se sobrepõem às suas congéneres políticas e sociais (a epítome do disparate), vale a pena.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Eu e Freitas do Amaral, ou de como a loucura (também apelidada de sonho) apenas alimenta as esquerdas.




Com tanto que tenho para ler, deu-me, numa noite de insónia, todavia, para pegar no I volume das memórias políticas do Freitas do Amaral, conhecido "socialista" que nos tempos da Gloriosa Revolução andava mais pelas (ou às...) direitas. Entre Malraux, Saramago, Freyre e uma série de bibliografia científica que me convinha conhecer urgentemente, a selecção era vasta, e estas memórias não constituíam prioridade. Mas, como bem se sabe - e se não o sabem ou sentiram alguma vez, é porque não fazem da leitura um passatempo de primacial estima -, são os livros que nos escolhem, e não o inverso.

Naquela noite, dizia eu, então, a obra que me escolheu foi o referido memorial do conhecido político e jurista nacional, o Freitas, como lhe chamam, sempre, os alunos de direito, o que cheguei a ser numa vida passada e talvez venha a reencarnar em existência futura. Logo nas primeiras páginas me apaixonei. O sentimento foi o mesmo que em mim havia sido desperto pelas memórias de Cavaco Silva, embora desta vez tenha ficado menos assustado por ser de índole positiva - agrada-me, no fundo, a forma simples como aquelas pessoas de direita explanam a sua formação política inicial, sempre muito pouco literária, roçando o simplório de se basear em situações quotidianas ou absurdos preconceitos basistas para alicerçar convicções ideológicas que crêem profundas. (As historietas políticas pessoais das esquerdas começam sempre com introduções intermináveis, ultra-ideológicas, com centenas de referências bibliográficas, desculpando nascimentos em berços de oiro, e explicando o apego às solidariedades marxistas. Nas direitas, ninguém leu ou escreveu grande coisa que se aproveite, e portanto, cumpre, apenas, procurar, depois de consolidado comezinhamente o pensamento, justificá-lo com duas ou três citações do Adam Smith, devidamente traduzidas pelo César das Neves).

Mas, voltando ao Freitas e às suas recordações... A certa altura, diz o notável jurista (não vejam isto como um elogio...) que, por volta da minha idade, talvez um pouco mais novo, se encontrava em Londres, com o intuito de melhorar o seu inglês, e se deparou com três personagens que, numa mesma rua, e alcandorados em improvisados púlpitos, discursavam. O primeiro sobre política, o segundo acerca de arte, o terceiro afirmando ser o Novo Messias, e justificando a sua condição. Freitas escolheu ouvir político, e ficou maravilhado com a forma como a polícia britânica o protegeu das vaias da multidão, quando insultava a Rainha - foi aqui que compreendeu e aderiu, definitivamente, à democracia, afirma.

Como é bom de ver, se me conhecem minimamente, ainda que apenas através do palavreado com que, atabalhoadamente, vou compondo estas atoardas, eu sentar-me-ia, no chão, defronte do novo salvador. E é aqui que, sinto, tudo me afasta de Freitas e, com alguma soberba na extensão do argumento, aparta a esquerda da direita.

Então se eu poderia estar a ouvir todo o arsenal argumentativo de um tipo que se proclama o novo messias, porque haveria de me perder em discussões políticas, que até podiam ser articuladas e bem sustentadas, claro, mas que não trariam muito de muito novo? Pior ainda se tratando da converseta sobre arte, onde poderia aprender imenso, certamente - porque é a minha principal e aflitiva falha cultural -, mas onde a informação veiculada seria aquela contida numa qualquer edição da Tate. Já a pretensa reencarnação de Deus, teria de desenvolver uma argumentária toda nova, senão cairia naquilo que já foi dito e feito pelo "verdadeiro" Messias (na concepção do Freitas). As perspectivas teriam de ser totalmente inéditas, sonhadoras, tresloucadas. E eu queria ouvi-las em primeira mão, ainda que fosse para, depois, as considerar absolutamente tontas e deslocadas.

Freitas, não. E a direita, genericamente, também não o faz. Procura instruir-se, obviamente, aumentar conhecimento, solidificar posições, como as ideologias políticas à esquerda. E, no entanto, ao contrário desta últimas, não busca (e rejeita, até) o sonho (apelidam de "idealistas" os tipos como eu, como se isso se tratasse de crítica e não panegírico), afasta a loucura da transformação radical (a Revolução), trucida as pontas das asas que nos levariam a poder saltar a capoeira da "segurança", do pragmatismo, do esperado e expectável. Mata a inovação pura.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A indentidade portuguesa - percursos históricos.




Hoje apetece discorrer, livre e acientificamente, sobre temáticas em relação às quais o meu enfoque tem sido, primacialmente, profissional - e, portanto, racional, lógico, etc. Desta feita, permite-se, para além da análise intelectual, a contaminação emotiva, tão mais cheia de conteúdo. No tocante à matéria sub judice, posso adiantar que pretendo elucubrar sobre a "identidade portuguesa".

Portugal é um acidente histórico. A formação da coroa espanhola na segunda metade do séc. XV e a posterior incorporação na mesma dos pequenos reinos da península Ibérica (geograficamente muito bem delimitada pelos mares e Pirinéus) – Granada e Navarra -, pareciam traçar o destino da miúda nação atlântica. O “império” havia, contudo, de a salvar - mais por causa da ideologia que em torno da conquista e ocupação de espaços extra-europeus foi criada, do que pelos benefícios económicos directos da exploração colonial.

O sucesso que se seguiu à saída das primeiras barcaças nos alvores do século XV - em menos de um século, os navegadores portugueses haviam conseguido chegar à Índia, contornando todo o continente africano, descoberto o Brasil e criado, nos primeiros espaços onde chegaram, sociedades produtivas que abriam boas perspectivas para a experiência ultramarina -, permitiu a concepção do português, em primeiro lugar, como um aventureiro resiliente, um soldado fiel ao seu rei e a Deus e um explorador preparado para climas e habitats menos acolhedores. Proporcionou, depois, uma nova conceptualização da cultura portuguesa. A expansão e instalação nacional nos "trópicos" foi, sempre, justificada, primacialmente, pelo espírito de "missionação" e "civilização", mesmo no século XX, quando o desenvolvimento económico passou, na alma europeia, a ser considerado um valor tão importante como a preparação religiosa e social humana. Se se queria ensinar alguma coisa aos povos que se iam encontrado, tinha de ser criado conhecimento, novo e antigo, estruturado naquilo que passou a ser a "identidade portuguesa".

A "ocupação" espanhola - de 1580 a 1640 - não destruiu este corpo teórico que, na proclamação e posterior garantia da independência, foi fundamental. O apoio inglês, as questões materiais do Império, a revolta na Catalunha, consubstanciaram condições importantes para o sucesso da  iniciativa portuguesa. Sem suporte ideológico, todavia, não teriam proporcionado mais do que uma revolta de escravos, como aconteceu, por exemplo, nas ilhas açucareiras das caraíbas, onde os "senhores", mais fracos em número, venciam porque os revoltosos não eram capazes de avançar uma alternativa de regime viável. Desta forma, as vitórias militares seiscentistas foram menos importantes do que a afirmação da identidade nacional, na sua vertente colonizadora e marítima, por personalidades como o Padre António Vieira e, sobretudo, pelo sentimento de "ser português" presente na metrópole e nas colónias.

O lusitanismo, com obra literária e ensaística própria - na poesia de Camões e prosa de Vieira e, muito depois, em Fernando Pessoa e Salazar, por exemplo - permitiu-nos, desta forma, resistir à eterna inimiga - Castela -, mais tarde, conviver com a colonização inglesa do nosso país e, já no século XX, manter, por muito mais tempo do que qualquer estratega militar imaginou, uma guerra contra os "verdadeiros interesses da nação e das populações africanas" nos despojos remanescentes do Império.

Não morreu, não obstante, este tipo de entendimento que nós portugueses temos acerca da nossa própria existência, com o 25 de Abril. Poucos foram aqueles que, no seguimento da Revolução, e sem estarem completamente comprometidos com o regime anterior, tiveram a coragem de asseverar que, com a perda física das colónias, uma parte da identidade portuguesa se desvanecia. Disse-o António José Saraiva, e foi escorraçado pelo regime que se impunha, mais voltado para uma "identidade europeia" e "globalizada". A velhinha identidade portuguesa, sempre reinventada e reconceptualizada, como é próprio de qualquer produto cultural duradoruro, não poderia ser esmagada pela simples perda da matéria (neste caso, os territórios africanos, sobretudo) e foi aqui que Saraiva errou.

Perderam-se as colónias, mas o Quinto Império de Vieira e Pessoa, o império imaterial, ganhou novos contornos nas concepções de Melo Antunes e Eanes de como deveriam ser postas em prática as relações externas pós-coloniais portuguesas. Ficou a saudade da suposta grandeza, que desde o Império Oriental de Afonso de Albuquerque vem alimentando o fado, e, no discurso e prática política, as características fundamentais dos portugueses. A especialidade nacional para a miscigenação, o cristianocentrismo, a hospitalidade "pobrezinha", o aventureirismo, o desprendimento material, permaneceram e alicerçaram, ontem, a CPLP, como conceptualizam hoje a forma como encaramos o racismo em Portugal - uma coisa estranha, politicamente incorrecta, própria dos "ingleses" e seus "derivados" (os "americanos"), menos "preparados" para a faina do contacto inter-cultural.

E a identidade portuguesa volta, neste século XXI, para fazer de nós maiores - os percursores (em conjunto com as nossas derivações, como o Brasil) do multiculturalismo, essa outra forma de racismo brando, muito próprio das nossas gentes, com Boaventura de Sousa Santos, à proa, desta feita, de novas caravelas apelidades de "conhecimentos periféricos".

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

2012.





Entre festas, profundas reflexões e part-times, ficou este blogue abandonado ao esquecimento a que votamos as coisas acessórias. Não o sendo, é com algum constrangimento que tomo consciência de que a letargia durou mais de um mês. Àqueles dois ou três leitores habituais, aqui ficam as devidas e envergonhadas desculpas e, como entretanto mudou o ano, um novo emaranhado de elucubrações sobre o ano que passou.

No espectro público, 2012 foi dos piores anos da minha vida. Tive de assistir à degradação brutal das condições de vida no meu país, à chegada de meia dúzia de representantes da máfia financeira internacional para "ajudarem na recuperação económica" do pequeno rectângulo e ao retorno de práticas de intimidação e de coerção das liberdades políticas básicas mais próprias da "democracia russa" (na feliz expressão de Gerard Depardieu) do que de um país que afirma estar constituído enquanto Estado de Direito Democrático.

Tudo isto perante o pasmo acéfalo da maior parte da massa da população portuguesa, manipulada por tudo e todos, desde a patética Teresa Guilherme à mais bacoca comunicação social que este país já albergou desde os gloriosos tempos da queda do fascismo, passando pela actuação cada vez mais livre de constrangimentos democráticos dos donos desta fazenda (elites governativo-económicas) e seus jagunços (polícias, entidades reguladoras, tribunais, etc.).

Ainda assim, a "crise" (que é muito menos económica do que social e democrática) teve os seus aspectos positivos, sobretudo no que se relaciona com a tomada de consciência política de determinados sectores intelectualizados da classe média que, por norma e moda, viviam à margem da discussão pública da orientação governativa do país. Este processo desencadeou a criação de uma data de associações, mais ou menos formais, e estimulou em diversos sectores em que me encontro inserido, nomeadamente no prisma académico, a discussão de questões a que costumeiramente não se dava tanta atenção. Não serve, não obstante, esta dinâmica para atenuar os efeitos que em mim tem tido o rumo que vamos todos tomando e que está, já, para além do abismo.

Na vida privada, todavia, 2012 foi, por ventura, um dos anos mais frutuosos da minha, ainda curta, vida adulta. A nível académico tudo pareceu consolidar-se, desenvolver-se e tomar um caminho mais certo. A família ganhou estrutura, dimensão. Apaixonei-me e estraguei tudo, mas foi bom. Fodi muito e fui muito fodido (literal e alegoricamente, sobretudo).

E é desta forma que um revolucionário de sofá se senta, em 2013, no mesmo, com a esperança retalhada pela experiência do ano precedente, mas menos amargo e angustiado, porque, afinal, e transformando uma célebre expressão, é sempre possível transformar alguma coisa, ainda que tudo permaneça na mesma.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Da "falta de alternativas" à realidade como mecanismo de coerção do sonho.


 
As últimas semanas têm sido de reflexão. Pessoal, mas também política, naquilo em que o político se pode separar do que nos é mais íntimo. Isto, sobretudo, a partir da brutal repressão que se seguiu à manifestação do dia da Greve Geral - 14 de Novembro. Percebi, então, que os alicerces do actual sistema político-económico são muito mais sólidos do que imaginava. Por um lado, porque o capitalismo parece estar a conseguir sair incólume, do ponto de vista ideológico, desta espécie de crise político-financeira em que nos imergiu - as tretas das teorias do ciclos económicos e outras que tais têm contribuído com justificações "académicas" para as depressões recorrentes das economias "liberais". Depois, porque a generalidade da população portuguesa, enquanto passa fome e privações, vai comendo o discurso de que "vivemos acima das nossas possibilidades" e de que a convocação de eleições antecipadas consubstanciaria aquilo a que comummente se chama de "crise política" - como se a ocorrência de escrutínios regulares não devesse ser actividade corriqueira numa democracia...

O que mais preocupa, e assusta, mesmo, as mentes mais amarguradas como a minha, não é a inaptidão da populaça nacional para vislumbrar para além daquilo que vai absorvendo, acriticamente, do ecrã da televisão, mas a falta de interesse nas e das alternativas em relação ao actual sistema político-económico de "capitalismo subsidiado" - sim, porque no continente europeu, e não apenas no sul, o Estado tem sido o principal promotor e protector de uma certa espécie de capitalismo que está muito pouco interessado na "regulação dos mercados" e na "livre concorrência". Em primeiro lugar, a intelectualidade pequeno-burguesa que, como referiu Borges Coutinho, resistente anti-fascista açoriano, foram "mantendo a honra do convento", com a estruturação e promoção de uma cultura democrática e oposta à situação vigente no período do Estado Novo, desapareceu. Hoje, ou se pensa "academicamente" e, então, enjaulado por todo o tipo de princípios pseudo-científicos que "norteiam" as "ciências" sociais, ou, então, cai-se num debate completamente inútil em que só interessa a renegociação da dívida, a "democratização" das instituições do regime ou a "qualidade" e "honestidade" das classes políticas.

A concepção de sistemas opostos ao "capitalismo subsidiado" não tem qualquer força na Europa, desde a derrocada da União Soviética - a maior tragédia para a Europa Ocidental desde a II Guerra Mundial. Desta forma, o comunismo e todas as formas de socialismo que preconizem um qualquer tipo de coerção à propriedade privada, estão, absolutamente, arredadas e vão resistindo, somente, na cabeça da meia-dúzia de intelectuais "marxistas" que se deliciam a ler Marcuse ou Gramsci, nos intervalos de um cigarro taxado a 80% ou das compras de Natal no shopping mais próximo - como eu -, ou na percepção do remanescente campesinato alentejano beneficiário da reforma agrária de 75, hoje já todos com mais de 60 anos, certamente. De resto, o anarquismo não tem, actualmente, pensadores dignos de nota e vive concentrado nos antros de música punk e no movimento queer, que tanto pugna pela "destruição da sociedade patriarcal", como se contenta com o fim das conceptualizações do "binarismo de género" - essa merda de existirem homens e mulheres e diferenças assinaláveis entre uns e outras.

Assim sendo, a esquerda sul-europeia - e falo, em Portugal, genericamente, das pessoas que, em tempos, votaram no ps, mas que hoje andam votando BE ou não votando de todo, almeja, no máximo, a construção de sistemas próximos daqueles vigentes nos "países nórdicos", em que, supostamente, o capitalismo e a vertente socialista da educação, saúde e segurança social públicas, fortes e proporcionadas pelo Estado se vão compaginando na criação de sociedades capazes de "competir" no sistema de trocas e baldrocas global, mas em que as pessoas auferem de níveis de qualidade de vida apreciáveis. Este tipo de pensamento, que, desde logo, não me parece desadequado de todo, não consubstancia, na verdade, uma alternativa ideológica capaz de abalar os sustentáculos do sistema vigente. Trata-se de uma reordenação dos já antiquíssimos princípios da necessidade de acumulação de riqueza para criação de bem-estar e que, portanto, se subjuga, também, aos pressupostos das dinâmicas actuais. E isso não me chega.

Vi-me, assim, sobretudo, como vos digo, depois de 14 de Novembro, sozinho e perdido. Tenho as minhas ideias e concepções políticas, mas não consigo, no momento presente, encontrar os mecanismos certos para as pôr em prática ou lhes dar destino. Não sei, sequer, se são úteis ou pertinentes, se têm cabimento ou se não passam de um saudosismo absurdo de um passado que nunca existiu. Assim, prefiro calar-me, e pensar, ler, discutir, amarrotar papéis, destruir ilusões, apagar memórias irrepetíveis e criar (novos) sonhos. Até lá, é possível que não nos vejamos em nenhuma manifestação.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Carta aberta a Isabel Jonet.

Cara Isabel Jonet,

Na sequência dos comentários que teceu em meados de Setembro transacto, aquando da apresentação de um novo pacote de austeridade, em que considerava a política governativa que tem atirado milhares de cidadãos portugueses para a pobreza um "mal menor", critiquei-a, no mural do Banco Alimentar contra a Fome. Através de mensagem privada no facebook, não sem ponta de arrogância, respondeu-me o seguinte:

"Manuel Magalhães
Se um dia quiser passar no BA e conversar talvez perceba o real enquadramento das necessidades dos mais pobres. Não gostaria de ver em Portugal o que vi na Grécia: miséria tal que nem daqui a 10 anos terão pensões ou reformas mínimas.Por vezes comentar é fácil quando se desconhece o todo em causa
Isabel Jonet"

Na altura, encontrava-me nos momentos finais de redacção da minha tese de mestrado, razão pela qual não tive oportunidade de lhe responder de imediato. Inicialmente, a minha ideia era aceitar, simplesmente, o seu convite e procurar que esclarecesse o "desconhecimento" em que acredita que me encontro submerso. Afinal, não é por acaso que escolhi a carreira académica - estou sempre pronto para aprender. Não obstante, aquilo que disse, ontem à noite, em debate na SIC Notícias, fiz-me repensar o texto original e sentir a necessidade de lhe remeter esta carta aberta.

Assim sendo, começo por lhe dizer que algumas das opiniões que avançou, como a de que vivemos, durante muito tempo, "acima das nossas possibilidades", não me surpreenderam, tendo em conta aquele que vem sendo o seu discurso, sobretudo desde a instalação da «crise». Outras, todavia, recebi-as com larga surpresa e inusitado receio, a começar por aquela através da qual nos procura endoutrinar no sentido de vermos a contabilidade pública como a contabilidade doméstica. Não sei se se recorda quem foi a última pessoa que, em Portugal, defendeu e praticou esse tipo de «orientação económica»? Se a Isabel Jonet considera que tem vivido acima das suas possibilidades, eu devo contrapor que não concordo ser essa a situação da maioria do povo português, um daqueles onde, no seio da Europa Ocidental, sempre mais grassou a pobreza, como deverá ter conhecimento.

Ultrajante considerei, depois, a forma como se dirigiu ao povo português, dizendo que este tinha de "reaprender a viver mais pobre", a "viver com menos". E foi esta a solução que foi apresentando, ao longo de todo o programa, para a «crise» em que se encontram envolvidas as economias europeias e, especificamente, a portuguesa. Advogou, desta forma, a coerção dos direitos sociais "insustentáveis" e a reformulação do Estado Social, no sentido de "acudir somente às situações de emergência que não podemos tolerar", servindo apenas aquelas "pessoas que efectivamente não conseguem fazer face às suas despesas". Neste tipo de afirmações, lê-se que a Isabel considera como solução a destruição do Estado Social que fomos, a partir de 25 de Abril de 1974, construindo e que vinha, apesar das suas fragilidades e deficiências, melhorando substancialmente a qualidade de vida da população portuguesa, como indicam todas as estatísticas.

A ideia com que fiquei é a de que imagina a satisfação da responsabilidade social do Estado um pouco à semelhança do "seu" Banco Alimentar, como o serviço de meia dúzia, ou milhares de meias dúzias, de refeições diárias e a prestação dos cuidados de saúdes mínimos aos «carenciados» e «indigentes» deste país. Não vê o Estado Social como a estrutura passível de proporcionar àqueles que procura proteger as mesmas oportunidades a que a Isabel, claramente, teve acesso. Prefere, então, uma alternativa que se centre no "essencial", que relaciona com "a inovação chinesa e indiana" da "criação de riqueza a partir do nada", com as "pequenas empresas" e com os "jovens a fazer coisas quase sem custos", o que, para além de consubstanciar uma falácia, porque não se pode criar riqueza a partir do "nada" ou "sem custos", orienta a solução portuguesa no sentido de sistemas sociais profundamente injustos, como são o chinês e o indiano.

Com toda a certeza que a Isabel sabe, finalmente, que o Banco Alimentar é uma solução de recurso que não existiria na situação ideal, em que todas as pessoas, não teriam somente o mínimo para viver, mas acesso às condições materiais que lhes permitissem dar uso ao máximo das suas potencialidades. Penso, desta forma, ter deixado claras as minhas concepções e a medida em que se afastam das suas. Espero, igualmente, ter sido suficientemente incisivo na asseveração de que algumas das coisas que vai transmitindo podem ser consideradas injustas e, mesmo, desagradáveis para aqueles que menos têm. É que, Isabel, por vezes comentar é fácil quando se desconhece o todo em causa...

Com os melhores cumprimentos, ficando à sua disposição para todas as conversas e discussões,

Manuel Magalhães.