segunda-feira, 15 de outubro de 2012
p.s.: na Damaia ainda se acredita.
Enquanto vou procrastinando a conclusão da minha tese de mestrado, tem-me dado para pensar na situação do meu portugal. E em vez de chorar, que seria o estado natural de quem se apercebe daquilo que se passa, dá-me para rir. Não o "rir para não chorar", mas o rir com algum gosto, e alguma inconfessada atracção pelo abismo. E hoje deu-me para rir da "oposição" e falo do partido socialista, para quem não tiver percebido as aspas.
antónio josé seguro, o tonto em quem toda a gente depositava as maiores esperanças, até Soares, tem-se revelado uma nódoa muito maior do que aquilo que se podia imaginar. Claro que eu nunca acreditei que a criatura fosse capaz do que quer que fosse, porque lhe conheço a proveniência - Penamacor, uma vilazita que em tempos que já lá vão (há muitos séculos) chegou a ser muito importante, mas que hoje é a capital do "enterior desquecido e ostracizado" e de onde partiram os meus avós maternos para as África -, mas não imaginei que a desgraça pudesse ser tão monstruosa. Mas é. E consubstancia-se a "oposição" de seguro, perante a destruição do país, em meia dúzia de "abstenções", cada vez menos "violentas" e, espantem-se, na adesão à antiga proposta dos "reaças" (leia-se psd's) de reduzir o número de deputados na AR...
Ainda por cima, teve de sofrer uma das mais brutais desautorizações da democracia portuguesa, protagonizada pelo "seu" grupo parlamentar e pelo líder dos delinquentes, o estratega carlos zorrinho (lembram-se do falecido plano tecnológico e tal?), tipo muito próximo do "querido líder" que se encontra, a "estudos" (porque para lá não se vai a banhos") em Paris.
As "alternativas", dentro do campo "socialista", apresentam-se, todavia, ainda mais risíveis. Os sebastianistas querem ver no actual presidente da câmara de Lisboa o "retorno do rei". O tipo até é um bocado "pró" escuro e, portanto, confundível com marroquino. Mas, desenganem-se os esperançosos, a criatura é originária - e sim, para os que me criticavam no outro dia, quem tem razão sou eu, sendo oriundo sinónimo de originário - do antigo Estado Português da Índia - daí a fixação com o Martin Moniz - e mais não tem feito do que transformar a rotunda do famoso marquês num ponto de caos durante 24h por dia, ao invés das 4 ou 5 habituais.
O pior seria, contudo, se os que pedem que a travessia do deserto do príncipe socialista termine, conseguissem concretizar o sonho e fizessem retornar sócrates, com quem eu só contava para as presidenciais de 2026! A desastrosa gestão do presente executivo tem, não obstante, feito esquecer as trapalhadas do serrano e é, assim, natural que a criatura nos possa vir assombrar bem antes de terminar o "doutoramento" que anda realizando no estrangeiro - e nós sabemos como ele é "rápido" nessas coisas dos estudos.
"Ficamos", assim, à "esquerda", metidos entre o tontinho, o actual líder, que foi sempre uma figura de transição, o cada vez menos "sebastianizável" costa e o príncipe, ou um dos seus capangas - assis, silva pereira, zorrinho... Quase se poderia pedir ao demo que escolhesse. Mas eu, ainda assim, preferia retirar a opção aos demónios deste país - as hostes "socialistas" - e apostar em costa. Apesar de tudo, nos males, escolha o menor...
domingo, 7 de outubro de 2012
aníbal cavaco silva: biografia não autorizada ou "a anatomia de uma tragédia".
O nosso presidente é uma das mais caricatas figuras da "democracia" portuguesa - talvez só superado pelo dr. Soares. Em primeiro lugar, porque, não sendo, de nenhum ponto de vista, um democrata, foi a democracia que o tirou do escritório bafiento de alguma repartição universitária para o palco principal da política portuguesa. Nos tempos do fascismo, andava alegrete, pedindo e recebendo atestados de bom comportamento da polícia política. Não passaria, nunca, contudo, de um funcionário, relativamente competente, acredito, mas sem grande brio ou brilho que o pudessem alcandorar num lugar maior que a chefia de uma direcção de serviços ou equivalente.
Do 25 de Abril, nada percebeu ou sabe. Na sua autobiografia política classifica-o, simplesmente, como um período de "grande confusão". Foi Sá Carneiro quem, provavelmente em noite de ópio com a amante Abecassis, achou que tinha descoberto o novo salazar num outro bolorento professor universitário e o convidou para ministro das Finanças, com prerrogativas semelhantes àquelas de que havia auferido o virginal ditador. Não havia descoberto e, graças ao acidente/atentado que vitimou o líder histórico do PPD, as "cavacadas" - como começaram a ser conhecidas as peculiares estratégias financeiras que ia utilizando - ficaram escondidas sob um manto de uma administração austera, mas eficiente, que muitos problemas haveria de causar aos senhores do fmi em 1983.
Na oposição a Francisco Balsemão e Mota Pinto, vai construindo, sob a asa protectora da sua mulher, uma aura de sucessor legítimo do pensamento de Sá Carneiro, e, em animado festim numa famosa praia portuguesa, conquista o partido e havia de conseguir uma minoria relativa e duas absolutas nos anos seguintes. Governaria nos 10 melhores anos de Portugal, em que os "fundos de coesão" - na verdade a estratégia final hitleriana de vergar a europa reinventada - davam para minar um país de auto-estradas, arrancar linha férrea e oliveiras, desmantelar fábricas e ainda alimentar as cliques do grande partido PSD-PS que começa então a constituir-se.
Perdeu as eleições de 96, mas o esforço de Maria compensaria em 2006 quando é eleito para Bélém, onde era necessário um "economista pragmático" - o que quer que essas palavras, "economista" e "pragmático", friso, signifiquem. Finalmente, com a queda de sócrates, de quem já muitos vêm fazendo a apologia, muitos mais do que aqueles que defenderam o antigo, concretiza o sonho de Sá Carneiro: um Presidente, um Governo, uma Maioria, que ainda por cima contava com o CDS, que cavaco havia reduzido ao táxi nos anos de governo. Finge, então, governar de Belém, chamando o ministro das Finanças para "explicações", um pouco à semelhança do velhinho Salazar, em 1969, quando continuava pretendendo governar, despachando, como em qualquer outro dia dos gloriosos anos de 1950, com a outra Maria e restantes membros do executivo.
A 5 de Outubro, finalmente, hasteia a bandeira nacional ao contrário e leva o processo todo até ao fim - via-se-lhe o olhar perdido, procurando Maria, e agora o que é que faço? Esconde-se, então, no sitiozinho onde realizam aquela parolagem da "Moda Lisboa". E aí, tem de ouvir o líder da oposição - uma criaturinha que, há falta de espaços para rotundas na capital, decidiu violentamente (como é hábito partidário) perturbar o já caótico trânsito do Marquês de Pombal - criticar "fortemente" o "seu" governo. Criaturinha essa que, soubemo-lo depois, foi quem trocou o lado da bandeirola.
E, depois disto tudo, digam-me, ainda há quem acredite que aníbal cavaco silva será o salvador da nação? Procederá no sentido de formar um governo de iniciativa presidencial, afirmam os sebastianistas chefiado por leonor beleza? Não me deixem pensar isto...
sábado, 29 de setembro de 2012
As esquerdas não se entendem
Tendo andado agora moderadamente envolvido em várias
plataformas de esquerda, tais como o manifesto
para uma esquerda livre e o congresso
democrático das alternativas, que procuram discutir ideias e congregar as
esquerdas portuguesas, deparo-me com incontáveis horas de discussão sobre como
melhor concretizar este velho sonho de unir a esquerda.
Ora se debater o que quer que seja é sempre positivo,
discutir o estado e o futuro da esquerda é fulcral. No entanto convém situar o
debate nos pontos verdadeiramente importantes, caso contrário corremos o risco
de estarmos apenas a perder tempo.
Na minha opinião é exactamente isso que estamos a fazer: a
perder tempo, a discutir ao lado daquilo que interessa.
Senão vejamos: Todos os oradores, de todas as áreas da
esquerda, atribuem a incapacidade de entendimento entre estas ao sectarismo, à
história difícil e conflituosa das esquerdas, a Mário Soares, a Álvaro Cunhal,
ao PREC em geral, a Sócrates, a Louçã, ao chumbo do PEC IV, etc. Se as (outras)
pessoas que estão nos partidos fossem inteligentes e bondosas isto resolvia-se,
parece ser o consenso geral.
No entanto, se estivermos atentos ao resto dos debates, os
das ideias, vemos bem porque as esquerdas não se entendem e provavelmente nunca
se entenderão: elas pura e simplesmente não concordam. Pensam que sim porque
todas falam do falhanço do memorando, da estupidez das políticas actuais e da
necessidade da preservação do estado social, mas isso não chega.
O memorando não serve, é óbvio, mas e depois? À esquerda
defende-se desde o cumprimento do memorando sem mais nenhuma medida enquanto se
reza para que a Europa mude, ao rasgar total dos acordos com os credores, o
default, e a nacionalização da banca. Defende-se desde a renegociação dos juros
à saída unilateral do euro. Defende-se desde o uso do mecanismo da moção de
censura, à revolução violenta. Defende-se desde pedir mais tempo para pagar, a ir
buscar dinheiro à Rússia. Defende-se desde mais investimento público a cortar
no número e salário de deputados. Defende-se desde mais crédito para a economia
através dos bancos, a “mudar o paradigma da sociedade de consumo”, o que quer
que isso seja.
Percebe-se muito facilmente, assim, que o entrave à união
das esquerdas não é a má vontade dos protagonistas políticos mas sim visões
diferentes e idealismo no bom sentido.
Se queremos mesmo mudar esta situação, cada um de nós tem de
pensar muito bem naquilo em que realmente acredita, que caminho defende, e,
sobretudo, de que partes do seu sonho é que está disposto a abdicar.
Penso que
é impossível entendermo-nos. Mas se for possível, terá de ser assim.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Uma criança chamada pedro passos coelho.
Sempre que tenho o desprazer de me deparar com uma imagem de pedro passos coelho, o fantoche que dá a cara pela trupe que vem desgovernando portugal desde há mais de um ano, logo me vem à memória uma daquelas crianças apatetadas da minha infância. Das que andavam sempre com um ar satisfeito que iam buscar não sei aonde – já enquanto infante eu encontrava mil e uma razões de desprazer na vida, fosse a estúpida da regra que nos impedia de correr à chuva ou o facto de eu achar que à realidade pertenciam tanto o recreio da escola, como a quinta imaginária com cavalos da minha tia, ideia que os adultos contrariam sempre, até que, dez anos depois, numa cadeira a que chamaram de Filosofia, me tentaram fazer crer no contrário… mas eu já não era a criança que voltei a ser hoje…
Mas falava eu de passos coelho e da sua assustadora semelhança com o menino da lágrima, embora a falta de qualquer tipo de função cognitiva do primeiro o prive do olharzinho triste e o brinde com uma expressão vazia e feliz (pois toda a felicidade é vazio). Sorri a criança porque o nenhures que habita não lhe dá a dimensão da tragédia que se ergue em seu redor. E sorri, mesmo quando a maior das humilhações o atinge. Quando qualquer um de nós procuraria o refúgio mais esconso, a criança ri-se, olha, ligeiramente envergonhada, mas quase orgulhosa da proeza, para o progenitor que lhe devolve o olhar calmo e sereno de “a culpa não é tua”.
A criança foi educada pelos barões (ângelos correias e uma outra série de crápulas que ganharam proeminência, sobretudo, depois da desastrosa gestão de cavaco silva) e viveu sempre numa redoma patética a que se usa chamar psd. Saía para uma qualquer espécie de curso que terminou já com bem mais de 30 anos e para ir “administrar” as empresas dos ângelos. Mas voltava sempre, primeiro para a liderança da “jota”, depois, do partido dos grandes, por fim, do país dos parvos. Não perdeu, nunca, a criança, o ar pueril e nunca ganhou a noção da consequência dos actos, que é o que marca o abandono da infância.
E, assim, quando assevera, com ar sorridente, que a solução para os problemas da população que desgoverna é “emigrar”, fá-lo como a criança que diz que quer almoçar rebuçados para sempre. Quando Maria Teresa Horta, resistente antifa e escritora de renome, afirma recusar-se a receber o prémio das mãos do infante, este não chora, e ignora, porque afinal nem idade tem para ler aquelas coisas. E, finalmente, quando o Presidente da República pede explicaçõezinhas de matemática ao seu ministro das Finanças, na sua cara (porque tem assento no Conselho de Estado), ignorando a posição do primeiro-ministro como interlocutor entre o governo que comanda e o PR, a criança acha normal, porque, afinal, mais não se trata do que do avô que quer ouvir o irmãozinho mais novo e mais esperto. E em vez do homem adulto se demitir ou exigir ao Presidente que fale directamente com ele, a criança trapalhona esboça um sorriso, limpa a boquinha suja de chocolate à pontinha do bibe e segue para Belém pela mão do tio antónio (borges ou outro).
domingo, 2 de setembro de 2012
"Revolução" sexual? Elucubrações do Maio de 68 aos nossos dias - Parte II.

Marcuse, dizia eu no post anterior, acusava a libertação sexual de ter conduzido à mercantilização do sexo e, dessa forma, a um outro tipo de aprisionamento. “A libertação não liberta”, dizia. E, transpondo a conceptualização para a realidade portuguesa actual, tendo a concordar.
Enquanto em 68/69, nas democracias liberais da Europa e nos EUA, a juventude aborrecida da alta burguesia gritava pelo sexo livre, em Portugal, os mesmos jovens (talvez mais aborrecidos ainda – afinal estavam em Portugal) clamavam por um tipo de liberdade mais genérica – que a maior parte não sabia (ou soube) concretizar e criou esta situação actual, em que até já há quem fale de “excesso de liberdade”, como se isso fosse um conceito possível. Ainda assim, vivia-se numa estranha espécie de ditadura, em que o falecido ditador parecia continuar a controlar tudo a partir do túmulo, e, então, a reivindicação nunca foi, no final dos anos 60/princípios dos 70, especificamente sexual. Mesmo na Revolução de Abril, a questão sexual foi, quase completamente, marginalizada. Afinal, havia muito para mudar, para que tudo ficasse na mesma (fim de citação – e se não conhecem o livro, não sei como compreendem a Europa do Sul).
A mudança ocorreu, entre nós, ao longo de um período muito longo, e apenas terá tido efeitos notórios, creio, lá para os anos 90. A partir daí, a promiscuidade (não gosto do conceito, mas serve) sexual começou a ser mais consensual, na prática, apesar de amplamente criticada. Hoje, só não fode muito quem não quer. Só não varia, não experimenta, não explora, quem não tiver “interesse” (e aqui cabe tudo – vontade, inteligência, imaginação, etc.).
E, no entanto, são muito poucas as franjas, na sociedade portuguesa, em que existe verdadeira liberdade sexual. E este tipo de liberdade significa, simplesmente, a possibilidade de, sem crítica, vivenciar, confortavelmente, todo o tipo de experiências consentidas. Ainda que a experiência seja não experimentar nada. Não foder, e acabou, e isso ser considerado normal. Ou comer vinte ou trinta homens numa noite, ou um numa vida. Ou só gostar de beijar, ou de sexo oral, ou de tântrico, ou de 4.
Mas não, tirando, talvez, os que dão pelo nome de poliamorosos (que talvez sejam, como todos os anarquistas actuais, mais uns pseudo-libertários que substituíram o punk pela foda), toda a gente contabiliza, julga, elucubra sobre, exprime opiniões acerca do sexo próprio e alheio. E há um conjunto tão gigantesco de regras que devem ser cumpridas para se ser “sexualmente normal” - em relação ás situações em que se pode ser puta ou não, idades, vestuário, primeiros contactos, segundos, terceiros, posições, tempos, comprimentos, vezes, regularidade…- que matam qualquer possibilidade de uma vivência livre da sexualidade. A libertação, assim, longe de libertar, parece ter tido somente o efeito de atirar o sexo de dentro de casa para a rua, normalizando-o em muitos casos. Publicitar não significa, assim, libertar – coisa, que por exemplo, as pessoas que andaram atrás do casamento gay nunca conseguiram perceber.
Hoje, fode-se mais atrás dos números, de uma suposta acumulação de prazer, da hiperbolização do corpo, da aprovação alheia, do cumprimento dos actuais preceitos morais (que os há, mais do que no passado, nesta área), do preenchimento do calendário, do que com a preocupação de satisfazer o próprio desejo.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
"Revolução" sexual? Elucubrações do Maio de 68 aos nossos dias - Parte I.
Herbert Marcuse, filósofo alemão cujos escritos auferiram de
enorme popularidade no nosso país no período que se seguiu à Revolução dos
Cravos, escreveu, certa vez, que “A libertação dos costumes conduziu à
transformação do sexo em mercadoria. A libertação não liberta”, acabava por
concluir. Li isto e imediatamente me pus a pensar na realidade nacional actual
e se a citação se deixava encaixar. Cheirava-me que sim, mas isso ficará para a segunda parte deste post. Nesta primeira, gostava de elucubrar sobre o contexto da reflexão marcusiana.
Marcuse escrevia, nos anos 70, no rescaldo Maio de 68, em
que a “revolução” sexual talvez tenha sido a conquista mais permanente. Não se
tratou de uma Revolução. Os sindicatos aproveitaram as manifs estudantis (com
as quais, aliás, nem concordavam) para ver satisfeitas exigências concretas e
os pequenos revoltosos, recolhidos nos braços fortes das mamãs, todas matronas
burguesas, lamberam uma ou outra ferida de bastonada errática da polícia,
enquanto assistiam (ou participavam, mesmo) na grande manifestação de apoio a
de Gaulle.
O descontentamento estudantil relativamente à “opressão
moral” e a “frustração com a sociedade moderna” desapareceram debaixo do manto
das reivindicações megalómanas, mas vazias. O sexo livre, enquanto reclamação
concreta e “justa”, ficou (em parte). A verdadeira motivação do Maio de 68 foi
o sexo – os estudantes de Nanterre queriam enfiar-se nos dormitórios das
estudantes e vice-versa, prática que era proibida e Daniel Cohn-Bendit foi
ameaçado com sanções disciplinares por ter interpelado o ministro da Juventude
para que se discutisse o “problème
sexuel” (sic). Disse o jovem Daniel, impregnado de testosterona, e, naturalmente, dos escritos
inflamados de Frantz Fannon,
Marx e Mao (muito popular, ainda, na altura), “qu’il faut avant tout
assurer l’équilibre sexuel de l’étudiant”. A foda! Estava encontrado o
mote para a revolução que havia de chegar à mais conceituada (e burguesa)
Sorbonne.
Gritaram-se os mais variados slogans:
- Faites l'Amour pas la Guerre!
- Déboutonnez votre
cerveau aussi souvent que votre braguette (Abre a tua mente tantas vezes como a tua braguilha)
- Embrasse ton amour
sans lâcher ton fusil
- Inventez de
nouvelles perversions sexuelles (je peux pus !)
- Les jeunes font
l'amour, les vieux font des gestes obscènes.
- Plus je fais
l'amour, plus j'ai envie de faire la révolution. Plus je fais la révolution,
plus j'ai envie de faire l'amour
- Les réserves
imposées au plaisir excitent le plaisir de vivre sans réserve
Interessantes, a maior parte, e, felizmente, com capacidade para abrir a caixa de Pandora do sexo - heterossexual, o homossexual ia ter de esperar um ano para despontar, em motins muito menos burgueses, do outro lado do Atlântico. Com uma data de consequências positivas, em princípio relacionadas com a liberdade da vivência sexual. Marcuse, todavia, acusa esta abertura de ter mercantilizado o sexo. Tornou-o demasiado desinibido, demasiado rápido, demasiado inconsequente, demasiado contabilizado, banalizado. Assim, a libertação não tinha libertado nada. O sexo, desta forma, não saía solto da revolta, mas constrangido por uma outra série de "convenções" sociais que se começavam a construir, baseadas nos tamanhos, quantidades, performances, etc.
A libertação era, assim, abocanhada na prisão social inversa daquela de onde tinha saído. E o meio termo - a verdadeira, genuína, descomplexada, etc., liberdade sexual - não tinha sido encontrado. Era mais uma das revoluções falhadas sobre as quais Marcuse gostava de reflectir e cujo falhanço se reflecte, creio, ainda nos dias de hoje. Mas isto, fica para depois...
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Direito ou esmola: uma estória do subsídio de desemprego.

Sobre o subsídio de desemprego (SD) é comum ouvir pessoas menos esclarecidas, para não lhes atirar com epíteto pior, dizerem o tipo de coisas que se seguem:
- Ah, fulano preferiu ficar a receber o subsídio de desemprego em vez de ir trabalhar;
- Sicrano rejeitou uma proposta de emprego porque o SD é mais alto;
- Beltrano já está há mais de um ano a viver à conta do SD;
E rematam, inevitavelmente, com um assertivo “isto é uma vergonha!” – porque não são eles que estão na situação de estenderem a perninha à sombra de uma qualquer prestação estatal, certamente. Mas adiante…
Este tipo de afirmações tem a capacidade de me encanitar, profundamente, mesmo que, profundamente, esteja sob o efeito de substâncias relaxantes. E isto porque transmite a ideia de que o subsídio de desemprego (assim como todas as subvenções do mesmo tipo) é uma regalia atribuída pelo Estado, uma espécie de gratificação caritativa para impedir que se caia na miséria e que, se as pessoas fossem honestas e trabalhadoras, deveriam ter vergonha de receber. Para alguns, deveria mesmo terminar, porque desincentiva a procura de trabalho – “pois se a pessoa está repimpada a receber sem fazer nenhum, que motivação tem para procurar emprego?” – e a partir daqui já não há tranquilizante cavalar que me sossegue.
Isto porque o SD não é uma prestação entregue pro bono pelo Estado, não se trata de um montante recebido de forma gratuita, de um tipo de esmola um pouco mais substancial. Consubstancia, pelo contrário, um determinante quantitativo a que uma pessoa tem todo o direito porque descontou do vencimento normal, todos os meses, enquanto trabalhou, o montante indicado pelo sistema de segurança social. O dinheiro que, assim, recebe à conta de SD não é mais do que o retorno do Estado Social, ao qual não deveria estar associado qualquer tipo de contrapartida, nem sequer a obrigatoriedade de procurar emprego, enquanto durar o direito à prestação.
Cominar a recepção do subsídio com a imposição de frequentar “cursos de actualização profissional” ou idas a duas ou três entrevistas de emprego por mês (ou mais) consubstancia, a meu ver, uma claríssima violação, em primeiro lugar, do princípio da dignidade da pessoa humana e, depois, de todas as normas estruturantes de um Estado Social de Direito, como é suposto ser o estado português – assim com letra minúscula, até que se liberte da colonização capitalista.
Mas o que mais me custa não é a existência deste tipo de regulamentação e que os tipos que nos meteram nas alhadas em que nos encontramos e nos quais continuamos a confiar os destinos deste pedaço de terra e gente (aka PS’s, PSD’s, CDS’s) nos endrominem com o discurso de que há que trabalhar, sem esperar que o estado (gordo, ultra-protector, asfixiante) venha atrás amparar todas as quedas. Aquilo que verdadeiramente me transtorna e que chega, mesmo, a ameaçar os alicerces do marxismo que defendo – a possibilidade de haver em cada um de nós uma, nem que seja mínima, predisposição para nos preocuparmos com aqueles que nos rodeiam – é que aqueles que se encontram nos lugares mais ingratos do sistema de capitalismo cleptocrata sustentem e promovam o tipo de discurso referido. Esses, sim, deveriam ter vergonha!
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