terça-feira, 21 de agosto de 2012

Direito ou esmola: uma estória do subsídio de desemprego.




Sobre o subsídio de desemprego (SD) é comum ouvir pessoas menos esclarecidas, para não lhes atirar com epíteto pior, dizerem o tipo de coisas que se seguem:


- Ah, fulano preferiu ficar a receber o subsídio de desemprego em vez de ir trabalhar;

- Sicrano rejeitou uma proposta de emprego porque o SD é mais alto;

- Beltrano já está há mais de um ano a viver à conta do SD;

E rematam, inevitavelmente, com um assertivo “isto é uma vergonha!” – porque não são eles que estão na situação de estenderem a perninha à sombra de uma qualquer prestação estatal, certamente. Mas adiante…

Este tipo de afirmações tem a capacidade de me encanitar, profundamente, mesmo que, profundamente, esteja sob o efeito de substâncias relaxantes. E isto porque transmite a ideia de que o subsídio de desemprego (assim como todas as subvenções do mesmo tipo) é uma regalia atribuída pelo Estado, uma espécie de gratificação caritativa para impedir que se caia na miséria e que, se as pessoas fossem honestas e trabalhadoras, deveriam ter vergonha de receber. Para alguns, deveria mesmo terminar, porque desincentiva a procura de trabalho – “pois se a pessoa está repimpada a receber sem fazer nenhum, que motivação tem para procurar emprego?” – e a partir daqui já não há tranquilizante cavalar que me sossegue.

Isto porque o SD não é uma prestação entregue pro bono pelo Estado, não se trata de um montante recebido de forma gratuita, de um tipo de esmola um pouco mais substancial. Consubstancia, pelo contrário, um determinante quantitativo a que uma pessoa tem todo o direito porque descontou do vencimento normal, todos os meses, enquanto trabalhou, o montante indicado pelo sistema de segurança social. O dinheiro que, assim, recebe à conta de SD não é mais do que o retorno do Estado Social, ao qual não deveria estar associado qualquer tipo de contrapartida, nem sequer a obrigatoriedade de procurar emprego, enquanto durar o direito à prestação.

Cominar a recepção do subsídio com a imposição de frequentar “cursos de actualização profissional” ou idas a duas ou três entrevistas de emprego por mês (ou mais) consubstancia, a meu ver, uma claríssima violação, em primeiro lugar, do princípio da dignidade da pessoa humana e, depois, de todas as normas estruturantes de um Estado Social de Direito, como é suposto ser o estado português – assim com letra minúscula, até que se liberte da colonização capitalista.

Mas o que mais me custa não é a existência deste tipo de regulamentação e que os tipos que nos meteram nas alhadas em que nos encontramos e nos quais continuamos a confiar os destinos deste pedaço de terra e gente (aka PS’s, PSD’s, CDS’s) nos endrominem com o discurso de que há que trabalhar, sem esperar que o estado (gordo, ultra-protector, asfixiante) venha atrás amparar todas as quedas. Aquilo que verdadeiramente me transtorna e que chega, mesmo, a ameaçar os alicerces do marxismo que defendo – a possibilidade de haver em cada um de nós uma, nem que seja mínima, predisposição para nos preocuparmos com aqueles que nos rodeiam – é que aqueles que se encontram nos lugares mais ingratos do sistema de capitalismo cleptocrata sustentem e promovam o tipo de discurso referido. Esses, sim, deveriam ter vergonha!

domingo, 19 de agosto de 2012

Ainda sobre drogas, ou porque é que isto continua a ser uma crónica de maus costumes.






Ainda sobre drogas... Sobre legais e ilegais e sobre o disparate que é o esforço que se faz na proibição da cannabis e derivados e, depois, se permite que se consumam tudo quanto é fertilizantes e incensos nas smartshops (Cogumelo Mágico, entre outras). E bem, que, no fundo, cada um mete no seu corpo o que quer, desde que informado das consequências.

Este governo, liberal como se afirma, já anda a preparar legislação proibitiva do consumo das, actualmente, drogas legais e vai, sem dúvida, chumbar o projecto do BE acerca da liberalização do consumo dos canábicos. Porque o liberalismo do executivo Relvas só funciona no sentido de desmantelamento da (parca) protecção social daqueles que menos têm. No resto, comporta-se como o mais conservador dos Estados do socialismo real.

E tem de ser assim. Manietado pelas desastrosas políticas económicas impostas por aquela criatura andrógina da Alemanha de Leste que insiste em ser tratada pelo nome feminino de Angela e pelas ainda mais idióticas "soluções" da figurinha ridícula que se ocupa, quando não se encontra frente ao espelho, treinando a vozinha de falsete de Salazar, das finanças nacionais, o governo Relvas tem necessidade de assumir que governa "à direita" nas questões sociais. Assim, tal como Sócrates pôs a paneleiragem a casar para dar um vago ar progressista à desgraça, o presente executivo, não podendo atender às reivindicações novecentistas da Isilda Pegado, pretende pegar nas drogas.

Não podendo voltar a regular o sexo nos termos do Estado Novo, volta-se para as drogas, o elo mais fraco da liberdade contemporânea. E em vez de se percorrer o caminho natural da liberalização do consumo dos derivados da cannabis - cujos malfícios, quando comparados com os do álcool ou tabaco, fazem com que nem sequer possam ser considerados, efectivamente, drogas - calcorreiam-se as veredas da proibição, não só tornando o fruto proibido mais apetecido, mas continuando a infantilizar as pessoas com base em preconceitos básicos e profundamente incorrectos.

E eu não defendo, atenção, que os fertilizantes das smartshops possam continuar a ser vendidos à vontade de todo e qualquer freguês. Agora, não me parece, neste caso, que avançar para a proibição pura e simples - como adivinho que aí venha - consusbtancie um qualquer tipo de solução. E, noutro ponto, continuar a proibir o consumo do haxixe, baseado nas (supostas) consequências gravíssimas para a saúde mental e na ideia de que se trata de uma droga de passagem para outras mais fortes, é uma "solução" tão idiota como permitir que um analfabeto funcional governe um país - o que, afinal, até acontece no nosso, mas, enfim, não é por isso que perde o epíteto.

Nas actividades recreativas (como se viu, historicamente, com o sexo), proibir é sempre o pior remédio.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Da proibição do consumo da ganza como retrato da hipocrisia nacional (ou mais uma crónica de maus costumes).





O Bloco de Esquerda decidiu, há uns dias, apresentar, novamente, legislação no sentido da legalização do consumo da marijuana e (alguns) derivados. Claro que os mais néscios (ps’s, psd’s, cds’s e talvez, também, alguns pcp’s) vão argumentar que, neste momento de enormes dificuldades económicas para a nação, se trata de uma perda de tempo encetar a discussão sobre a legalização deste tipo de drogas levas. Este tipo de argumentação, de tão demagoga e desprovida de sentido, não merece, sequer, que contra ela se tergiverse. Ainda assim, e para os que nela podem, apesar de todos os avisos, cair, aqui fica um dado histórico: este nosso pequeno país vive em (permanente) crise financeira desde 1143 (data estabelecida de começo da nacionalidade). Desta forma, se andássemos sempre preocupados com a economia, ainda hoje vivíamos como os compinchas do bronco que deu pelo nome de Afonso Henriques (fundador deste protótipo mal amanhado de nação). Depois, e se ainda não se aperceberam, subsistimos hoje em regime colonial, sujeitos ao jugo de um conjunto de incompetentes a soldo da banca internacional (os “funcionários” do FMI, BCE e CE) e daquela espécie andrógina que insiste, vá-se lá saber porquê, em ser tratada pelo nome feminino de Angela Merkel, mas que faz muito mais lembrar uma versão gorda daquele senhor que há cerca de 70 anos decidiu exterminar os judeus e remeter os restantes europeus à subserviência do Reich.


Assim, subservientes e colonizados – nós que sempre fomos “potência” colonial – deixámos de poder decidir acerca do nosso futuro económico-financeiro, sobre o estado da nossa saúde, do nosso ensino, da nossa segurança social. Já desistimos, e a solução, a nível do governo do demissionário (esperemos) Relvas, é emigrar ou o retorno ao campo (ideia da Sra. Cristas que, com certeza, a única fez que se desfez dos saltos foi para ir àquele encontrozinho “informal” no forte de S. Julião da Barra). Ainda podemos, todavia, encontrar soluções nos termos da nossa política de consumo de substâncias recreativas. Afinal, a definição de (algum) do enquadramento dos bons costumes era prerrogativa das elites colonizadas.

É neste sentido que me pronuncio sobre o projecto do bloco, que será, mais do que certamente, chumbado, pelos votos contrários do CDS (só metem coca os meninos, a “ganza” é para pobre) e da maior parte do PSD (já estão enterrados em várias camadas de esterco, não precisam, minimamente, neste momento, de uma Isilda Pegado, defensora dos abstémios, a combatê-los nas ruas e blogues). O PS, naquela pasmaceira beirã em que se enleia sob a liderança do Seguro não deve tomar decisão nenhuma e, como sempre, seguirá as pisadas da direita. Interessante poderá ser o voto comunista. À partida, e tendo em conta o eleitorado que representam e as preocupações que os movem, prefeririam chumbar a iniciativa bloquista. Todavia, quem já foi à festa do Avante, bem sabe que o PCP terá poucas hipóteses de sair incólume do chumbo. É possível que prefira fazer como com o casamento gay – outro tema espinhoso para os comunistas – e aprovar pela calada, esperando que aqueles velhinhos simpáticos do Alentejo ainda não tenham adquirido o descodificar para a TV.

A balança penderá, então, nesta matéria para a hipocrisia e o mantra português dos (maus) costumes continuará a ser o mesmo: “fá-lo, desde que não se saiba”. Para gáudio, sobretudo, das massas consumidoras da marijuana, que podem continuar, livremente, a consumir o seu produto tax-free!

PS: num texto próximo tentarei, com algum conhecimento de causa, expor os malefícios dos produtos derivados da marijuana, quando comparados com as drogas legais: tabaco, álcool, fertilizantes, etc.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Do desconforto social como forma de violência (e de como tudo acabou comigo a mandar-vos para o caralho)



Há muito tempo que aqui não escrevo sobre questões LGBT, porque, confesso, egoisticamente, não tenho estado centrado nesse tipo de preocupações. Um um triste acontecimento recente fez-me, contudo, recordar um maravilhoso texto do Mario Vargas Llosa que li aquando do assassinato de um homossexual chileno por um grupo de patifezecos.

Há pouco tempo, um familiar de uma amiga minha suicidou-se, num país da América do Sul, onde vivia. Não teria mais de 20 anos, tinha estado em Portugal de férias e, quando regressou a casa, decidiu pôr fim à própria vida. Ontem soube a razão mais que provável - era gay e não aguentou a pressão social relacionada com a afirmação dessa característica. Não suportava viver escondido, e a sociedade reagiu negativamente à saída do esconderijo. Não foi assassinado como o rapaz chileno, mas foi encaminhado para a morte por um contexto injusto e violento, em que, em pleno séc. XXI, a homossexualidade continua a ser vista como um bicho de sete cabeças, todas elas conspurcadas e pejadas de vício. Não era fraco, mas não conseguiu suportar o peso da rejeição e do ódio. Caiu onde qualquer um de nós cairia, talvez muito antes.

Vargas Llosa, no seu artigo no El País, culpava pela morte do jovem toda a sociedade chilena e a homofobia que esta aceita e reproduz, e não apenas o bando de marginais que executou directamente o acto. Eu acho que todos nós, que continuamos a permitir que o racismo, a homofobia, o preconceito religioso, e todo o tipo de discriminação continuem a minar a nossa existência comum, somos culpados pelo estado de desesperança, de desamparo, de solidão, de desespero, em que colocamos os nossos jovens, levando-os, com a nossa acção ou apatia, à morte.

E não somos menos culpados porque não nos importamos, porque não querermos saber, porque, normalmente, a menos que a diferença seja muito estridente, até nem nos incomodarmos com a presença do gay ou do preto. Somos cúmplices quando "não temos nada contra", mas ficamos "desconfortáveis" com a presença de dois homossexuais, quando "até gostamos de ir ao chinês", mas achamos que aquela cultura é "muito estranha", "são gente com que nunca se vai «integrar» completamente".

É este desconforto que eu não entendo. E não há, creio, com a informação a que a minha geração tem acesso, proveniências de Bragança, frequências de colégios internos, profissão de religiões ou seitas mais radicais, que o possam desculpar.  A diferença devia suscitar curiosidade, nunca incómodo, sobretudo nas gentes com vinte e poucos anos, que andam sempre a comprar as roupas mais estapafúrdias, a ouvir a música mais idiota, mas mais recente, o cinema mais estupidificante, mas mais "moderno"...

E é por tudo isto que me senti extremamente incomodado, e agora com razão, quando, outro dia, chegaram dois amigos gays, e, posteriormente, uma tipa que estava no meu grupo revelou ter-se sentido "desconfortável" a partir daí. Desconfortável...na presença de dois outros seres humanos só por causa de uma característica que não escolheram e que, principalmente, não prejudica absolutamente ninguém.

Desconfortável...só gostava era de saber o que pensaria a criatura se tivesse noção de que foi, provavelmente, a partir de manifestações, mais violentas talvez, deste nosso "desconforto" que partiu a decisão de morrer daquele rapaz, de abandonar tudo, de desistir... Se calhar, marimbava-se no assunto. Com certeza que a puta do nosso mundinho, das nossas merdinhas, dos nossos preconceitozinhos, é mais importante do que a vida de um tipo que nem conhecíamos e que se calhar, não passava de um fraco, porque, afinal, ser paneleiro, hoje, já não custa nada.

Opá, vão todos para o caralho, é o que me apetece dizer, e peço desculpa pela fraquíssima qualidade estilística do texto, mas hoje, e perante este tipo de acontecimentos, não sou capaz de melhor.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Cansei de ser sexy (ou por que é que a liberdade aparece em forma de loucura).



O abandono deste lupanar reflexivo explica-se em três palavras: trabalho, férias, inspiração (falta de). O pedido de desculpas segue dentro de momento, como sempre, sob a forma elucubrativa a que, para vosso desespero, vos venho habituando.

Hoje, que as bases de dados da Assembleia da República decidiram boicotar a finalização de uma tarefa laboral, gostava de discorrer sobre liberdade. Liberdade social.

Portugal é, pelo que me tenho apercebido, neste campo, um dos países onde mais dificilmente se consegue atingir este tipo de libertação - e chamem-me essencialista, e, até, racista, se quiserem. A tradição católica de controlo dos hábitos carnais, o pequenito polícia de costumes que vive no interior de cada um de nós, o ultra-moralismo sul-europeu e uma certa dose de felino-mortífera curiosidade combinam-se para fazer de nós um povo muito preocupado com o impacto que causamos junto do outro (do próximo, diríamos num jeito mais clerical) - e talvez isto se passe com todos os povos, mas este tempo, demasiado frio para Verão, dá-me ganas de bater no português, em qualquer um e, se possível, no povo todo, genericamente.

Assim, preocupados com a imagem que fulano e sicrano têm de nós, deixamos de usar uma saia mais curta (ou uma saia tout court, tratando-se de criatura masculina), tirar ou deixar um pêlo, ouvir determinada música, falar de certo assunto, nadar nus, gritar o que nos apetece, foder com ou quem queremos, enfim, deixamos, paulatinamente, de viver. Ou melhor, vivemos, até mais confortáveis, provavelmente - porque a pressão dos pares há-de ser, num animal gregário como o homem, um dos mecanismos de controlo mais eficazes e nocivos -, mas com menos experimentação e diversão. A maluqueira fica arrumada num canto qualquer da vida, para aparecer, por vezes, em "crises de meia idade", e se alguém com mais de 25 anos decide, um dia, nadar de rabo ao léu, logo é apelidado de adolescente, como se a adolescência não fosse a fase menos louca e mais controlada da vida, mas adiante...

Eu vivia nesta angústia. Por um lado, tinha uma vontade enorme de mandar grande parte das pessoas que me rodeiam para o caralho e passar a fazer aquilo que me apetece, mas, por outro, vivia atemorizado com o chorrilho de acusações de irresponsabilidade e infantilidade - porque essas sim, se saudáveis, são mais livres que os adolescentes - que rapidamente brotariam daqueles que, verdadeiramente, a única coisa que desejam era fazer o mesmo. Mas não conseguem.

Hoje, vivo menos estes temores. A beata que vivia em mim, e que ainda vive, embora, talvez, numa sacristia mais ranhosa, e não na sé catedral, tem vindo a perder força e, assim, a crítica alheia, vai caindo num saco cada vez mais roto - e qualquer dia já cai directamente no chão sem sequer ter direito a passar no buraco. (A crítica social, bem entendido, porque a nível académico, como é óbvio, seria de uma estupidez incomensurável não criticar e ser criticado - afinal é assim que se aprende).

E eu vivo cada vez mais feliz, porque mais tranquilo. Se quero vestir uma camisola indiana toda rota, faço-o porque não atinjo negativamente ninguém com isso. Se quero gritar que os vendilhões invadiram o tempo quando passo na Igreja e vejo que um grupo de gospel está a fazer uma "recolha de fundos", faço-o. E se quero nadar nu, tiro os calções, e enrolo uma ganza se assim me apetecer, ou fodo com este, com a outra e com toda a gente se assim me der na gana.

E os cânones sociais, vou-os abraçando na medida em que considero que não posso, nem quero, viver afastado dos meus concidadãos. E, assim, não ando por aí aos tiros contra este ou aquele (embora me apeteça, frequentemente), a peidar-me desmesuradamente a meio de um jantar, ou a chamar de gordos todos os paquidermes que se atravessam no meu caminho.

Há um equilíbrio que tem de se encontrar entre a vida em contacto com os outros e a construção da nossa liberdade pessoal. Admito, assim, que me digam que não estou a fazer o meu trabalho em condições, que procrastino nos treinos de vólei ou que estou a ser demasiado desagradável para a pessoa X ou Y. Aquilo que já não posso aceitar é que me imponham princípios morais, moralistas ou moralizantes, que não sufraguei e com os quais, as mais das vezes, não concordo. Vive, e deixa viver, tem sido o meu mantra. E acho que resulta.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Teorizações da banalidade.




Acontece-me - noto-o, pelo menos desde o ano transacto - perder, quase completamente, no período que sucede ao 25 de Abril, o interesse pela política nacional. Assim, mais ou menos entre Maio e o final de Agosto, fico sem vontade de comentar as novas falcatruas do primeiro-ministro Relvas, o desastre da "solução" alemã para a "crise" europeia, ou qualquer acto das caricaturas que integram o governo português.

Não sei bem porque se dá o fenómeno, mas tenho a certeza que não está relacionado com a falta de rumo (ou interesse mesmo) da política nacional. Se assim fosse, nunca teria despertado para esta realidade, já que, desde pelo menos os governos Cavaco Silva, que se perdeu toda a esperança de, pelo menos, ver na política portuguesa motivo de alguma diversão. Simplesmente, acontece-me perder os ímpetos "revolucionários" de modificar alguma coisa, de ir a todas as manifestações possíveis, de encontrar vias de contestar a situação actual, de pensar, meditar e escrever sobre aquilo que desejo, de um ponto de vista colectivo, para o meu país.

E não é que me torne mais egocêntrico, que passe a preocupar-me muito mais com as minhas questões pessoais, a perder mais tempo com o planeamento do meu futuro. Esse tipo de elucubrações continuam a ocupar, mais ou menos, o mesmo espaço no meu pensamento. As políticas é que desaparecem quase completamente, ao ponto de, algumas vezes, andar, mesmo, relativamente, desinformado em relação àquilo que vai acontecendo.Acho que me apetece ser mais mundano, mais banal, até. Menos pseudo-revolucionário, pseudo-marxista e mais pseudo-boémio, ou básico, simplesmente.

Esta situação assalta-me com doses iguais de algum desgosto misturado com preocupação e tranquilidade. Preocupa-me não estar tão activo no campo político-social, porque acredito, e atormento toda a gente com isto, que cada um de nós pode, se quiser, transformar a merda desta sociedade consumista/capitalista/competitiva numa outra em que a meta será o bem-estar, a felicidade, a solidariedade, em vez do progresso tecnológico e crescimento económico. Em que a maior parte dos seres humanos será mais pessoa e menos máquina.

Tranquiliza-me, por outro lado, porque me permite pensar um pouco menos, ir na onda, despreocupar-me, ser mais português - acreditar que, mesmo que não faça grande coisa, algo há-de se arranjar, alguém há-de providenciar para que as causas em que acredito não se percam completamente. E isto é, estranhamente, tendo em conta a minha personalidade laboriosa e perfeccionista, um descanso enorme. Umas férias, no fundo, da luta, ou daquilo que defendo com mais convicção.

Enfim, esperemos que seja um efeito do calor que, ainda, me possibilite, pelo menos, acompanhar com alguma atenção as eleições gregas e elucubrar, alguma coisa, ainda que manhosa, sobre os efeitos perniciosos dos dislates financeiros dos mercados e restantes instituições cleptocráticas mundiais sobre o sistema democrático. E, sobretudo, quando chegar o Outono, ser invadido por uma vontade revolucionária, pelo menos, tão forte como aquela que me permitiu, no Arraial do 25 de Abril, servir cervejas ao ritmo de 200/hora.


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Reflexões sexuais - Paris.



Eu era, até recentemente, relativamente conservador no que concernia às minhas práticas amorosas/sexuais. Do ponto de vista teórico, como já terão reparado aqueles que não têm grande coisa para fazer e decidiram ler qualquer coisita do que escrevi, aceito quase tudo, mas tinha dificuldade em me imaginar em situações que saíssem da norma. E, então, os relacionamentos (sexuais e emocionais) eram a dois, com uma série de limites auto-impostos, em que quase todas as liberdades caíam no âmbito da traição e as relações "abertas", poliamorosas, ou outras que fugissem à história monogâmica dos príncipes encantados eram estranhas, menores, menos completas. E isto mesmo depois de ter lido a Insustentável Leveza do Ser, que já me fez, pelo menos, repensar, quando não mesmo aniquilar, uma série de (pre)conceitos enraizados acerca da forma como as relações sentimentais humanas (genericamente) deveriam funcionar. E sobre o que era o Amor, como deveria ser posto em prática, a conjugação com o sexo, o funcionamento da parte física em correlação com aquela a que (no "ocidente") chamamos de psíquica/emocional.

A mente arejou, mas a manifestação material do pensamento continuava a seguir a rotina judaico-cristã do 1x1, com pouca variedade e, de preferência, apenas as vezes suficientes para os nossos amigos verem que não somos estranhos por não fodermos, mas também não nos acusarem de estarmos a enveredar pelo carreira profissional das senhoras do Intendente (ainda por cima de forma gratuita!).

Depois estive em Paris, 4 dias, para um torneio no qual ficámos, já agora, em último lugar. E estive-me a cagar - por estar em Paris, por estar com (algumas) pessoas que já não têm idade (nem pachorra) para andar com a cartilha das restrições sociais atrás, porque me apeteceu. E foi muito bom não ter de encaixar comportamentos em normas, deixar materializar a imaginação, evitar elucubrações desnecessárias sobre momentos positivos, mas dificilmente definíveis. E, afinal, o número perfeito podem não ser 2, a fidelidade não é sinónimo de monogamia, o sexo fora do um contra um não carrega, automaticamente, a estampa da traição ou da promiscuidade, e o amor, o desejo sexual, a atracção emocional, os relacionamentos assumem uma diversidade tal de matizes que será sempre impossível tentar encontrar uma norma final de definição da completude que se afaste do hedonismo particular de cada um.

Não quer isto dizer que, de volta ao Portugal católico (do apego ao escondido e ao proibido), venha completamente mudado e preparado para largar uma estrutura (normativa emocional) construída ao longo dos meus 25 anos de vida. Mas venho, pelo menos, confuso, inseguro acerca da linha que separa o correcto do inadmissível, num estado de incerteza acerca das normas que convém manter e daqueles que deixou de fazer sentido prosseguir, com muito menos ideias relativamente àquilo que quero, do sexo e do amor, para o futuro. E, não obstante, com uma certeza muito clara de que a felicidade amorosa/sexual se constrói muito mais facilmente no meio da confusão de ideais, de premissas, de comportamentos, do que no marasmo da rotina e na coerção das práticas socialmente tipificadas ou aceites.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Feios, porcos e maus - uma crónica sobre as gorduras do Estado capitalista.



Retornando às temáticas mais políticas (e mais públicas), até porque a minha vida pessoal está, por um lado, muito longe de ter o interesse que têm os acontecimentos social e economicamente relevantes que vão tendo lugar neste rectângulo a que a maioria de nós continua a insistir chamar de país e, por outro, porque, por ora, decidi que a minha vida emocional tem que se reduzir à insignificância que vai assumir, pelo menos, até Setembro.

Desta forma, pus-me, outro dia, enquanto, ao longe, ouvia vagamente o professor Marcelo falar das promoções do Pingo Doce, a pensar na oposição que alguns insistem em fazer entre capitalismo regulado (o que temos nos países da UE) e capitalismo selvagem (aquele em que imperaria, sem rei nem roque, o poderio do capital e da força). Imediatamente me veio à ideia a frase com que um colunista espanhol rematava uma crónica em que reflectia, exactamente, sobre as instâncias reguladoras daquilo a que nos regimes democráticos ocidentais podemos chamar os mecanismos produtores de riqueza.

A conclusão do cronista era a de que o capitalismo "à europeia" (= capitalismo regulado) se traduzia na seguinte expressão: "para os ricos há o Estado, os pobres têm de se haver com o mercado". E, de facto, é exactamente a isto que vimos assistindo na nossa, agora já não tão idílica e paradisíaca, União Europeia. Todos os dias, ouvimos o nosso primeiro-ministro (Miguel Relvas) e o seu ajudante-de-campo (um tipo de fraca figura que dá pelo nome de Passos Coelho, penso que sem hífen a ligar os dois apelidos) bombardearem as nossas pobres cabeças com a ideia de que já não há "empregos para a vida", que o Estado é "demasiado gordo", que os idosos só têm direito à hemodiálise se tiverem dinheiro para a pagar (esta última acho que, se calhar, foi proferida por aquela carantonha que me faz lembrar a Faixa de Gaza 5 minutos depois do último bombardeamento da democracia israelita).

Enfim, que temos de trabalhar mais, que não podemos contar tanto com o amparo governamental, que temos de nos safar sozinhos e que, se formos trabalhadores e servis, vamos conseguir alcançar uma posição social e económica confortável. Afinal, os pais do dr. Salazar e do Cavaco (que desconfio que eram as mesmas pessoas) eram trabalhadores rurais, ou pequenos comerciante - ou qualquer outra coisa de fraco rendimento, o que interessa é a metáfora.

E até aqui, tudo bem, não é? Afinal se a Maria Cavaco Silva chegou à Presidência da República, eu também hei-de conseguir ter um salário fixo de, pelo menos, 1.500 euros.

A pequenita questão que, todavia, me encanita, ao ponto de não conseguir parar de coçar o colóide que tenho no canto do peito, é que, quando se trata de grandes empresas ou empresários, os mesmos que nos andam, tal como esta espécie de governo, a moer o juízo com a ideia de que o Estado é demasiado "interventivo", as autoridades nunca lhes respondem com um: "temos pena, mas a verdade é que viveram acima das vossas possibilidades". Simplesmente, porque estes senhores/instituições são os supostos criadores da riqueza que nos permite (a todos, dizem eles) viver cada vez melhor.

E é assim que, quando os bancos (que a única coisa que têm de fazer para dar lucro é ir buscar dinheiro a 1% a Bruxelas e emprestá-lo à nação a 8% e a nós a 10% ou 12%) falem, lá vem a mão sapuda do Estado acudir - porque vocês não imaginam a desgraça que seria para a Economia, e, portanto, para o vosso bem-estar se um banco se desmoronasse!) e quando uma "grande" empresa decide abrir uma "grande" fábrica que vai empregar um "grande" número de pessoas (a maior parte a ganhar o salário mínimo, mas também ninguém lhes mandou não estudar) o Estado avança logo com uma data de subsídios e linhas de crédito, entre outros mecanismos económicos que reduzem, na prática, o risco dos grandes investimentos a zero.

Foi a pensar nisto, certamente, que a minha mãe exclamava, no dia da dita, que "a grande partida que podíamos pregar ao grande capital era acabar, definitivamente, com o Estado". Porque, de facto, atrevo-me a aventar, as gorduras do Estado não estão no excesso de assistencialismo à base da pirâmide, mas no controlo da "mão invisível" do mercado, não vá ela começar à bofetada àqueles que se encontram no topo.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Do luto amoroso (ou a minha tentativa de um post intimista)




Ando, por aqui, há mais de uma semana, encalhado com dois textos que queria publicar – um sobre a participação da JS na Marcha do 25 de Abril, outro sobre o descrédito popular em que caiu a democracia portuguesa – e vejo-me, como me acontece frequentemente, aliás, na impossibilidade de alinhavar mais de duas frases coerentes sobre os referidos assuntos. Desta vez, contudo, a incapacidade literária não se deve à inabilidade habitual, mas ao facto de estar, incessantemente, a elucubrar, de forma quase científica, por vezes, sobre um assunto mais pessoal – o luto (amoroso).


Acabei – há cerca de 3-4 semanas, prefiro não contar exactamente o tempo – uma relação de 5 meses. Não é muito tempo, mas a “coisa”, sobretudo o seu final, foi para mim, particularmente intensa. Trágica, quase poderia dizer-se. No Domingo – foi quando terminou – estava, verdadeiramente, destruído. E aconselharam-me o luto – que eu nunca tinha feito em relação a compromissos anteriores – mordedura de cão cura-se com pêlo de outro, era o meu lema na “resolução” destas questões. E, para além disso, “luto” cheirava-me a livro de auto-ajuda e a psicoterapia de 3.ª categoria.

Neste caso, todavia, o luto fazia algum sentido. Sobretudo, porque, desligado o telemóvel e evitadas as espreitadelas no facebook, a segunda-feira foi dos dias mais tranquilos dos últimos tempos. E senti, como não sentia há muito tempo, liberdade. Tinha de perceber como é que me tinha recomposto tão depressa e, sobretudo, porque é que estava melhor separado do que junto e porque é que não tinha conseguido ver isso.

E uma parte do luto, disseram-me os entendidos (e com isto quero dizer as pessoas capazes de manter relações maiores do que um semestre), consistia, exactamente, nisto. Em perceber a relação, os sentimentos envolvidos – voltei, pela segunda vez na vida, a dizer “Eu amo-te”, sem o sentir -, o meu esforço de adaptação, a minha insatisfação permanente no compromisso (naquele compromisso) e, ao mesmo tempo, a minha ânsia de que não terminasse.

No restante, continuaram os entendidos, o luto requer um certo rompimento com a vida emocional/sexual. Tem de se parar, até que se ganhe, novamente, alguma estrutura. Fazer outras coisas, estar com amigos, evitar certos “ambientes”. E esta parte tenho-a cumprido, somente, pela metade. Tenho, felizmente, feito imensas coisas que me davam um enorme prazer e que haviam sido, relativamente, postas de parte – ler era uma delas. Não consegui, todavia, desligar o botão emocional e, de certa forma, procurar, desde já, preencher essa componente. E não creio, desta vez, que seja por medo da solidão, ou produto de uma voragem abrupta de “aproveitar a vida”. As coisas vão acontecendo e eu tenho sentido, de forma absolutamente consciente, que não as devo impedir, ainda que sinta que não ultrapassei o período de “nojo” amoroso.

E, pergunto-me, quanto tempo temos de “esperar”? É certo que o incumprimento da parte celibatária do luto prejudique o processo reflexivo do período? Quando é que podemos deixar, novamente, que alguém se intrometa, ainda que só fisicamente, na nossa fragilidade? Enfim, quando é que sei que posso largar os douradinhos com salada russa (o meu prato preferido), os boxers “Che Guevara”, as noites a ver Mentes Criminosas enroladinho na manta roubada na SATA e “enrolar-me” na próxima pessoa.?

E estas são as perguntas a que mesmos os “entendidos” não me conseguem responder.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

"O 25 de Abril e a História" - António José Saraiva




Já em jeito de celebração do 25 de Abril de 1974, e tal como vos tinha prometido, deixo-vos uma crónica do António José Saraiva escrita para o Diário de Notícias em 1979. Trata-se de uma visão com a qual, por várias razões, não consigo concordar, mas, pelo estilo, e por algumas críticas verrinosas e bem aplicadas, embora, ligeiramente, mal direccionadas, penso que vale a pena dar uma vista de olhos.

Não posso aderir ás críticas de AJS em primeiro lugar porque, apesar de tudo, os acontecimentos desencadeados pela Revolução dos Cravos tiveram, em geral, consequências positivas: criação do Serviço Nacional de Saúde, outros sistemas de assistência social, democratização do ensino, liberdade de imprensa, opinião, reunião, etc., entre outras coisas que o governo actual se tem entretido, perante o embrutecimento popular, a destruir.

Por outro lado, e quanto à descolonização, acho que, de facto, a pressão partidária e social era demasiado grande e os próprios soldados não queriam, de forma alguma, continuar a ser compelidos a combater. Assim, não vejo de que outra forma poderia ter sido levado a cabo o processo, até porque em 1974, obviamente, o livro do Spínola nunca poderia servir de base a acordo nenhum. Em 1945, ou mesmo em 1961, talvez, naquela altura não, seguramente.

AJS toca, contudo, em vários pontos correctos quando se refere ás falhas na liquidação do regime. De facto, a corrupção não foi, nunca, uma situação combatida pelo regime pós-25 de Abril e nunca se procedeu a uma, efectiva, "limpeza" e julgamento dos responsáveis pelos crimes mais abomináveis cometidos durante a ditadura. basta, aliás, ver que os delfins do antigo regime, continuaram, no novo, a ser caras bem conhecidas da nossa vida política - Adriano Moreira, José Miguel Júdice, Freitas do Amaral, Jaime Nogueira Pinto, etc.

Enfim, com estes sintéticos alertas, deixo-vos, então, o texto de AJS, que, nalguns pontos, mais soa a previsão dos dias que correm...


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"Se alguém quisesse acusar os portugueses de cobardes, destituídos de dignidade ou de qualquer forma de brio, de inconscientes e de rufias, encontraria um bom argumento nos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril.

Na perspectiva de então havia dois problemas principais a resolver com urgência. Eram eles a descolonização e a liquidação do antigo regime. Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com a vantagem para ambas as partes: o Exército Português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que tivera a aceitação nacional e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa.
 

Todavia, o acordo não se realizou e retirada não houve mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer Quibir. 

 
Pelo que agora se conhece, este comportamento inesquecível e inqualificável deve-se a duas causas. Uma foi que o PCP, infiltrado no Exército, não estava interessado num acordo ne numa retirada em ordem, mas num colapso imediato que fizesse cair esta parte da África na zona soviética. O essencial era não dar tempo de resposta às potências ocidentais. De facto, o que aconteceu nas antigas colónias portuguesas insere-se na estratégia africana da URSS, como os acontecimentos subsequentes vieram mostrar.


Outra causa foi a desintegração da hierarquia militar a que a insurreição dos capitães deu início e que o MFA explorou ao máximo, quer por cálculo partidário, quer por demagogia, para recrutar adeptos no interior das Forças Armadas. Era natural que os capitães quisessem voltar depressa para casa. Os agentes do MFA exploraram e deram cobertura ideológica a esse instinto das tripas, justificaram honrosamente a cobardia que se lhe seguiu.
Um bando de lebres espantadas recebeu o nome respeitável de «revolucionários».




E nisso foram ajudados por homens políticos altamente responsáveis, que lançaram palavras de ordem de capitulação e desmobilização num momento em que era indispensável manter a coesão e o moral do Exército para que a retirada em ordem ou o acordo fossem possíveis. A operação militar mais difícil é a retirada; exige em grau elevadíssimo o moral da tropa. Neste caso a tropa foi atraiçoada pelo seu próprio comando e por um certo número de políticos inconscientes ou fanáticos e em qualquer caso destituídos de sentimento nacional. Não é ao soldadinho que se deve imputar esta fuga vergonhosa, mas aos que desorganizaram conscientemente a cadeia de comando, aos que lançaram palavras de ordem que nas circunstâncias do momento eram puramente criminosas. Isto quanto à descolonização, que na realidade não houve.

O outro problema era o da liquidação do regime deposto. Os políticos aceitaram e aplaudiram a insurreição dos capitães, que vinha derrubar um governo que, segundo eles, era um pântano de corrupção e que se mantinha graças ao terror policial: impunha-se, portanto, fazer o seu julgamento, determinar as responsabilidades, discriminar entre o são e o podre, para que a nação pudesse começar uma vida nova. Julgamento dentro das normas justas, segundo um critério rigoroso e valores definidos. Quanto aos escândalos da corrupção, de que tanto se falava, o julgamento simplesmente não foi feito.

O povo português ficou sem saber se as acusações que se faziam nos comícios e nos jornais correspondiam a factos ou eram simplesmente atoardas. O princípio da corrupção não foi responsavelmente denunciado, nem na consciência pública se instituiu o seu repúdio. Não admira por isso que alguns homens políticos se sentissem encorajados a seguir pelo mesmo caminho, como se a corrupção impune tivesse tido a consagração oficial.

Em qualquer caso já hoje não é possível fazer a condenação dos escândalos do antigo regime, porque outras talvez piores os vieram desculpar.

Quanto ao terror policial, estabeleceu-se uma confusão total. Durante longos meses esperou-se uma lei que permitisse levar a tribunal a PIDE-DGS. Ela chegou, enfim, quando uma parte dos eventuais acusados tinha desaparecido e estabelecia um número surpreendentemente longo de atenuantes, que se aplicavam praticamente a todos os casos. A maior parte dos julgados saiu em liberdade. O público não chegou a saber, claramente, as responsabilidades que cabiam a cada um. Nem os acusadores ficaram livres da suspeita de conluio com os acusados, antes e depois do 25 de Abril.

Havia, também, um malefício imputado ao antigo regime, que era o dos crimes de guerra, cometidos nas operações militares do Ultramar.
Sobre isto lançou-se um véu de esquecimento. As Forças Armadas Portuguesas foram alvo de suspeitas que ninguém quis esclarecer e que, por isso, se transformaram em pensamentos recalcados.

Em resumo, não se fez a liquidação do antigo regime, como não se fez a descolonização. Uns homens substituíram outros, quando os homens não substituíram os mesmos; a um regime monopartidário substituiu-se um regímen pluripartidário. Mas não se estabeleceu uma fronteira entre o passado e o presente. Os nossos homens públicos contentaram-se com uma figura de retórica: «a longa noite fascista». Com estes começos e fundamentos, falta ao regime que nasceu do 25 de Abril um mínimo de credibilidade moral.

A cobardia, a traição, a irresponsabilidade, a confusão, foram as taras que presidiram ao seu parto e, com esses fundamentos, nada é possível edificar. 


O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres da anterior; mais a vergonha da deserção. E com este começo tudo foi possível depois, como num exército em debandada: vieram as passagens administrativas, sob a capa de democratização do ensino; vieram «saneamentos» oportunistas e iníquos, a substituir o julgamento das responsabilidades; vieram os bandos militares, resultado da traição do comando, no campo das operações; vieram os contrabandistas e os falsificadores de moeda em lugares de confiança política ou administrativa; veio o compadrio quase declarado, nos partidos e no Governo; veio o controlo da Imprensa e da Radiotelevisão pelo Governo e pelos partidos, depois de se ter declarado a abolição da censura; veio a impossibilidade de se distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de esclarecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira; veio o considerar-se o endividamento como um meio honesto de viver.


Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma Primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco. Ao contrário das esperanças de alguns, não se começou vida nova, mas rasgou-se um véu que encobria uma realidade insuportável. Para começar, escreveu-se na nossa História uma página ignominiosa de cobardia e irresponsabilidade, página que, se não for resgatada, anula, por si só todo o heroísmo e altura moral que possa ter havido noutros momentos da nossa História e que nos classifica como um bando de rufias indignos do nome de Nação.


Está escrita e não pode ser arrancada do livro. É preciso lê-la com lágrimas de raiva e tirar dela as conclusões, por mais que nos custe. Começa por aí o nosso resgate. Portugal está hipotecado por esse débito moral, enquanto não demonstrar que não é aquilo que o 25 de Abril revelou.


As nossas dificuldades presentes, que vão agravar-se no futuro próximo, merecemo-las, moralmente. Mas elas são uma prova e uma oportunidade. Se formos capazes do sacrifício necessário para as superar, então poderemos considerar-nos desipotecados e dignos do nome de povo livre e de Nação independente."

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ao António José Saraiva, que não tem culpa.






Por causa da publicação abjecta com que JAS nos brindou recentemente no pasquim de que é director e, sobretudo, por causa do rasgado elogio que teceu ao "tio José Hermano" - colaborador próximo do regime fascista -, têm-se ouvido dizer algumas coisas relativamente injustas, nomeadamente, que é natural que JAS seja assim (facho) porque provém de uma família em que todos seguiam a mesma cartilha salazarenta.

Ora, se é certo que o "tio José Hermano" é reaccionário até à medula, a verdade é que o pai do JAS, o António José Saraiva, se opôs, sempre, ao regime fascista, tendo, por isso, sido afastado das actividades docentes na Faculdade de Letras da UL.

Militou no Partido Comunista, apoiou a candidatura de Norton de Matos e, nos anos 60, exilou-se em França. Depois de duas viagens à União Soviética, abandona o comunismo e, regressado a Portugal já depois da Revolução dos Cravos, critica duramente o (novo) regime instituído e assume uma postura mais "conservadora". A epítome destas críticas é a famosa crónica de 1979 "O 25 de Abril e a História" publicada no Diário de Notícias - com a qual, pessoalmente, não posso concordar na totalidade, mas que hei-de publicar aqui.

António José Saraiva era, assim, um homem com uma formação académica exemplar, um pensador livre, um verdadeiro contestatário, um homem inteligente, no limiar da loucura muitas vezes. Era polémico sem precisar de inventar trapalhadas ou fazer figura de parvo. Era repeitado.

O filho, infelizmente, parece não ter herdado nenhuma destas qualidades. Não se respeita, cientifica e moralmente, aprecia a polémica de baixo nível, disserta sobre aquilo que não conhece, não se respeita e, por isso, não é respeitado e, de cronista, vem-se metamorfoseando em piada nacional - mesmo na direita, atraiçoando, em parte, a linhagem de onde provém.


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AJS pelo próprio:


"Eu sou existencialmente inconformista.


Eu sou, de origem, um camponês.

Eu fui espiritualmente cristão e teoricamente marxista.


Eu estou contra a sociedade, independentemente das teorias.


Eu acredito no espírito, mas não sou capaz de o definir.


Eu estou pronto a emigrar de novo, se necessário. Eu sou António José Saraiva."



terça-feira, 10 de abril de 2012

José António Saraiva, tanta preocupação é um bocado gay...



 
No seu último artigo de “opinião” no folhetim a que uns poucos, cada vez menos, felizmente, continuam a querer chamar de jornal - Sol, José António Saraiva (o director da publicação panfletária) decidiu debruçar-se sobre um tema em relação ao qual, ultimamente, se tem revelado um “connaisseur” – a homossexualidade.Não faço ideia de onde lhe vem tamanha ciência, mas, assumo, começo a suspeitar que, nalgum momento, tenha tido acesso a informações mais “profundas” sobre a matéria, se é que me faço entender...

Passemos, todavia, adiante, porque o que aqui nos ocupa são as extraordinárias capacidades de JAS para adivinhar a orientação sexual alheia através da “inclinação da cabeça” e de prever e explicar as tendências demográficas daquilo a que chama a “comunidade gay” e não as preferências da criatura. (Ainda que, a obsessão com a matéria, fizesse com que qualquer motard algarvio exclamasse que o senhor “tem um piquinho a azedo”).

A crónica a que me venho referindo abre com o seguinte parágrafo, no estilo quase literário a que, quando o conseguimos levar a sério, o que, graças a Deus, raramente acontece, JAS nos vem habituando:

«À minha frente, no elevador, está um rapaz dos seus 16 ou 17 anos. Pelo modo como coloca os pés no chão, cruza as mãos uma sobre a outra e inclina ligeiramente a cabeça, percebo que é gay”.

Ontem, a primeira vez, provavelmente, que li alguma coisa do «Sol», fiquei logo entusiasmado com o estilo quase neo-realista do trecho e, rapidamente, me consegui imaginar no citado ascensor, bem ao lado do jornalista e do adolescente visado. E quase podia ver JAS, no seu sonho (molhado, como dizia no fb o D.), com a sagacidade habitual com que desmonta as mais complexas intrigas políticas, a desvendar as preferências e, quem sabe, mesmo as posições sexuais predilectas do jovem. Tudo isto, superando qualquer velha cigana de Belém, somente através da leitura da posição dos pés, mãos e cabeça do sujeito.

Esta visão serve de mote para que o articulista avance, como é seu hábito, duas “brilhantes” e “iluminadas” conclusões – que o Chiado é um “lugar de preferência da comunidade gay” e que é um “facto notório” que esta comunidade “tem vindo a crescer”.

O alargamento do número de homossexuais, explica-o JAS pela influência de amigos ou figuras públicas, por pressão do meio e pela utilização da homossexualidade como forma de expressão de rebeldia e irreverência.

Quando fala da pressão do meio, esclarece JAS, refere-se, nomeadamente, ao mundo da moda, onde o fenómeno se dá de forma “clara” – deve estar, certamente, a pensar no duo Carlos Castro/Renato Seabra. Assim, os modelos, estilistas e restante entourage são, segundo JAS, gays, simplesmente porque o contexto laboral é, predominantemente, homossexual. Que brilhante e científica conclusão! Não diz, o "jornalista", o mesmo das manequins, com certeza porque não acredita que mulheres tão bem aperaltadas e "femininas" possam ser lésbicas...novamente porque, mesmo no preconceito, JAS é básico.

A proposição mais extraordinária (se não conhecêssemos a peça, diríamos lunática, mesmo) é contudo aquela através da qual o Saraiva liga o "crescimento da comunidade gay" à necessidade juvenil de contestação. Tal como quando era jovem, militava nas"esquerdas" para chatear o "corajoso" tio José Hermano, os adolescentes de hoje dão o corpo (literalmente...) ao manifesto da homossexualidade para aborrecerem os paizinhos...

José António, em primeiro lugar, nem todos os pais do mundo e, felizmente, cada vez menos, têm a mesma visão bacoca da liberdade sexual que o José preconiza e, graças a Deus, a maior parte dos membros da nossa sociedade, hetero e homossexuais, já compreendeu que não precisa, nem quer, que cada foda lhes traga mais do que um orgasmo (e só de pensar em filhos, até perdiam a tesão toda). Por outro lado, não lhe parece, José, que há formas menos dolorosas (psicologicamente...e fisicamente, talvez) de ser "contestatário" que não envolvam a vivência de um tipo de sexualidade para a qual a pessoa não tem nenhum tipo de "propensão"? Ou o José, quando quer ser "contestatário", também se imagina logo em elevadores esconsos a galar jovenzinhos (gays) imberbes?

Às vezes, os seus escarros jornalísticos indicam que sim!

sexta-feira, 30 de março de 2012

Post pós-revolucionário parte II - A degradação do direito de manifestação.






Na manifestação da última greve geral, no Chiado, uma cidadã portuguesa, manifestante pacífica, foi brutalmente agredida pelos jagunços do presente governo - a que, por erro certamente, costumávamos chamar de Polícia de Segurança Pública - no mesmo local, segundo disse, onde, antes do 25 de Abril havia sofrido as cruentas cargas policiais típicas do regime fascista. Um dado irónico, se tivermos em conta que, em alguns aspectos - depauperação generalizada do país, utilização excessiva da violência "autorizada", desmantelamento das actividades culturais, desrespeito pelos princípios democráticos -, e tirando as devidas adaptações necessárias à manutenção da fachada democrática, a actuação deste governo se aproxima daquela que era prosseguida pelo ditador Salazar.

O Relatório de Actividades da PSP para o ano presente avançou, depois, a ideia de que as "notícias menos positivas" relativas às intervenções policiais deveriam ser "combatidas". Um tipo de ideia que também nos remete, imediatamente, para os procedimentos de propaganda postos em prática nos «gloriosos» tempos de Salazar, onde a acção da polícia política era, muitas vezes, defendida com o argumentos de que se estava a combater a acção  dos «comunistas» (que eram todos aqueles que não pensavam como os tipos do regime) e dos «terroristas» (que eram todos os pretos que pensavam).

Hoje, o governo (ou, melhor dizendo, aquela brigada de inaptos que lideram o destino do povo português, normalmente ainda mais ignorante do que os políticos que "escolheu") procura, de variadas formas e sobretudo na cabeça daquela "simpática" senhora gordinha que lidera o IV Reich, inculcar a ideia de que Portugal não é a Grécia. De que, aqui, temos, de facto, de apertar o cinto - é a única alternativa -, mas que isso até nem nos incomoda muito, porque, afinal, somos os culpados pela vida "acima das nossas possibilidades" que fomos levando. Os manifestantes não passam de um conjunto, pequeno, obviamente, de hippies fedorentos, sindicalistas profissionais, reformados comunistas e outros vagabundos que deveriam, antes, andar a "limpar as matas nacionais", para evitar os incêndios de Verão. Por isso, se apanharem uma cacetada policial quando andam por aí, desocupados, a conspurcar a via pública com insultos a um governo que, afinal, só anda a remendar os erros dos outros - dos comunistas e restante escumalha, adepta da saúde, educação, assistência social e etc. gratuitas - foi porque mereceram.

Além disso, a polícia é treinada para alguma coisa e há que esconder os verdadeiros criminosos - aqueles que se locupletam  à custa dos tostões do idiótico povão português e os que, através das instituições "democráticas", garantem a segurança dos primeiros.

Por outro lado, e isto foi, no meu entender, ainda mais graves, os capangas a soldo da central sindical (cuja acção, da central, obviamente, não da "jagunceria", costuma ser merecedora da minha aprovação) enfrentaram, fisicamente, os manifestantes não-sindicalizados - desempregados, indignados, e restante vagabundagem -, dividindo ainda mais aqueles poucos que já se conseguiram aperceber de que o passo para o abismo já foi dado há muito, e que os próximos movimentos já só servem para nos enterrar mais no lodo. Uma tristeza (a lembrar as lutas fratricidas da esquerda na guerra civil espanhola), mas que, infelizmente, não é estranha na acção do Partido Comunista, cujas posições apoio na esmagadora maioria das vezes (desenganem-se), mas que sempre detestou as massas manifestantes desenquadradas das suas estruturas.

Assim, promovido pelos membros deste (des)governo através dos "senhores agentes" (que, ironicamente, têm sido dos mais contestatários em relação às medidas tomadas pelo actual regime), procura instalar-se um clima ostracizante em relação àqueles que são, do ponto de vista mental, minimamente, capazes de perceber que o executivo não tem um caminho e que segue, guiado por pessoas - FMI - que nunca conseguiram, estruturalmente, reabilitar nenhum país, um percurso que não tem, de forma alguma, procurado defender a população nacional. Os discordantes, depois, não se entendem e, sem se darem conta, auto-destroem-se, fazendo o jogo do "adversário".

E a revolução nacional, enquanto processo de modificação de mentalidades tendente a encontrar um equilíbrio social mais próximo da igualdade (económica, étnica, sexual...) plena, vai perdendo força, degradando-se, por medo, mas também por estupidez.


terça-feira, 20 de março de 2012

Da homofobia na Libéria à destruição do sonho de Johnson-Sirleaf.




A actual Presidente da Libéria decidiu, numa entrevista recente, deixar clara a sua posição favorável em relação a uma lei criminalizadora da homossexualidade. Fiquei, a todos os níveis, pasmo. Não só porque Ellen Johnson-Sirleaf foi a última vencedora, em conjunto com duas outras mulheres, do Prémio Nobel da Paz, mas também porque pensei que a história daquele país já devia ter ensinado a pessoas como Johnson-Sirleaf (educada em Harvard) que é impossível combater um tipo de preconceito e permitir que outros géneros se consolidem.


Um pouco de história, porque o percurso daquele país, encetado no séc. XIX, é, no mínimo, curioso:

Aquando da Conferência de Berlim, nos finais do séc. XIX, em que algumas potências europeias (e Portugal) definiram a forma como iriam, posteriormente, retalhar o continente africano, a Libéria e a Etiópia foram os únicos "Estados" africanos respeitados. O segundo, porque dispunha de uma forma de governo relativamente centralizada e de um exército vagamente organizado, que lhe permitiu derrotar os italianos entre 1895-1896. O primeiro, porque havia sido criado pelos Estados Unidos, nos anos 20 do séc. XIX, para "escoar" os escravos que iam sendo libertados e os seus descendentes, que poderiam causar toda uma série de problemas no seio da sociedade americana que se construía. Porque, afinal, as liberdades concedidas pelas Constituição americana restringiam-se ao grupo dos homens brancos e possidentes.

Assim, em 1847, a Libéria declara a independência e um Presidente negro, Joseph Jenkins Roberts, assume o comando de uma nação que teria, no final do século, de conter os ímpetos expansionistas da Inglaterra e da França. Resistiu, mas isso não significou a criação de um país negro igualitário, na medida em que os nativos do território (aqueles que nunca se tinham "civilizado" no espaço americano) ficaram afastados da cidadania até 1904 e do poder por muitos mais anos. A desigualdade que marcara o nascimento da Libéria (do latim "Liber" - Livre) continuava a traçar os destinos do Estado.

E continuou nos anos seguintes e, sobretudo, já quase no final do séc. XX, quando uma brutal guerra civil estalou em 1980. Terminada a guerra civil e encetada a transição para a paz, Ellen Johnson-Sirleaf, opositora do regime de Charles Taylor, empenha-se na defesa das mulheres liberianas e, quando assume a presidência, com gestos bem-intencionados na tentativa de melhorar as condições de vida das populações mais desfavorecidas. E isto valeu-lhe a atribuição do Nobel da Paz no ano transacto. Um prémio, em princípio, merecido.

O que Ellen Johnson-Sirleaf parece não compreender e, mais grave, indicia ignorar, observando a história do país que governa, é que a discriminação tem apenas um sentido, o da menorização e degradação do ser humano, independentemente das formas como se manifesta – racismo, homofobia, sexismo, etc.

Desta forma, e com aqueles parcos minutos de entrevista em que rotulou os cidadãos homossexuais do seu país, homens e mulheres que, em muitos casos, a terão apoiado na sua ascensão ao comando do Estado, como menos dignos, Johnson-Sirleaf destruiu todo o trabalho de uma vida (de luta pela igualdade, de combate à discriminação, à pobreza, a todas as formas de racismo e sexismo).

Porque não existe igualdade racial onde gays e lésbicas podem ser encarcerados, porque não se pode combater as diferenças económicas e aceitar o preconceito com base na orientação sexual, porque é impossível igualar homens e mulheres, quando alguns destes são tratados com menos igualdade do que aquela que lhes é devida.

“Nenhum homem será realmente livre, enquanto aos seus ouvidos ressoarem os grilhões de outrem”.

sábado, 10 de março de 2012

É todo um programa.


Às vezes oiço dizer que este governo não tem ideologia. É pragmático. É preciso cumprir o memorando da troika, cumpre-se.
São, naturalmente, pessoas pouco informadas as que caem nesta cantiga. Este governo tem todo um programa, que, claro, nada tem a ver com o que levou a eleições, mas que está bem definido, como o provam as medidas “para além da troika” que tem tomado.

Uma medida, tomada logo após o início de funções deste governo, que nos disse muito da sua ideologia foi a decisão de dar os restos da comida dos restaurantes aos pobres. Na altura ouvimos até muitas personalidades da mesma área ideológica a pedir que coisas como o rendimento mínimo e o subsídio de desemprego passassem a ser pagas com senhas de comida (não me surpreenderia aliás que tal política fosse seguida muito em breve).
Ora este tipo de medidas são muito reveladoras da posição ideológica deste governo. Para os pobres qualquer coisa serve porque só é pobre quem não trabalha o suficiente. Que vão trabalhar nem que seja em part-time em vez de ficarem refastelados à espera de subsídios do estado (que depois gastam em cigarros, cerveja, internet e cartazes para manifestações). Se fossem bons trabalhadores não tinham ficado sem emprego e se procurassem com vontade encontrariam outro. Resumindo: só passa fome quem quer.

Outras medidas muito interessantes, de tão revoltantes, são aquelas tomadas pelo ministro Pedro “Motard” Soares em relação aos lares de idosos. Há uns meses o ministro anunciou que as condições que estes estabelecimentos teriam de ter para estarem em funcionamento seriam drasticamente diminuídas (a tal “menos burocracia” de que a direita tanto fala). E, para completar, o mesmo ministro anunciou ontem que irá aumentar em dez mil o número de lugares nestes lares. Como? Muito simples: enfiando mais uma caminha (ou duas se couberem) nos quartos que existem hoje, muitos dos quais já atafulhados com dois ou três velhos.
Mas antes que comecem a ter pena destes idosos que vão passar a viver em péssimas condições e perderão qualquer ponta de privacidade que ainda lhes restasse, tenham em mente algumas coisas. Por um lado este número de velhos das sociedades modernas é perfeitamente incomportável. Temos de reverter a pirâmide demográfica urgentemente.
Por outro lado, continuarão a existir lares de luxo abertos a todos (os que tenham largos milhares de euros por mês, naturalmente) e com condições fantásticas. E claro que só não vive nestes lares quem não trabalhou o suficiente, quem não poupou todos os meses e quem não investiu parte do seu salário, ficando à espera que o estado gordo, protector o amparasse.

Se por esta altura precisarem de fazer uma pausa na leitura deste texto, não vos levarei a mal pois eu próprio me sinto bastante repugnado pelo que escrevo neste momento.

Mas, continuando, podemos falar dos cortes na saúde e do aumento das taxas moderadores que, como os próprios ministros admitiram, foram muito para além do que era pedido pela troika. Mais uma vez a opção é óbvia. Para além de haver um número significativo de pessoas que gosta de ir ao médico “por tudo e por nada” e às vezes só por diversão, o nosso sistema anterior era uma injustiça. Porque haveriam de pagar aqueles que realmente trabalham, através dos impostos, as doenças dos outros? Que não fumem! Que não tenham sexo com mais que um parceiro (ou de todo)! Que não bebam! Que não se droguem! Que façam exercício físico! De outra maneira qual seria a motivação desta gente para mudar os seus comportamentos? E, naturalmente, só não tem dinheiro para pagar os seus cuidados de saúde quem não trabalha (porque não quer).

Por fim gostaria de falar do “se estão mal emigrem”, frase querida de, pelo menos, um secretário de estado e do próprio primeiro-ministro deste governo. De facto se quem estiver mal (leia-se, desempregado) emigrar resolvem-se vários problemas de uma assentada. Para já se estão desempregados é porque ou são preguiçosos ou incapazes e portanto só nos fazem um favor ao desamparar a loja. E, não menos importante, são menos subsídios que o estado tem que pagar.

E não, o objectivo deste governo não é que as pessoas vivam melhor mas sim que as empresas exportem! Portanto se você não exporta nada, faça o favor de morrer, emigrar ou deixar-se empilhar num lar.

É todo um programa.

quinta-feira, 8 de março de 2012

O sentido da celebração do Dia da Mulher.




Durante muito tempo fui contra a celebração do Dia Internacional da Mulher. Porque achava que servia, apenas, para marcar a diferença, num país em que, juridicamente, homens e mulheres auferiam do mesmo estatuto. Depois, eu fui criado por uma mulher (a minha mãe) que nunca se sujeitou a nenhum cânone sexista social e que sempre deixou bem claro, para mim, para o meu irmão, para o meu pai e para todos os homens (e mulheres) que a rodeavam, que não era por ser mulher que lhe cabia algum papel laboral ou doméstico específico. E, assim, eu vivia num mundo, jurídico e caseiro, em que tudo era igual e em que assinalar aquele dia (em Portugal) serviria, de certa forma, para alicerçar a discriminação.

Depois, saí de casa, saí da escola, saí da Faculdade, e a fazer algum activismo político e, muito rapidamente, tive a oportunidade de me aperceber que o mundo real se afastava largamente da minha vivência pessoal e que, por outro lado, aquilo que eu imaginava que era a vida da minha mãe não correspondia, exactamente, aos desafios que aquela mulher, ainda assim, tinha tido que enfrentar.

Em primeiro lugar, e em relação à minha mãe, apercebi-me de que a sua condição de mulher a havia feito, contra toda a sua competência, formação e qualidades pessoais, permanecer num lugar subalterno em relação a homens menos capazes, menos competentes, menos formados. E que muito tinha tido que lutar contra os preconceitos sociais que lhe ditavam determinados tipos de comportamentos, supostamente femininos, que nada tinham que ver com a sua personalidade e que, desde muito cedo, desafiou e procurou destruir.

Por outro lado, no meu país, as mulheres, ainda hoje, ganham menos 25% do que os seus congéneres masculinos em funções similares, apesar de, e todas as estatísticas, hoje, confirmam esta realidade, auferirem de um grau de formação superior. Para além disto, ainda têm de arcar com a parte de leão do trabalho doméstico e com uma série de crenças sociais que as impedem, designadamente, de foderem quanto e com quem querem.

Ainda num prisma diferente, e sobretudo graças aos ensinamentos preciosos recolhidos nas diversas experiências na Amnistia Internacional, pude tomar consciência de que não é possível contentar-me com a, relativa, igualdade conseguida pelas mulheres em Portugal, se às mulheres somalis é negado o prazer sexual e às mulheres afegãs o direito de se vestirem como entendem.

Finalmente, há todo um conjunto de pessoas - travestis, transexuais,  andrógin@s - que necessitam do esbatimento das diferenças entre os sexos biológicos masculino e feminino e para quem este dia faz todo o sentido, porque lhes permite avançar na luta contra as supostas diferenças promovidas pela biologia. E, afinal, a discriminação tem apenas um sentido, ainda que se manifeste de diversas formas, e, portanto, batalhar contra a discriminação com base na identidade de género ou sexo biológico é, igualmente, lutar contra o preconceito racista, homofóbico, cultural, étnico, etc.

Assim, hoje, faz todo o sentido, para mim e, espero, também para vocês, comemorar o Dia Internacional da Mulher (ainda por cima, no dia em que se iniciaram os protestos das operárias fabris russas que deram origem à Revolução de Fevereiro, Março no calendário gregoriano). Como um dia em que, mais do que relatar as falhas da humanidade em relação ao sexo feminino, possamos tomar uma qualquer atitude, ainda que diminuta, no sentido de minorar o sofrimento das nossas mães, amigas, colegas de trabalho, companheiras, professoras, operárias, putas, etc.

Feliz Dia da Mulher para tod@s nós!

PS: Este post é dedicado a todas as mulheres que já foram chamadas de putas, não por exercerem a profissão, mas porque decidem foder com quem querem. São as minhas preferidas!!

sábado, 3 de março de 2012

Post pós-revolucionário. Parte I




Hoje, enquanto corria Lisboa numa intensa procura de fontes para projectos laborais, nos intervalos em que não me concentrava a ouvir a conversa da senhora do lado no 727 ou no 15, pus-me a pensar. Não na vida genericamente, disso já desisti, mas na situação política do meu país. (É verdade que já devia ter abandonado este tipo de elucubrações, mas a realidade é que os meus recentes 25 anos ainda não mataram o idealista que habita, cada vez mais envergonhado, o meu íntimo).


As considerações de que vos falo concentraram-se no facto de, contra todas as evidências e ao arrepio de tudo aquilo que poderíamos prever, a esquerda (marxista e derivada) portuguesa estar a ter dificuldades em se afirmar neste momento de crise e, nalguns casos, ter, efectivamente, perdido representatividade e estar em risco de evaporação permanente. E falo do Bloco de Esquerda.

Com toda a modéstia que consigo assumir, vou avançar uma ideia (ou uma semi ou pseudo-ideia, como quiserem) de porque é que as coisas podem estar a tomar esta direcção e porque é que um momento político aparentemente oportuno pode estar a ser completamente desaproveitado e, pior, a funcionar como diluente de influência – a esquerda portuguesa (e creio que, embora de forma relativamente menos expressiva, a sua congénere europeia) continuam muito agarradas a uma retórica que se encontra, há muito, ultrapassada.

A retórica e não a ideologia, porque a construção de uma sociedade mais justa, mais livre, mais igualitária, mais solidária, etc., são valores e objectivos que continuam a fazer sentido, independentemente do caminho que se decide trilhar para os atingir. O vocabulário e as formas de luta, contudo, é imperativo mudar.

Imperialismo capitalista, revolução, rebelião popular, revolta, luta, trabalho, exploração, etc., são tudo conceitos que continuam a fazer todo o sentido e que convém continuar a trabalhar e que são imensamente interessantes para debater no bar do Chapitô ou gritar no Agito ou no Arraial do 25 de Abril quando o álcool inebria a mente. Deixaram, há, pelo menos, mais de 30 anos, de fazer sentido para as massas populares portuguesas (e europeias) que, como gente de esquerda, desejamos conquistar para encetar um caminho que proporcione um aumento de bem-estar (económico, social, cultural equitativo e para todos.

Acho, e hoje, a esta hora, já e só este pensamento extremamente primário que consigo avançar, que cumpre revolucionar a consciência do povo português apelando, todavia, para outro tipo de revolta e luta baseada na educação e na instrução populares. Procurar, no fundo, trazer a revolução da rua para as mesas das escolas, para as bancadas dos debates, para os encontros informais, para as conversas de amigos, para as saídas à noite. Não prosseguindo uma atitude proselitista, mas procurando consciencializar, de uma forma franca, relativamente simples, eventualmente, para as diversas opções que a esquerda apresenta, abandonando, obviamente, fanatismos, radicalismos e, porventura, até algum tipo de ideais mais ousados que possamos querer ver concretizados, mas de que possamos, temporariamente ou parcialmente, abdicar no sentido de procurar concretizar o núcleo fundamental daquilo que defendemos.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Dê sangue, ámen!





O governo português, liderado pelo social-democrata Miguel Relvas - não se confundam, social-democrata porque pertence ao PSD e não porque, nalgum momento, tenha prosseguido a ideologia -, encontra-se, há muito, demissionário. Isto porque a forma como têm tentado resolver os problemas dos portugueses que os elegeram é através da sugestão da emigração.

Mais recentemente, todavia, abandonaram mesmo esta patética política e passaram, simplesmente, a confiar na intervenção divina. E, então, foi ver Assunção Cristas (ministra da Agricultura, do Ambiente e de mais uma série de pastas cuja totalidade não consigo agora recordar) a dizer que tem fé que os problemas de ordem natural que afectam a agricultura portuguesa se resolvam e Duarte Marques (consultor - pois....-, líder da JSD e, se tudo correr bem, futuro primeiro-ministro de Portugal) a apelar, novamente, à fé (católica, supõe-se) para a resolução do problema do desemprego.


Desta vez, foram os responsáveis pelo Instituto Português do Sangue que, perante a contracção nas dádivas, motivada, certamente, pela decisão dos irresponsáveis pelo governo deste país de acabar com a isenção nas taxas moderadoras hospitalares para os dadores, a apelar às boas graças da divina providência, desta vez através dos seus representantes terrenos. Assim, em situação de quebra grave nos stocks, o IPS está preparado para, em conjunto com o clero português, apelar à doação de sangue nas missas.

Que bela ideia, não vos parece? É que tendo em conta que a idade máxima para efectuar a primeira doação de sangue é a de 60 anos e pensando na idade média das pessoas que frequentam, habitualmente, as igrejas deste país, devem conseguir inúmeros novos candidatos!


PS: e não nos devemos esquecer que, ainda não há um ano, andavam os irresponsáveis do Ministério da Saúde e do IPS a papaguear alarvidades sobre as restrições na aceitação de sangue de dadores homossexuais.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

InterRail na linha de Sintra




Ontem, no palácio Sinel de Cordes, no Campo de Santa Clara (onde se realiza a feira da ladra), teve lugar a Pecha Kucha Lisbon,  "um foram informal para a apresentação de trabalho criativo proveniente de diferentes disciplinas como arquitectura, design, artes gráficas, artes visuais e a moda". Como saberão, nenhuma destes ofícios fazia parte dos meus interesses primordiais, mas, agora, por motivos pessoais, passaram, pelo menos, a suscitar-me alguma curiosidade. E então, ainda recuperando do meu jantar de anos, lá fui à Pecha Kucha.

A temática deste ano era "Celebrar a Cidade", o que me fez logo torcer o nariz. É que, enfim, não é propriamente uma ideia muito original a realização de um evento que se destina a apresentar, de forma inovadora, os aspectos que mais se valoriza numa determinada localidade. A verdade, contudo, é que aquelas gentes, com maior ou menos criatividade, lá conseguiram surpreender-me de alguma forma.

A ideia que considerei mais interessante foi avançada pelas designers  Ambas as Duas que propunham a realização de um InterRail na linha de Sintra. Pode parecer absolutamente inusitado, porque quando pensamos naquela via de comunicação só nos vem à cabeça o destino, Sintra, ou, então, sítios de péssima frequência, roubos, graffiti, vagabundagem, etc. Mas há mais. E Ambas as Duas foram capazes de nos mostrar isso, sem escamotear, obviamente, o aspecto real das diversas paragens da linha do comboio.

Um dos espaços realmente interessantes, e que, penso, valerá a pena uma visita e o risco de enfrentar a linha de Sintra é o Parque Central da Amadora, onde, por um euro, podem andar de cisne num lago artificial. Em tempos de crise, não me parece nada mal como programa de Domingo à tarde. Eu, fiquei convencido!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012