quinta-feira, 14 de junho de 2012
Teorizações da banalidade.
Acontece-me - noto-o, pelo menos desde o ano transacto - perder, quase completamente, no período que sucede ao 25 de Abril, o interesse pela política nacional. Assim, mais ou menos entre Maio e o final de Agosto, fico sem vontade de comentar as novas falcatruas do primeiro-ministro Relvas, o desastre da "solução" alemã para a "crise" europeia, ou qualquer acto das caricaturas que integram o governo português.
Não sei bem porque se dá o fenómeno, mas tenho a certeza que não está relacionado com a falta de rumo (ou interesse mesmo) da política nacional. Se assim fosse, nunca teria despertado para esta realidade, já que, desde pelo menos os governos Cavaco Silva, que se perdeu toda a esperança de, pelo menos, ver na política portuguesa motivo de alguma diversão. Simplesmente, acontece-me perder os ímpetos "revolucionários" de modificar alguma coisa, de ir a todas as manifestações possíveis, de encontrar vias de contestar a situação actual, de pensar, meditar e escrever sobre aquilo que desejo, de um ponto de vista colectivo, para o meu país.
E não é que me torne mais egocêntrico, que passe a preocupar-me muito mais com as minhas questões pessoais, a perder mais tempo com o planeamento do meu futuro. Esse tipo de elucubrações continuam a ocupar, mais ou menos, o mesmo espaço no meu pensamento. As políticas é que desaparecem quase completamente, ao ponto de, algumas vezes, andar, mesmo, relativamente, desinformado em relação àquilo que vai acontecendo.Acho que me apetece ser mais mundano, mais banal, até. Menos pseudo-revolucionário, pseudo-marxista e mais pseudo-boémio, ou básico, simplesmente.
Esta situação assalta-me com doses iguais de algum desgosto misturado com preocupação e tranquilidade. Preocupa-me não estar tão activo no campo político-social, porque acredito, e atormento toda a gente com isto, que cada um de nós pode, se quiser, transformar a merda desta sociedade consumista/capitalista/competitiva numa outra em que a meta será o bem-estar, a felicidade, a solidariedade, em vez do progresso tecnológico e crescimento económico. Em que a maior parte dos seres humanos será mais pessoa e menos máquina.
Tranquiliza-me, por outro lado, porque me permite pensar um pouco menos, ir na onda, despreocupar-me, ser mais português - acreditar que, mesmo que não faça grande coisa, algo há-de se arranjar, alguém há-de providenciar para que as causas em que acredito não se percam completamente. E isto é, estranhamente, tendo em conta a minha personalidade laboriosa e perfeccionista, um descanso enorme. Umas férias, no fundo, da luta, ou daquilo que defendo com mais convicção.
Enfim, esperemos que seja um efeito do calor que, ainda, me possibilite, pelo menos, acompanhar com alguma atenção as eleições gregas e elucubrar, alguma coisa, ainda que manhosa, sobre os efeitos perniciosos dos dislates financeiros dos mercados e restantes instituições cleptocráticas mundiais sobre o sistema democrático. E, sobretudo, quando chegar o Outono, ser invadido por uma vontade revolucionária, pelo menos, tão forte como aquela que me permitiu, no Arraial do 25 de Abril, servir cervejas ao ritmo de 200/hora.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Reflexões sexuais - Paris.
Eu era, até recentemente, relativamente conservador no que concernia às minhas práticas amorosas/sexuais. Do ponto de vista teórico, como já terão reparado aqueles que não têm grande coisa para fazer e decidiram ler qualquer coisita do que escrevi, aceito quase tudo, mas tinha dificuldade em me imaginar em situações que saíssem da norma. E, então, os relacionamentos (sexuais e emocionais) eram a dois, com uma série de limites auto-impostos, em que quase todas as liberdades caíam no âmbito da traição e as relações "abertas", poliamorosas, ou outras que fugissem à história monogâmica dos príncipes encantados eram estranhas, menores, menos completas. E isto mesmo depois de ter lido a Insustentável Leveza do Ser, que já me fez, pelo menos, repensar, quando não mesmo aniquilar, uma série de (pre)conceitos enraizados acerca da forma como as relações sentimentais humanas (genericamente) deveriam funcionar. E sobre o que era o Amor, como deveria ser posto em prática, a conjugação com o sexo, o funcionamento da parte física em correlação com aquela a que (no "ocidente") chamamos de psíquica/emocional.
A mente arejou, mas a manifestação material do pensamento continuava a seguir a rotina judaico-cristã do 1x1, com pouca variedade e, de preferência, apenas as vezes suficientes para os nossos amigos verem que não somos estranhos por não fodermos, mas também não nos acusarem de estarmos a enveredar pelo carreira profissional das senhoras do Intendente (ainda por cima de forma gratuita!).
Depois estive em Paris, 4 dias, para um torneio no qual ficámos, já agora, em último lugar. E estive-me a cagar - por estar em Paris, por estar com (algumas) pessoas que já não têm idade (nem pachorra) para andar com a cartilha das restrições sociais atrás, porque me apeteceu. E foi muito bom não ter de encaixar comportamentos em normas, deixar materializar a imaginação, evitar elucubrações desnecessárias sobre momentos positivos, mas dificilmente definíveis. E, afinal, o número perfeito podem não ser 2, a fidelidade não é sinónimo de monogamia, o sexo fora do um contra um não carrega, automaticamente, a estampa da traição ou da promiscuidade, e o amor, o desejo sexual, a atracção emocional, os relacionamentos assumem uma diversidade tal de matizes que será sempre impossível tentar encontrar uma norma final de definição da completude que se afaste do hedonismo particular de cada um.
Não quer isto dizer que, de volta ao Portugal católico (do apego ao escondido e ao proibido), venha completamente mudado e preparado para largar uma estrutura (normativa emocional) construída ao longo dos meus 25 anos de vida. Mas venho, pelo menos, confuso, inseguro acerca da linha que separa o correcto do inadmissível, num estado de incerteza acerca das normas que convém manter e daqueles que deixou de fazer sentido prosseguir, com muito menos ideias relativamente àquilo que quero, do sexo e do amor, para o futuro. E, não obstante, com uma certeza muito clara de que a felicidade amorosa/sexual se constrói muito mais facilmente no meio da confusão de ideais, de premissas, de comportamentos, do que no marasmo da rotina e na coerção das práticas socialmente tipificadas ou aceites.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Feios, porcos e maus - uma crónica sobre as gorduras do Estado capitalista.
Retornando às temáticas mais políticas (e mais públicas), até porque a minha vida pessoal está, por um lado, muito longe de ter o interesse que têm os acontecimentos social e economicamente relevantes que vão tendo lugar neste rectângulo a que a maioria de nós continua a insistir chamar de país e, por outro, porque, por ora, decidi que a minha vida emocional tem que se reduzir à insignificância que vai assumir, pelo menos, até Setembro.
Desta forma, pus-me, outro dia, enquanto, ao longe, ouvia vagamente o professor Marcelo falar das promoções do Pingo Doce, a pensar na oposição que alguns insistem em fazer entre capitalismo regulado (o que temos nos países da UE) e capitalismo selvagem (aquele em que imperaria, sem rei nem roque, o poderio do capital e da força). Imediatamente me veio à ideia a frase com que um colunista espanhol rematava uma crónica em que reflectia, exactamente, sobre as instâncias reguladoras daquilo a que nos regimes democráticos ocidentais podemos chamar os mecanismos produtores de riqueza.
A conclusão do cronista era a de que o capitalismo "à europeia" (= capitalismo regulado) se traduzia na seguinte expressão: "para os ricos há o Estado, os pobres têm de se haver com o mercado". E, de facto, é exactamente a isto que vimos assistindo na nossa, agora já não tão idílica e paradisíaca, União Europeia. Todos os dias, ouvimos o nosso primeiro-ministro (Miguel Relvas) e o seu ajudante-de-campo (um tipo de fraca figura que dá pelo nome de Passos Coelho, penso que sem hífen a ligar os dois apelidos) bombardearem as nossas pobres cabeças com a ideia de que já não há "empregos para a vida", que o Estado é "demasiado gordo", que os idosos só têm direito à hemodiálise se tiverem dinheiro para a pagar (esta última acho que, se calhar, foi proferida por aquela carantonha que me faz lembrar a Faixa de Gaza 5 minutos depois do último bombardeamento da democracia israelita).
Enfim, que temos de trabalhar mais, que não podemos contar tanto com o amparo governamental, que temos de nos safar sozinhos e que, se formos trabalhadores e servis, vamos conseguir alcançar uma posição social e económica confortável. Afinal, os pais do dr. Salazar e do Cavaco (que desconfio que eram as mesmas pessoas) eram trabalhadores rurais, ou pequenos comerciante - ou qualquer outra coisa de fraco rendimento, o que interessa é a metáfora.
E até aqui, tudo bem, não é? Afinal se a Maria Cavaco Silva chegou à Presidência da República, eu também hei-de conseguir ter um salário fixo de, pelo menos, 1.500 euros.
A pequenita questão que, todavia, me encanita, ao ponto de não conseguir parar de coçar o colóide que tenho no canto do peito, é que, quando se trata de grandes empresas ou empresários, os mesmos que nos andam, tal como esta espécie de governo, a moer o juízo com a ideia de que o Estado é demasiado "interventivo", as autoridades nunca lhes respondem com um: "temos pena, mas a verdade é que viveram acima das vossas possibilidades". Simplesmente, porque estes senhores/instituições são os supostos criadores da riqueza que nos permite (a todos, dizem eles) viver cada vez melhor.
E é assim que, quando os bancos (que a única coisa que têm de fazer para dar lucro é ir buscar dinheiro a 1% a Bruxelas e emprestá-lo à nação a 8% e a nós a 10% ou 12%) falem, lá vem a mão sapuda do Estado acudir - porque vocês não imaginam a desgraça que seria para a Economia, e, portanto, para o vosso bem-estar se um banco se desmoronasse!) e quando uma "grande" empresa decide abrir uma "grande" fábrica que vai empregar um "grande" número de pessoas (a maior parte a ganhar o salário mínimo, mas também ninguém lhes mandou não estudar) o Estado avança logo com uma data de subsídios e linhas de crédito, entre outros mecanismos económicos que reduzem, na prática, o risco dos grandes investimentos a zero.
Foi a pensar nisto, certamente, que a minha mãe exclamava, no dia da dita, que "a grande partida que podíamos pregar ao grande capital era acabar, definitivamente, com o Estado". Porque, de facto, atrevo-me a aventar, as gorduras do Estado não estão no excesso de assistencialismo à base da pirâmide, mas no controlo da "mão invisível" do mercado, não vá ela começar à bofetada àqueles que se encontram no topo.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Do luto amoroso (ou a minha tentativa de um post intimista)
Ando, por aqui, há mais de uma semana, encalhado com dois textos que queria publicar – um sobre a participação da JS na Marcha do 25 de Abril, outro sobre o descrédito popular em que caiu a democracia portuguesa – e vejo-me, como me acontece frequentemente, aliás, na impossibilidade de alinhavar mais de duas frases coerentes sobre os referidos assuntos. Desta vez, contudo, a incapacidade literária não se deve à inabilidade habitual, mas ao facto de estar, incessantemente, a elucubrar, de forma quase científica, por vezes, sobre um assunto mais pessoal – o luto (amoroso).
Acabei – há cerca de 3-4 semanas, prefiro não contar exactamente o tempo – uma relação de 5 meses. Não é muito tempo, mas a “coisa”, sobretudo o seu final, foi para mim, particularmente intensa. Trágica, quase poderia dizer-se. No Domingo – foi quando terminou – estava, verdadeiramente, destruído. E aconselharam-me o luto – que eu nunca tinha feito em relação a compromissos anteriores – mordedura de cão cura-se com pêlo de outro, era o meu lema na “resolução” destas questões. E, para além disso, “luto” cheirava-me a livro de auto-ajuda e a psicoterapia de 3.ª categoria.
Neste caso, todavia, o luto fazia algum sentido. Sobretudo, porque, desligado o telemóvel e evitadas as espreitadelas no facebook, a segunda-feira foi dos dias mais tranquilos dos últimos tempos. E senti, como não sentia há muito tempo, liberdade. Tinha de perceber como é que me tinha recomposto tão depressa e, sobretudo, porque é que estava melhor separado do que junto e porque é que não tinha conseguido ver isso.
E uma parte do luto, disseram-me os entendidos (e com isto quero dizer as pessoas capazes de manter relações maiores do que um semestre), consistia, exactamente, nisto. Em perceber a relação, os sentimentos envolvidos – voltei, pela segunda vez na vida, a dizer “Eu amo-te”, sem o sentir -, o meu esforço de adaptação, a minha insatisfação permanente no compromisso (naquele compromisso) e, ao mesmo tempo, a minha ânsia de que não terminasse.
No restante, continuaram os entendidos, o luto requer um certo rompimento com a vida emocional/sexual. Tem de se parar, até que se ganhe, novamente, alguma estrutura. Fazer outras coisas, estar com amigos, evitar certos “ambientes”. E esta parte tenho-a cumprido, somente, pela metade. Tenho, felizmente, feito imensas coisas que me davam um enorme prazer e que haviam sido, relativamente, postas de parte – ler era uma delas. Não consegui, todavia, desligar o botão emocional e, de certa forma, procurar, desde já, preencher essa componente. E não creio, desta vez, que seja por medo da solidão, ou produto de uma voragem abrupta de “aproveitar a vida”. As coisas vão acontecendo e eu tenho sentido, de forma absolutamente consciente, que não as devo impedir, ainda que sinta que não ultrapassei o período de “nojo” amoroso.
E, pergunto-me, quanto tempo temos de “esperar”? É certo que o incumprimento da parte celibatária do luto prejudique o processo reflexivo do período? Quando é que podemos deixar, novamente, que alguém se intrometa, ainda que só fisicamente, na nossa fragilidade? Enfim, quando é que sei que posso largar os douradinhos com salada russa (o meu prato preferido), os boxers “Che Guevara”, as noites a ver Mentes Criminosas enroladinho na manta roubada na SATA e “enrolar-me” na próxima pessoa.?
E estas são as perguntas a que mesmos os “entendidos” não me conseguem responder.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
"O 25 de Abril e a História" - António José Saraiva
Já em jeito de celebração do 25 de Abril de 1974, e tal como vos tinha prometido, deixo-vos uma crónica do António José Saraiva escrita para o Diário de Notícias em 1979. Trata-se de uma visão com a qual, por várias razões, não consigo concordar, mas, pelo estilo, e por algumas críticas verrinosas e bem aplicadas, embora, ligeiramente, mal direccionadas, penso que vale a pena dar uma vista de olhos.
Não posso aderir ás críticas de AJS em primeiro lugar porque, apesar de tudo, os acontecimentos desencadeados pela Revolução dos Cravos tiveram, em geral, consequências positivas: criação do Serviço Nacional de Saúde, outros sistemas de assistência social, democratização do ensino, liberdade de imprensa, opinião, reunião, etc., entre outras coisas que o governo actual se tem entretido, perante o embrutecimento popular, a destruir.
Por outro lado, e quanto à descolonização, acho que, de facto, a pressão partidária e social era demasiado grande e os próprios soldados não queriam, de forma alguma, continuar a ser compelidos a combater. Assim, não vejo de que outra forma poderia ter sido levado a cabo o processo, até porque em 1974, obviamente, o livro do Spínola nunca poderia servir de base a acordo nenhum. Em 1945, ou mesmo em 1961, talvez, naquela altura não, seguramente.
AJS toca, contudo, em vários pontos correctos quando se refere ás falhas na liquidação do regime. De facto, a corrupção não foi, nunca, uma situação combatida pelo regime pós-25 de Abril e nunca se procedeu a uma, efectiva, "limpeza" e julgamento dos responsáveis pelos crimes mais abomináveis cometidos durante a ditadura. basta, aliás, ver que os delfins do antigo regime, continuaram, no novo, a ser caras bem conhecidas da nossa vida política - Adriano Moreira, José Miguel Júdice, Freitas do Amaral, Jaime Nogueira Pinto, etc.
Enfim, com estes sintéticos alertas, deixo-vos, então, o texto de AJS, que, nalguns pontos, mais soa a previsão dos dias que correm...
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"Se alguém quisesse acusar os portugueses de cobardes, destituídos de dignidade ou de qualquer forma de brio, de inconscientes e de rufias, encontraria um bom argumento nos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril.
Na perspectiva de então havia dois problemas principais a resolver com urgência. Eram eles a descolonização e a liquidação do antigo regime. Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com a vantagem para ambas as partes: o Exército Português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que tivera a aceitação nacional e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa.
Todavia, o acordo não se realizou e retirada não houve mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer Quibir.
Outra causa foi a desintegração da hierarquia militar a que a insurreição dos capitães deu início e que o MFA explorou ao máximo, quer por cálculo partidário, quer por demagogia, para recrutar adeptos no interior das Forças Armadas. Era natural que os capitães quisessem voltar depressa para casa. Os agentes do MFA exploraram e deram cobertura ideológica a esse instinto das tripas, justificaram honrosamente a cobardia que se lhe seguiu.
Um bando de lebres espantadas recebeu o nome respeitável de «revolucionários».
E nisso foram ajudados por homens políticos altamente responsáveis, que lançaram palavras de ordem de capitulação e desmobilização num momento em que era indispensável manter a coesão e o moral do Exército para que a retirada em ordem ou o acordo fossem possíveis. A operação militar mais difícil é a retirada; exige em grau elevadíssimo o moral da tropa. Neste caso a tropa foi atraiçoada pelo seu próprio comando e por um certo número de políticos inconscientes ou fanáticos e em qualquer caso destituídos de sentimento nacional. Não é ao soldadinho que se deve imputar esta fuga vergonhosa, mas aos que desorganizaram conscientemente a cadeia de comando, aos que lançaram palavras de ordem que nas circunstâncias do momento eram puramente criminosas. Isto quanto à descolonização, que na realidade não houve.
O outro problema era o da liquidação do regime deposto. Os políticos aceitaram e aplaudiram a insurreição dos capitães, que vinha derrubar um governo que, segundo eles, era um pântano de corrupção e que se mantinha graças ao terror policial: impunha-se, portanto, fazer o seu julgamento, determinar as responsabilidades, discriminar entre o são e o podre, para que a nação pudesse começar uma vida nova. Julgamento dentro das normas justas, segundo um critério rigoroso e valores definidos. Quanto aos escândalos da corrupção, de que tanto se falava, o julgamento simplesmente não foi feito.
O povo português ficou sem saber se as acusações que se faziam nos comícios e nos jornais correspondiam a factos ou eram simplesmente atoardas. O princípio da corrupção não foi responsavelmente denunciado, nem na consciência pública se instituiu o seu repúdio. Não admira por isso que alguns homens políticos se sentissem encorajados a seguir pelo mesmo caminho, como se a corrupção impune tivesse tido a consagração oficial.
Em qualquer caso já hoje não é possível fazer a condenação dos escândalos do antigo regime, porque outras talvez piores os vieram desculpar.
Quanto ao terror policial, estabeleceu-se uma confusão total. Durante longos meses esperou-se uma lei que permitisse levar a tribunal a PIDE-DGS. Ela chegou, enfim, quando uma parte dos eventuais acusados tinha desaparecido e estabelecia um número surpreendentemente longo de atenuantes, que se aplicavam praticamente a todos os casos. A maior parte dos julgados saiu em liberdade. O público não chegou a saber, claramente, as responsabilidades que cabiam a cada um. Nem os acusadores ficaram livres da suspeita de conluio com os acusados, antes e depois do 25 de Abril.
Havia, também, um malefício imputado ao antigo regime, que era o dos crimes de guerra, cometidos nas operações militares do Ultramar.
Sobre isto lançou-se um véu de esquecimento. As Forças Armadas Portuguesas foram alvo de suspeitas que ninguém quis esclarecer e que, por isso, se transformaram em pensamentos recalcados.
Em resumo, não se fez a liquidação do antigo regime, como não se fez a descolonização. Uns homens substituíram outros, quando os homens não substituíram os mesmos; a um regime monopartidário substituiu-se um regímen pluripartidário. Mas não se estabeleceu uma fronteira entre o passado e o presente. Os nossos homens públicos contentaram-se com uma figura de retórica: «a longa noite fascista». Com estes começos e fundamentos, falta ao regime que nasceu do 25 de Abril um mínimo de credibilidade moral.
A cobardia, a traição, a irresponsabilidade, a confusão, foram as taras que presidiram ao seu parto e, com esses fundamentos, nada é possível edificar.
O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres da anterior; mais a vergonha da deserção. E com este começo tudo foi possível depois, como num exército em debandada: vieram as passagens administrativas, sob a capa de democratização do ensino; vieram «saneamentos» oportunistas e iníquos, a substituir o julgamento das responsabilidades; vieram os bandos militares, resultado da traição do comando, no campo das operações; vieram os contrabandistas e os falsificadores de moeda em lugares de confiança política ou administrativa; veio o compadrio quase declarado, nos partidos e no Governo; veio o controlo da Imprensa e da Radiotelevisão pelo Governo e pelos partidos, depois de se ter declarado a abolição da censura; veio a impossibilidade de se distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de esclarecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira; veio o considerar-se o endividamento como um meio honesto de viver.
Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma Primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco. Ao contrário das esperanças de alguns, não se começou vida nova, mas rasgou-se um véu que encobria uma realidade insuportável. Para começar, escreveu-se na nossa História uma página ignominiosa de cobardia e irresponsabilidade, página que, se não for resgatada, anula, por si só todo o heroísmo e altura moral que possa ter havido noutros momentos da nossa História e que nos classifica como um bando de rufias indignos do nome de Nação.
Está escrita e não pode ser arrancada do livro. É preciso lê-la com lágrimas de raiva e tirar dela as conclusões, por mais que nos custe. Começa por aí o nosso resgate. Portugal está hipotecado por esse débito moral, enquanto não demonstrar que não é aquilo que o 25 de Abril revelou.
As nossas dificuldades presentes, que vão agravar-se no futuro próximo, merecemo-las, moralmente. Mas elas são uma prova e uma oportunidade. Se formos capazes do sacrifício necessário para as superar, então poderemos considerar-nos desipotecados e dignos do nome de povo livre e de Nação independente."
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Ao António José Saraiva, que não tem culpa.
Por causa da publicação abjecta com que JAS nos brindou recentemente no pasquim de que é director e, sobretudo, por causa do rasgado elogio que teceu ao "tio José Hermano" - colaborador próximo do regime fascista -, têm-se ouvido dizer algumas coisas relativamente injustas, nomeadamente, que é natural que JAS seja assim (facho) porque provém de uma família em que todos seguiam a mesma cartilha salazarenta.
Ora, se é certo que o "tio José Hermano" é reaccionário até à medula, a verdade é que o pai do JAS, o António José Saraiva, se opôs, sempre, ao regime fascista, tendo, por isso, sido afastado das actividades docentes na Faculdade de Letras da UL.
Militou no Partido Comunista, apoiou a candidatura de Norton de Matos e, nos anos 60, exilou-se em França. Depois de duas viagens à União Soviética, abandona o comunismo e, regressado a Portugal já depois da Revolução dos Cravos, critica duramente o (novo) regime instituído e assume uma postura mais "conservadora". A epítome destas críticas é a famosa crónica de 1979 "O 25 de Abril e a História" publicada no Diário de Notícias - com a qual, pessoalmente, não posso concordar na totalidade, mas que hei-de publicar aqui.
António José Saraiva era, assim, um homem com uma formação académica exemplar, um pensador livre, um verdadeiro contestatário, um homem inteligente, no limiar da loucura muitas vezes. Era polémico sem precisar de inventar trapalhadas ou fazer figura de parvo. Era repeitado.
O filho, infelizmente, parece não ter herdado nenhuma destas qualidades. Não se respeita, cientifica e moralmente, aprecia a polémica de baixo nível, disserta sobre aquilo que não conhece, não se respeita e, por isso, não é respeitado e, de cronista, vem-se metamorfoseando em piada nacional - mesmo na direita, atraiçoando, em parte, a linhagem de onde provém.
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AJS pelo próprio:
"Eu sou existencialmente inconformista.
Eu sou, de origem, um camponês.
Eu fui espiritualmente cristão e teoricamente marxista.
Eu estou contra a sociedade, independentemente das teorias.
Eu acredito no espírito, mas não sou capaz de o definir.
Eu estou pronto a emigrar de novo, se necessário. Eu sou António José Saraiva."
terça-feira, 10 de abril de 2012
José António Saraiva, tanta preocupação é um bocado gay...
No seu último artigo de “opinião” no folhetim a que uns poucos, cada vez menos,
felizmente, continuam a querer chamar de jornal - Sol, José António Saraiva (o
director da publicação
panfletária) decidiu debruçar-se sobre um tema em relação ao qual,
ultimamente, se tem revelado um “connaisseur” – a
homossexualidade.Não faço ideia de onde lhe vem tamanha ciência, mas, assumo, começo
a suspeitar que, nalgum momento, tenha tido acesso a informações mais
“profundas” sobre a matéria, se é que me faço entender...
Passemos, todavia, adiante, porque o que aqui nos ocupa são
as extraordinárias capacidades de JAS para adivinhar a orientação sexual alheia
através da “inclinação da cabeça” e de prever e explicar as tendências
demográficas daquilo a que chama a “comunidade gay” e não as preferências da
criatura. (Ainda que, a obsessão com a matéria, fizesse com que qualquer motard algarvio exclamasse que o senhor
“tem um piquinho a azedo”).
A crónica a que me venho referindo abre com o seguinte
parágrafo, no estilo quase literário a que, quando o conseguimos levar a sério,
o que, graças a Deus, raramente acontece, JAS nos vem habituando:
«À minha frente, no elevador, está um rapaz dos seus 16 ou
17 anos. Pelo modo como coloca os pés no chão, cruza as mãos uma sobre a outra
e inclina ligeiramente a cabeça, percebo que é gay”.
Ontem, a primeira vez, provavelmente, que li alguma coisa do
«Sol», fiquei logo entusiasmado com o estilo quase neo-realista do trecho e, rapidamente,
me consegui imaginar no citado ascensor, bem ao lado do jornalista e do
adolescente visado. E quase podia ver JAS, no seu sonho (molhado, como dizia no
fb o D.), com a sagacidade habitual com que desmonta as mais complexas intrigas
políticas, a desvendar as preferências e, quem sabe, mesmo as posições sexuais
predilectas do jovem. Tudo isto, superando qualquer velha cigana de Belém,
somente através da leitura da posição dos pés, mãos e cabeça do sujeito.
Esta visão serve de mote para que o articulista avance, como
é seu hábito, duas “brilhantes” e “iluminadas” conclusões – que o Chiado é um
“lugar de preferência da comunidade gay” e que é um “facto notório” que esta
comunidade “tem vindo a crescer”.
O alargamento do número de homossexuais, explica-o JAS pela
influência de amigos ou figuras públicas, por pressão do meio e pela utilização
da homossexualidade como forma de expressão de rebeldia e irreverência.
Quando fala da pressão do meio, esclarece JAS, refere-se,
nomeadamente, ao mundo da moda, onde o fenómeno se dá de forma “clara” – deve
estar, certamente, a pensar no duo Carlos Castro/Renato Seabra. Assim, os
modelos, estilistas e restante entourage são, segundo JAS, gays, simplesmente porque o contexto laboral é, predominantemente, homossexual. Que brilhante e científica conclusão! Não diz, o "jornalista", o mesmo das manequins, com certeza porque não acredita que mulheres tão bem aperaltadas e "femininas" possam ser lésbicas...novamente porque, mesmo no preconceito, JAS é básico.
José António, em primeiro lugar, nem todos os pais do mundo e, felizmente, cada vez menos, têm a mesma visão bacoca da liberdade sexual que o José preconiza e, graças a Deus, a maior parte dos membros da nossa sociedade, hetero e homossexuais, já compreendeu que não precisa, nem quer, que cada foda lhes traga mais do que um orgasmo (e só de pensar em filhos, até perdiam a tesão toda). Por outro lado, não lhe parece, José, que há formas menos dolorosas (psicologicamente...e fisicamente, talvez) de ser "contestatário" que não envolvam a vivência de um tipo de sexualidade para a qual a pessoa não tem nenhum tipo de "propensão"? Ou o José, quando quer ser "contestatário", também se imagina logo em elevadores esconsos a galar jovenzinhos (gays) imberbes?
Às vezes, os seus escarros jornalísticos indicam que sim!
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