quinta-feira, 3 de maio de 2012
Do luto amoroso (ou a minha tentativa de um post intimista)
Ando, por aqui, há mais de uma semana, encalhado com dois textos que queria publicar – um sobre a participação da JS na Marcha do 25 de Abril, outro sobre o descrédito popular em que caiu a democracia portuguesa – e vejo-me, como me acontece frequentemente, aliás, na impossibilidade de alinhavar mais de duas frases coerentes sobre os referidos assuntos. Desta vez, contudo, a incapacidade literária não se deve à inabilidade habitual, mas ao facto de estar, incessantemente, a elucubrar, de forma quase científica, por vezes, sobre um assunto mais pessoal – o luto (amoroso).
Acabei – há cerca de 3-4 semanas, prefiro não contar exactamente o tempo – uma relação de 5 meses. Não é muito tempo, mas a “coisa”, sobretudo o seu final, foi para mim, particularmente intensa. Trágica, quase poderia dizer-se. No Domingo – foi quando terminou – estava, verdadeiramente, destruído. E aconselharam-me o luto – que eu nunca tinha feito em relação a compromissos anteriores – mordedura de cão cura-se com pêlo de outro, era o meu lema na “resolução” destas questões. E, para além disso, “luto” cheirava-me a livro de auto-ajuda e a psicoterapia de 3.ª categoria.
Neste caso, todavia, o luto fazia algum sentido. Sobretudo, porque, desligado o telemóvel e evitadas as espreitadelas no facebook, a segunda-feira foi dos dias mais tranquilos dos últimos tempos. E senti, como não sentia há muito tempo, liberdade. Tinha de perceber como é que me tinha recomposto tão depressa e, sobretudo, porque é que estava melhor separado do que junto e porque é que não tinha conseguido ver isso.
E uma parte do luto, disseram-me os entendidos (e com isto quero dizer as pessoas capazes de manter relações maiores do que um semestre), consistia, exactamente, nisto. Em perceber a relação, os sentimentos envolvidos – voltei, pela segunda vez na vida, a dizer “Eu amo-te”, sem o sentir -, o meu esforço de adaptação, a minha insatisfação permanente no compromisso (naquele compromisso) e, ao mesmo tempo, a minha ânsia de que não terminasse.
No restante, continuaram os entendidos, o luto requer um certo rompimento com a vida emocional/sexual. Tem de se parar, até que se ganhe, novamente, alguma estrutura. Fazer outras coisas, estar com amigos, evitar certos “ambientes”. E esta parte tenho-a cumprido, somente, pela metade. Tenho, felizmente, feito imensas coisas que me davam um enorme prazer e que haviam sido, relativamente, postas de parte – ler era uma delas. Não consegui, todavia, desligar o botão emocional e, de certa forma, procurar, desde já, preencher essa componente. E não creio, desta vez, que seja por medo da solidão, ou produto de uma voragem abrupta de “aproveitar a vida”. As coisas vão acontecendo e eu tenho sentido, de forma absolutamente consciente, que não as devo impedir, ainda que sinta que não ultrapassei o período de “nojo” amoroso.
E, pergunto-me, quanto tempo temos de “esperar”? É certo que o incumprimento da parte celibatária do luto prejudique o processo reflexivo do período? Quando é que podemos deixar, novamente, que alguém se intrometa, ainda que só fisicamente, na nossa fragilidade? Enfim, quando é que sei que posso largar os douradinhos com salada russa (o meu prato preferido), os boxers “Che Guevara”, as noites a ver Mentes Criminosas enroladinho na manta roubada na SATA e “enrolar-me” na próxima pessoa.?
E estas são as perguntas a que mesmos os “entendidos” não me conseguem responder.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
"O 25 de Abril e a História" - António José Saraiva
Já em jeito de celebração do 25 de Abril de 1974, e tal como vos tinha prometido, deixo-vos uma crónica do António José Saraiva escrita para o Diário de Notícias em 1979. Trata-se de uma visão com a qual, por várias razões, não consigo concordar, mas, pelo estilo, e por algumas críticas verrinosas e bem aplicadas, embora, ligeiramente, mal direccionadas, penso que vale a pena dar uma vista de olhos.
Não posso aderir ás críticas de AJS em primeiro lugar porque, apesar de tudo, os acontecimentos desencadeados pela Revolução dos Cravos tiveram, em geral, consequências positivas: criação do Serviço Nacional de Saúde, outros sistemas de assistência social, democratização do ensino, liberdade de imprensa, opinião, reunião, etc., entre outras coisas que o governo actual se tem entretido, perante o embrutecimento popular, a destruir.
Por outro lado, e quanto à descolonização, acho que, de facto, a pressão partidária e social era demasiado grande e os próprios soldados não queriam, de forma alguma, continuar a ser compelidos a combater. Assim, não vejo de que outra forma poderia ter sido levado a cabo o processo, até porque em 1974, obviamente, o livro do Spínola nunca poderia servir de base a acordo nenhum. Em 1945, ou mesmo em 1961, talvez, naquela altura não, seguramente.
AJS toca, contudo, em vários pontos correctos quando se refere ás falhas na liquidação do regime. De facto, a corrupção não foi, nunca, uma situação combatida pelo regime pós-25 de Abril e nunca se procedeu a uma, efectiva, "limpeza" e julgamento dos responsáveis pelos crimes mais abomináveis cometidos durante a ditadura. basta, aliás, ver que os delfins do antigo regime, continuaram, no novo, a ser caras bem conhecidas da nossa vida política - Adriano Moreira, José Miguel Júdice, Freitas do Amaral, Jaime Nogueira Pinto, etc.
Enfim, com estes sintéticos alertas, deixo-vos, então, o texto de AJS, que, nalguns pontos, mais soa a previsão dos dias que correm...
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"Se alguém quisesse acusar os portugueses de cobardes, destituídos de dignidade ou de qualquer forma de brio, de inconscientes e de rufias, encontraria um bom argumento nos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril.
Na perspectiva de então havia dois problemas principais a resolver com urgência. Eram eles a descolonização e a liquidação do antigo regime. Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com a vantagem para ambas as partes: o Exército Português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que tivera a aceitação nacional e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa.
Todavia, o acordo não se realizou e retirada não houve mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer Quibir.
Outra causa foi a desintegração da hierarquia militar a que a insurreição dos capitães deu início e que o MFA explorou ao máximo, quer por cálculo partidário, quer por demagogia, para recrutar adeptos no interior das Forças Armadas. Era natural que os capitães quisessem voltar depressa para casa. Os agentes do MFA exploraram e deram cobertura ideológica a esse instinto das tripas, justificaram honrosamente a cobardia que se lhe seguiu.
Um bando de lebres espantadas recebeu o nome respeitável de «revolucionários».
E nisso foram ajudados por homens políticos altamente responsáveis, que lançaram palavras de ordem de capitulação e desmobilização num momento em que era indispensável manter a coesão e o moral do Exército para que a retirada em ordem ou o acordo fossem possíveis. A operação militar mais difícil é a retirada; exige em grau elevadíssimo o moral da tropa. Neste caso a tropa foi atraiçoada pelo seu próprio comando e por um certo número de políticos inconscientes ou fanáticos e em qualquer caso destituídos de sentimento nacional. Não é ao soldadinho que se deve imputar esta fuga vergonhosa, mas aos que desorganizaram conscientemente a cadeia de comando, aos que lançaram palavras de ordem que nas circunstâncias do momento eram puramente criminosas. Isto quanto à descolonização, que na realidade não houve.
O outro problema era o da liquidação do regime deposto. Os políticos aceitaram e aplaudiram a insurreição dos capitães, que vinha derrubar um governo que, segundo eles, era um pântano de corrupção e que se mantinha graças ao terror policial: impunha-se, portanto, fazer o seu julgamento, determinar as responsabilidades, discriminar entre o são e o podre, para que a nação pudesse começar uma vida nova. Julgamento dentro das normas justas, segundo um critério rigoroso e valores definidos. Quanto aos escândalos da corrupção, de que tanto se falava, o julgamento simplesmente não foi feito.
O povo português ficou sem saber se as acusações que se faziam nos comícios e nos jornais correspondiam a factos ou eram simplesmente atoardas. O princípio da corrupção não foi responsavelmente denunciado, nem na consciência pública se instituiu o seu repúdio. Não admira por isso que alguns homens políticos se sentissem encorajados a seguir pelo mesmo caminho, como se a corrupção impune tivesse tido a consagração oficial.
Em qualquer caso já hoje não é possível fazer a condenação dos escândalos do antigo regime, porque outras talvez piores os vieram desculpar.
Quanto ao terror policial, estabeleceu-se uma confusão total. Durante longos meses esperou-se uma lei que permitisse levar a tribunal a PIDE-DGS. Ela chegou, enfim, quando uma parte dos eventuais acusados tinha desaparecido e estabelecia um número surpreendentemente longo de atenuantes, que se aplicavam praticamente a todos os casos. A maior parte dos julgados saiu em liberdade. O público não chegou a saber, claramente, as responsabilidades que cabiam a cada um. Nem os acusadores ficaram livres da suspeita de conluio com os acusados, antes e depois do 25 de Abril.
Havia, também, um malefício imputado ao antigo regime, que era o dos crimes de guerra, cometidos nas operações militares do Ultramar.
Sobre isto lançou-se um véu de esquecimento. As Forças Armadas Portuguesas foram alvo de suspeitas que ninguém quis esclarecer e que, por isso, se transformaram em pensamentos recalcados.
Em resumo, não se fez a liquidação do antigo regime, como não se fez a descolonização. Uns homens substituíram outros, quando os homens não substituíram os mesmos; a um regime monopartidário substituiu-se um regímen pluripartidário. Mas não se estabeleceu uma fronteira entre o passado e o presente. Os nossos homens públicos contentaram-se com uma figura de retórica: «a longa noite fascista». Com estes começos e fundamentos, falta ao regime que nasceu do 25 de Abril um mínimo de credibilidade moral.
A cobardia, a traição, a irresponsabilidade, a confusão, foram as taras que presidiram ao seu parto e, com esses fundamentos, nada é possível edificar.
O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres da anterior; mais a vergonha da deserção. E com este começo tudo foi possível depois, como num exército em debandada: vieram as passagens administrativas, sob a capa de democratização do ensino; vieram «saneamentos» oportunistas e iníquos, a substituir o julgamento das responsabilidades; vieram os bandos militares, resultado da traição do comando, no campo das operações; vieram os contrabandistas e os falsificadores de moeda em lugares de confiança política ou administrativa; veio o compadrio quase declarado, nos partidos e no Governo; veio o controlo da Imprensa e da Radiotelevisão pelo Governo e pelos partidos, depois de se ter declarado a abolição da censura; veio a impossibilidade de se distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de esclarecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira; veio o considerar-se o endividamento como um meio honesto de viver.
Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma Primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco. Ao contrário das esperanças de alguns, não se começou vida nova, mas rasgou-se um véu que encobria uma realidade insuportável. Para começar, escreveu-se na nossa História uma página ignominiosa de cobardia e irresponsabilidade, página que, se não for resgatada, anula, por si só todo o heroísmo e altura moral que possa ter havido noutros momentos da nossa História e que nos classifica como um bando de rufias indignos do nome de Nação.
Está escrita e não pode ser arrancada do livro. É preciso lê-la com lágrimas de raiva e tirar dela as conclusões, por mais que nos custe. Começa por aí o nosso resgate. Portugal está hipotecado por esse débito moral, enquanto não demonstrar que não é aquilo que o 25 de Abril revelou.
As nossas dificuldades presentes, que vão agravar-se no futuro próximo, merecemo-las, moralmente. Mas elas são uma prova e uma oportunidade. Se formos capazes do sacrifício necessário para as superar, então poderemos considerar-nos desipotecados e dignos do nome de povo livre e de Nação independente."
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Ao António José Saraiva, que não tem culpa.
Por causa da publicação abjecta com que JAS nos brindou recentemente no pasquim de que é director e, sobretudo, por causa do rasgado elogio que teceu ao "tio José Hermano" - colaborador próximo do regime fascista -, têm-se ouvido dizer algumas coisas relativamente injustas, nomeadamente, que é natural que JAS seja assim (facho) porque provém de uma família em que todos seguiam a mesma cartilha salazarenta.
Ora, se é certo que o "tio José Hermano" é reaccionário até à medula, a verdade é que o pai do JAS, o António José Saraiva, se opôs, sempre, ao regime fascista, tendo, por isso, sido afastado das actividades docentes na Faculdade de Letras da UL.
Militou no Partido Comunista, apoiou a candidatura de Norton de Matos e, nos anos 60, exilou-se em França. Depois de duas viagens à União Soviética, abandona o comunismo e, regressado a Portugal já depois da Revolução dos Cravos, critica duramente o (novo) regime instituído e assume uma postura mais "conservadora". A epítome destas críticas é a famosa crónica de 1979 "O 25 de Abril e a História" publicada no Diário de Notícias - com a qual, pessoalmente, não posso concordar na totalidade, mas que hei-de publicar aqui.
António José Saraiva era, assim, um homem com uma formação académica exemplar, um pensador livre, um verdadeiro contestatário, um homem inteligente, no limiar da loucura muitas vezes. Era polémico sem precisar de inventar trapalhadas ou fazer figura de parvo. Era repeitado.
O filho, infelizmente, parece não ter herdado nenhuma destas qualidades. Não se respeita, cientifica e moralmente, aprecia a polémica de baixo nível, disserta sobre aquilo que não conhece, não se respeita e, por isso, não é respeitado e, de cronista, vem-se metamorfoseando em piada nacional - mesmo na direita, atraiçoando, em parte, a linhagem de onde provém.
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AJS pelo próprio:
"Eu sou existencialmente inconformista.
Eu sou, de origem, um camponês.
Eu fui espiritualmente cristão e teoricamente marxista.
Eu estou contra a sociedade, independentemente das teorias.
Eu acredito no espírito, mas não sou capaz de o definir.
Eu estou pronto a emigrar de novo, se necessário. Eu sou António José Saraiva."
terça-feira, 10 de abril de 2012
José António Saraiva, tanta preocupação é um bocado gay...
No seu último artigo de “opinião” no folhetim a que uns poucos, cada vez menos,
felizmente, continuam a querer chamar de jornal - Sol, José António Saraiva (o
director da publicação
panfletária) decidiu debruçar-se sobre um tema em relação ao qual,
ultimamente, se tem revelado um “connaisseur” – a
homossexualidade.Não faço ideia de onde lhe vem tamanha ciência, mas, assumo, começo
a suspeitar que, nalgum momento, tenha tido acesso a informações mais
“profundas” sobre a matéria, se é que me faço entender...
Passemos, todavia, adiante, porque o que aqui nos ocupa são
as extraordinárias capacidades de JAS para adivinhar a orientação sexual alheia
através da “inclinação da cabeça” e de prever e explicar as tendências
demográficas daquilo a que chama a “comunidade gay” e não as preferências da
criatura. (Ainda que, a obsessão com a matéria, fizesse com que qualquer motard algarvio exclamasse que o senhor
“tem um piquinho a azedo”).
A crónica a que me venho referindo abre com o seguinte
parágrafo, no estilo quase literário a que, quando o conseguimos levar a sério,
o que, graças a Deus, raramente acontece, JAS nos vem habituando:
«À minha frente, no elevador, está um rapaz dos seus 16 ou
17 anos. Pelo modo como coloca os pés no chão, cruza as mãos uma sobre a outra
e inclina ligeiramente a cabeça, percebo que é gay”.
Ontem, a primeira vez, provavelmente, que li alguma coisa do
«Sol», fiquei logo entusiasmado com o estilo quase neo-realista do trecho e, rapidamente,
me consegui imaginar no citado ascensor, bem ao lado do jornalista e do
adolescente visado. E quase podia ver JAS, no seu sonho (molhado, como dizia no
fb o D.), com a sagacidade habitual com que desmonta as mais complexas intrigas
políticas, a desvendar as preferências e, quem sabe, mesmo as posições sexuais
predilectas do jovem. Tudo isto, superando qualquer velha cigana de Belém,
somente através da leitura da posição dos pés, mãos e cabeça do sujeito.
Esta visão serve de mote para que o articulista avance, como
é seu hábito, duas “brilhantes” e “iluminadas” conclusões – que o Chiado é um
“lugar de preferência da comunidade gay” e que é um “facto notório” que esta
comunidade “tem vindo a crescer”.
O alargamento do número de homossexuais, explica-o JAS pela
influência de amigos ou figuras públicas, por pressão do meio e pela utilização
da homossexualidade como forma de expressão de rebeldia e irreverência.
Quando fala da pressão do meio, esclarece JAS, refere-se,
nomeadamente, ao mundo da moda, onde o fenómeno se dá de forma “clara” – deve
estar, certamente, a pensar no duo Carlos Castro/Renato Seabra. Assim, os
modelos, estilistas e restante entourage são, segundo JAS, gays, simplesmente porque o contexto laboral é, predominantemente, homossexual. Que brilhante e científica conclusão! Não diz, o "jornalista", o mesmo das manequins, com certeza porque não acredita que mulheres tão bem aperaltadas e "femininas" possam ser lésbicas...novamente porque, mesmo no preconceito, JAS é básico.
José António, em primeiro lugar, nem todos os pais do mundo e, felizmente, cada vez menos, têm a mesma visão bacoca da liberdade sexual que o José preconiza e, graças a Deus, a maior parte dos membros da nossa sociedade, hetero e homossexuais, já compreendeu que não precisa, nem quer, que cada foda lhes traga mais do que um orgasmo (e só de pensar em filhos, até perdiam a tesão toda). Por outro lado, não lhe parece, José, que há formas menos dolorosas (psicologicamente...e fisicamente, talvez) de ser "contestatário" que não envolvam a vivência de um tipo de sexualidade para a qual a pessoa não tem nenhum tipo de "propensão"? Ou o José, quando quer ser "contestatário", também se imagina logo em elevadores esconsos a galar jovenzinhos (gays) imberbes?
Às vezes, os seus escarros jornalísticos indicam que sim!
sexta-feira, 30 de março de 2012
Post pós-revolucionário parte II - A degradação do direito de manifestação.
Na manifestação da última greve geral, no Chiado, uma cidadã portuguesa, manifestante pacífica, foi brutalmente agredida pelos jagunços do presente governo - a que, por erro certamente, costumávamos chamar de Polícia de Segurança Pública - no mesmo local, segundo disse, onde, antes do 25 de Abril havia sofrido as cruentas cargas policiais típicas do regime fascista. Um dado irónico, se tivermos em conta que, em alguns aspectos - depauperação generalizada do país, utilização excessiva da violência "autorizada", desmantelamento das actividades culturais, desrespeito pelos princípios democráticos -, e tirando as devidas adaptações necessárias à manutenção da fachada democrática, a actuação deste governo se aproxima daquela que era prosseguida pelo ditador Salazar.
O Relatório de Actividades da PSP para o ano presente avançou, depois, a ideia de que as "notícias menos positivas" relativas às intervenções policiais deveriam ser "combatidas". Um tipo de ideia que também nos remete, imediatamente, para os procedimentos de propaganda postos em prática nos «gloriosos» tempos de Salazar, onde a acção da polícia política era, muitas vezes, defendida com o argumentos de que se estava a combater a acção dos «comunistas» (que eram todos aqueles que não pensavam como os tipos do regime) e dos «terroristas» (que eram todos os pretos que pensavam).
Hoje, o governo (ou, melhor dizendo, aquela brigada de inaptos que lideram o destino do povo português, normalmente ainda mais ignorante do que os políticos que "escolheu") procura, de variadas formas e sobretudo na cabeça daquela "simpática" senhora gordinha que lidera o IV Reich, inculcar a ideia de que Portugal não é a Grécia. De que, aqui, temos, de facto, de apertar o cinto - é a única alternativa -, mas que isso até nem nos incomoda muito, porque, afinal, somos os culpados pela vida "acima das nossas possibilidades" que fomos levando. Os manifestantes não passam de um conjunto, pequeno, obviamente, de hippies fedorentos, sindicalistas profissionais, reformados comunistas e outros vagabundos que deveriam, antes, andar a "limpar as matas nacionais", para evitar os incêndios de Verão. Por isso, se apanharem uma cacetada policial quando andam por aí, desocupados, a conspurcar a via pública com insultos a um governo que, afinal, só anda a remendar os erros dos outros - dos comunistas e restante escumalha, adepta da saúde, educação, assistência social e etc. gratuitas - foi porque mereceram.
Além disso, a polícia é treinada para alguma coisa e há que esconder os verdadeiros criminosos - aqueles que se locupletam à custa dos tostões do idiótico povão português e os que, através das instituições "democráticas", garantem a segurança dos primeiros.
Por outro lado, e isto foi, no meu entender, ainda mais graves, os capangas a soldo da central sindical (cuja acção, da central, obviamente, não da "jagunceria", costuma ser merecedora da minha aprovação) enfrentaram, fisicamente, os manifestantes não-sindicalizados - desempregados, indignados, e restante vagabundagem -, dividindo ainda mais aqueles poucos que já se conseguiram aperceber de que o passo para o abismo já foi dado há muito, e que os próximos movimentos já só servem para nos enterrar mais no lodo. Uma tristeza (a lembrar as lutas fratricidas da esquerda na guerra civil espanhola), mas que, infelizmente, não é estranha na acção do Partido Comunista, cujas posições apoio na esmagadora maioria das vezes (desenganem-se), mas que sempre detestou as massas manifestantes desenquadradas das suas estruturas.
Assim, promovido pelos membros deste (des)governo através dos "senhores agentes" (que, ironicamente, têm sido dos mais contestatários em relação às medidas tomadas pelo actual regime), procura instalar-se um clima ostracizante em relação àqueles que são, do ponto de vista mental, minimamente, capazes de perceber que o executivo não tem um caminho e que segue, guiado por pessoas - FMI - que nunca conseguiram, estruturalmente, reabilitar nenhum país, um percurso que não tem, de forma alguma, procurado defender a população nacional. Os discordantes, depois, não se entendem e, sem se darem conta, auto-destroem-se, fazendo o jogo do "adversário".
E a revolução nacional, enquanto processo de modificação de mentalidades tendente a encontrar um equilíbrio social mais próximo da igualdade (económica, étnica, sexual...) plena, vai perdendo força, degradando-se, por medo, mas também por estupidez.
terça-feira, 20 de março de 2012
Da homofobia na Libéria à destruição do sonho de Johnson-Sirleaf.
A actual Presidente da Libéria decidiu, numa entrevista recente, deixar clara a sua posição favorável em relação a uma lei criminalizadora da homossexualidade. Fiquei, a todos os níveis, pasmo. Não só porque Ellen Johnson-Sirleaf foi a última vencedora, em conjunto com duas outras mulheres, do Prémio Nobel da Paz, mas também porque pensei que a história daquele país já devia ter ensinado a pessoas como Johnson-Sirleaf (educada em Harvard) que é impossível combater um tipo de preconceito e permitir que outros géneros se consolidem.
Um pouco de história, porque o percurso daquele país, encetado no séc. XIX, é, no mínimo, curioso:
Aquando da Conferência de Berlim, nos finais do séc. XIX, em que algumas potências europeias (e Portugal) definiram a forma como iriam, posteriormente, retalhar o continente africano, a Libéria e a Etiópia foram os únicos "Estados" africanos respeitados. O segundo, porque dispunha de uma forma de governo relativamente centralizada e de um exército vagamente organizado, que lhe permitiu derrotar os italianos entre 1895-1896. O primeiro, porque havia sido criado pelos Estados Unidos, nos anos 20 do séc. XIX, para "escoar" os escravos que iam sendo libertados e os seus descendentes, que poderiam causar toda uma série de problemas no seio da sociedade americana que se construía. Porque, afinal, as liberdades concedidas pelas Constituição americana restringiam-se ao grupo dos homens brancos e possidentes.
Assim, em 1847, a Libéria declara a independência e um Presidente negro, Joseph Jenkins Roberts, assume o comando de uma nação que teria, no final do século, de conter os ímpetos expansionistas da Inglaterra e da França. Resistiu, mas isso não significou a criação de um país negro igualitário, na medida em que os nativos do território (aqueles que nunca se tinham "civilizado" no espaço americano) ficaram afastados da cidadania até 1904 e do poder por muitos mais anos. A desigualdade que marcara o nascimento da Libéria (do latim "Liber" - Livre) continuava a traçar os destinos do Estado.
E continuou nos anos seguintes e, sobretudo, já quase no final do séc. XX, quando uma brutal guerra civil estalou em 1980. Terminada a guerra civil e encetada a transição para a paz, Ellen Johnson-Sirleaf, opositora do regime de Charles Taylor, empenha-se na defesa das mulheres liberianas e, quando assume a presidência, com gestos bem-intencionados na tentativa de melhorar as condições de vida das populações mais desfavorecidas. E isto valeu-lhe a atribuição do Nobel da Paz no ano transacto. Um prémio, em princípio, merecido.
O que Ellen Johnson-Sirleaf parece não compreender e, mais grave, indicia ignorar, observando a história do país que governa, é que a discriminação tem apenas um sentido, o da menorização e degradação do ser humano, independentemente das formas como se manifesta – racismo, homofobia, sexismo, etc.
Desta forma, e com aqueles parcos minutos de entrevista em que rotulou os cidadãos homossexuais do seu país, homens e mulheres que, em muitos casos, a terão apoiado na sua ascensão ao comando do Estado, como menos dignos, Johnson-Sirleaf destruiu todo o trabalho de uma vida (de luta pela igualdade, de combate à discriminação, à pobreza, a todas as formas de racismo e sexismo).
Porque não existe igualdade racial onde gays e lésbicas podem ser encarcerados, porque não se pode combater as diferenças económicas e aceitar o preconceito com base na orientação sexual, porque é impossível igualar homens e mulheres, quando alguns destes são tratados com menos igualdade do que aquela que lhes é devida.
“Nenhum homem será realmente livre, enquanto aos seus ouvidos ressoarem os grilhões de outrem”.
sábado, 10 de março de 2012
É todo um programa.
Às vezes oiço dizer que este governo não tem ideologia. É
pragmático. É preciso cumprir o memorando da troika, cumpre-se.
São, naturalmente, pessoas pouco informadas as que caem
nesta cantiga. Este governo tem todo um programa, que, claro, nada tem a ver
com o que levou a eleições, mas que está bem definido, como o provam as medidas
“para além da troika” que tem tomado.
Uma medida, tomada logo após o início de funções deste
governo, que nos disse muito da sua ideologia foi a decisão de dar os restos da
comida dos restaurantes aos pobres. Na altura ouvimos até muitas personalidades
da mesma área ideológica a pedir que coisas como o rendimento mínimo e o
subsídio de desemprego passassem a ser pagas com senhas de comida (não me
surpreenderia aliás que tal política fosse seguida muito em breve).
Ora este tipo de medidas são muito reveladoras da posição ideológica
deste governo. Para os pobres qualquer coisa serve porque só é pobre quem não
trabalha o suficiente. Que vão trabalhar nem que seja em part-time em vez de
ficarem refastelados à espera de subsídios do estado (que depois gastam em
cigarros, cerveja, internet e cartazes para manifestações). Se fossem bons
trabalhadores não tinham ficado sem emprego e se procurassem com vontade encontrariam
outro. Resumindo: só passa fome quem quer.
Outras medidas muito interessantes, de tão revoltantes, são
aquelas tomadas pelo ministro Pedro “Motard” Soares em relação aos lares de
idosos. Há uns meses o ministro anunciou que as condições que estes estabelecimentos
teriam de ter para estarem em funcionamento seriam drasticamente diminuídas (a
tal “menos burocracia” de que a direita tanto fala). E, para completar, o mesmo
ministro anunciou ontem que irá aumentar em dez mil o número de lugares nestes
lares. Como? Muito simples: enfiando mais uma caminha (ou duas se couberem) nos
quartos que existem hoje, muitos dos quais já atafulhados com dois ou três
velhos.
Mas antes que comecem a ter pena destes idosos que vão
passar a viver em péssimas condições e perderão qualquer ponta de privacidade
que ainda lhes restasse, tenham em mente algumas coisas. Por um lado este
número de velhos das sociedades modernas é perfeitamente incomportável. Temos
de reverter a pirâmide demográfica urgentemente.
Por outro lado, continuarão a existir lares de luxo abertos
a todos (os que tenham largos milhares de euros por mês, naturalmente) e com
condições fantásticas. E claro que só não vive nestes lares quem não trabalhou
o suficiente, quem não poupou todos os meses e quem não investiu parte do seu
salário, ficando à espera que o estado gordo, protector o amparasse.
Se por esta altura precisarem de fazer uma pausa na leitura
deste texto, não vos levarei a mal pois eu próprio me sinto bastante repugnado
pelo que escrevo neste momento.
Mas, continuando, podemos falar dos cortes na saúde e do
aumento das taxas moderadores que, como os próprios ministros admitiram, foram
muito para além do que era pedido pela troika. Mais uma vez a opção é óbvia.
Para além de haver um número significativo de pessoas que gosta de ir ao médico
“por tudo e por nada” e às vezes só por diversão, o nosso sistema anterior era
uma injustiça. Porque haveriam de pagar aqueles que realmente trabalham,
através dos impostos, as doenças dos outros? Que não fumem! Que não tenham sexo
com mais que um parceiro (ou de todo)! Que não bebam! Que não se droguem! Que
façam exercício físico! De outra maneira qual seria a motivação desta gente
para mudar os seus comportamentos? E, naturalmente, só não tem dinheiro para
pagar os seus cuidados de saúde quem não trabalha (porque não quer).
Por fim gostaria de falar do “se estão mal emigrem”, frase
querida de, pelo menos, um secretário de estado e do próprio primeiro-ministro
deste governo. De facto se quem estiver mal (leia-se, desempregado) emigrar
resolvem-se vários problemas de uma assentada. Para já se estão desempregados é
porque ou são preguiçosos ou incapazes e portanto só nos fazem um favor ao
desamparar a loja. E, não menos importante, são menos subsídios que o estado
tem que pagar.
E não, o objectivo deste governo não é que as pessoas vivam
melhor mas sim que as empresas exportem! Portanto se você não exporta nada, faça o favor de morrer,
emigrar ou deixar-se empilhar num lar.
É todo um programa.
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