sábado, 3 de março de 2012
Post pós-revolucionário. Parte I
Hoje, enquanto corria Lisboa numa intensa procura de fontes para projectos laborais, nos intervalos em que não me concentrava a ouvir a conversa da senhora do lado no 727 ou no 15, pus-me a pensar. Não na vida genericamente, disso já desisti, mas na situação política do meu país. (É verdade que já devia ter abandonado este tipo de elucubrações, mas a realidade é que os meus recentes 25 anos ainda não mataram o idealista que habita, cada vez mais envergonhado, o meu íntimo).
As considerações de que vos falo concentraram-se no facto de, contra todas as evidências e ao arrepio de tudo aquilo que poderíamos prever, a esquerda (marxista e derivada) portuguesa estar a ter dificuldades em se afirmar neste momento de crise e, nalguns casos, ter, efectivamente, perdido representatividade e estar em risco de evaporação permanente. E falo do Bloco de Esquerda.
Com toda a modéstia que consigo assumir, vou avançar uma ideia (ou uma semi ou pseudo-ideia, como quiserem) de porque é que as coisas podem estar a tomar esta direcção e porque é que um momento político aparentemente oportuno pode estar a ser completamente desaproveitado e, pior, a funcionar como diluente de influência – a esquerda portuguesa (e creio que, embora de forma relativamente menos expressiva, a sua congénere europeia) continuam muito agarradas a uma retórica que se encontra, há muito, ultrapassada.
A retórica e não a ideologia, porque a construção de uma sociedade mais justa, mais livre, mais igualitária, mais solidária, etc., são valores e objectivos que continuam a fazer sentido, independentemente do caminho que se decide trilhar para os atingir. O vocabulário e as formas de luta, contudo, é imperativo mudar.
Imperialismo capitalista, revolução, rebelião popular, revolta, luta, trabalho, exploração, etc., são tudo conceitos que continuam a fazer todo o sentido e que convém continuar a trabalhar e que são imensamente interessantes para debater no bar do Chapitô ou gritar no Agito ou no Arraial do 25 de Abril quando o álcool inebria a mente. Deixaram, há, pelo menos, mais de 30 anos, de fazer sentido para as massas populares portuguesas (e europeias) que, como gente de esquerda, desejamos conquistar para encetar um caminho que proporcione um aumento de bem-estar (económico, social, cultural equitativo e para todos.
Acho, e hoje, a esta hora, já e só este pensamento extremamente primário que consigo avançar, que cumpre revolucionar a consciência do povo português apelando, todavia, para outro tipo de revolta e luta baseada na educação e na instrução populares. Procurar, no fundo, trazer a revolução da rua para as mesas das escolas, para as bancadas dos debates, para os encontros informais, para as conversas de amigos, para as saídas à noite. Não prosseguindo uma atitude proselitista, mas procurando consciencializar, de uma forma franca, relativamente simples, eventualmente, para as diversas opções que a esquerda apresenta, abandonando, obviamente, fanatismos, radicalismos e, porventura, até algum tipo de ideais mais ousados que possamos querer ver concretizados, mas de que possamos, temporariamente ou parcialmente, abdicar no sentido de procurar concretizar o núcleo fundamental daquilo que defendemos.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Dê sangue, ámen!
O governo português, liderado pelo social-democrata Miguel Relvas - não se confundam, social-democrata porque pertence ao PSD e não porque, nalgum momento, tenha prosseguido a ideologia -, encontra-se, há muito, demissionário. Isto porque a forma como têm tentado resolver os problemas dos portugueses que os elegeram é através da sugestão da emigração.
Mais recentemente, todavia, abandonaram mesmo esta patética política e passaram, simplesmente, a confiar na intervenção divina. E, então, foi ver Assunção Cristas (ministra da Agricultura, do Ambiente e de mais uma série de pastas cuja totalidade não consigo agora recordar) a dizer que tem fé que os problemas de ordem natural que afectam a agricultura portuguesa se resolvam e Duarte Marques (consultor - pois....-, líder da JSD e, se tudo correr bem, futuro primeiro-ministro de Portugal) a apelar, novamente, à fé (católica, supõe-se) para a resolução do problema do desemprego.
Desta vez, foram os responsáveis pelo Instituto Português do Sangue que, perante a contracção nas dádivas, motivada, certamente, pela decisão dos irresponsáveis pelo governo deste país de acabar com a isenção nas taxas moderadoras hospitalares para os dadores, a apelar às boas graças da divina providência, desta vez através dos seus representantes terrenos. Assim, em situação de quebra grave nos stocks, o IPS está preparado para, em conjunto com o clero português, apelar à doação de sangue nas missas.
Que bela ideia, não vos parece? É que tendo em conta que a idade máxima para efectuar a primeira doação de sangue é a de 60 anos e pensando na idade média das pessoas que frequentam, habitualmente, as igrejas deste país, devem conseguir inúmeros novos candidatos!
PS: e não nos devemos esquecer que, ainda não há um ano, andavam os irresponsáveis do Ministério da Saúde e do IPS a papaguear alarvidades sobre as restrições na aceitação de sangue de dadores homossexuais.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
InterRail na linha de Sintra
Ontem, no palácio Sinel de Cordes, no Campo de Santa Clara (onde se realiza a feira da ladra), teve lugar a Pecha Kucha Lisbon, "um foram informal para a apresentação de trabalho criativo proveniente de diferentes disciplinas como arquitectura, design, artes gráficas, artes visuais e a moda". Como saberão, nenhuma destes ofícios fazia parte dos meus interesses primordiais, mas, agora, por motivos pessoais, passaram, pelo menos, a suscitar-me alguma curiosidade. E então, ainda recuperando do meu jantar de anos, lá fui à Pecha Kucha.
A temática deste ano era "Celebrar a Cidade", o que me fez logo torcer o nariz. É que, enfim, não é propriamente uma ideia muito original a realização de um evento que se destina a apresentar, de forma inovadora, os aspectos que mais se valoriza numa determinada localidade. A verdade, contudo, é que aquelas gentes, com maior ou menos criatividade, lá conseguiram surpreender-me de alguma forma.
A ideia que considerei mais interessante foi avançada pelas designers Ambas as Duas que propunham a realização de um InterRail na linha de Sintra. Pode parecer absolutamente inusitado, porque quando pensamos naquela via de comunicação só nos vem à cabeça o destino, Sintra, ou, então, sítios de péssima frequência, roubos, graffiti, vagabundagem, etc. Mas há mais. E Ambas as Duas foram capazes de nos mostrar isso, sem escamotear, obviamente, o aspecto real das diversas paragens da linha do comboio.
Um dos espaços realmente interessantes, e que, penso, valerá a pena uma visita e o risco de enfrentar a linha de Sintra é o Parque Central da Amadora, onde, por um euro, podem andar de cisne num lago artificial. Em tempos de crise, não me parece nada mal como programa de Domingo à tarde. Eu, fiquei convencido!
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Caça ao sexo nos túneis do metro.
O Público de ontem resolveu noticiar a recusa do Metro de Lisboa de acolher publicidade a um site de encontros (sexuais) gay. Uma notícia que, de resto, já havia sido avançada, no dia 25 do mês passado, pelo site dezanove.pt. Surpreenderam-me, sobretudo no site do Público, os comentários dos leitores. Estava, honestamente, à espera de um chorrilho de disparates sobre a promiscuidade homossexual, riscos assumidos pelo grupo na busca incessante de sexo e de como a existência daquele tipo de sites prejudicava a imagens dos gays. Não foi, na esmagadora maioria dos casos, o que encontrei. E os gays que, suposta ou realmente, não usam o serviço e que não querem ser "confundidos" com os utilizadores foram os principais portadores daquele tipo de dizeres, o que só reforça aquela ideia de que são as próprias classes discriminadas quem mais contribuiu para a discriminação própria.
A maior parte dos cidadãos comuns heterossexuais que não sofrem de desequilíbrio mental grave não parecem ter ficado, minimamente, preocupados com a possibilidade de se terem de defrontar com aquele tipo de publicidade. Finalmente, estamos a caminhar para um mundo em que as pessoas se apercebem que (quase) toda a gente gosta de sexo e que, para alguns, é perfeitamente natural simplificar o flirt, aumentar as possibilidades e escrutinar os "candidatxs" utilizando a internet.
É bom, contudo, saber que o Metro de Lisboa anda tão preocupado com a moral e os bons costumes. Assim, mesmo a cair de podre por supostas faltas de financiamento e a explorar arduamente os passageiros, quando a sociedade, à superfície, se despudorar na totalidade, vamos poder sempre refugiar as nossas crianças e velhinhas nos túneis do metropolitano.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Famílias.
Sobre as declarações de criaturas como a Isilda Pegado e outros seguidores das plataformas pela vida (vida, obviamente, definida segundo os ditames da Dra. Isilda ou, em substituição, na melhor das hipóteses, pelo Sumo Pontífice) acerca das propostas de lei recentemente apresentadas para regular a procriação medicamente assistida (PMA) tenho-me posto a pensar sobre a família. E sobre aquilo que a sociedade pode, conjuntamente, determinar para todas as famílias.
Para pessoas como a Isilda Pegado, a família é tudo. Os arrepiantes movimentos semi-religiosos que seguem se não têm vida no nome, terão, obrigatoriamente, qualquer expressão que nos remeta, imediamente, para a apologia da família. E melhor seria, penso eu, que pudessem conjugar as duas referências num enorme Movimento pela Vida da Famíla, ou Vida em Famíla, o que os aproximaria imenso do vocabulário da Igreja Católica.
Defendem a "família", dizia eu, mas não a globalidade das famílias, como é lógico. Ou melhor, na sua mente ultra-perversa, até acham que estão a defendê-las a todas, porque desconsideram todas aquelas que não se enquadram no estereótipo de família "tradicional" que têm na cabeça - dois pais (um homem e uma mulher), um número indeterminado de filhos, mas de preferência mais do que um (afinal, uma das bandeiras dos desvairados é a natalidade) e, eventualmente, avós. (E sobre esta questão da família "tradicional" tanto se podia dizer. É que, na verdade, se formos analisar as coisas com algum detalhe e franqueza vamos descobrir que a tradição, no fim de contas, tem muito poucos anos...).
Eu também tenho uma ideia daquilo que considero ser uma família e uma ideia da família que quero para mim. Isso não faz, contudo, que eu queira ou me sinta no direito de impor estas minhas concepções a quem quer que seja. E também não considero que os filhos que espero vir a ter hão-de ficar imensamente traumatizados se tiverem de contactar com agregados de tipo diferente daquele que conheceram à partida ou que a televisão lhes transmite. É natural e até benéfico que isso aconteça, porque, dessa forma, poderão escolher, com toda a liberdade, o tipo de família que querem vir a constituir e de que eu, na circunstância que eles definirem, espero vir a fazer parte.
Se uma mulher não sente a puta do instinto maternal, pois que não sinta, está no seu direito e é tão mulher como aquelas que o sentem. Se um homem quiser ter um filho com outro homem, pois que o tenha se puderem proporcionar à criança um futuro relativamente saudável. E se três pessoas, que se amam, que se respeitam, que vivam em comunhão de sentimentos, quiserem e tiverem as capacidades necessária para adoptar uma criança, façam-no!
E eu não tenho nada com isto, não opino, não comento, não me oponho, se me provarem que as crianças acolhidas nestes lares vão crescer saudáveis e felizes - na medida do possível, porque numa família tradicional ninguém anda a medir o grau de felicidade dos rebentos. A sociedade deve, então, imiscuir-se o menos possível na regulação das tipologias familiares e, simplesmente, acompanhar - com o sistema jurídico - as estruturas que a realidade vai criando e em que podemos observar que existe algum grau de felicidade.
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