quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O PREC da reacção.



Quando, no mês passado, Vasco Lourenço, capitão de Abril e dirigente da Associação 25 de Abril, se referia às actuais medidas de "austeridade" como consubstanciando um "PREC de direita", eu, confesso, achei exagerado.Claro que rejeitava, em absoluto, a política de "sacrifícios" (para alguns, os que menos têm), de suposta "consolidação financeira", de "saque fiscal", de ataque sem trégua ao exíguo Estado Social português, de liberalismo trouxa, mas considerava que não fazia sentido, ainda, pelo menos, falar de um ataque concertado às magras conquista da esquerda no período que se segui ao golpe do 25 de Abril.

Depois de ter estado presente na manifestação que acompanhou a Greve Geral do passado dia 24, contudo, tudo se modificou. Aquilo a que assisti, e o que soube depois, fazem-me, hoje, crer que as forças da direita (do PS ao CDS, passando por jornais com tiragens ridículas, representantes do patronato, etc.) desejam, com a justificação da "crise financeira", pôr em marcha mecanismos de eliminação da massa crítica e da resistência das classes populares portuguesas, tudo com a conivência leviana de uma comunicação social acéfala. 

É neste sentido que devem ser entendidas as declarações de membros do governo no sentido de denegrirem os corajosos trabalhadores portugueses que decidiram exercer o seu direito constitucionalmente protegido à greve e a brutal repressão policial da manifestação que se reuniu em frente da Assembleia da República. Nesta, a lembrar os "bufos" de outros tempos, estavam presentes elementos camuflados das polícias, com o objectivo claro de agitarem as massas, assim justificando os abusos da polícia de choque. 

A comunicação social tem "papado" as atabalhoadas justificações do MAI e dos chefes das polícias. Já desistiram de investigar, de fazer jornalismo. Não passam, nos dias de hoje, de porta-vozes, ultra-manipulados, de governos, forças políticas, ou quem quer que apareça para os guiar na escuridão estúpida em que se encontram imersos.

E o governo, e/ou quem lhes puxa os cordelinhos, aproveitam-se de tudo isto, pondo em marcha, um efectivo processo de destruição das conquistas sociais da revolta popular portuguesa. Portugal não precisa, contudo, sobretudo, de produzir mais, de criar mais riqueza, mas de distribuir melhor os vastos recursos detido por muito poucos. Vamos ver se, mesmo sem o braço armado da comunicação social, vamos conseguindo passar esta mensagem ao povo português...ou se calhar, tendo em conta os constantes resultados eleitorais, não valerá muito a pena...

Ainda conseguem dizer que não gostam de fado?

Em jeito de celebração pela classificação do fado enquanto Património Cultural Imaterial da Humanidade, deixo aqui alguns temas interpretados por Argentina Santos, a histórica proprietária da Parreirinha de Alfama. Arrepiante! 




Convido-vos, agora, a dizerem que continuam a não gostar de fado.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

"Começam os tumultos, começam os tumultos".


Os "perigosos" manifestantes a "apanharem" já no espaço público, legalmente reservado para a manifestação.




Os alegados "tumultos", onde se vê manifestantes que incorporavam a marcha das centrais sindicais, que se demarcaram dos "selvagens".




Sra., quais insultos e quem lhe disse se os manifestantes faziam parte ou quem é que constitui o "Movimento dos Indignados"? Viu-lhes o cartão de "sócio"? O que é o "Movimento dos Indignados". Jornalismo de muito fraca qualidade...



Alegada, e parece que confirmada, mesmo, violência policial (à paisana) sobre manifestante pacífico.


manife de 24 de Novembro - Lisboa from Bernardo Barata on Vimeo.


Agredido com quê? A agressão do "cidadão estrangeiro". Segundo o arrastão, o "cidadão estrangeiro" não era mais do que um polícia à paisana... Rabo escondido com gato de fora.



E a censura, pá?



Até amanhã camaradas.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

No país do carnaval (parte I).



No país de Jardim (também conhecido por Região Autónoma da Madeira), as iluminações de Natal e o fogo-de-artifício de Ano Novo não vão sofrer os efeitos da "crise". Como em anos anteriores, o fausto continuará a marcar a comemoração das datas, tendo sido, em claro prejuízo do interesse público, consignados três milhões de euros para o efeito.

Alberto João Jardim paira acima de qualquer norma de responsabilidade financeira e política e reina autocraticamente no território desde 1978. Os 33 anos consecutivos no poder servem, desde logo, penso, como teste da democraticidade da Região Autónoma - o consulado de Jardim ultrapassa os de José Eduardo do Santos ou Robert Mugabe, por exemplo. Não isentam, todavia, o povo madeirensa da sua culpa na manutenção do regime de absoluta impunidade de Jardim, com o qual, todos os anos, os cidadãos portugueses tẽm de arcar financeiramente. É que, apesar de tudo, e ainda que a um nível muito primário, sobretudo no que toca à educação cívica das populações, a Madeira é uma democracia.

Apesar de se tratar da segunda região mais rica do país, atrás de Lisboa e Vale do Tejo, o estatuto de insularidade e periferia do arquipélago, bem manipulados pelo cacique local, têm-lhe permitido furtar-se às (escassas) normas de rigor orçamental e responsabilidade financeira aplicadas no continente. E todos os anos, os milhões de euros do défice regional (que ultrapassa os 20% do PIB Madeirense!), têm sido pagos por transferências do Orçamento Geral do Estado. Governos nacionais demasiado temerosos das inconsequentes ameaças autonómicas de Jardim, a começar por aqueles alicerçados nas fabulosas maiorias absolutas de Cavaco Silva, têm, desta forma, imposto a totalidade dos cidadãos portugueses (incluindo, portanto, os habitantes da RAM), os custos da governação faraónica de Jardim.

As actuais medidas de "austeridade" impostas pela maioria reaccionária (PS(conivente)+PSD+PP) que domina o parlamento portuguê, não se coadunam, todavia, com a manutenção do status quo madeirense. Desta forma, Jardim tem de ser colocado na ordem - veremos se Passos Coelho, tão corajoso na exigência de sacrifícios aos trabalhadores e à arraia-miúda nacional, tem a audácia de enfrentar o Salazar madeirense -  e, se agitar o manifesto da autonomia, assumir o compromisso de referendar a hipótese. Oxalá o faça, porque, dessa forma, os cidadãos madeirenses teriam, finalmente, de abandonar a infância política a que têm sido arremetidos desde os alvores da democracia portuguesa e assumir as responsabilidades políticas inerentes à situação de cidadãos politicamente autónomos.

 A bem da nação!

sábado, 5 de novembro de 2011

O choque com a realidade




No outro dia vi este vídeo e tenho de admitir que foi um enorme choque para mim. Não conseguia acreditar que aquela pessoa existisse, era mau de mais.

Hoje tive um choque talvez ainda maior quando li este texto (aviso: lê-lo pode provocar cenas esquisitas em vocês). A ignorância atroz, o ódio, o atraso que esta senhora representa...

Enfim, talvez por ter apenas 22 anos, nāo pensei que existissem pessoas destas no meu país. Agora já sei. Foi um verdadeiro choque com a realidade.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Dos mitos do capitalismo.




Como todos os sistemas ideológicos, o capitalismo também dispõe de uma mitologia própria que ajuda à sua reprodução acrítica e continuidade de funcionamento sem necessidade de constantes indagações. Os mitos não têm, necessariamente, de ser falsos (ou verdadeiros). Percepciono-os mais, nesta reflexão, como conjuntos de pequenas histórias (ou memórias) partilhadas por um número relativamente alargado de pessoas que vivem sob um determinado enquadramento político, social e económico e que, como se disse, contribuem para a sua aceitação e progressão de uma forma pouco pensada. Serão, em princípio, propagados pelas classes dominantes, mas os grupos dominados, com relativa facilidade, delas se apropriam ou criam outras igualmente reprodutivas do sistema que habitam. O capitalismo, creio, dispõe de, pelo menos, dois mitos fundamentais.

Mito 1 – o Self-made man.

O mito do self-made man terá aparecido, de forma ostensiva, nos Estados Unidos em meados do séc. XIX e conta-nos a história do operário fabril, ou outra pessoa de casta mais “humilde”, que, através do seu trabalho e árduo esforço, foi capaz de ultrapassar a sua condição económica e integrar-se numa classe socioeconómica mais favorecida (em termos financeiros). Serve, desta forma, para veicular a ideia de que o liberalismo económico é o único sistema que permite o aumento (grande) de bem-estar e a mobilidade socioeconómica (e política) ascendente. Desta forma, não terá aparecido, apenas, com o sonho americano, tendo as suas bases firmadas, pelo menos, nas reivindicações burguesas do séc. XVIII contra os privilégios auferidos pela nobreza, transmitidos pelo sangue.

Esta história terá, em princípio, origem nas classes sociais mais elevadas e todos os países capitalistas dispõem da sua. Por cá, as figuras meio tristonhas de Belmiro de Azevedo e de Cavaco Silva vão assumindo esse papel.

A historieta está, todavia, muito mal contada e por diversas razões. Em primeiro lugar, o mito refere-se ao homem que se construiu a si próprio e não à mulher, e isto já diz muito sobre a existência de determinados grupos que vêem impedidos os seus percursos ascendente. Depois, normalmente, este homem teve a possibilidade de ter acesso a alguma formação superior. Por fim, a sorte, joga, aqui um papel principal. Assim, o mito é fraco e qualquer pessoa que ganhe 500 euros por mês sabe que terá poucas dificuldades de não “macular” a descendência com a sua condição socioeconómica.

Mito 2 – O dinheiro não traz felicidade.

Este segundo mito acompanha e, muitas vezes, sustenta o sistema capitalista no falhanço do primeiro. Nele está contido todo um conjunto de histórias de desavenças familiares, de depressões (e suicídios), de relacionamentos interesseiros, causados pela abundância de riqueza e, por outro lado, a felicidade que a inexistência da mácula do dinheiro provoca. Desta forma, mesmo que não se conseguisse acumular riqueza e viver, economicamente, de forma desafogada, ao menos auferia-se de amizades e amores verdadeiros e de um contentamento mais genuíno, porque desprovido de preocupações ou bases materiais. A divulgação deste tipo de histórias têm interesse, portanto, tanto para as classes mais abastadas (não vão os pobres começar a querer a partilha do bolo) como para os falhados do sistema.

A “alegria da pobreza” contida em “quatro paredes caiadas” têm particular força em Portugal, porque era parte componente essencial da mitologia dos tempos da “outra senhora”.

Ainda ninguém descobriu, todavia, a equação da felicidade. Aquilo que posso afirmar, com quase absoluta certeza, é que andar a contar os tostões para ver se chega para comprar comida para os filhos é que não pode trazer felicidade de nenhum tipo, por muito masoquista que se seja e que viajar, sair à noite, jantar fora, organizar convívios, ouvir música, ler, escrever, andar vestido como se quer, dar o melhor à descendência, ter uma casa em condições, são tudo actividades e situações que proporcionam prazer a um conjunto alargado de pessoas e que necessitam de investimento de capital. O dinheiro assim, se não produz felicidade, pelo menos abre, em parte, no nosso sistema, o caminho para a mesma.
O segundo mito do capitalismo cai, assim, na companhia do primeiro, em igual descrédito.

E, agora, que história nos contam?