sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Dos mitos do capitalismo.




Como todos os sistemas ideológicos, o capitalismo também dispõe de uma mitologia própria que ajuda à sua reprodução acrítica e continuidade de funcionamento sem necessidade de constantes indagações. Os mitos não têm, necessariamente, de ser falsos (ou verdadeiros). Percepciono-os mais, nesta reflexão, como conjuntos de pequenas histórias (ou memórias) partilhadas por um número relativamente alargado de pessoas que vivem sob um determinado enquadramento político, social e económico e que, como se disse, contribuem para a sua aceitação e progressão de uma forma pouco pensada. Serão, em princípio, propagados pelas classes dominantes, mas os grupos dominados, com relativa facilidade, delas se apropriam ou criam outras igualmente reprodutivas do sistema que habitam. O capitalismo, creio, dispõe de, pelo menos, dois mitos fundamentais.

Mito 1 – o Self-made man.

O mito do self-made man terá aparecido, de forma ostensiva, nos Estados Unidos em meados do séc. XIX e conta-nos a história do operário fabril, ou outra pessoa de casta mais “humilde”, que, através do seu trabalho e árduo esforço, foi capaz de ultrapassar a sua condição económica e integrar-se numa classe socioeconómica mais favorecida (em termos financeiros). Serve, desta forma, para veicular a ideia de que o liberalismo económico é o único sistema que permite o aumento (grande) de bem-estar e a mobilidade socioeconómica (e política) ascendente. Desta forma, não terá aparecido, apenas, com o sonho americano, tendo as suas bases firmadas, pelo menos, nas reivindicações burguesas do séc. XVIII contra os privilégios auferidos pela nobreza, transmitidos pelo sangue.

Esta história terá, em princípio, origem nas classes sociais mais elevadas e todos os países capitalistas dispõem da sua. Por cá, as figuras meio tristonhas de Belmiro de Azevedo e de Cavaco Silva vão assumindo esse papel.

A historieta está, todavia, muito mal contada e por diversas razões. Em primeiro lugar, o mito refere-se ao homem que se construiu a si próprio e não à mulher, e isto já diz muito sobre a existência de determinados grupos que vêem impedidos os seus percursos ascendente. Depois, normalmente, este homem teve a possibilidade de ter acesso a alguma formação superior. Por fim, a sorte, joga, aqui um papel principal. Assim, o mito é fraco e qualquer pessoa que ganhe 500 euros por mês sabe que terá poucas dificuldades de não “macular” a descendência com a sua condição socioeconómica.

Mito 2 – O dinheiro não traz felicidade.

Este segundo mito acompanha e, muitas vezes, sustenta o sistema capitalista no falhanço do primeiro. Nele está contido todo um conjunto de histórias de desavenças familiares, de depressões (e suicídios), de relacionamentos interesseiros, causados pela abundância de riqueza e, por outro lado, a felicidade que a inexistência da mácula do dinheiro provoca. Desta forma, mesmo que não se conseguisse acumular riqueza e viver, economicamente, de forma desafogada, ao menos auferia-se de amizades e amores verdadeiros e de um contentamento mais genuíno, porque desprovido de preocupações ou bases materiais. A divulgação deste tipo de histórias têm interesse, portanto, tanto para as classes mais abastadas (não vão os pobres começar a querer a partilha do bolo) como para os falhados do sistema.

A “alegria da pobreza” contida em “quatro paredes caiadas” têm particular força em Portugal, porque era parte componente essencial da mitologia dos tempos da “outra senhora”.

Ainda ninguém descobriu, todavia, a equação da felicidade. Aquilo que posso afirmar, com quase absoluta certeza, é que andar a contar os tostões para ver se chega para comprar comida para os filhos é que não pode trazer felicidade de nenhum tipo, por muito masoquista que se seja e que viajar, sair à noite, jantar fora, organizar convívios, ouvir música, ler, escrever, andar vestido como se quer, dar o melhor à descendência, ter uma casa em condições, são tudo actividades e situações que proporcionam prazer a um conjunto alargado de pessoas e que necessitam de investimento de capital. O dinheiro assim, se não produz felicidade, pelo menos abre, em parte, no nosso sistema, o caminho para a mesma.
O segundo mito do capitalismo cai, assim, na companhia do primeiro, em igual descrédito.

E, agora, que história nos contam?

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Mais 100.000 exemplares. Assim seja!



José Rodrigues dos Santos deverá, creio, ser uma pessoa extremamente bem relacionada no seio da Igreja Católica portuguesa. Digo isto porque o Dan Brown português conseguiu a melhor publicidade possível para um livro que põe em causa a doutrina oficial da Igreja - ser comendato em tom depreciativo pela mesma. Melhor, apenas se conseguisse a reinstauração do Index Librorum Prohibitorum e a inclusão da sua obra no primeiro lugar das proibidas.

Tomara José Tolentino de Mendonça ver a sua obra igualmente rejeitada, ao menos, pelo colectivo Panteras Rosa.

A JRS já garantiu, o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, a venda de mais 100.000 exemplares. Assim seja!

PS: E obviamente que não há uma única pessoa, por muito receio que tenha do inferno, que vá deixar de ler o livro do senhor por causa dos ditames da Igreja. Agora, se ao invés d' O Último Segredo, quiserem pegar no Manhã Submersa, no Leopardo ou na Insustentável Leveza do Ser numa qualquer Fnac deste país estarão, certamente, a contribuir muito mais para a salvação cultural da alma.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Estado da América em 2m15s





Como diria a Alberta Marques Fernandes naquele programa do Pingo Doce que passa na RTP e que visa acabar com o estado social: Contra factos, não há argumentos.



Respeitinho à portuguesa.



Aqui há uns anos, ainda eu não havia ingressado no ensino superior, um caso de uma praxe particularmente violenta (que envolvia, inclusivamente, excrementos animais) levou a que se atenuassem as “tradições académicas” ligadas à integração do “caloiro”. Mais recentemente, todavia, têm conhecido um exponencial recrudescimento, o que levou a que, recentemente, seis instituições universitárias “apertassem o cerco à praxe”.

Ainda antes do 25 de Abril, o traje académico, a integração em forma de humilhação dos novos alunos, a reverência para com os estudantes mais velhos, entre outras coisas que tradicionalmente minavam os primeiros encontros dos discentes com a faculdade, haviam sido abandonadas quase totalmente. Eram, e são, práticas que cheiravam a fascismo, a autoritarismo bacoco. Com a massificação da frequência do ensino superior foram sendo, infelizmente, recuperadas, ensinando, desde logo, aos mais novos a obediência, o respeitinho pelos mais velhos, cerceando liberdades de expressão, opinião e pensamento.

Hoje, na Cidade Universitária, e mesmo em bastiões dos movimentos anti-tradição académica (como era a Faculdade de Letras), é corriqueiro, ao longo de todo o ano, encontrar umas dúzias de aparvalhados, vestidos de capa e batina, de colherinha de café na gravata, comandando grupos de adolescentes com ar ainda mais aparvalhado e servil. Uns e outros alheios ao ridículo do espectáculo que protagonizam.

E assim começa o aluno universitário português a aprender que o melhor é não pensar pela própria cabeça, a obedecer mesmo quando a ordem lhe parece estulta, a enquadrar-se mesmo quando a moldura parece não fazer sentido. A maralha é, desta forma e desde o começo, preparada para o caixilho da sociedade portuguesa: pequeno, acrítico, inábil, ineficaz. E depois ainda nos queremos admirar com o facto de não “crescermos”, de “não sermos competitivos” e com outros disparates da mesma igualha.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Da insustentável precariedade do capitalismo.






No rescaldo da queda do muro de Berlim e do posterior colapso da Europa comunista, as teorias do Fim da História ganharam pujança e credibilidade, para além de alguma solidez teórica com os escritos de Fukuyama. Nesta reflexão, não me interessa entrar numa altercação filosófica e abstracta acerca da validade dos argumentos de Hegel (quem primeiro avançou com a possibilidade de se chegar a um final da evolução social, cultural e política das sociedades humanas), mas procurar discutir o impacto (e a veracidade) da propagação da ideia de que a democracia liberal, burguesa, capitalista, consumista, hierarquizada, de estilo ocidental era a alternativa capaz de propiciar um nível de bem-estar e liberdade maior aos seres humanos.

Este discurso era vendido à humanidade havia muitos anos, ainda a União Soviética era uma potência "pujante", interveniente nos 6 continentes e na lua, pelas potências pertencentes ao 1.º Mundo. Existia, contudo, até ao final da década de 80, a opção soviética que ia, de forma igualmente intrujona, prometendo o mesmo. A implosão desta segunda burla a partir do final dos anos 90, remeteu a alternativa comunista para o cemitério da história política e as democracias liberais capitalistas começaram ou continuaram a sua expansão na Europa, América Central e do Sul e, mesmo, na Ásia e África, embora num género já muito mais próximo da farsa evidente. (No nosso país este sistema ideológico-económico consolidando-se em projecto político de governo pela primeira vez em 1976, pela mão do seu grande arauto no período revolucionário, o dr. Mário Soares).

E tudo corria bem. Os Estados Unidos reinavam, finalmente, no panorama geopolítico e económico mundial, o petróleo fluía abundantemente (depois da Guerra do Golfo), as economias cresciam e as sociedades prosperavam, com excepção das brutais crises humanitárias africanas e uma ou outra bancarrota sul-americana, pormenores sem importância, portanto. Até a China já se havia rendido ao liberalismo económico (e o que interessava se no entretanto matava milhares de manifestantes pacíficos em Tiananmen? Afinal, "eles" são tantos, que diferença faz?) e os resquícios do "antigo regime", Cuba e Coreia do Norte, agonizavam sem a ajuda soviética.

O súbito e triste fim dos anos 90 chegou, em 2001, pela mão de 19 terroristas que desviaram quatro aviões comerciais contra alvos económicos e políticos de importância fundamental para os Estados Unidos da América. Mataram mais de 2.000 pessoas e demonstraram que nem todos estavam contentes com o sistema que imperava. O incidente não abalou, todavia, as fundações da benevolência e eficácia do sistema capitalista - os sequestradores não passavam de um bando de loucos assassinos, produto de sociedades fundamentalistas de características medievais. E os primeiros anos do séc. XXI foram continuando a correr de feição para o sistema democrático liberal capitalista. É certo que a Europa e os EUA cresciam cada vez menos, mas a China, a Índia, entre outros países que foram liberalizando os respectivos "mercados", iam demonstrando que a ideologia estava correcta - e que a equação crescimento económico = democracia, se não se tinha verificado, ainda, na prática de alguns países, iria, com certeza, no futuro, instalar-se obrigatoriamente. Era uma questão de tempo.

A "crise" de 2008 veio, todavia, pôr um fim ao conto de fadas. Pela primeira vez desde, pelo menos, a "derrota" do comunismo, as democracias liberais capitalistas ocidentais quebravam a promessa do crescimento constante e aumento permanente do bem-estar e as soluções apresentadas por "ajudas" externas, fundos de resgate e FMI (os expoentes da "solidariedade" capitalista) falhavam redondamente. Na Europa e nos EUA, os cidadãos sabem que vão viver pior do que os seus pais. Em Portugal sabemos que vamos viver muito pior (sobreviver?). E têm-se manifestado contra isso (i, ii, iii, iv, v) E, ainda assim, as alternativas têm tendido a não encontrar espaços amplos de afirmação. No "mundo ocidental", as democracias liberais, apesar dos rotundos falhanços, mantêm-se, na mente das pessoas, como alternativa única.

Não o são. Cumpre, penso, voltar a considerar soluções baseadas num marxismo democrático (socialismo, social-democracia, etc.). Porque a realidade é que as pessoas em Portugal e na Europa democrática e capitalista já passam fome. Fome, num país e num continente em que há pessoas que ganham milhares de euros por dia. A crise financeira é, portanto, nalguns aspectos, uma farsa, porque o capital existe, e sai a rodos nos melhores restaurantes, stands de automóveis e lojas de roupa. Como dizia Teresa Ricou (na forma expressiva e chã como costuma manifestar-se, imbricando-se com o seu alter ego), numa recente tertúlia no Bartô, "dinheiro existe, está é muito mal distribuído!". É imperativo, em Portugal até por obrigatoriedade constitucional, que se ponham, então, todos os recursos financeiros ao serviço da igualdade e do bem-estar da totalidade dos cidadãos.

Não se pode, creio, continuar a aceitar que 1 possa comprar uma Louis Vuitton (é assim que se escreve?) por 2.000 ou mais euros, quando, nas arcadas do prédio do lado, 20 ou 30 dormem em "camas" de cartão e jornal. O socialismo e as suas variantes democráticas terão, então, de encontrar o caminho da afirmação política. E podem começar pela reivindicação da origem dos poucos mecanismos sociais europeus que têm conseguido, cada vez menos, porque cada vez mais atacados por políticas liberalizantes, dar a um conjunto relativamente alargado de pessoas uma vida um pouco mais digna: serviços nacionais de saúde e educação, sistemas de segurança social, etc.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A "queca habitual", uma crónica de maus costumes.



Nos tempos que correm, tornou-se habitual teorizar sobre o sexo sem compromisso como se de uma realidade nova se tratasse. Não o é inteiramente, mas as expressões que foram aparecendo para caracterizar o fenómeno quando este adquire carácter de habitualidade têm interesse e vale a pena, sobre as ditas e sobre os comportamentos e regras que estão implícitos à sua prática, divagar um pouco.


A "queca habitual" (tradução liberal do inglês fuck buddy) refere-se à prática de sexo sem compromisso com uma mesma pessoa por um período de tempo relativamente alargado. Não tenho a certeza de quando tempo é necessário para qualificar uma "queca" como "habitual", mas creio que terá, pelo menos, de ultrapassar os dois meses de encontros intermitentes. A inexistência de compromisso significa que qualquer das partes apenas pode exigir da outra comportamentos que estejam (directamente) relacionados com a prática sexual. Sentimentos, fidelidade, conversas, intelectualidades, cafés, saídas á noite, cinemas, carinho, atenção ficam de fora. O encontro tem o propósito bem definido e qualquer afastamento em relação ao estipulado faz perigar a "relação" de sexo habitual-ocasional. A "queca habitual" existe para satisfazer "necessidades físicas", e nada mais.


Agora, grita a veia puritana que palpita cá dentro, alguém acredita nisto? Que é possível afastar sentimentos, necessidades intelectuais, complexos, medos, da trapalhada que é o sexo? Que é possível trilhar os caminhos da complexidade de uma relação sexual satisfatória com alguém com quem não se fala, num relacionamento onde não existe, pelo menos, preocupação, carinho, numa situação onde não se recebe um mínimo de atenção, onde não se ultrapassa o físico, o animalesco? E que interesse tem uma relação deste tipo, em que momento ultrapassa a "punheta"? É assim tão diferente, tão proveitosa a masturbação com um corpo alheio?


Eu não consigo estabelecer relacionamentos desta índole. E mais, não consigo, tão-pouco, concebê-los. No fundo, que interesse pode ter reduzir a profusão de elementos que compõem a existência humana ao factor físico-sexual? Como se pode foder com alguém e depois deixá-lo ir sem mais? Se calhar, no meio do meu idealismo político, ideológico e existencial, quero encontrar no sexo relações que não devem/podem lá ter lugar. Não sei, mas prefiro, por agora, continuar a acreditar que uma pessoa, qualquer que seja, por menos interesses que tenha, por menos interessante que possa ser, é sempre mais do que um pedaço de carne.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

E se os ensinassem a pensar?












Ao que parece, terá entrado no curso de Medicina um número ainda não apurado de alunos que terão completado o ensino recorrente com médias elevadíssimas, que, em muitos casos, chegavam mesmo ao redondo 20. Não foi em gigante estado de surpresa que tomei conhecimento deste facto, na medida em que anda por aí muito aluno de medicina que me parece, efectivamente, advindo do mais refundido dos ensinos recorrentes.





Agora procurando falar de forma mais séria (mas se calhar não mais verdadeira), a facilidade do ensino secundário (geral ou lá como lhe chamam) coaduna-se, perfeitamente, com a sua realização num único ano lectivo. E aqui não vejo problema nenhum, que o ensino secundário até poderia ser reduzido a um mês de estudos, desde que nesse tempo se conseguisse que os alunos aprendessem a pensar. A pensar, simplesmente, pela própria cabeça, a procurar informação, a desenvolver capacidade crítica. Mas isso não interessa a ninguém, pais, professores e políticos incluídos.




PS: a verdade é que se a situação não estivesse a ser aproveitada para o acesso ao sacrossanto curso de medicina ninguém tinha dado por ela. E eu bem percebo. É que é como se diz...depois de entrar em medicina...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

“Tenho relações óptimas com pessoas gay”





Faz hoje quase um mês que José António Saraiva, estava eu de férias por Amsterdão, publicou na sua espécie de jornal semanário (o Sol) um artigo de "opinião" intitulado "dois maridos". Na referida peça, revelando o fraco conteúdo a que JAS nos vem habituando há já algumas décadas, o director do semanário partia de um caso de alegada agressão entre um casal homossexual para exercer o seu mais firme repúdio em relação ao alargamento do casamento civil a casais formados por pessoas do mesmo sexo. Li aquela menoridade jornalística e achei-a tão idiota, tão fora de contexto, tão carente da mínima validade argumentativa que não me aprouve, de forma alguma, nem informalmente com amigos, comentá-la. O casamento entre pessoas do mesmo sexo (CPMS) já foi aprovado há tanto tempo, já está tão consolidado, temos tantos novos assuntos socialmente relevantes para discutir (eutanásia, legalização de drogas leves, da prostituição) que não consegui, tão-pouco, entender a polémica. Ainda por cima, no final, introduzia a martelo uma referência completamente idiota ao romance de Jorge Amado (Dona Flor e Seus Dois Maridos)...Enfim, era tudo tão mau que a crítica teria, forçosamente, de se estender por muitos mais caracteres do que aqueles que a falta de originalidade do artigo e da temática merecia.



Não obstante, não sei muito bem como, mas certamente porque dos dois lados da barricada, nos homófobos e nos radicais da homossexualidade, há muito idiota e muito pouco de útil para fazer, o escrito de JAS gerou uma polémica gigantesca. Esta notoriedade levou a que o jornalista a clamar, no mesmo semanário, duas semanas depois, pela liberdade de expressão e a conceder uma entrevista que saiu na mais recente edição da Time Out. É sobre duas ou três coisas que li nas referidas peças, e agora entro na ineptidão geral, que não consigo deixar de palpitar.



Em primeiro luga, diz JAS, na entrevista à Time Out, que a opinião que fez publicar se destinava a provocar polémica e que "carregou em certons tons" para, qual pintor impressionista, realçar determinados aspectos do quadro. Primeiro, não vejo onde vir repetir pela milionésima vez a ladainha de que até o homófobo mais devoto se encontra enfastiado pode criar algum tipo de polémica séria. Dizer disparates, como tratar um homem pelo sexo feminino, questionar-se sobre se um casal homossexual masculino é composto por duas esposas ou fazer corresponder massagista a prostituto, pode, por outro lado, até criar alguma polémica, mas apenas do tipo menos sério que as contas da RA Madeira. O que já me parece, por fim, demais é a comparação daquele lixo literário com a concepção de uma qualquer obra de arte e o pedido de tolerância em relação a um artigo que só revela uma total falta da mesma em relação à diferença.



E, já agora, vir, depois do chorrilho de disparates ofensivos que foram arremessados contra aquilo que JAS chamou a "comunidade gay", afirmar possuir "óptimas relações com pessoas gay" soa àquela desculpa patética do menino que chamou "preto de merda" ao colega de escola.

As razões da ausência.

Sul de Espanha.

Amsterdão.

Boa Vista.

(faltam fotos e alguns comentários, mas aparecerão - uns e outros).

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Experimentar.




Quando escrevia sobre política ou questões sociais ligadas a interacções humanas mais gerais, digamos, não passavam dois ou três posts sem receber um ou outro comentário. Ultimamente, tenho-me atrevido a lançar algumas ideias sobre amor e relacionamentos. E ninguém tem dito nada. Isto pode ter duas explicações: ou são como eu e não percebem, também, nada disto, ou consideram que aquilo que tem sido escrito é tão tonto e desfasado de tudo o que é real e que convosco acontece que desmerece qualquer tipo de nota. (Não que eu percebesse grande coisa de política, mas pelo menos nesse campo, creio, auferia de menos dúvidas em relação à minha própria experiência pessoal e convicções internas). Tenho, todavia, tido uma necessidade grande de discutir estas questões e, portanto, aqui vai mais uma atoarda, sobrevoando o vosso silêncio ou desdém.

No outro dia, no mítico Bairro Alto, discutia com a B. sobre relacionamentos. Ela dizia-me ser incapaz de estabelecer um contacto de carácter amoroso/sexual com uma pessoa com quem não namorasse. A B. não "curte", não "come na noite" (que expressão, realmente), só namora. E namora sempre por pouco tempo. Eu achei estranho. Em primeiro lugar, porque quando se conhece alguém começa-se por "curtir", por conhecer "sem compromisso", como quem vai às compras de roupa e leva uma peça de que gostou para os provadores. Depois veste-a, sente-lhe o tecido, observa o corte, a maneira como assenta, a forma que adquire no corpo. Se gostar, compra-se, senão descarta-se. Com a construção de uma namoro, o processo é semelhante. Hoje, já ninguém compra sem experimentar. E bem.

Mas o experimentar, a prática de relações amorosas relativamente fortuitas, não funciona, somente, penso eu, como precedente da compra. Muitas vezes não se ultrapassa, nem se quer, à partida, ultrapassar, a fase da experimentação. Como quem gosta de uma roupa que sabe perfeitamente que lhe assentará mal. E mesmo assim, pega nela e entra no vestiário. Aqui o acto de experimentar tem uma função primacialmente lúdica e, secundariamente, de sondagem do "mercado". Ver quem anda disponível, porquê, o que têm normalmente as pessoas para oferecer, o que pretendem, como se sentem com elas próprias, como se relacionam. A angariação de todas estas informações será de grande importância quando, em momento posterior, encontrarmos alguém que consideremos merecedor de uma atenção diferente.

Experimentar é, desta forma, acho eu...e isto não é grande coisa, bem sei, o alicerce de relações saudáveis posteriores. O pior é quando, por medo, por hábito, por necessidade, nos quedamos sempre nesta primeira fase.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Relação de verdades, verdades em relação ou sobre relações.




A verdade do movimento e do activismo LGBT, que convém passar para a televisão, em que já só os néscios acreditam (ou aqueles com agendas - políticas, pessoais, etc. - interesseiras):


1 - As relações homossexuais têm (falo deste momento, não do futuro ou do que deveria ser ou seria justo que acontecesse) o mesmo valor (importância) social que as congéneres heterossexuais.


2 - Uma relação entre dois homens funciona de uma forma exactamente igual a uma relação entre um homem e uma mulher.


3 - As relações homossexuais têm o mesmo potencial de sucesso que as similares heterossexuais.



A verdade pragmática e sem merdas:


1 - As relações homossexuais são, ainda hoje, altamente desvalorizadas. Esta depreciação social continamina qualquer relacionamento entre dois homens. Nenhum gay pode dizer que o seu namoro ou casamento vale ou importa tanto (social e, no caso do casamento, juridicamente - não entremos nas parvoíces do interior, do amor e outras merdas, porque, feliz ou infelizmente, o estabelecimento de uma relação ultrapassa em muito simples existência destes sentimentos) como os semelhantes heterossexuais.


2 - Uma relação entre dois homens não pode, nunca, funcionar da mesma forma que uma relação entre um homem e uma mulher. Homens e mulheres são diferentes - e podem-me responder com um "todas as pessoas são diferentes" que eu mando-vos para o caralho, porque negar os constrangimentos sociais e biológicos é estúpido. Na orientação sexual/afectiva homossexual a pessoa e o objecto da sua "afeição" pertencem ao mesmo género. Isto gera, no mínimo, maior confusão.


3 - Por estas razões, neste momento da história deste país, as relações homossexuais têm menos potencial de sucesso que as heterossexuais.



pós-escrito: Esta reflexão minúscula deve ser situada face às condições próprias do nosso país neste momento e refere-se, exclusivamente, ao universo homossexual masculino.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A verdade vos libertará (João 8:32).










Diz o povo que "as verdades são para ser ditas" e que "quem diz a verdade não merece castigo". Destes ditados podem ser retiradas duas ilações. A primeira, e mais evidente, é a de que as verdades devem ser proferidas e que nenhuma consequência negativa deve recair sobre a pessoa que as profere. A segunda, derivada desta primeira, diz-nos que o simples facto de uma afirmação ser verdadeira limpa os resultados desastrosos que a sua divulgação possa provocar. De uma forma um pouco mais longínqua, o que, no fundo, estes ditados populares nos estão a dizer é que a verdade iliba o comportamento negativo que se confessa. E é isto que, de facto, dizemos às nossas crianças. Dizer a verdade acerca do cometimento de uma qualquer asneira é o primeiro passo, e o mais importante, para a obtenção do perdão.

Nas religiões e culturas judaico-greco-cristãs a verdade é uma virtude de importância primacial. O Evangelho é A Verdade, Cristo veio transmitir a verdade, o oitavo mandamento contém a proibição do levantamento de falso testemunho, o perdão de Deus assenta na confissão da verdade. Deus limpa tudo, desculpa tudo, desde que o ser humano admita o erro, lhe confesse a falta. O ser humano passa a agir de uma forma similar em relação ao seu semelhante. A verdade é curativa. A sinceridade é a qualidade que qualquer pessoa, por mais incapacidades congitivas que possua, procura na relação com o outro. Nestes (I, II e III) inquéritos muto básicos do yahoo, veja-se a quantidade de vezes que aparecem a sinceridade e a honestidade, preterindo a inteligência, a rectidão de carácter, a gentileza, a bondade, a lealdade, o bom humor e, mesmo, a beleza física. Parece, assim, que tudo é aceite, desde que, depois ou antes?, se diga a verdade. Dá-se a entender, até, que a sinceridade e a honestidade ilibam um péssimo carácter.

E faz isto algum sentido? A mim parece-me, sinceramente (e lá estou eu a cair na puta da minha cultura), que não. Em primeiro lugar, cumpre perguntar o que é a verdade. E isso levava-nos para uma merda de uma discussão sem fim, mas o que interessa reter é que a verdade é (mesmo nas ciências ditas exactas, por que mesmo nessas estamos a ver as coisas de uma determinada perspectiva e limitados pela nossa (in)capacidade) subjectiva. A verdade é, no fundo, aquilo em que uma pessoa acredita. Depois, baseado nesta primeira conclusão, quando se diz que se quer que uma qualquer pessoa seja sincera, do que estamos à procura não é da verdade, mas daquilo que a pessoa pensa. Por fim, e mesmo aceitando que tudo o que se disse não desvaloriza a verdade, será que faz, efectivamente, sentido pensar num efeito curativo, ilibatório da assunção de uma falta ou erro em relação ao outro.

Só posso considerar que não. Não à partida. Poderá haver, eventualmente, situações em que se justifique a admissão do cometimento de uma acção menos correcta e isso possa ter um efeito positivo na pessoa que a sofreu. Não, todavia, na maior parte dos casos, nos quais o culpado procura, somente, espalhar o veneno da (sua) verdade, por forma a evitar a corrosão interior que o mesmo lhe provocaria. Normalmente, assim, contar a verdade não é mais do que uma atitude egocentrada (e reveladora de baixo auto-conceito e, até, de alguma falta de carácter) de procura de um certo tipo de conforto, de propagação do sentimento negativo, de atenuação pela contaminação da vítima do fracasso do erro. Desacompanhada de atitudes destinadas ao atenuamento do malefício provocado, a sinceridade, a honestidade, a verdade na admissão da incorrecção não têm mais efeitos que a inoculação solitária de uma vacina que necessita de mais dez para fazer efeito.

Assim vos digo, caríssim@s (assim, com @ que é para @s gaj@s não ficarem fodid@s), deixem de se preocupar com a puta da verdade e passem é a agir da forma mais correcta que a merda do vosso carácter permitir. E quando não vos for possível serem melhores pessoas, tenham, pelo menos, a dignidade de não pretender limpar a foda que arranjaram com as honestidades e sinceridades. É que só fica tudo tão sujo como quando um qualquer empregado de café passa um daqueles panos ultra-nojentos na nossa mesa para "limpar as migalhas".

PS: não se trata esta reflexão de uma invectiva ou recado para ninguém em particular - não nos alcandoremos em importâncias que não temos -, mas da fixação em pedra de um alerta, essencialmente, destinado ao autor da gravação. Contudo, a minha cabeça é grandita e, assim, acredito que a carapuça sirva a muit@ outr@s (outra vez as @ que há-de haver feministas - aka lésbicas - a ler isto).

PPS: Sim, nos últimos posts tenho usado expressões próprias de um linguajar mais rude. Essencialmente, porque tenho escrito estas merdas como se estivesse a falar. E se o António Lobo Antunes pode, então eu também posso.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Uma vida de acção humanitária a favor de si próprio.



Fernando Nobre renunciou ao mandato de deputado por se sentir mais útil na acção cívica e humanitária. Ainda não tinha escrito sobre a "situação Fernando", mas, agora, merece-me dois pequenos apontamentos.


Em primeiro lugar, o mais assustador neste imbróglio é a falta de inteligência (para não dizer pior) do actual primeiro-ministro. Mas quem é que se lembra de convidar o candidato presidencial da família Soares para deputado e candidato a Presidente da AR? Assusta-me que tenha sido a uma pessoa tão desprovida de uma noção mínima da realidade que entregámos o governo deste país. Mas, enfim, o FMI e, no restante, o Paulo Portas tratarão da "governação real" e, portanto, Passos Coelho terá, graça a Deus, uma margem de manobra muito reduzida para a realização de mais disparates. (Atenção, contudo, que não me descansa mais, muito pelo contrário, os destinos do país ficarem nas mãos daquela organização proto-fascista ou do outro, o mestre do embuste - na vida pessoal e política, e sabemos bem do que falo nos dois campos).

Quanto a Fernando Nobre, espero que os quase 600.000 tontos que votaram na criatura nas presidenciais deste ano e todos aqueles que ainda tinham alguma esperança na sua acção social e humanitária se apercebam que o senhor nunca vivei PARA, mas sempre DA AMI, tal como, agora, passaria a viver DAS e não PARA as pessoas, através de um qualquer cargo político que assumisse. Enfim, restar-lhe-á, sempre, certamente, um convitezito de um lado qualquer para ser Conselheiro de Estado. Deus nos ajude!





quinta-feira, 30 de junho de 2011

Discriminação de dentro para fora.




Há quem considere que gays e lésbicas, por pertencerem a uma classe discriminada, seriam bastante mais tolerantes em relação à diferença. A prática e o estudo teórico destas questões vem demonstrando que a realidade nos revela, exactamente, o contrário. Os estudos que têm vindo a ser realizados dizem-nos que as minorias segregadas (independentemente da motivação ser sexual, racial, cultural, etc.) são as que têm mais dificuldade em aceitar a diversidade. É assim que, por exemplo, na Califórnia, os afro-americanos eram o grupo social onde existiam mais opositores à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Podia pensar-se que isto derivava, não do ciclo vicioso da violência - violência gera violência -, mas do facto de, habitualmente, os grupos sociais mais discriminados (ciganos, imigrantes, pobres, etc.) auferirem de uma menor educação. Os gays quebrariam, então, este ciclo. É pertença do senso comum a evidência de que o gay tem, pelo menos, um curso superior (ainda que possa ser na área das "artes"), integra-se na classe média e aufere de algum poder económico (tem de haver dinheiro para um qualquer trapinho Prada ou Chanel, não é?) (Aos outros homens que se sentem atraídos por pessoas do mesmo sexo damos o nome de "paneleiros". Às mulheres gay chamamos "lésbicas". As outras não contam).

Acontece que mesmo o gay foi vítima de algum tipo de discriminação e desenvolveu, no seio da comunidade a que pertence, mecanismos de defesa e de isolamento. Assim, muito dificilmente, poderia ter a mente mais aberta no sentido da aceitação da diferença alheia. É desta forma que consigo ver, de uma forma muito clara e com confessa tristeza, uma profunda carga discriminatória na comunidade gay lisboeta, com raízes, sobretudo, raciais e económicas, mas também sexuais - imagine-se! (ou quem pensam que cunhou e mais utiliza o termo "bicha"?). É, igualmente, com base na ideia de que as castas discriminadas têm uma maior tendência para desenvolver sentimentos discriminatórios que se podem entendem a abstrusa aliança que gays e lésbicas formaram, na Holanda, com os partidos da extrema-direita racista no sentido de combater a "influência muçulmana

Como podem, gays e lésbicas, pedir aceitação e tolerância se são, muito mais vezes do que aquilo que poderia ser considerado aceitável, os primeiros a ostracizar? Acredito que a discriminação (independentemente da base ser racial, sexual ou outra) tem toda a mesma base e que a maior ameaça à igualdade não vem das componentes mais mainstream de uma sociedade (o homem, branco, classe média, heterossexual, católico), mas do sentimento alimentado pelas próprias classes mais discriminadas. A pior discriminação não é aquela que vem de fora, mas a que nasce dentro da comunidade vítima do desprestígio social. E é com essa que temos, sempre, menos cuidado.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Ensaio sobre o Amor: José e Pilar.



Cumpriu-se a semana que passou um ano da morte de José Saramago, único Nobel da Literatura português. Eu era, e sou, um fã. Em primeiro lugar e como é óbvio, da escrita. Depois, de algumas concepções políticas e ideológicas que prosseguia - marxismo, iberismo. Por fim, auferíamos de um inimigo comum - Cavaco Silva. Da Pilar, grande amor da vida de Saramago, não gostava minimamente. Ou melhor, não tinha grande opinião, mas, inconscientemente e porque sou português, desagradava-me o facto de uma mulher tão nova (38 anos) ter casado com um homem tão mais velho (66 anos). Preconceitos. Há uns meses, todavia, vi no cinema (e repeti agora na televisão) o documentário "José e Pilar" e não podia ter ficado mais encantado com a segunda mulher do escritor. Uma mulher extremamente cativante, determinadíssima, de ideias muito claras e que, sobretudo, o amava imensamente. Não é, não obstante, sobre ela ou ele que recai a minha reflexão de hoje, mas sim sobre o sentimento que nutriam um pelo outro e que, confesso, me é muitas vezes desconhecido. E falo do Amor. (Assim, com todo a piroseira que é escrevê-lo com letra maiúscula, mas também com toda a admiração, distância, estranheza e encantamento que nutro pelo sentimento e que exponho com uma letra "grande" no início. Um pouco como quando escrevo Deus, e não deus).

Eu já havia "visto" o Amor, nos meus avós, mas já não me lembrava. Quando comecei a ter idade para amar, reparei que ou não conseguia, ou não valia a pena. Ou melhor, muitas vezes, não conseguia, sequer, conceber o sentimento. Dizia que era amizade + sexo. Depois, vi que não. Deveria existir algo mais, porque o sentimento e a sensação anteriores já eu os havia experimentado na mesma pessoa e tinha a certeza que não era Amor. Amor era algo mais. A esse "algo mais" tive acesso no documentário "José e Pilar". Eles amavam-se. Verdadeiramente. E o sentimento manifesta-se de uma forma tão ostensiva que até eu o consegui ver. E bastou-me olhar para eles. Não tive necessidade de raciocinar ou intelectualizar nada, de procurar razões, de indagar. Estava ali, eu vi, e isso bastou-me.

A verdade, contudo, é que o que eu vi no "José e Pilar", não vejo na esmagadora maioria dos casais com os quais me cruzo diariamente. Álias, pensando agora aqui um minuto, penso que o vejo, somente, em mais quatro pessoas (dois casais) que conheço e nunca o vi em ninguém da minha idade. Isto faz-me pensar. Será que todas as pessoas tem acesso ao Amor, ou está reservado para uns quantos que aufiram de uma inteligência emocional superior? É que há um certo número de actividades intelectuais que estão acessíveis, apenas, a pessoas com uma inteligência cognitiva acima da média. É natural, portanto, que o mesmo se passe com as actividades que podem ser exercidadas pela inteligência emocional, nas quais se inclui o Amor. E o Amor será, certamente, das mais complexas.

Saramago não me parecia, ao contrário de Pilar, contudo, uma pessoa com uma inteligência emocional extraordinariamente elaborada. Nesse aspecto, parecia-me que, até ter conhecido Pilar, era uma pessoa, até, um pouco desumana. E, no entanto, lá estava ele a amar. E eu vi. E mesmo nesa foto que aqui publiquei se vê. E então deixei cair a ideia da eleboração emocional e fiquei sem nenhuma.

Mas duas coisas sei sobre o Amor. Quando há Amor não há vontade de partilhar o sexo com outra pessoa. E no Amor sentimo-nos melhor quando acompanhados por que amamos do que sozinhos.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Pensar, sentir, foder.





A matriz greco-cristã que influenciou a maior parte das considerações intelectuais sobre as matérias que me preocupam nesta reflexão separa entre o mundo físico (das coisas) e o intelectual (das ideias). (Na religião hindu, e nas filosofias que a circundam, esta separação encontra-se, penso, muito mais esbatida). Relacionando estas categorias com a existência humana, é possível separar o corpo do intelecto ou mente. (A alma será uma outra componente, distinta, em príncipio, do corpo, mas também da faceta intelectual do homem, auferindo de uma existência autónoma, pelo menos no que diz respeito à crença cristã. Não nos preocupa aqui, contudo, esta vertente da realidade humana). Com o corpo sente-se. Com o intelecto, creio, pensa-se e sente-se. Assim, numa primeira aproximação a estas questões e tendo como paradigma a forma como são pensadas no "mundo ocidental", pode-se dizer que pensamos e que sentimos. E sentimos física e intelectualmente.

O que me tenho, recentemente, perguntado é se faz, efectivamente, sentido pensar nestas "categorias" como compartimentos estanques da experiência humana ou se não actuam, todas elas, quase sempre, ao mesmo tempo. Falo de situações mais complexas - gostar de alguém, sentir-se realizado num trabalho, etc. - e não de questões físicas mais simples, como sentir frio ou calor - e mesmo aqui, pensando bem, pode ser encontrada uma componente intelectual e emocional (mas enfim, esqueçamos isto por agora). É que, quando gostamos de alguém, quando sentimos, por exemplo, amizade por uma determinada pessoa, estamos, certamente a pôr em prática uma certa componente emocional da nossa actuação. A verdade é que temos, creio eu, sempre determinadas razões (intelectualizadas com base nas características físicas ou psicológicas de outra pessoa) que alimentam esses tais sentimenso positivos - amizade, amor, carinho, etc. Assim, se penso que é possível defender que não é possível escolher quem se ama (em sentido lato) - creio que é defensável que não se possa escolher aquilo de que se gosta - , já considero que não é possível dizer-se que não se entende porque se gosta de alguém.

A pedra-de-toque destas questões pode ser encontrada, creio eu, nas interacções sexuais. É que, aqui, as componentes física, intelectual e emocional (sentimental) estão presentes de uma forma extremamente imbricada e, contudo, existe quem assevere que é possível separá-las e, por exemplo, foder com o intuito exclusivo de suprimir uma necessidade física - um pouco como urinar ou comer. Mas será verdadeiramente possível, ao ser humano, não pensar, sobretudo na interacção com outra pessoa? Estar, ali, só a sentir? E será, por outro lado, possível estar com outro ser humano sem alimentar o mínimo sentimento? Ter e dar prazer - físico - sem sentir o mínimo interesse sentimental ou intelectual pela pessoa com quem se está, num acto tão íntimo como o sexo? Masturbar-se com um outro corpo? É possível isolar de uma forma quase absoluta a componente animal do ser humano?

Confusos? Eu também.

PS: E sim, o título deste texto é inspirado naquele livro (e filme). Por vezes, também aqui somos mainstream.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Budapest Pride.




Estive de férias/ trabalho voluntário (daí, também, uma certo abandono a que votei a escrita nese blogue). A uma semana passada no Algarve, seguiu-se um fim-de-semana em Budapeste, Hungria, para participar no Budapest Pride (o evento comemorativo do Orgulho LGBT na capital húngara). Infelizmente, alguns grupelhos pseudo-nazis e nacionalistas têm vindo a perturbar este tipo de comemorações naquele país e, assim, tem sido importante a participação de elementos da Amnistia Internacional na manifestação no sentido de pressionar as autoridades húngaras para porem em prática todas as medidas de segurança necessárias para garantir que toda a gente possa exercer a sua liberdade de expressão e manifestação de uma forma pacífica. Foi esta a razão que me levou á referida cidade.

Cheguei segunda-feira pela hora do almoço e parti no domingo de manhã. Não tive, portanto, muito tempo para visitar toda a cidade. Foi, contudo, suficiente para adorar tudo o que pude ver. Budapeste é lindíssima e bem merece o epíteto de "Paris do Leste" - os edifícios, as ruas, os cafés, o rio, os barcos, as esplanadas, os músicos de rua, tudo lembra a capital francesa. A noite, então, é absolutamente fantástica. No Verão, o tempo mantém-se bastante quente à noite, o que permite que se possa andar na rua envergando, apenas, uma camisa ou t-shirt (ou menos...= P). Depois, a variedade dos espaços nocturnos (gay, hetero, mais soft, mais hardcore, mais sexuais, menos sexuais, etc.) é muito grande, mesmo, e, pelo que conheci, muito interessante.

O que mais me encanta (sim, esta expressão é fruto do convívio com um nuestro hermano)na Europa de Leste são as contradições inerentes às sociedades dos países que compõem aquele espaço. Em Budapeste tudo isto é muito visível: a sociedade é profundamente conservadora, o movimento neo-nazi é gigantesco, os preconceitos católicos avassalam vastos sectores sociais; e, contudo, nunca vi uma cidade mais sexual (a verdade, também, é que nunca estive em Amsterdão), as sex-shops abundam, há um clube de strip em cada esquina, uma sauna gay, um espaço de swing, discotecas hardcore, com glory holes, sexo ao vivo, etc. As interacções amorosas, digamos, nas discotecas e bares são, depois, bastante evidentes e descomplexadas. Os húngaros são, também, bastante corajosos. Não se deixam intimidar por meia dúzia de contra-manifestante e persistem em manter uma defessa acérrima das suas liberdades sexuais, de expressão, de manifestação, religiosas, ideológicas, etc.

A fortíssima identidade e especificidade nacional e histórica portuguesas afastam-nos de alguns aspectos cruciais da sociedade húngara: algum fanatismo religioso, a discriminação em relação a outros povos e línguas e o forte movimento nacionalista-racista que tudo isto gera. Temos, todos aqueles que defendemos os direitos humanos (e não só os que dizem respeito á liberdade sexual) algumas importantes lições a aprender com aquele povo - preseverança, combatividade, coragem, criatividade e empenho. É que, de facto, aqui, arriscamos tão pouco (por comparação).