
Nos tempos que correm, tornou-se habitual teorizar sobre o sexo sem compromisso como se de uma realidade nova se tratasse. Não o é inteiramente, mas as expressões que foram aparecendo para caracterizar o fenómeno quando este adquire carácter de habitualidade têm interesse e vale a pena, sobre as ditas e sobre os comportamentos e regras que estão implícitos à sua prática, divagar um pouco.
A "queca habitual" (tradução liberal do inglês fuck buddy) refere-se à prática de sexo sem compromisso com uma mesma pessoa por um período de tempo relativamente alargado. Não tenho a certeza de quando tempo é necessário para qualificar uma "queca" como "habitual", mas creio que terá, pelo menos, de ultrapassar os dois meses de encontros intermitentes. A inexistência de compromisso significa que qualquer das partes apenas pode exigir da outra comportamentos que estejam (directamente) relacionados com a prática sexual. Sentimentos, fidelidade, conversas, intelectualidades, cafés, saídas á noite, cinemas, carinho, atenção ficam de fora. O encontro tem o propósito bem definido e qualquer afastamento em relação ao estipulado faz perigar a "relação" de sexo habitual-ocasional. A "queca habitual" existe para satisfazer "necessidades físicas", e nada mais.
Agora, grita a veia puritana que palpita cá dentro, alguém acredita nisto? Que é possível afastar sentimentos, necessidades intelectuais, complexos, medos, da trapalhada que é o sexo? Que é possível trilhar os caminhos da complexidade de uma relação sexual satisfatória com alguém com quem não se fala, num relacionamento onde não existe, pelo menos, preocupação, carinho, numa situação onde não se recebe um mínimo de atenção, onde não se ultrapassa o físico, o animalesco? E que interesse tem uma relação deste tipo, em que momento ultrapassa a "punheta"? É assim tão diferente, tão proveitosa a masturbação com um corpo alheio?
Eu não consigo estabelecer relacionamentos desta índole. E mais, não consigo, tão-pouco, concebê-los. No fundo, que interesse pode ter reduzir a profusão de elementos que compõem a existência humana ao factor físico-sexual? Como se pode foder com alguém e depois deixá-lo ir sem mais? Se calhar, no meio do meu idealismo político, ideológico e existencial, quero encontrar no sexo relações que não devem/podem lá ter lugar. Não sei, mas prefiro, por agora, continuar a acreditar que uma pessoa, qualquer que seja, por menos interesses que tenha, por menos interessante que possa ser, é sempre mais do que um pedaço de carne.




