A matriz greco-cristã que influenciou a maior parte das considerações intelectuais sobre as matérias que me preocupam nesta reflexão separa entre o mundo físico (das coisas) e o intelectual (das ideias). (Na religião hindu, e nas filosofias que a circundam, esta separação encontra-se, penso, muito mais esbatida). Relacionando estas categorias com a existência humana, é possível separar o corpo do intelecto ou mente. (A alma será uma outra componente, distinta, em príncipio, do corpo, mas também da faceta intelectual do homem, auferindo de uma existência autónoma, pelo menos no que diz respeito à crença cristã. Não nos preocupa aqui, contudo, esta vertente da realidade humana). Com o corpo sente-se. Com o intelecto, creio, pensa-se e sente-se. Assim, numa primeira aproximação a estas questões e tendo como paradigma a forma como são pensadas no "mundo ocidental", pode-se dizer que pensamos e que sentimos. E sentimos física e intelectualmente.
O que me tenho, recentemente, perguntado é se faz, efectivamente, sentido pensar nestas "categorias" como compartimentos estanques da experiência humana ou se não actuam, todas elas, quase sempre, ao mesmo tempo. Falo de situações mais complexas - gostar de alguém, sentir-se realizado num trabalho, etc. - e não de questões físicas mais simples, como sentir frio ou calor - e mesmo aqui, pensando bem, pode ser encontrada uma componente intelectual e emocional (mas enfim, esqueçamos isto por agora). É que, quando gostamos de alguém, quando sentimos, por exemplo, amizade por uma determinada pessoa, estamos, certamente a pôr em prática uma certa componente emocional da nossa actuação. A verdade é que temos, creio eu, sempre determinadas razões (intelectualizadas com base nas características físicas ou psicológicas de outra pessoa) que alimentam esses tais sentimenso positivos - amizade, amor, carinho, etc. Assim, se penso que é possível defender que não é possível escolher quem se ama (em sentido lato) - creio que é defensável que não se possa escolher aquilo de que se gosta - , já considero que não é possível dizer-se que não se entende porque se gosta de alguém.
A pedra-de-toque destas questões pode ser encontrada, creio eu, nas interacções sexuais. É que, aqui, as componentes física, intelectual e emocional (sentimental) estão presentes de uma forma extremamente imbricada e, contudo, existe quem assevere que é possível separá-las e, por exemplo, foder com o intuito exclusivo de suprimir uma necessidade física - um pouco como urinar ou comer. Mas será verdadeiramente possível, ao ser humano, não pensar, sobretudo na interacção com outra pessoa? Estar, ali, só a sentir? E será, por outro lado, possível estar com outro ser humano sem alimentar o mínimo sentimento? Ter e dar prazer - físico - sem sentir o mínimo interesse sentimental ou intelectual pela pessoa com quem se está, num acto tão íntimo como o sexo? Masturbar-se com um outro corpo? É possível isolar de uma forma quase absoluta a componente animal do ser humano?
Confusos? Eu também.
PS: E sim, o título deste texto é inspirado naquele livro (e filme). Por vezes, também aqui somos mainstream.
Estive de férias/ trabalho voluntário (daí, também, uma certo abandono a que votei a escrita nese blogue). A uma semana passada no Algarve, seguiu-se um fim-de-semana em Budapeste, Hungria, para participar no Budapest Pride (o evento comemorativo do Orgulho LGBT na capital húngara). Infelizmente, alguns grupelhos pseudo-nazis e nacionalistas têm vindo a perturbar este tipo de comemorações naquele país e, assim, tem sido importante a participação de elementos da Amnistia Internacional na manifestação no sentido de pressionar as autoridades húngaras para porem em prática todas as medidas de segurança necessárias para garantir que toda a gente possa exercer a sua liberdade de expressão e manifestação de uma forma pacífica. Foi esta a razão que me levou á referida cidade.
Cheguei segunda-feira pela hora do almoço e parti no domingo de manhã. Não tive, portanto, muito tempo para visitar toda a cidade. Foi, contudo, suficiente para adorar tudo o que pude ver. Budapeste é lindíssima e bem merece o epíteto de "Paris do Leste" - os edifícios, as ruas, os cafés, o rio, os barcos, as esplanadas, os músicos de rua, tudo lembra a capital francesa. A noite, então, é absolutamente fantástica. No Verão, o tempo mantém-se bastante quente à noite, o que permite que se possa andar na rua envergando, apenas, uma camisa ou t-shirt (ou menos...= P). Depois, a variedade dos espaços nocturnos (gay, hetero, mais soft, mais hardcore, mais sexuais, menos sexuais, etc.) é muito grande, mesmo, e, pelo que conheci, muito interessante.
O que mais me encanta (sim, esta expressão é fruto do convívio com um nuestro hermano)na Europa de Leste são as contradições inerentes às sociedades dos países que compõem aquele espaço. Em Budapeste tudo isto é muito visível: a sociedade é profundamente conservadora, o movimento neo-nazi é gigantesco, os preconceitos católicos avassalam vastos sectores sociais; e, contudo, nunca vi uma cidade mais sexual (a verdade, também, é que nunca estive em Amsterdão), as sex-shops abundam, há um clube de strip em cada esquina, uma sauna gay, um espaço de swing, discotecas hardcore, com glory holes, sexo ao vivo, etc. As interacções amorosas, digamos, nas discotecas e bares são, depois, bastante evidentes e descomplexadas. Os húngaros são, também, bastante corajosos. Não se deixam intimidar por meia dúzia de contra-manifestante e persistem em manter uma defessa acérrima das suas liberdades sexuais, de expressão, de manifestação, religiosas, ideológicas, etc.
A fortíssima identidade e especificidade nacional e histórica portuguesas afastam-nos de alguns aspectos cruciais da sociedade húngara: algum fanatismo religioso, a discriminação em relação a outros povos e línguas e o forte movimento nacionalista-racista que tudo isto gera. Temos, todos aqueles que defendemos os direitos humanos (e não só os que dizem respeito á liberdade sexual) algumas importantes lições a aprender com aquele povo - preseverança, combatividade, coragem, criatividade e empenho. É que, de facto, aqui, arriscamos tão pouco (por comparação).
Não se sabe ainda bem para quê - para fazermos pouco de nós próprios, para suplicarmos a ajuda finlandesa, para enaltecermos os nossos feitos históricos, ou só por parvoíce - das Conferências do Estoril, em conjunto com a Câmara de Cascais, saiu um vídeo intitulado "What the Finns should know about Portugal". Neste pequenito filme é apresentado um vasto conjunto de factos sobre a nossa História, Economia, enquadramento social e outros factos "curiosos" acerca do nosso país que os obreiros do mesmo vídeo consideram pertinente ser do conhecimento da população finlandesa (que, no final, terá, obviamente, na democrática Europa, de "decidir" "ajudar" Portugal).
Quando soube da existência da "coisa", logo imaginei tratar-se de um conjunto de considerações laudatóricas acerca do nosso Império colonial, do facto de sermos um dos mais antigos da Europa e dos nossos sucessos futebolísticos mais contemporâneos. E isto lá estava tudo, numa imensa misturada de pastéis de Nata, tripas de porco, José Mourinho, Tratado de Tordesilhas, fronteiras do século XIII e milhões de telemóveis Nokia. O pior do vídeo não era, contudo, esta amálgama de factos completamente disparatados e lugares-comuns. Muito mais nos envergonha, considero, a quantidade monumental de erros históricos e factuais apresentada.
Começa logo com a indicação de que na Oceânia há duas vezes mais falantes de português do que população no Luxemburgo. Ora, a menos que exista alguma muito bem escondida comunidade falante de português com um milhão de habitantes em terras australianas e neo-zelandesas, a verdade e que apesar de a população de Timor-Leste ser cerca do dobro da do Luxemburgo, a esmagadora maioria dos habitantes daquela ex-colónia portuguesa está muito longe de dominar o português. Haverá, certamente, bastantes mais falantes do português no micro-Estado europeu do que no território oceânico.
É referido, depois, que Portugal aboliu a escravatura no ano de 1751, o que é uma mentira completa e absoluta. A abolição da escravatura é um tema complicado em Portugal, na medida em que ocorreu por várias fases e sempre com uma enorme resistência na aplicação prática das leis emitidas pela metrópole, mas, de uma forma muito simples, até porque hei-de escrever, depois, mais qualquer coisa sobre isto, importa desmontar este erro. Em primeiro lugar, a lei a que se referem, promovida pelo Marquês de Pombal, data de 1761 e não aboliu a escravatura, como é muitíssimo comum ler-se em todo o lado, mesmo na Wikipedia. Limitou-se a declarar que, a partir daquela data, todos os escravos negros que entrassem no Reino de Portugal e Algarves e no Estado da Índia passavam a ser livres.
Creio, sem poder dar certezas absolutas neste momento, que esta lei apenas se aplicava aos negros vindos das Américas, Ásia ou Espanha e não aos escravos vindos de África, mas, de qualquer maneira, a escravatura continuou a subsistir em Portugal por mais alguns anos, na medida em que não houve libertação dos escravos "portugueses", e os seus filhos só deixaram de nascer escravos a partir de 1773. Ainda assim, depois desta data, a escravatura continuou a ser plenamente aceita nas colónias portuguesas, vindo a ser abolida, apenas, em 1869. Fomos, portanto, o último país europeu a abolir a escravatura, na verdade uns anitos depois dos Estados Unidos da América, ao contrário daquilo que o vídeo que ora analisamos tentou inculcar. Para além disto, o trabalho forçado existiu em Portugal, juridicamente, até 1961 e, na prática, até 1974 para aqueles que, em África, chamávamos de indígenas.
Mas auferimos de alguns verdadeiros primeiros lugares nesta matéria: fomos o primeiro país europeu a promover a venda pública de escravos africanos em grandes quantidade e fomos o maior traficante mundial de escravos com mais de seis milhões de almas comercializadas. Que orgulho, não é?
"Gabamo-nos", depois, na sequência do vídeo, de termos sido os introdutores das armas de fogo no Japão. Não sei se estamos a tentar ter algum crédito pelo belicismo japonês a partir dos finais do séc. XIX e primeira metade do séc. XX que iria culminar com a II Guerra Mundial em que puseram grande parte da Ásia a ferro e fogo, mas se estivermos que se lixe, não é? Afinal foram coisas em grande e se não tivesse sido a nossa primeira espingarda não poderiam ter assassinado aqueles milhares de pessoas!
Quanto à pena de morte, se é verdade que fomos o primeiro país a aboli-la para os crimes civis, quanto a alguns crimes militares a verdade é que vigorou até 1976. Para além disto, durante o regime fascista português, era prática corrente as execuções extra-judiciais efectuadas pela polícia política e, durante a guerra colonial, os fuzilamentos de guerrilheiros.
Prosseguindo, "arigato" não é uma palavra portuguesa e, tanto quanto soube recentemente, não vem, sequer, do português obrigado. Não é, depois, correcto dizer-se que Colombo descobriu a América e revelou esse facto primeiro ao rei português e só depois ao monarca espanhol. Aquilo que se passou foi que Colombo propôs que se navegasse para ocidente e que, dessa forma, se encontraria um caminho mais directo para a Índia. Os matemáticos portugueses não acreditavam nessa possibilidade e, por isso, D. João II rejeitou o projecto de Colombo que acabou por navegar sob a bandeira espanhola para a qual reinvindicou os territórios da América que descobriu em 1492.
Por fim, o vídeo refere, como não podia deixar de ser, dois ou três factos atinentes à colonização portuguesa. Com um certo orgulho, revela a divisão do mundo não-europeu entre portugueses e espanhóis, a presença centenária em Macau e o facto de Portugal ter sido o primeiro Império colonial a estabelecer-se e o último a deixar de existir. Nenhum destas realidades é, para mim, motivo de orgulho, mas muito menos é-o este último facto, que apenas demonstra que o meu país foi o primeiro a considerar ser justo e admissível sujeitar outros povos ao domínio imperial e o último a perceber que essas ideias racistas e pretensiosas eram profundamente injustas.
Um grupo de finlandeses respondeu ao vídeo português com um outro em que apresenta a Finlândia como uma resistente da II Guerra Mundial (ao nazismo e ao comunismo autocrático soviético). Esquecem-se, com certeza, estes senhores que, na II GM, a Finlândia está muito longe de ficar bem na fotografia e de ter levado a cabo uma efectiva resistência à Alemanha nazi. É verdade que, a partir de 1945, enfrentaram as hostes alemãs na Lapónia, mas a tenebrosa realidade é que, entre 1941 e 1944, o exército finlandês lutou ao lado de Hitler na frente oriental. Ups...
Na sequência do post anterior, tentarei, desta feita, desmontar o mito adveniente do regime fascista português de que, nesses tenebrosos tempos, existiria um maior respeito pela instituição familiar, e pelas instituições estatais e religiosas em geral. A desconstrução desta encartada mentira parte da constatação do medo no seio do qual eram vividas algumas, arriscando-me a dizer a maioria, das relações familiares e a quase totalidade das relações do cidadão com o Estado ou com a Igreja.
No meu entender e como já defendi no escrito anterior, a arbitraiedade como era exercida a repressão no regime anterior fazia com que o respeito que qualquer cidadão podia sentir em relação ao Estado fascista se baseasse no medo da sujeição aos criminosos meios como este mantinha a "ordem", ou, então na abstrusa reverência dos seus apoiantes. Já quanto á Igreja (Católica, entenda-se, que as outras não eram, pelo menos, muito bem vistas pelo regime, a base do respeito era mais difusa, na medida em que esta não dispunha (pelo menos oficialmente) de um sistema repressivo baseado na violência física. O maior "respeito" que esta instituição poderia auferir antes do 25 de Abril de 1974 não tinha, considero, que ver com o seu mérito (religioso, social, etc.), porque esse manter-se-á, em príncipio, intacto, mas com as consequências que poderiam advir do facto de não se ser um frequentador assíduo das práticas religiosas.
É possível que em Lisboa a coisa fosse diferente (não muito, contudo), mas numa qualquer aldeia deste país, uma pessoa que não fosse, regularmente, à missa sofreria, certamente, um certo ostracismo social ou, pior, poderia ficar conotado como comunista. Os frequentadores de outras religiões (protestante e islãmica, sobretudo) não conseguiam, tal como os ateus convictos, manter um grande contacto com a restante população "religiosa". Considero, por tudo isto, que o respeito (apesar de a mim me fazer sempre uma certa confusão a noção de respeito quando referida a uma qualquer autpridade) que hoje existe em relação ao Estado e Igreja(s) é muito mais genuíno, porque baseado na liberdade de adesão (no caso da religião) e da escolha da autoridade (no caso do Estado).
Quanto ao respeito no seio da família, é comum dizer-se que hoje não existe e que "antigamente é que era". Diz-se que antigamente (leia-se, para este propósito, no período da brutal ditadura portuguesa)havia uma deferência maior pelos mais velhos, que as famílias eram mais unidas, que as rupturas era menos frequentes. Esquece-se é que, neste campo, o medo imperava de uma forma absoluta. O "bom pai de família" tinha poder absoluto sobre a mesma, mesmo sobre os mais velhos quando deixavam de assumir essa função. A família era a "base da nação", o sustentáculo principal da pátria portuguesa.
Não se podia, assim, tocar neste pilar do regime. Havia que fomentar a sua união, impedindo ao máximo o divórcio (proibindo-o, mesmo, para os casamentos católicos), subalternizando a mulher (não podia viajar e trabalhar, por exemplo, sem autorização do marido). Para além disto, a violência doméstica 8sobre os filhos, mulheres, mas também sobre os mais velhos) era recorrente e, mesmo, aceite pelo Estado. Uns bofetões aqui e ali até eram considerados benéficos, porque, afinal, ao homem cabia educar a esposa. A deferência para com os mais velhos era, assim, alicerçada no medo. Rapidamente, porém, se ultrapassava quando os mais velhos deixavam assumir o papel principal no núcleo familiar.
Todo esta alegada existência de um nível de respeito superior no Estado Novo português era, assim, baseada num enorme medo. Os mais fracos não respeitavam os mais poderosos, temiam-nos. Algum respeito, consideração e deferência saudáveis (sem exagerar muito neste tipo de sentimentos que com facilidade passam a cheirar a submissão) só podem nascer da liberdade que nos permite apreciar uma outra pessoa e instituição. O medo e a insegurança não são factores criadores de respeito, mas fundadores do temor, da sujeição e da aceitação acéfala de todo o tipo de arbitrariedades.
No seio deste momento das comemorações da instauração da democracia portuguesa, vou aqui tentar desmontar dois grandes mitos do fascismo que ainda hoje perduram nas mentes do nosso povo, sobretudo dos mais jovens (o que é incomensuravelmente assuastador). Um destes mitos diz respeito á consolidação financeira supostamente conseguida por Salazar e os benefícios que isso trouxe para o nosso país. O outro, que me proponho tratar hoje, diz respeito á crença de que existia muito mais segurança e respeito (pelos mais velhos, pela famíla, etc.) durante o Estado Novo do que actualmente.
Veio-me a ideia de tratar esta questão de uma reportagem de um canal de televisão que decidiu, no dia 25 de Abril, ir entrevistar jovens que haviam nascido já no seio da democracia portuguesa sobre a opinião que tinham do regime do Estado Novo. As opiniões eram, graças a Deus, desfavoráveis ao sistema fascista. Contudo, um dos rapazes entrevistados referiu que a única coisa positiva da ditadura portuguesa era a existência de maior segurança (menor criminalidade) e de uma maior respeito no seio da família e pelos mais velhos. Trata-se de uma afirmação, que aliada à crença de que nesse tempo é que havia "ordem", muito se tem propalado no pensamento português.
Discordo em absoluto da mesma. Reflectindo, em primeiro lugar, sobre a questão da segurança, penso que as considerações das pessoas vão no sentido de que durante o regime salazarista havia menos violência nas ruas, menos assaltos, que se podia andar livremente à noite pelas ruas das grandes cidades deste país e, atá, deixar a porta aberta, que a honestidade do nosso povo, reforçada pelas políticas da "outra senhora", não permitia que fossem cometidos actos criminosos. Em primeiro lugar, e esquecendo o facto de as circunstâncias sociais, económicas e urbanísticas dos dias de hoje serem diametralmente diferentes daquelas dos anos 50 ou 60, não sei onde vão as pessoas buscar provas para fazer este tipo de asserções. Não sei, francamente, se existiam menos assaltos nas ruas de Lisboa ou se as pessoas se sentiam completamente seguras à meia-noite no Cais do Sodré, aquilo que sei é que a violência doméstica sobre as mulheres era plenamente aceite pelo regime que vigorava e, assim, pelo menos este grupo havia de se sentir menos seguro. É que o marido dar meia dúzia de tabefes à mulher (ou aos filhos, ou mesmo á sogra, espantemo-nos) era considerado uma prática plenamente aceitável. "O meu marido bateu-me, mas eu até mereci", diziam as próprias vítimas da altura.
Por outro lado, não percebo como se pode dizer que existia segurança quando era o próprio Estado o maior dos criminosos deste país. Uma pessoa, apenas por pensar de maneira diferente e divulgar esse tipo de ideias no seu grupo de amigos, podia ser encarcerada, torturada e, mesmo, morta pela polícia política do regime. Imagine-se só os abusos que aqui não terão acontecido, com falsas denúncias, prisões arbitrárias, etc. Então se uma pessoa militasse, mesmo, nalgum movimento oposicionista! Enfim, só porque dois jovens, um dia, decidiram, sem qualquer tipo de intenção política (em sentido estrito, digamos), brindar à liberdade foram imediatamente encarcerados. Para além de que, por exemplo, um homossexual (se não pertencesse ás altas famílias) arriscava-se a ser internado e submetido a todo o tipo de humilhações no Albergue da Mitra, apenas por causa da sua orientação sexual.
Não percebo, assim, como se pode falar de segurança, quando o espancamento, tortura, prisão e internamento de cidadãos completamente incocentes era prática estadual recorrente. Não há nada mais seguro do que a liberdade e quando o Estado é o primeiro a atacá-la, só nos resta a convivência com a insegurança mais atroz.
PS: como o post já vai algo longo, a temática do "respeitinho" será tratada num texto posterior, no dia de amanhã.
Hoje foi o dia em que, mais uma vez e com o mesmo entusiasmo, celebrámos a queda do regime fascista português. O desfile comemorativo da data contou com a presença de várias dezenas de milhares de pessoas que (ainda) acreditam que esta data deve continuar a ser assinalada e celebrada. A direita, infelizmente, tem insistido em não se associar a esta comemoração popular e os únicos representantes das políticas que vêm (des)governando o nosso país desde 1976 que se encontravam na marcha eram os baby-boys da Juventude Socialista, - e que curiosa aquela escolha da cor amarela para as bandeiras da JS, não é?
Tirando esta meia dúzia de "amarelos" que não faço ideia do que gritou, na medida em que o PS tem sido o bastião da destruição dos ideais e conquistas de Abril, o protesto popular direccionou-se, em primeiro lugar, contra a intervenção do FMI e, depois, contra os sectores políticos que têm estado no comando do nosso país nestas últimas três décadas: PS, PSD e CDS. Foi reconfortante perceber que ainda existem uns milhares de pessoas que não aceitam que a única "alternativa" está entre Sócrates e Passos Coelho e que acreditam que a economia é que deve servir as pessoas e que o inverso será sempre uma perversão num sistema democrático.
O socialismo democrático, apesar de relativamente moribundo, vai encontrando algumas formas interessantes de expressão que contestam os apelos aos compromissos e o "entendimento" (leia-se: o tal compromisso PS+PSD+CDS de mais de 30 anos) que vem desbaratando a herança social de Abril de 1974 e apresenta-se (eu gostava que através de uma ampla plataforma de esquerda, juntando PCP, BE, etc.) como uma outra alternativa. Uma alternativa que não quer apenas um Portugal democrático, mas também social e economicamente justo, que não vê o movimento que se iniciou em Abril de 1974 cumprindo apenas com a garantia do sufrágio universal livre, mas também com a garantia de saúde, educação, bens essenciais, habitação e trabalho para todos. Espero que, neste dia, a tenhamos conseguido transmitir.
Melo Antunes, capitão de Abril e primeiro responsável pelo conteúdo político do Movimento das Forças Armadas (MFA) - autor principal do Programa do MFA - foi, provavelmente, a personagem política mais relevante no seio das facções militares entre Abril de 1974 e Novembro de 1975. A partir daí, e apesar de ter continuado a ter alguma intervenção política fundamental até 1982 - foi presidente da Comissão Constitucional que funcionava junto do Conselho da Revolução, foi perdendo, crescentemente, importância. E foi-na perdendo, na medida em que o projecto político que tinha para o país foi derrotado pelas forças que instauraram o actual regime/sistema. Esta derrota teve que ver, creio eu, não com a inexistência de apoio popular às propostas que avançava, mas mais com alguns erros de táctica política que foi cometendo.
Não me interessam muito os acontecimentos e tomadas de posição políticas de Melo Antunes até Março de 1975 (o caminho foi tentar conter a direita spínolista e procurar encetar o processo de descolonização). O meu argumento centra-se em dois posteriores períodos: entre 11 de Março de 1975 e 25 de Novembro de 1975 (PREC), o primeiro e o segundo entre 25 de Novembro de 1975 e 25 de Abril de 1976.
A 11 de Março de 1975, Spínola (primeiro Presidente da República do regime saído do golpe de Abril e que se havia demitido a 28 de Setembro do ano anterior por causa do falhanço da manifestação da "Maioria Silenciosa") lidera (manipulado pela esquerda, pela direita ou de forma absolutamente consciente, não interesse agora discutir) uma tentativa de golpe de direita que falhou. Vasco Gonçalves (o então primeiro-ministro, conotado com o Partido Comunista Português), apoiado, sobretudo, pelos sectores ligados ao PC e, nesta altura, pelo COPCON de Otelo Saraiva de Carvalho, aproveita a ocasião para corrigir o rumo da Revolução Portuguesa num sentido muito mais socializante - é nacionalizada a banca e as seguradoras, empresas de grande dimensão e acelera-se o processo de reforma agrária.
Melo Antunes, neste momento, passa a desconfiar abertamente das intenções de Vasco Gonçalves, acreditando que este último estava verdadeiramente interessado na instauração de um regime comunista de tendência pró-soviética no nosso país. Manobra então, primeiro na sombra e depois da emissão do "Documento dos Nove" abertamente, no sentido de substituir as chefias militares favoráveis ao governo de Vasco Gonçalves e mais próximas do PCP. Contava, para este a concretização deste objectivo, com o aberto apoio do PS de Mário Soares e do general Costa Gomes (que havia sucedido a António de Spínola na Presidência da República). Vasco Gonçalves contava, ainda, com a oposição de um cada vez mais radicalizado Otelo Saraiva de Carvalho.
Como resultado de todas estas pressões, no início de Setembro de 1975, Vasco Gonçalves abandona a chefia do executivo português, dando lugar ao almirante Pinheiro de Azevedo. Derrutada a facção "gonçalvista" faltava, na óptica de Melo Antunes, afastar Otelo da chefia do COPCON, retirando-lhe, assim, os meios militares para intervir politicamente. É isto que acontece a 17 de Novembro de 1975 quando Vasco Lourenço assume a chefia do COPCON. A extrema-esquerda, acossada pelos militares moderados para sair dos quartéis, ensaia uma falhada tentativa de golpe a 25 de novembro e conhece, aí, a sua derrota final.
Aparentemente, neste momento Melo Antunes tinha ganho a batalha pelo controlo da facção militar e poderia exercer toda a presão no sentido da implantação do socialismo democrático que preconizava. Contudo, a vitória tirou-lhe todo o espaço de manobra. Ramalho Eanes havia saído como o grande vencedor do 25 de Novembro e Mário Soares, a grande personalidade no sector civil, ganhava, com o apoio dos partidos da direita - PPD e CDS -, margem de manobra para instaurar a democracia liberal e capitalista que pregava. Melo Antunes apagava, não tinha concordado, sequer, com a nomeação de Pinheiro de Azevedo para primeiro-ministro do último governo provisório.
Os resultados das eleições legislativas de Abril de 1976, com PS, PPD e CDS a garantirem quase 85% dos votos, marca a derrota final do sonho político de Melo Antunes. O capitão de Abril percebia que não existiam forças políticas que apoiassem o seu projecto.
Numa nota conclusiva muito curta, penso que o erro de Melo Antunes foi a excessiva desconfiança do PCP e da extrema-esquerda e o enorme gasto de energia decorrente do combate que empreendeu contra estas forças. Permitiu, por outro lado, e não tendo nunca constituído uma força política autónoma, que o PS de Soares se fortalecesse e fosse constituindo uma teia de alianças relativamente forte com os partidos da direita (PPD e CDS), o que lhe permitiu que, livre dos empecilhos do PCP e da extrema-esquerda, instalasse um regime democrático, não há dúvida, mas capitalista e muitíssimo pró-ocidental (em vez do socialismo democrático não-alinhado que Melo Antunes defendia).
Confiou, por ventura, o capitão de Abril demasiado na próximidade das suas ideias com aquelas que o Partido Socialista defendia? Ou achava que era possível que o exército continuasse a manter a preponderância política que havia assumido depois do golpe de Abril? Estas duas ilusões terão, certamente, pesado nas decisões que Melo Antunes foi tomando. Muito melhor teria feito se tivesse abandonado alguns princípios ideológicos menos essenciais, digamos, e firmado uma aproximação (cautelosa, logicamente) em relação a Vasco Gonçalves e a alguma extrema-esquerda (o que parece que foi quase possível, em relação a estes últimos, no Verão de 1975). É que assim não teria tido de abdicar do fundamental que defendia, como aconteceu.