
Decorreram, hoje, eleições legislativas no Afeganistão. O resultado não desiludiu o fiasco já previsto:
a abstenção situou-se num valor muito próximo dos 70%. O medo da violência, sobretudo dos ataques dos fundamentalistas religiosos taliban, afastaram a esmagadora maioria das pessoas das urnas. A gigantesca fraude em que se saldaram as presidenciais do ano passado também não terá ajudado a motivar a participação popular.
Barack Obama, como é lógico, estava extremamente esperançoso de que as legislativas afegãs se saldassem num enorme sucesso, na medida em que pretende "descolonizar" o país o mais rapidamente possível (e Obama, a quem já chamam de novo Jimmy Carter, bem sabe que só terá um mandato para isso).
Infelizmente correu tudo mal. Desde o fim da II Guerra Mundial que os americanos estão convencidos de que é possível impor (pelo soft e hard power) a democracia nas outras nações do mundo (um certo tipo de democracia, obviamente. Liberal e de pendor capitalista). As experiências bem sucedidas na RF Alemanha, na Itália, na Áustria e no Japão (embora neste último caso o sucesso seja, no mínimo, relativo) mais os fizeram acreditar de que estavam certos.
O expoente máximo desta crença apareceu na pessoa de George W. Bush, promotor de uma retórica imperialista como já não se via deste Nikita Krutchev. Um imperialismo "democrático", contudo, através do qual se pretendia, utilizando Israel, o Iraque, o Afeganistão, e (eventualmente pressionado) o Paquistão como pivôs, democratizar todo o Médio Oriente, num movimento de pinça quie excluiria, logicamente e porque é um regime demasiado amigo, a Arábia Saudita.
Obviamente que estes planos megalómanos e proféticos de Bush se saldaram num esmagador insucesso. Estranho foi que Obama não tenha abandonado esta ideologia messiânica, nem sequer a retórica belicista e ofensiva em relação ao Irão.
Todos sabemos, contudo, que os esforços de democratização do Afeganistão estão votados a ter um mau resultado. No momento em que os soldados americanos começarem a abandonar o país, os talibans já se terão instalado, regiamente e com muito mais garantias, em Kabul.
Penso que cumpre compreender que o sucesso da instalação de regimes democráticos em Itália, Alemanha Ocidental, ou Áustria no rescaldo da II Guerra Mundial tem muito que ver com o facto de estes países já terem vivido experiências democráticas (ou proto-democráticas) prévias. Os três países sofreram as influências da Revolução Francesa, viveram, de formas diferentes, claro, o liberalismo constitucional monárquico e tentativas de implementação de um sufrágio mais ou menos alargado.
Ora, nada disto aconteceu em países como o Afeganistão ou Iraque, na medida em que os regimes destes estados passaram directamente da monarquia absoluta para a ditadura militar ou religiosa. Como podemos, então, achar que é possível impor o Estado de Direito, o sufrágio universal masculino, o voto feminino, e, até, imagine-se, as quotas de representação feminina (!!!), num país onde os conceitos de igualdade, cidadania, primado da lei, separação de poderes e liberdade religiosa não são conhecidos ou aceites?
O "paternalismo democrático", como bem demonstra a trágica experiência africana, só poderá originar maus resultados. Terão de ser as forças internas, a sociedade civil, e não o exército "invasor" a promover a construção da democracia e a sua sedimentação sobre bases sólidas. O único apoio estrangeiro que é, neste ponto, desejável é o da implementação de programas de educação para a cidadania e direitos humanos, sempre através de organizações locais.
Esperemos, contudo, que, como aconteceu em inícios do século XIX com a difusão dos ideais liberais através da baioneta das tropas napoliónicas, também a ideologia republicana e democrática tenha chegado a algumas partes do afeganistão na ponta das espingardas.