segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A discriminação da saúde mental.




aqui falei da discriminação a que está sujeita a doença mental em Portugal. Penso, todavia, não ser só na doença que existe estigmatização e preconceito, mas, igualmente (e, quem sabe, com mais força) na saúde mental. Passo a explicar. Não é possível que uma pessoa passe, nos dias de hoje e nos "países desenvolvidos" como o nosso, sem consultar (regularmente, até) um oftalmologista, um ginecologista, um urologista, um dentista, um cardiologista, enfim, um qualquer médico das áreas que dizem respeito ao "corpo" (aqui utilizado por oposição a cabeça, mente).


Todavia, a maior parte das pessoas nasce, cresce e morre sem, sequer por uma vez, ter sido examinada por um especialista da área da saúde mental (psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, etc; também designados popularmente pela carinhosa expressão de "médicos de malucos"). Pela mazela mínima numa perna ou num braço acorremos como doidos às caóticas urgências deste país. Achamos, contudo, perfeitamente natural não conseguir manter um relacionamento que dure mais de uma noite, termos uma necessidade louca de gritar com o nosso companheiro(a), não usufruirmos de qualquer tipo de prazer sexual ou sofrer de ansiedade generalizada.


Mas, afinal, o psi- é o "médico dos loucos" e recorrer a esse tipo de profissionais é para os fracos. Não é?

domingo, 5 de setembro de 2010

Fica a suspeita...




Admito ter ficado surpreendido com o desfecho do "Processo Casa Pia". Com o pessimismo que me é habitual, acreditei que tirando Carlos Silvino (dos anteriormente alegados, agora condenados abusadores, o único que pertencia ao "grupo dos pobres"). Foi, assim, com feliz admiração que recebi, sexta-feira passada, a notícia de que todos os arguidos (tirando a dona da "casa de Elvas", Gertrudes Nunes - por questões meramente processuais, e não substanciais, todavia) foram condenados. Claro que a "Bibi" coube a fatia mais pesada (cerca de trêz vezes a pena atribuída aos restantes pedófilos) - pauvreté oblige.

Ainda assim, só o facto de criminosos poderosos como Carluz Cruz ou o Embaixador Jorge Ritto terem visto ser-lhes aplicada uma pena de prisão efectiva é, penso, motivo suficiente de contentamento e satisfação para um país onde se pensava que o cometimento impune de crimes tinha como única condição a existência de recursos económicos suficientes para a contratação de "bons" defensores legais. Isto porque acredito, sinceramente, que aqueles crimes foram cometidos por aquelas pessoas e que a história da "cabala" não cola de maneira nenhuma Uma conspiração feita por ex-alunos da Casa Pia -que foram, efectivamente, abusados, como foi confirmado por exames no Instituto de Medicina Legal - contra pessoas sem qualquer ligação aparente...Enfim, alguém acredita nisto?

Ao contrário do que referiu ao "Público" o advogado Guilherme da Palma Carlos ("a justiça não ficou melhor nem pior" com esta tomada de decisão) acredito que o sistema judicial português deu um sinal evidente de que é possível decidir um caso de forma justa, apesar de toda a pressão a que foram sujeitos os magistrados. Claro que a varejeira que lidera a Ordem dos Advogados já veio tecer as suas sempre muito pertinentes críticas ao desenrolar do processo. "Quem anda pelos tribunais, quantas condenações sem provas vê? E quantos criminosos andam por aí à solta sem serem condenados?", perguntou. "É o que mais acontece no mundo da Justiça, que é feita por homens que podem errar." A tristeza das declarações e o brutal ataque aos sistema de justiça de todo o mundo não merecem qualquer tipo de comentário...Felizmente, nos países democráticos, os erros judiciários não são prática assim tão corrente.


Obviamente que, como muito bem referiu Catalina Pestana, nenhum dos arguidos, talvez nem mesmo Carlos Silvino, virá a cumprir qualquer tipo de pena. O efeito suspensivo dos recursos até ao STJ garante que os casos comprovados de abuso sexual de menores prescreverão. (Os primeiros casos prescrevem já daqui a 6 anos e ninguém acredita que, tendo a decisão da primeira instãncia demorado 8 anos a ser produzida, a segunda e terceira apreciações sejam muitíssimo mais céleres). E ainda temos de contar com os recursos posteriores para o Tribunal Constitucional e para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.


Todavia, da culpa social já não mais se livram. Carlos Cruz bem pode vir alardear inocência em todos os prime times de todas as televisões nacionais que todos nós continuaremos a saber que, num caso de tal mediatismo, se aqueles juízes tivessem a menor dúvida acerca da culpabilidade dos arguidos teriam estes sido integralmente absolvidos. Fica, agora, uma dúvida. E Paulo Pedroso? Acusado pelas mesmas vítimas, acabou por ver o processo que o envolvia ser arquivado pelo Ministério Público. Dos suspeitos iniciais era aquele que, na altura, gozava de melhores lugações políticas. Fica a suspeita...

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Leonor Beleza e a incúria na destruição de uma carreira.




Leonor Beleza poderia ter sido a mulher mais poderosa deste país. Secretária de estado da Presidência do Conselho de Ministros entre 1982 e 1983, secretária de estado da Segurança Social (1983-1985) e ministra da Saúde (1985-1990), a ascensão política de Leonor Beleza parecia imparável. A inteligente jurista tinha tudo para se manter no segundo governo maioritário de Cavaco Silva (eventualmente noutro posto que não na Saúde, onde era já vista de forma extremamente negativa por grande parte da classe médica) e para, no futuro, atacar os mais altos cargos governativos.


Poderia, perfeitamente, no terceiro governo liderado por Cavaco Silva ter assumido um Ministério como o da Justiça. Seria com relativa facilidade que, passados os anos de Durão Barroso (ou mesmo antes), ascenderia à Presidência do PSD para, chegada aí, se catapultar para o cargo de primeira-ministra (onde teria muitíssimo mais possibilidades de chegar do que teve Manuela Ferreira Leite).


Nada disto aconteceu. Em 1990 abandonou as funções governativas, para nunca mais as vir a desempenhar. Continuou como deputada à Assembleia da República e foi assumindo posições com algum relevo dentro do seu partido. nunca, todavia, aquelas para as quais vinha a ser talhada (e que, certamente, gostaria de ter assumido). E tudo isto porquê?


A explicação encontra-se no facto de, durante o seu consulado como ministra da Saúde, ter mais de uma centena de hemofílicos sido contaminada com o virus da sida através de sangue importado, no seio de um processo onde a verdadeira responsabilidade de Leonor Beleza nunca foi apurada. Num primeiro julgamento, o Tribunal considerou ter a governante violado "deveres de cuidado", não conseguindo, todavia, encontrar provas suficientes para sustentar a condenação. O Ministério Público recorreu da decisão, tendo os arguidos recorrido ao Tribunal Constitucional, o que levou à prescrição do processo.


Assim, Leonor Beleza acabou por nunca sair completamente incólume de toda esta história, subsistindo, até hoje, dúvidas acerca da sua inocência. Não é de estranhar, portanto, que as duas palavras que apareçam, em primeiro lugar, no Google associadas a estapersonalidade sejam "sida" e "sangue contaminado". E assim se destruiu, por incúria e completo desleixo, uma carreira política de grande sucesso.

sábado, 28 de agosto de 2010

Anatomia da traição.






As relações (afectivas - namoros, casamentos, etc.) duram muitíssimo menos tempo do que em tempos passados. É um facto que a emancipação da mulher permitiu que, na maior parte dos casos, a dependência económica feminina deixasse de ser um entrave à separação, permitindo que o vínculo entre o casal se fragilizasse pela perda da componente financeira. Ficavam, assim, homem e mulher (porque, nestes tempos de que agora se fala, as relações homossexuais eram, absolutamente, residuais) numa paridade relativa que permitia ao elemento do sexo feminino decidir, igualmente, do fim da relação.





Considero, todavia, que, nos dias de hoje, a inexistência de relações duradouras como as de outrora tem que ver, igualmente, com alguns factores adicionais. Um deles relaciona-se, creio, com a crescente valorização de um certo tipo de monogamia, exclusividade e posse. Em tempos que já lá vão, a fidelidade, apesar de apanágio de uma sociedade católica que se prezasse, não tinha de passar do mundo da aparência. Desde que tudo parecesse conforme aos padrões de comportamento social da altura (o homem casava com uma rapariga virgem de condição social semelhante, os pais escolhiam ou tinham muito a dizer na escolha do par dos filhos, o casamento era indissolúvel, etc.), aquilo que depois era feito era, cumpridas, obviamente, algumas condições, perfeitamente aceite.



Assim, sobretudo nas classes mais favorecidas, era perfeitamente normal os homens terem amantes. Até porque a "sereníssima esposa" não servia para aplacar os desejos sexuais do marido, mas somente para ser mãe dos filhos. Uma esposa não se rebaixava ao cumprimento dessa função. Ainda na alta sociedade (e já não no seio das classes mais baixas), era, igualmente, comum as senhoras terem amantes (normalmente mais jovens) com quem se entretinham. E marido e mulher (mas sobretudo esta) aceitavam (ou eram obrigados a aceitar) as "escapadelas" dos companheiros.



Hoje, a ideia de um certo tipo de verdade, da monogamia, da exclusividade, foi passando da teoria para uma prática obrigatória. Os affaires são cada vez mais mal vistos e quem é traído tem de arcar com sentimentos de vergonha e humilhação. É o "corno", o fraco, etc. A confiança é criada, não pela honestidade, mas pela posse. E quantas relações não ficam destruídas pela prossecução deste tipo de sentimentos, por um ciúme, as mais das vezes, irracional.

E quantas relações belíssimas não foram, ja, salvas por uma "traição"?


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Medo.



Medo - Amália Rodrigues

Quem dorme à noite comigo
É meu segredo,
Mas se insistirem, lhes digo,
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo.

E cedo porque me embala
Num vai-vem de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Gritar quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim
Gostava até de matar-me,
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.


Depois disto, ainda não gostam de fado?!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Avé de Fátima, um hino gay?!







E aqui vai a história da, provavelmente, mais conhecida música religiosa (popular) portuguesa: o Avé de Fátima ("A 13 de Maio na Cova da Iria apareceu brilhando a Virgem Maria..."). A letra da referida música roça muitas vezes (ou afunda-se mesmo) o piroso. Ainda assim, admitamos, fica no ouvido e duvido que exista algum português que não saiba, pelo menos, entoar a primeira estrofe.




O que, muito provavelmente, muito poucos saberão é que tão singela poema é da autoria de um dos primeiros homossexuais assumidos portugueses. Pois é, a letra do hino do 13 de Maio foi composta por António Botto (1897 - 1959) que, após a perseguição a que foi sujeito pelo regime do Estado Novo que culminou na sua exoneração das funções públicas que exercia, terá exclamado: "Sou o único homossexual reconhecido no país".




Esta informação será, com certeza, do desconhecimento do país beato que com tanta fé entoa o cântico oferecido por Botto (um católico fervoroso) ao Cardeal Cerejeira (então patriarca de Lisboa) por ocasião das comemorações marianas. Ficam, agora, aqui, a saber que quando o fazem homenageiam um homossexual assumidíssimo, que não tinha vergonha daquilo que era, que se orgulhava da sua sexualidade.




Afinal, o autor do mais conhecido hino nacional de culto a Maria (mãe de Deus) é exactamente aquele que a Igreja (e seus consortes no seio da população) estigmatiza e ostraciza, o homossexual, o pecador que não deseja expiar as suas supostas faltas. Sem saber e sem querer, a tradicionalíssima hierarquia católica portuguesa deu, ainda nos anos 50, um importante passo na aceitação da homossexualidade no seu seio, ao aceitar a criação de um homossexual católico assumido.




Lembrem-se todas as beatas e os ratos de todas as sacristias d'este mui pio país que enquanto o Avé de Fátima se ouvir no respectivo Santuário, a homenagem à homossexualidade e às suas criações não poderá ser calada e ecoará a partir do núcleo religioso fundamental deste país.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Solidão.




Diz o povo que "mais vale só que mal acompanhado". Assumo-me um incondicional seguidor da sabedoria popular, mas, pelo menos nos dias de hoje, sou obrigado a discordar do ditado. Quantas vezes uma companhia menos boa se torna uma boa alternativa à solidão? Só sendo muito desonesto, ou sofrendo de algum tipo de fobia social, alguém poderia afirmar estar feliz num período relativamente prolongado de solidão.

Para o bem e, infelizmente, também para o mal, o homem é um "animal social". Grande parte do nosso contentamento advém, assim, da interacção com outras pessoas. Somos, por condição inerente à nossa natureza, miseráveis se sujeitos a períodos prolongados de isolamento. É por esta razão que o aprisionamento na "solitária" foi, desde sempre, um dos castigos mais temidos aplicado aos incumpridores em locais de detenção por todo o mundo.

Mais vale, então, relativamente mal acompanhado que só. Claro que o objectivo (inantingível, tanto quanto sei) seria a pessoa sentir-se tão bem consigo própria, ter a auto-estima num nível tão elevado, que a companhia de outros seres humanos não mais seria do que um bom complemento, algo que se procurava porque era bom, porque preenchia, e não por necessidade, por medo de envelhecer abandonado, de experimentar tudo sozinho, de desbravar o caminho sem ter com quem parar para recuperar as forças. Ninguém se sente, contudo, assim.

Claro que a "solidão interior" é muito pior do que a circunstância de, de um ponto de vista externo, físico, uma pessoa se encontrar, momentânea ou permanentemente, sozinha. E é por isso que Nietzsche dizia: "Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia" (obrigado, T., pela frase). Aquela solidão partilhada de que todos temos pavor, mas que, igualmente, todos preferimos a ter de enfrentar um abandono solitário. Ao menos distrai-nos, enquanto dura o fingimento, enquanto ninguém nos preenche, nos ocupa por completo. Daí se dever, mais correctamente dizer, "melhor bem enganado que só".