quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Ser alternativo.




O "Andanças" será, provavelmente, o mais alternativo dos festivais de verão portugueses. Alternativo, em primeiro lugar, porque prima pela aceitação e promoção da diferença. Procura-se, tendo o festival o centro gravitacional na dança (o que, desde logo, promove um cderto grau de libertação, pelo menos, corporal), que todos se sintam bem e atenta-se na necessidade de protecção do ambiente, dos recursos naturais, das tradições culturais e das liberdades de expressão.

O aspecto alternativo do "Andanças" traduz-se na miríade de formas de vestir, nos ornamentos utilizados e nas diferentes formas de estar dos participantes. Lá, muito dificilmente uma pessoa seria julgada pelo modo como se veste ou apresenta. E, contudo, como bem lembrou um rapaz espanhol com quem por lá me cruzei, ser alternativo não é, primacialmente, usar rastas ou um sari indiano. Ser alternativo é, mais do que valorizar a diferença própria, procurar aceitar/ respeitar a diferença alheia. É procurar adaptar uma certa realidade social preexistente (ainda que rompendo com algumas tradições culturais bem enraizadas) à quebra de todos os preconceitos. É levar a tolerância ao grau máximo, promovendo a diversão de todos, independentemente das características segundo as quais se apresentam.

Porque, afinal, o mote do "Andanças" era "o melhor bailarino é aquele que mais se diverte", as regras e as convenções da dança devem ceder perante a promoção do bem-estar e divertimento de cada um, e não o contrário. Ora, neste particular, o festival, no meu entender, assumiu um completo falhanço, provocando, de forma inadvertida, certamente, situações de discriminação. É certo que a maioria das danças de pares foram construídas para serem executadas por um homem e uma mulher, embora, ao que sei, o tango, por exemplo, tenha sido criado, inicialmente, como uma dança exclusiva de homens. Há um que conduz (o homem), sendo a mulher conduzida.


Na medida em que é uma prática recorrentíssima (quem não se lembra dos bailes de aldeia?), duas mulheres dançarem juntas (sendo as mesmas lésbicas ou heterossexuais), no festival, os pares compostos por dois elementos do sexo feminino eram aceites com a maior normalidade. Já os pares integrados por dois homens eram vistos com a maior estranheza. Era comum ouvir-se afirmações do género: "Isto é uma dança para dançar homem com mulher. Duas mulheres também pode ser. Homem com homem é que não, porque dá faísca", por parte dos instrutores de dança. Acontecia, também, casais gays que optavam por fazer os workshops juntos serem separados pelos instrutores, porque havia "mulheres disponíveis".


Sinceramente, adorei participar no "Andanças". Esperava, todavia, sinceramente, que existisse uma política maior de integração das orientações sexuais minoritárias (nomeadamente no tocante a casais homossexuais masculinos). Todas as danças podem, perfeitamente, ser adaptadas (com um prejuízo mínimo) para serem executadas por dois homens. Basta que os professores sejam avisados e estejam atentos para esse tipo de situações. Um pequeno briefing inicial, com todos os professores e staff, alertando para a participação no festival de casais homossexuais e para o imperativo de estes se sentirem tão bem e se divertirem tanto como os restantes, seria, penso, um bom primeiro passo a tomar numa próxima edição. Quem sabe, uma tarefa de que se poderia encarregar o Núcleo LGBT da Amnistia Internacional....


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O regresso.





Depois de uma relativamente prolongada ausência, os meus pensamentos retornam a estas ruas. Peço desculpa àquele punhado de leitores que me acompanha com alguma regularidade pela aus~encia de actualizações, mas a minha mente já precisava a de umas merecidas férias da escrita e da leitura. Volto, agora, ligeiramente mais recuperado e, espero, com algo de interesse para partilhar convosco.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Da jaula para a prisão?




Tenho para mim (como quase certo) que a maioria das pessoas não aprecia por aí além a liberdade. A liberdade que advém da quebra de todos os constrangimentos sociais, culturais, económicos, políticos, etc (ou pelo menos de uma maioria substancial), na mdeida em que os impedimentos naturais não são passíveis de ser ultrapassados. A população LGBT não difere, neste ponto, dos restantes membros da sociedade, apesar de serem recorrentemente apelidada de libertária e libertina (empregando sempre as expressões fora do seu significado correcto). A questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo (CPMS) (uma conquista que me divide todos os dias) retrata bem aquilo que se disse.


Longe de lutarem por uma mais ampla liberdade sexual (ou afectiva, ou amorosa, ou de qualquer outra natureza sentimental, digamos), o que os movimentos LGBT portugueses mainstream têm procurado fazer é combater pela inserção de gays, lésbicas e etcs, nas categorias heterossexuais preexistentes (o namoro monogâmico, a união de facto monogâmica, o casamento monogâmico, etc). Não digo que estas reivindicações não sejam justas, dignas e necessárias. Agora, tem-se alienado uma componente de combate que me parece extremamente importante: a luta por uma liberdade sexual mais ampla.


Tem sido com base neste tipo de luta "heterossexualizada" e, mais, normativizada (socialmente) que se tem baseado grande parte do activismo LGBT (a maior parte das vezes com a maior justiça e razão, entenda-se, e com o meu total apoio). Tem, contudo, existido um certo desconforto em relação a certos movimentos que reivindicam uma liberdade sexual mais plena (nomeadamente os poliamorosos), o que me parece negativo, na medida em que sabemos que a quebra de todos os constrangimentos sociais no que concerne ao sexo, levaria a que fossem atingidas todas as metas desejadas por qualquer movimento LGBT.


Assim, nesta questão do casamento, cumpre apenas perguntar se não estamos a passar de uma violação menor da nossa liberdade para uma mais geral/global...Se não estamos, somente, a passar da jaula para a prisão?

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Por que é que eu fui à XI Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa.




Eu já tive uma má opinião acerca das marchas do orgulho gay. Em primeiro lugar porque não compreendia o conceito de orgulho aplicado a esta situação. Orgulho em se ser homossexual. Há dois anos nada me parecia mais idiota. Que sentido fazia? E se havia o orgulho gay, porque não a manifestação de um orgulho heterossexual? Afinal, não somos "todos iguais"? Não merecemos todos o mesmo tipo de tratamento, de respeito, de consideração? Então porquê individualizar? Por que não fazer apenas uma marcha anti-discriminação?


Depois, em 2008 (creio eu) "aproximei-me" da Rede Ex Aequo (uma associação de jovens - alguns já não tão jovens quanto isso - LGBT's) e, mais importante, juntei-me à Amnistia Internacional em Fevereiro de 2009, inicialmente porque necessitava de uma experiência de voluntariado para concluir uma cadeira da faculdade, e depois, porque me identifiquei muitíssimo com a maneira e com a perspectiva que seguiam na defesa dos direitos humanos. Principiei por contribuir para a reactivação da ReAJ (Rede de Acção Jovem da AI - Portugal) da qual fui o primeiro Secretário. Todavia, logo que soube que já havia existido um grupo de trabalho sobre questões LGBT na secção portuguesa da AI, procurei imeditamente saber de que forma seria possível reactivá-lo.



Era necessário angariar pessoas interessadas na causa da defesa dos direitos LGBT's enquanto direitos humanos. Fiz essa recolha e apresentei-a à direcção da Amnistia Internacional nas vésperas da X Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa. Punha-se então a questão: a AI deveria participar (como aliás já tinha feito em anos anteriores) ou não? Eu, que era coordenador do "ressuscitado" grupo, deixar-me-ia levar pelo preconceito, ou compreenderia que o melhor era experimentar, levar o núcleo a uma manifestação que todos aqueles activistas dos direitos humanos que me rodeavam consideravam digna e meritória e ver pelos meus próprios olhos.



O Núcleo LGBT da Amnistia Internacional decidiu participar e, durante a Marcha eu compreendi o que era o Orgulho LGBT e o que significava estar ali a lutar pela liberdade de expressão de manifestações minoritárias, mas não emnos dignas, de amor. Este sentimento saiu fortemente reforçado quando participei, já este ano, no início de Maio, na dificílima Marcha do Orgulho Gay dos países bálticos - Estónia, Letónia e Lituânia (o Baltic Pride). Ver a força daquelas pessoas, profundamente magoadas, humilhadas, desrespeitadas pelo seu Estado como eu nunca tinha visto acontecer em Portugal fez-me compreender que o nosso esforço em Portugal não chega a 1/10 do daqueles activistas.



E então empenhei-me mais na marcha lisboeta do Orgulho Gay. A Amnistia Internacional participou na Comissão Executiva e decidiu usar da palavra no momento final dos discrusos. (E calhou-me a fava). Optei por alertar para a violação mais bárbara dos direitos mais básicos a que o ser humano deveria ter direito com que inúmeros estados por esse mundo fora (mas sobretudo no mundo islâmico) respondem à homossexualidade: 80 países ainda a proíbem e 7 (todos de inspiraçao islâmica) condenam os homossexuais à pena de morte. Espero tê-lo conseguido...

sábado, 19 de junho de 2010

Amnistia Internacional na Marcha!




Se a Marcha do Orgulho LGBT fosse uma coisa pouco digna, uma ONG com a credibilidade da Amnistia Internacional participaria? Não me parece!


"Hoje celebramos o Orgulho LGBT. E em Portugal até temos alguns bons motivos para o fazer. O panorama internacional é, contudo, negro no que toca à protecção das minorias sexuais: na maior parte dos países do mundo não existe legislação anti-discriminação, num grupo alargado de nações, o Estado proíbe a homossexualidade e 7 países respondem com a pena de morte às manifestações de amor minoritárias.


Mesmo na EU, um bastião da democracia e liberdade, há países em que não existe liberdade e segurança para organizar este tipo de manifestações.

Há quase 20 anos que a AI trabalha sobre a violação dos direitos humanos de pessoas com orientações sexuais ou identidades de género minoritárias. A nossa posição é muito clara neste ponto: qualquer pessoa, seja qual for a sua orientação sexual ou identidade de género, deve usufruir de todos os direitos humanos.

O nosso orgulho fica manchado quando não utilizamos a voz que nos é dada, a possibilidade e a liberdade de nos manifestarmos para lutar contra a crueldade de que são vítimas gays e lésbicas por todo o mundo.

Não sejamos cúmplices, através da nossa inacção, da morte, tortura e aprisionamento de pessoas cujo único crime foi manifestarem uma diferente forma de amar.

Porque podíamos ser nós, não abandonemos as populações LGBT de países como o Irão, a Arábia Saudita, a Mauritânia ou o Sudão à crueldade dos respectivos estados.

Não os deixemos sozinhos! "


Não acham tudo isto justo e digno?

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Um grande português.




Morreu José Saramago. Estava no ginásio quando uma das televisões me deu a notícia. Fiquei aturdido. Não era propriamente um fâ incondicional do escritor, mas senti, como sentiu todo o povo português, a perda de um grande romancista, de um homem de fortes convicções políticas e morais, de um grande português.


Será sempre grande, sempre lembrado.


Notícias: i I, II, III, IV. Público I, II

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O orgulho gay.




Começam no próximo dia 19 (Sábado, com a Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa) as comemorações nacionais do Orgulho LGBT (que se prolongarão até 10 de Julho com a Marcha do Orgulho LGBT do Porto). É, assim, uma altura propícia para tratar este tema do Orgulho LGBT

(Eu prefiriria chamar à coisa Orgulho Gay e usar, como, de uma forma relativamente corrente, fazem nos países anglo-saxónicos (ou mesmo no Brasil, por exemplo), a expressão Gay como um chapéu para abranger toda a diversidade sexual/ de identidade de género minoritárias, em vez de andarmos para aqui a criar uma série de siglas que já ninguém entende: GLS, LGBT, LGBTQ, LGBTQA, LGBTQI. Há alguém que decifre todos estes conjuntos de letras sem recorrer ao google? E este tipo de complexificação das identidades sexuais/ de género só funcionam como forma de afastar uma enorme parte das minorias sexuais. Perdemos, então, aqueles que não compreendem esta terminologia e os embróglios de uma luta que também lhes deveria pertencer. O resultado de tudo isto é que a maioria dos activistas LGBTs portugueses têm uma formação académica mínima ao nível da licenciatura, tirando o caso, talvez, daqueles que compõem o colectivo Panteras Rosa. Os resultados são negativos, mas não é este o momento para sobre os mesmos divagar mais longamente, na medida em que o aparte já vai longo).



O orgulho gay (ou LGBT) é um sentimento com uma carga positiva, digamos, diminuta. É um sentimento que aparece com uma vertente de oposição mais marcada. Oposição à vergonha anteriormente sentida, à humilhação, ao desrespeito, ao nojo, à indiferença, ao desprezo sofridos, à vontade de mudar, à imposição da sociedade para que o comportamento seja outro. Não é um sentimento que se afirme pela positiva, na medida em que, por si só, não faz grande sentido que uma pessoa afirme ter orgulho em ser homossexual, tal como, por exemplo, não fará muito sentido que uma pessoa com uma deficiência física fale de orgulho por essa condição.


Aqui o sentimento de orgulho é criado pela discriminação e pretende ser um estádio avançado, mas não o final (em que a pessoa se sente tão bem com ela própria, tão merecedora de igual respeito, tão equivalente às outras, que o orgulho deixa de fazer sentido), no qual qual uma pessoa se sente suficientemente bem com o facto de ser gay (ou lésbica, ou transexual, ou o que quer que seja) que deixa de permitir que lhe faltem ao respeito (a si ou a outros da mesma "condição), aceita a sua diferença, luta pela sua aceitação, expressa a sua verdadeira maneira de ser, etc. Assim, embora com ligeiras diferenças, porque nos casos das minorias étnicas podem existir certos saberes e artes que possibilitem a vertente positiva de um sentimento de orgulho, o orgulho gay (gay pride) se filia numa série de outras "manifestações" anti-discriminatórias de que o Orgulho Negro (Black Pride) foi (e ainda é), talvez, aquela mais forte.


É por todas estas razões que não faz sentido falar de um orgulho hetero (ou de um orgulho branco, sendo que aqui o white pride tem mesmo uma conutação extremamente negativa de xenofobia e racismo). Ser heterossexual é o "normal", o habitual e o esperado de um determinado ser humano (genericamente na sociedade actual). Uma pessoa heterossexual não é, habitualmente, vítima de discriminação e, assim, não existindo nada de intrinsecamente positivo no facto de se ser heterossexual, a heterossexualidade não pode sustentar nenhum sentimento de orgulho que não seja homófobo e discriminatório (como o era aí uma certa campanha de uma cerveja de terceira categoria).


Não sei, exactamente, o que pensam sobre o assunto, mas agora era interessante que o punhado daqueles que me lêem se pronunciasse Concordam, discordam? Apoiam as manifestações deste orgulho? (= )). E a Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa é já este Sábado. Estão a pensar aparecer?