quinta-feira, 10 de junho de 2010

Enfim...




Portugal é, efectivamente, o país dos brandos costumes, e é por isso que a nossa revolução de Abril de 74 foi tão inusitada, apanhando todos de surpresa (para além de que não foi despoletada pelo povo). Hoje, o nosso país, afinal, não está muito melhor do que a Grécia. E ninguém faz nada, a população não sai à rua, não derruba governos, não destrói, não contesta a sua situação, não declara não a aceitar, nada faz por mudar....


Tudo apático, tudo estupidificado...O primeiro-ministro continua, alegremente, tratando da sua vida pós-política (com negociatas ultra-obscuras para a produção de computadores de terceira categoria), malbaratando os magros recursos estatais que, do nosso bolso, saem extremamente caros.


Na Grécia, em França, os estudantes, os desempregados, os trabalhadores precários estão todos na rua. Aqui, a única coisa que nos faz sair de casa é um piquenique manhoso, com um cantor foleiro, num jardim antes conhecido por ser o maior "mercado da carne" de Lisboa.


Enfim....

quarta-feira, 9 de junho de 2010

'Cause I had a bad day...

Duas semanas intensas de trabalho resultaram num 15 em Política Internacional. Agora estou sem tempo para me "atirar" ao "Eurocomunismo e a Revolução Portuguesa"...E a maneira como me olhaste, depois de tanto tempo, depois de tudo...quase com desprezo...E o futuro: que fazer no ano que se segue? E o tempo a passar...E estou tão cansado...tão cansado...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O "totalitarismo do orgasmo".




Hoje, Teresa e Helena casaram, naquele que foi o primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo a ser celebrado em Portugal. Continuo sem perceber por que razão, nos dias de hoje, duas pessoas insistem em casar (ainda por cima sendo homossexuais, o que retira grande parte da pressão social...), mas enfim, elas pareciam estar felizes e, assim, não posso deixar de as acompanhar nesse sentimento. Afinal, foram as duas principais responsáveis (com grande custo pessoal) por este passo (tímido) em direcção à igualdade.


Entretanto, numa crónica de 31 de Maio a que só agora tive acesso, João César das Neves ( o arauto nacional da discriminação) faz um certo tipo de afirmações que não poderia deixar de comentar. Não me refiro àquelas em que fala, no registo de língua extremamente baixo que lhe é característico, da homossexualidade como sendo um "comportamento sexual desviante", da "maioria porcalhona" (que termo para utilizar numa crónica num jornal nacional reputado....) ou da falta de discussão nacional sobre a qual assentou a aprovação do casamento gay (outra vez a mesma história?!).


Aquilo que me preocupa no discurso (que a certa altura se torna extremamente desconexo, na medida em que se refere a este alargamento do casamento como um marco fundamental na mudança de uma instituição milenar, mas que terá poucas consequências....Hã?) da criatura é a comparação que estabelece entre o prazer sexual e o "deboche" (obviamente utilizando a palavra no seu pior sentido: de depravação). Ataca, assim, o orgasmo, o sexo não-procriativo, a educação sexual.


César das Neves nunca praticou sexo oral (muito menos anal), nunca atingiu o orgasmo...Fala do sexo como algo virado para a fecundidade. E isto é digno de uma incomensurável pena...As afirmações com que tem sempre vindo a atacar a felicidade alheia ficam, assim, explicadas e são, quase, perdoáveis. O hedonismo é exactamente o conceito filosófico subjacente ao sexo. Quem, aos 60 e tal anos (Ou mais?), ainda não foi capaz de perceber isto, está, efectivamente, destinado a ser um frustrado. E a frustração sexual é um catalisador perigosíssimo para todas as formas de discriminação contra a liberdade sexual.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

"Eu não vendo o corpo, alugo!"




Depois do casamento gay, a nossa pequena oomunidade nacional, a que alguns ainda insistem chamar de Estado, está pronta para discutir outra "questão fracturante". Eu achava mais premente que se discutisse a legalização da eutanásia. Seria muito complicado. A morte (afinal a coisa mais natural e a única certeza que temos na vida) é o derradeiro tabu, maior do que o sexo, e toda a gente tem medo que aquelas famílias que, hoje, despacham os seus idosos para uma qualquer casa da morte (vulgo lares de idosos) e passem a despachá-los directamente para a cova. A mim, nada disto me assusta. Se eu não me encontrar em condições de resistir à decisão da minha família, se a tiver, de me eutanasiar, então é porque, efectivamente, já tinmha "chegado a minha hora".

Todavia, a dita "questão fracturante" que está a ter mais saída no momento, parece-me, é a legalização da prostituição. É de elementar justiça. A que propósito é que "a mais antiga profissão do mundo" (que nem sequer é, mas isso não interessa, tem uma antiguidade suficiente para todos percebermos que não é possível acabar com a mesma e que nem sequer é justo) continua a ser praticada nas mais indignas condições? O que difere, afinal, a prostituição de uma qualquer outra profissão? Quando faço esta pergunta, questionam-me sobre se eu gostava de ser prostituto (ou puto, no Brasil). Respondo que não, e acrescento, mas também não gostava de ser trolha, homem do lixo, empregado de limpeza, médico, técnico de informática, empregado numa funerária, pescador ou vendedor de automóveis.

Claro que a classe conservadora portuguesa vai, novamente, lutar com todas as forças contra mais este avanço civilizacional no nosso país. Afinal, depois, onde vai, às escondidas, o "pai de família" que afinal, de quando em vez até gosta de "dar umas voltinhas" com um rapazinho, ou a mãe que tem vergonha de praticar sexo anal com o marido (porque é pecado)? Tudo às claras, em casas com condições, com recibo passado depois do acto...Não pode ser.

A relação das autoridades nacionais com a prostituição sempre foi da maior hipocrisia. Nunca (nem nos tempos da "outra senhora") se perseguiu de forma contundente esta prática. Sempre tolerada, mas sempre discriminada. Agora, prostitutas e prostitutos começam a sair do armário. E quem pensa que poderá voltar a metê-los no "devido lugar", numa qualquer rua suja perto do Conde Redondo ou da Almirante Reis, já devia, depois de observar a luta LGBT neste país, perceber que já não consegue.

Apesar de fraquinho, aqui fica a ligação para um artigo do Público.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Israel está sozinha.




Uma vergonha, é como classifico o bárbaro ataque israelita à frota de activistas que levavam ajuda humanitária a Gaza. Ajuda humanitária, não armamento, não rockets... A faixa de Gaza é um território independente que Israel insiste em manter sob o mais vil controlo, causando uma situação humanitária catastrófica naquele pequeno espaço. Pretende esmagar pela fome, pela falta de acesso a água potável, a medicamentos os sofredores habitantes do território (na maioria tão inocentes como qualquer habitual cidadão israelita). Teve, desta vez, um comportamento tão ou mais indamissível do que aquele que é habitual o Irão pôr em prática.

Com este acontecimento, todos aqueles que desejam a destruição total de Israel conseguiram uma importante vitória diplomática. O regime do ultra-conservador Netanyahu perdeu, aqui, qualquer tipo de legitimidade internacional. A razão, neste momento, pende completamente para o lado palestiniano. Precisando de todos os aliados que conseguir na região (e sobretudo da Turquia, que já condenou expressivamente o referido ataque) para resolver os imbróglios afegão, iraquiano e iraniano, aos EUA só resta uma coisa: deixar cair o aliado judaico. Israel está sozinha.


Notícias: Público I e II, i.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A homofobia é, já, uma vergonha.




Dentro de, precisamente, 5 dias, entra em vigor a lei que permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo (CPMS). No próximo dia 4 de Junho fica completo um ciclo que compreende uma vitória (ainda que muito pequena e muito parcial, na medida em que não inclui a adopção que é, para mim, muitíssimo mais relevante na regulação da interacção familiar homossexual que o casamento) sobre a homofobia. Apesar da luta acérrima movida pelos sectores arqui-reaccionários e ultra-preconceituosos nacionais, a liberdade, o amor, a igualdade, a luta contra a discriminação venceram.


Estão, aliás, estas forças, destinadas a vencer, sempre. Não obstante o medo que sempre causa a liberdade (veja-se a pãnico e a pressa em acabar com a Revolução portuguesa), as pessoas vão, certamente, habituar-se a mais este passo em direcção à modernidade e em relação àquilo que é correcto, justo e humano, porque "uma sociedade justa é aquela qu não humilha os seus membros". A reacção tentou (através de criaturas como Isilda Pegado, uma lésbica arrematada, dizem muitos) manter e reforçar a humilhação a que todos nós, membros da sociedade portuguesa, e não apenas os homo e bissexuais vínhamos sendo sujeitos.


Pela minha parte sou completa e intrinsecamente contra o instituto do casamento. Muitas vezes cheguei a perguntar-me porque andava, eu que classifico de "horrenda" esse tipo de união, a recolher assinaturas pelo CPMS. A resposta é simples. Acredito que numa sociedade que pretende reger-se pelo primado dos direitos humanos, duas (ou três, ou mais, que também nada tenho contra a poligamia e o poliamor) devem, querendo, poder "oficializar a sua relação perante o Estado" ( e já agora, perante Deus. Mas aí, vá-se lá saber porquê, as Igrejas, e não só a Católica, Têm sido pródigas na manutenção das mais vis discriminações).


Claro que a luta por mais este direito (o casamento monogâmico, excluindo a discriminação) tem na base uma visão "normalista" e "heterossexualizada" da vida conjugal e é, em parte, um presente envenenado, na medida em que imprime um atestado de incompetãncia parental aos homossexuais. Ainda assim, numa sociedade em que a visão de gays (sobretudo) e lésbicas é a de que estes são mais promíscuos (e que mal teria isso, já agora? mas adiante...) e menos atreitos ao estabelecimento de relações "sérias" (aquelas que duram aí, pelo menos, dois anos, penso...porque uma "curte" de uma noite não pode ser séria, embora seja, habitualmente, bastante mais honesta...mas não nos detenhamos, por ora, aqui) e, por isso, menos dignos de verem as suas relações vistas como iguais às heterossexuais, o estabelecimento deste laço conjugal "máximo" irá, com certeza, permitir que uma alteração na aceitação dos casais LGB.


Assim, dia 4 será um dia que representa um progresso genericamente positivo para este país. As demonstrações públicas de homofobia representam, já, uma vergonha para quem as põe em prática. Hoje, um homófobo (tal como um racista, um intolerante religioso, etc.) tem noção do embaraço que o seu comportamento provoca nele próprio e sabe bem que ficará situado no mesmo patamar que um qualquer "cantorzeco" ordinário. Atingimos, neste momento, creio, esta vitória. Utilizar termos como "paneleiro" ou "fufa" para atingir e magoar um gay ou uma lésbica deixou de ser admissível, e quem os utilizar, enquanto insulto, perde qualquer tipo de dignidade, desmorona a sua ética pessoal, reflecte que não tem valores, não tem capacidade cognitiva para perceber o alcance dos seus actos, enfim, "subhumaniza-se". Porque "discriminar não é humano"!.

domingo, 30 de maio de 2010

A estupidez da reacção.





Um conhecido meu costumava dizer que as pessoas mais inteligentes eram de esquerda. Interiormente, desejoso de manifestar a mais aberta concordância, exteriorizava, todavia, algum desacordo com tal generalização e atirava com nomes como Vasco Pulido Valente e Vasco Graça Moura (embora este último, quando obcecado com a defesa de alguma posição ultra-reaccionária, não tenha qualquer problema em repetir os mais idiotas argumentos).

Toda esta histeria da reacção à volta da promulgação do casamento gay por Cavaco Silva me faz, porém, ter uma certa necessidade de concordar com o meu amigo, pelo menos no sentido de que os os mais reaccionários têm uma certa tendência para uma utilização menor do cérebro que as pessoas comuns.

Alguém, no pleno uso das suas capacidades intelectuais, pode, sem ser de forma imensamente desonesta e demagógica, afirmar que Cavaco Silva não é total e intrinsecamente contra o alargamento do casamento a casais de pessoas do mesmo sexo (e mesmo contra a extensão de quaisquer direitos a esta minoria). E têm, ainda, a insensatez de criticar Cavaco por ter promulgado o diploma que legalizou a IVG (sabendo que o actual PR não poderia ter uma posição mais contrária à medida). Atacaram a decisão de Cavaco, baseada, como sabemos, num referendo em que o todo o povo português participou, mas defendiam a realização de um referendo para impedir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Este já acatariam, se o resultado lhes fosse favorável, certamente...

Estas isildas pegado e césares das neves não percebem que lançarem figuras como Bagão Félix (!!!) ou o tenente-coronel João José Brandão Ferreira (quem é este, já agora?) só possibilita que Cavaco (o mais reaccionário grande político português) ganhe uma aura mais moderada, podendo avançar confortavelmente sobre o eleitorado do centro.


Não acredito que possa aparecer um candidato à direita de Cavaco que possa ter uma votação superior a 3%. Acredito, contudo, que a promulgação do casamento gay e, sobretudo, esta campanha da reacção podem fazer Cavaco Silva conquistar um número de votos muitíssimo superior àquele que, eventualmente, perderá. Assim sendo, das duas uma: ou estas patetices da ultra-reacção são apenas uma táctica para que o actual PR conquiste um maior número de votos, ou aquilo que o meu conhecido me dizia se aplica, pelo menos, aos sectores mais extremados da direita: a inteligência que terá, ali, sido, eventualmente, plantada não colheu nenhum tipo de frutos.