quarta-feira, 19 de maio de 2010

Direcção: adopção.






Enganei-me redondamente. Imaginei (sinceramente nem concebi outra hipótese) que Cavaco Silva vetaria o diploma, em sombra para dúvidas, sem pensar duas vezes. Pensei que tudo faria para impedir para que Portugal continuasse a trilhar o caminho em prol da liberdade e da igualdade. Deu a desculpa da economia, da perda de tempo e do facto de, com toda a probabilidade, o diploma lhe chegar novamente em condições em que estaria, constitucionalmente, obrigado a promulgar, e promulgou.



A direita mais reaccionária não lhe perdoará. Duas ou três criaturas da "Plataforma Cidadania e Casamento" já vieram criticar de forma contundente a atitude de Cavaco, dizendo que ficará para a história como o "PR que promulgou o casamento homossexual e o aborto". E muito terá custado a Cavaco. Custo meramente pessoal, porque os votos, esses estão absolutamente garantidos. Nas próximas eleições, e contra Manuel Alegre, todo este "mundilho" de preconceituosos e reaccionários vai engolir mais um sapo e votar pela reeleição do actual Presidente da República.



A luta, agora, é pela adopção. Será uma batalha muito mais difícil já que contamos, unicamente, com um apoio partidário: o Bloco de Esquerda e teremos de levantar barricadas contra o próprio PS. Veremos como se comportam, agora, as associações lgbt portuguesas que alinharam com os socialistas e decidiram abdicar da luta pela igualdade plena. Que farão, agora? provavelmente irão dar algum tempo (dois anos...mais?) para permitir a "absorção" da actual medida, iniciando, depois, timidamente, a campanha pelo alargamento da adopção a casais de PMS. Contem, todavia, ser acossados por todos aqueles activistas que viram sempre este diploma como algo de positivo, mas de menor, de certa forma ainda humilhante e homófobo...



Ainda assim, celebrou-se uma vitória de todos os portugueses. Uma vitória conta a homofobia, contra o preconceito e contra todas as formas de discriminação em geral. Toda a população LGB tem uma garantia de que as suas lutas são justas e terão, inevitavelmente, sucesso: essa garantia é o facto de ser o amor aquilo que nos move.



Parabéns!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A economia e a homofobia.




Hoje, dia 17 de Maio, o Dia Internacional da Luta Contra a Homofobia (IDAHO), o Presidente da República irá, pelas 20h15m, pronunciar-se acerca do diploma sobre o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo (CPMS). A menos que algum tipo de milagre se tenha dado nestas últimas duas semanas, a declaração de Cavaco Silva só pode ser no sentido de explicar o veto que irá aplicar ao diploma.


Ainda há alguns que alimentam uma vâ esperança, acreditando, até, que Cavaco sabe o que hoje se celebra. Não faz ideia, mas sabe que a maioria (a larga maioria?) da população portuguesa se posiciona contra o alargamento do casamento civil a casais de PMS e que em menos de um ano terá de enfrentar eleições.


Cavaco é o mais reaccionário Presidente da República Portuguesa desde António de Spínola. Não se esperava outra atitude da criatura que não fosse o veto. Podia, contudo, pelo menos, esperar por outro dia que não o IDAHO para desferir mais um ataque homófobo contra todos os portugueses.


Enquanto não percebermos que a discriminação funciona como um todo (odiar gays é o mesmo que concordar com o espancamento das mulheres, com a discriminação dos chinenes, etc.) não conseguiremos atingir o desenvolvimento (até económico) que queremos para este país. Olham para o mundo e tentem encontrar algum país rico (com justiça e redistribuição) que seja, ao mesmo tempo, homófobo. Não encontrarão...


(mais info: i)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Uma ou duas "dicas" "p'rós" "católicos".




Hoje, em Fátima, o Papa denfendeu "o matrimónio indissolúvel de um homem com uma mulher" e condenou o casamento (civil) homossexual como sendo um "dos mais insidiosos e perigosos desafios que hoje se colocam ao bem comum".

Claro que a santa criatura já tem uma certa idade (83, creio eu). Ainda assim, há certas coisas que esperava que já tivesse compreendido. Afinal, é um "intelectual" (segundo se diz...).

Em primeiro lugar, o casamento civil homossexual não prejudica a indissolubilidade do matrimónio (que é, e continuará a ser um sacramento puramente religioso). O casamento católico poderá, desta forma, continuar sagrado, tradiciononal, beato e horrendo como até aqui. A igreja poderá continuar, como até aqui, a promover a coerção do prazer sexual e a estimulação da procriação que ninguém mexerá uma palha para a impdedir (os católicos mais fervorosos, perdoem-me lá, mas que se lixem, já que é por vossa vontade que estão "aí" metidos).

Eu, pela parte que me toca, vou continuar a sumergir-me no prazer e luxúria do sexo "não-procriativo" (sempre utilizando o preservativo, já que, ao contrário dos padrecas e das beatas, a mim o HIV preocupa-me), com a certeza de que quando chegar o dia do "juízo final" passarei à frente de muitos daqueles que andaram perdendo a vida em rezas e, de um modo geral, a condenar e a prejudicar a vida alheia.

Depois, e concluindo, um sacramento religioso, num país laico (sim, apesar dos "feriados papais", Portugal é, ainda, um país em que o laicismo é um postulado constitucional) não faz, nunca, parte do "bem comum", mas apenas da fé de alguns.

Uma úlitma mensagem para tosdos os católicos de "trazer-por-casa": e se olhassem para os vossos casamentos tão imaculados e puritanos e deixassem de meter a colherada no facto de eu, se me apetecer, poder vir a querer casar com outro homem? (lagarto, lagarto, lagarto). Pois...agora percebo...se calhar era demasiado assustador.

Frantz Fanon, meditando sobre as independências africanas, aconselhava os recentes movimentos de libertação a iniciarem uma guerra de independência, mesmo que dela não tivessem necessidade para se auto-determinarem, mas somente porque a fragilidade destes colectivos necessitava da criação de um inimigo comum.

Ó "católicos", os vossos casamentos encontram-se, assim, tão na merda que precisam de meter o nariz no meu?



PS: para aqueles poucos que possam ter um remoto interesse naquilo no discurso do Papa: i, Público.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Habemus ratus!






Aproveitando que o "povão" se encontra distraído com a visita Papal e entretido a gozar de um merecido feriado (afinal, Nossa Senhora ainda cá apareceu uma meia dúzia de vezes! Seguidas!), José Sócrates anuncia um enorme aumento de impostos (no IRS e IRC). (Com a ajuda de Pedro Passos Coelho que, afinal, para além de líder do Partido da "oposição" decidiu aceitar o cargo oficioso de camareiro-chefe do primeiro-ministro).



Ao mesmo que tempo que "luta" pelo reconhecimento do direito de gays e lésbicas ao casamento (sem a adopção, porque isso é tão avançado que em Espanha até já existia antes do casamento), senta-se na primeira fila para prestar homenagem a um homem que considera que a revelação dos abusos de menores são uma "cabala" contra Igreja e que afirma que existe uma relação simbiótica entre homossexualidade e pedofilia e concede um dia e duas tardes de tolerância de ponto para que o povo deste país vá prestar o seu tributo a um líder religioso (!?).




Sócrates, sempre um homem de convicções e com uma vincada ideologia. Habemus ratus!!




Reacções au aumento: i.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Baltic Pride I - A Marcha.




Entre os dias 6 e 9 de Maio, estive, como já aqui havia ficado dito, na Lituânia para a convite da Amnistia Internacional para os ajudar a preparar o Baltic Pride, um evento comemorativo do orgulho gay que rotativamente vai acontecendo anualmente numa das capitais dos três países bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia). No ano passado, em Riga (Letónia), os manifestantes foram brutalmente agredidos por militantes nazis, fundamentalistas católicos e, de um modo geral, por todos aqueles para quem a população LGBT representa, de alguma forma, uma propulsão para a violência.

Por esta razão, em 2010, a Amnistia Internacional decidiu envolver-se de uma forma mais próxima e efectiva para garantir que a Marcha do Orgulho LGBT de Vilnius se pudesse realizar com toda a segurança. Foi difícil, mas todos juntos, e sobretudo com a coragem inigualável da população LGBT dos países báliticos (que lá ficará para sofrer todas as consequências, enquanto eu me sento aqui, tranquilamente de de forma segura, em casa a dar vida a este escrito), conseguimos!

O ódio, que leva a que a esmagadora maioria das lésbicas e gays lituanos a viver escondidos e a verem a sua integridade física e psicológica continua e impunemente violadas, manifestou-se, obviamente durante a realização da Marcha (embora sempre muito de longe, impedido de se aproximar pelas barreiras policiais) sob a forma de suásticas, cruzes de madeira e slogans que associavam a homossexualidade à infecção pelo HIV.

Ainda assim, a Marcha decorreu com toda a normalidade e foi um momento único na minha curta vida activista. As dificuldades que aquelas populações enfrentam só para poderem exprimir de forma pacífica os seus direitos são, para nós, que temos todas as facilidades em organizar as nossas duas Marchas do Orgulho LGBT, completamente inimagináveis.

Eles arriscam a violência física mais bárbara, a completa exclusão social, o desemprego, a ostracização na escola e no meio académico, a rejeição familiar. Por isso faço um apelo. Nós, que não arriscamos nada, ou não tudo isto, façamos um esforço por tornarmos a comunidade LGBT visível. Pouco importando a orientação sexual, vamos todos participar nas Marchas do Orgulho LGBT portuguesa e, sobretudo, não deixemos calar uma demonstração de afecto no espaço público. Lembremo-nos que lutamos também por aqueles que não podem lutar.

Eli.

"I've loved getting dressed up ever since I was a kid! I choose to take on a feminine gender expressions because I feel more comfortable that way. Like, we don't need any more masculine men on this earth you know. There's so little wiggle room for how you get to act if you're born as a biological man. Life is so much easier if you can cross the lines and be provocative.


I chose my own name. Iwanted to create space to make it easier to be the way I want on any given day; my old name had such limitating associations I want to create my own person, a person I've made up out of my own experiences. I want to choose for myself who I am and who I will be".


Nestes dias em que a "norma" e as "barreiras sociais" ocupam as nossas ruas, aqui fica uma pequena história de alguém que não teve medo de ser diferente.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Do papel do Amor na destruição da Igreja.




Hoje, o sucessor do Papa-Fátima, Bento XVI, rezou a sua primeira missa em Portugal. Confesso que me sinto bastante envergonhado (para não dizer quase enojado) pela forma quase fanática como milhares de portugueses seguem os ditames sem qualquer tipo de questionamento, sem qualquer exercício depensamento, sem qualquer consciência crítica, aceitam tudo, sem substância encefálica posta à prova, sem considerarem consequências de levianamente levarem a sério pessoas que não pensam, não vivem e não enfrentam a mesma realidade que todos nós.


Cristo foi uma homem extremamente avançado para o seu tempo, um revolucionário mesmo (do género daqueles que a Igreja queimou em mui santas fogueiras ou mandou fuzilar, ou atacou violentamente quando se tornou absolutamente obsoleta a "purificação" pelo fogo). Se Cristo voltasse à Terra, não iria, certamente, viver para o Vaticano. Em 33 anos de vida neste mundo nunca preferiu o lado do poder, mas o dos subjugados sociais, movimentou-se sempre nos elos mais fracos e nunca nas mais altas esferas.


Não estaria, nunca, junto daqueles que apanharam, hoje, o comboio (no Estoril) para ver o Papa porque era impossível estacionar o Jipe de 250.000 euros ou fazer o chauffer atravessar as barreiras policiais em Lisboa, mas perto dos que perderam os transportes para um emprego precário porque um país laico concedeu um "feriado" para que se fosse prestar homenagem a um líder religioso (que vá-se lá saber porquê tem direito a governar, também, um Estado soberano). Viveria, contudo, junto dos portadores de HIV, dos homossexuais, das prostitutas, dos desempregados, dos sem-abrigo.


Não teria, nunca, a coragem de condenar um relacionamento homossexual, porque a sua linguagem sempre foi a do Amor. Nunca estabeleceu limites ou critérios para a maneira como esse amor deveria ser exercido, nem nunca se ouviu da sua boca uma palavra limitativa de qualquer prática sexual. Nada, só pregava a Paz e o Amor, só isso era importante.


E depois criou-se a Igreja, e com a sua institucionalização veio o Ódio que havia de marcar a sua forma de encarar a realidade desde os primeiros tempos. Logo poucos anos depois dos cristãos serem mortos das maneiras mais bárbaras nos coliseus de todo o Império Romano, a Igreja encetou as mais variadas formas de perseguição àquilo que era diferente, que incomodava, no fundo, àquilo que Cristo protegeu e protegeria.


A Igreja matou Cristo e matou a sua mensagem. O Amor fez sempre parte do vocabulário, mas nunca das acções eclesiásticas. E foi sempre o Ódio, sempre com a cumplicidade e fomentado pelo fogo do Vaticano, que fez com que milhares de pessoas morressem aos pés da Santa Inquisição e que, hoje, milhares de homossexuais na Polónia e países bálticos vejam a sua integridade física e psicológica barbaramente violadas. Sempre com a colaboração do Santo Padre, sempre com os discursos preconceituosos dos bispos e das práticas horrendas dos padres.


Hoje, o Papa garantiu que "as forças adversas nunca conseguirão destruir a Igreja". Eu tenho a opinião contrária. É que as tais "forças adversas" estão cada vez mais estruturadas e motivadas pelo Amor (movimentos LGBT, feministas, libertários sexuais, amorosos revolucionários). E como a Igreja deveria saber já desde o tempo de Cristo, nem sequer a morte (o úlitmo silenciamento) pode calar a mensagem do Amor.