terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Aquilo que nasceu torto...



Como é sabido, estou longe de ser um defensor das reivindicações dos professores (representados pela Fenprof), mas, realmente, o Governo na tentativa de apaziguar (?) a classe docente vem criar mais uma distorção num modelo avaliativo que já nasceu torto.

Agora, os professores com classificação de "Bom", mas que não tenham vaga para atingir o escalão seguinte, têm prioridade, no ano seguinte, sobre os subsequentes docentes classificados com "Bom" (v. Público e i).

Enfim, é como eu me ter graduado em 2009 com 18 e outra pessoa ter terminado a mesma formação em 2008 com a mesma classificação e, numa candidatura a um emprego, eu ser preterido porque alcancei a classificação um ano mais tarde.

Estamos já todos imensamente fartos deste braço de ferro entre os professores e a tutela. O que nos vale é que, como ficou provado em todos os estudos de Sociologia da Educação sobre a matéria, a qualidade dos docentes pouco influi no sucesso académico dos alunos.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Criação de um mártir?



Nos mais recentes protestos no Irão, devido à brutal repressão da polícia do regime, morreu Ali Mousavi, sobrinho do principal líder da oposição à teocracia iraniana (v. tb i).

Desconheço o passado político de mais esta vítima da mais brutal autocracia do Médio Oriente. A popularidade já a tem, garantida pelo mediatismo do tio. Se o seu passado como activista contra o regime ditatorial da antiga Pérsia se coadunar com este reconhecimento público, poderá ter sido criado um mártir da defesa da liberdade no Irão.

Isso seria o princípio do fim.

Não há por aí mais nenhuma Susanna Maiolo?



Papa apelou, hoje, à família formada por um casamento entre um homem e uma mulher, atacando, novamente, todos os gays e lésbicas (muitos deles católicos praticantes) que desejam constituir família através do instituto do casamento.

Para justificar estas afirmações que vêm, lembremo-nos, no seguimento dos apelos do Sumo Pontífice contra a discriminação e pela tolerãncia, vem o Santo Padre dizer-nos que Jesus nasceu no seio de uma família formada por um homem e uma mulher.

Por acaso, sempre pensei que para Jesus, enquanto filho de Deus (não tendo qualquer laço sanguíneo com José, seu pai "adoptivo") e que considerava toda a humanidade por igual, tendo morrido na cruz, sacrificando-se por todos nós, a sua família terrena não tinha mais importância do que qualquer uma das outras pessoas pelas quais o Messias desceu à terra.

Mas com Susanna Maiolo já internada, devo ser eu o único que vejo a contradição das afirmações de Bento XVI. Infelizmente, não tenho voz suficiente para as derrubar, com o mesmo mediatismo do acto de Susanna.

(notícia também aqui, com uma fotografia muito mais bonita do Santo Padre).

Hannah e Martin



Fui, hoje, ver a peça "Hannah e Martin". É magnífica. As suas mais de duas horas, se estivermos atentos ao conteúdo filosófico/especulativo da peça, colocam questões imensamente interessantes. Aborda a relação (afectiva, mas também académica e, digamos, "política"/"conceptual") entre o filósofo Martin Heidegger e a "pensadora" (recusou, sempre, o "título" de filósofa) Hannah Arendt.

A primeira parte trata da aproximação entre Hannah e Martin. Primeiro, uma aproximação académica (Heidegger era professor de Arendt), mas depois também amorosa (tornam-se amantes). Mas a relação afectiva que nutriam nunca se afasta muito da questão intelectual. Hannah é, já, brilhante, mas muito presa às concepções de Heidegger.

Neste primeiro momento, dá-se, ao fim de algum tempo, o afastamento físico (por pedido da mulher de Heidegger?), mas não o intelectual ou afectivo. Hannah continua a viver e a trabalhar para e sobre aquilo que Martin representa.

É só na segunda parte da peça que se dá o afastamento intelectual/ideológico entre Arendt e Heidegger. Heidegger "adere" ao nazismo, Hannah, judia, compreende os perigos do totalitarismo (termo que cunhou) e foge da Alemanha. Afasta-se também das concepções ontológicas de Heidegger (o ser do homem é um "ser que caminha para a morte"), afirmando as suas, influenciadas certamente pelo pensamento de S. Agostinho (Initium ut esset homo creatus est (para que houvesse um início o homem foi criado)): o que dá sentido à existência humana é o nascimento.

E tal como o nascimento e a morte estão distantes, também Hannah e Martin ficam. Hannah está magoada com Martin, não percebe como não pode este ter visto, logo de início, os malefícios que carregava o nazismo. Heidegger já não domina Arendt e, portanto, deixa de a compreender. Há uma redenção final. Hannah escreve em defesa de Martin, para que este possa voltar a ensinar.

A interpretação de Rui Mendes é brilhante. A de Ana Padrão fica um pouco aquém, mas consegue "comover-nos", igualmente. A peça é interessantíssima na forma como combina teatro com aquilo que posso chamar de "cinema presencial" (as personagens são filmadas, na altura, e a imagem projectada ao mesmo tempo). Os actores secundários dão um bom toque final a uma peça que recomendo vivamente.

(Obrigado, T., pelo convite. Valeu, mesmo, a pena.)

sábado, 26 de dezembro de 2009

No Médio Oriente, algo de novo?



Israel volta a matar palestinianos nos território ocupado da Cisjordânia e na faixa de Gaza. Os dois lados (as "duas Palestinas" e Israel) reclamam, como sempre, ser as suas acções completamente justificadas.

Para quem considera que todos os meios justificam os fins, a invasão por parte do estado israelita da faixa de Gaza, no ano passado, está amplamente justificada. Segundo a notícia do Público, a redução dos ataques por rockets lançados a partir de Gaza sofreu uma redução drástica.

O que eu pergunto é, sem querer, obviamente, colocar a causa dos problemas apenas em Israel (como bem se sabe a situação é bem mais complicada do que isso), de que modo justifica Israel que é, até ver, uma democracia, a brutalidade com que sempre tem vindo a responder às "ameaças" palestinianas. Sabemos que o Hamas ataca violentamente o estado judaico, mas, Israel, enquanto estado democrático, não deveria escolher vias menos violentas de resolver o problema?

Do outro lado do Médio Oriente, o inimigo visceral de Israel, o estado teocrático iraniano, está, como vimos afirmando neste blog, a entrar em colapso. Qualquer justificação é boa para se levantarem amplas manifestações contra uma das mais brutais autocracias mundiais. A repressão não conseguirá manietar a liberdade para sempre.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O derrube da hipocrisia.



Na sua tradicional mensagem “urbi et orbi”, o Papa apelou ao fim da discriminação contra os imigrantes e pela tolerância entre toda a humanidade. O mesmo Papa que, lembre-se, afirmou que Maomé apenas trouxe coisas negativas e desumanas, como a difusão da crença de que a fé deveria ser espalhada pela espada (esquecendo-se, certamente, da história da Igreja Católica) e que tem vindo sempre a atacar gays e lésbicas ("É tão importante salvar a humanidade da homossexualidade e transexualidade como salvar a floresta tropical"; "A homossexualidade destrói a obra de Deus").

Enfim, uma cidadã italo-suiça de 25 anos, prevendo já a hipocrisia que iria jorrar da boca de Bento XVI derrubou o Sumo Pontífice quando este se preparava para celebrar a missa do Galo. Dizem que é, provavelmente, desiquilibrada mental. Não sou, de modo algum, um defensor da violência, mas não posso deixar de notar que Susanna Maiolo pôs em prática a metáfora do "derrube da hipocrisia" da Igreja de uma forma particularmente apreensível.

Aqui fica o vídeo (e para que não digam que sou mauzinho, expresso também um desejo de melhores para o cardeal Roger Etchegaray).

O Presépio!



Sim, eu sei que parece o presépio que já viram à porta de alguma Igreja. Mas não. Trata-se, apenas, do presépio da nossa modesta casa.

Tem rios, pontes, lagos, ovelhas, pastores, casas, moinhos, montanhas, florestas, neves eternas e....



...este ano teve até uma banda.

É a tradição natalícia no seu melhor.