segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Crónica do retorno.



Reparo, hoje, que estive mais de um ano sem aqui escrever. Hoje volto. Deveria, talvez, justificar-me, perante os dois ou três leitores habituais destas arengas, mas a verdade pode muito bem ser que o que me levou ao temporário abandono da escrita seja demasiado íntimo para ficar, assim, pregado nas paredes da praça pública. Ou talvez se deva, apenas, à preguiça e, então, é melhor não nos imiscuirmos demasiado na inventariação das causas do sexto (?) pecado capital, não vá Belphegor continuar a cativar-nos com demoníacos panegíricos ao desleixo. Se, realmente, me puderem fazer acreditar que a leitura dos meus escritos vos interessava, talvez eu possa assumir o compromisso de não voltar a ficar tanto tempo sem reflectir em público. Entretanto, e porque já chega de mea culpa, remato esta primeira malha com um pedido de desculpas àqueles que aqui apareceram neste ano que passou para encontrarem estas ruas vazias de novidade.

Quando costumava escrever, aqui, com maior regularidade, reflectia, as mais das vezes sobre temas "políticos". Seguramente, uma das razões que me levou ao temporário abandono destas páginas foi o desencanto que trespassou a minha vontade de "intervir" politicamente. Depois de um momento em que me pareceu que o povo português havia acordado para a necessidade de mudança e parecia mobilizar-se para iniciar as transformações que recolocassem o país no caminho da justiça, igualdade e do desenvolvimento social e cultural, tudo morreu. As gigantescas manifestações iniciadas com a de 12 de Março de 2011 revelaram ser mais o grito angustiado do desespero de quem já não sabe o que fazer para melhorar a sua situação individual do que o início de um movimento consciente para a alteração da situação colectiva. Ali, protestava-se, no fundo, contra tudo o que é político e, assim, em concreto, não se protestava contra nada ou se propunha coisa alguma. Era a dança da chuva a pedir o dilúvio que limpasse tudo, sem se pensar na construção de uma barcaça que contivesse os princípios que iriam construir o primeiro dia de sol. A chuva não veio e a população remeteu-se, novamente, ao silêncio, ao embrutecimento. O "cada um por si", a emigração, a depressão e a aceitação pura e simples da realidade substituíram o clamor inicial.

Por outro lado - e isto é muito mais preocupante do que a situação de inconsciência e inconsistência do protesto -, perante a total falência do sistema político-económico capitalista em cumprir as suas promessas de melhoria constante das condições de vida, a esquerda europeia tem sido incapaz de aparecer como uma escolha alternativa para a esmagadora maioria da população. Em Portugal, entre uma esquerda soviética sem pretensões de chegada ao poder ou capacidade de diálogo e uma extrema-esquerda mais preocupada com infindáveis discussões ideológicas de pormenores, o cenário é, ainda, pior.

Tudo isto me imergiu numa "depressão política" profunda em que eu começava, já, a aceitar o embrutecimento populacional e a considerar que era melhor deixar de partilhar ideias em que a maioria não parecia rever-se. E, ainda assim, eu continuava a ser profunda e intrinsecamente de esquerda. Perdido todo o proselitismo, todo o desejo de debate, toda a capacidade interventiva, toda a perspectiva de combate, restava uma certeza - a de que, para além de toda a racionalidade, eu estava ligado aos ideais de esquerda. Ligado de maneira, essencialmente, sentimental, porque a verdade é que eu teria (quase) tudo para ser de direita. Cresci sem dificuldades financeiras, com possibilidades culturais, francamente, acima da média e num contexto bastante católico e, francamente, retrógrado. Tirando a questão sexual, digamos - que, na verdade e ao que se vê, não é assim tão determinante - eu teria todas as razões para defender o meu espaço e privilégios. Foi, contudo, sempre nos ambientes de esquerda que, interiormente, me senti mais amparado e, ao mesmo tempo, liberto. Foi aí que a minha diferença pôde, pela primeira vez, ser não só reconhecida, como, até, nalguns casos, valorizada.

Ser progressista acarreta, todavia, a obrigação de, continuamente, reflectir sobre a realidade - sobretudo, para, continuamente, ser corrigido. E talvez tenha sido por isto, afinal, que surgiu a necessidade de continuar a pavimentar estas ruas.

Sem comentários:

Enviar um comentário