terça-feira, 16 de julho de 2013

Carta aberta a Isilda Pegado.

Cara Isilda Pegado,


Tomei hoje conhecimento de que planeia organizar, na próxima semana, uma vigília defronte do parlamento português, no sentido de alertar os deputados portugueses para os perigos da aprovação da lei da co-adopção por casais do mesmo sexo. De alguma forma, como protótipo de historiador, fico sensibilizado com organização do evento, um pouco em jeito de feira medieval, onde podemos levar a nossa pequenada e mostrar-lhes como se pensava em 1830. Onde lhes podemos ensinar que, afinal, os fósseis vivos não só se movem e respiram, mas falam, repetindo ladainhas bacocas e preconceitos que a maior parte da sociedade portuguesa já não tem pachorra para ouvir, quanto mais para suportar e reproduzir. Onde é possível mostrar o irrepetível e o errado.

Nestes tempos críticos, creio que a Isilda deveria apostar nesse nicho de mercado e ir fazer o papel de carpideira da perda da moral para um qualquer espaço entre a barraca de farturas e o curral dos cavalos usados na recriação das justas de cavaleiros em Óbidos. Desta forma, pelo menos, rentabilizava o esforço que leva a cabo no sentido de paralisar todo e qualquer progresso social e, quem sabe, se as pessoas lhe achassem graça, poderia até fazer uns trocos que lhe permitissem arrancar essa verruga gigante que já deve ter reparado que possui debaixo do seu igualmente grotesco nariz.

Mas não. A Isilda insiste em encarar a sua intervenção política de forma séria e não em jeito de palhaçada, que é como a maior parte das gentes esclarecidas deste país vai permitindo a sua existência. E, então, ao invés de se apresentar no Villaret, em comédia de quinta categoria, continua a insistir em nos entrar por casa adentro em programas de debate (a maior parte deles muito pouco sérios, diga-se) ou na mobilização pública d@s reaças locais.

Felizmente para todo o povo português, mesmo para aquele conjunto de acéfalos que a vêm apoiando, a sua luta está, creio, neste momento, perdida. E está perdida não, de forma primacial, porque o Estado português tem vindo a pôr em prática políticas de protecção das minorias e da liberdade individual, ou porque a intelectualidade portuguesa tenha evoluído num sentido especialmente libertário, mas porque a sociedade nacional, no seu nível mais chão, mais básico, se tem habituado à ideia muito simples de que, na cama, no sexo, no amor, com o próprio corpo, cada um faz o que quer.

É desta forma que a mulher que aborta já não é, hoje, estigmatizada pela maioria daqueles que a rodeiam, a menos, certamente, que viva no gueto de onde a Isilda não se conseguiu libertar; que o adolescente gay gargalha quando um dos seus compinchas o chama de paneleiro ou o acusa de ser menos merecedor de estabelecer laços familiare; que uma mulher goza de prazer com três ou quatro homens ao mesmo tempo, e se borrifa para aquilo que a senhora ou as outras isildas das nossas ruas pensam ou dizem.

Não quer isto dizer que já se atingiu tudo e que a luta deva terminar, mas simplesmente que, neste momento,    quem dá as cartas somos nós, as pessoas que se preocupam em divulgar a ideia de que a liberdade está intimamente ligada à felicidade. E este tipo de estrutura de pensamento, perdoe-me Isilda, mas por mais que se muna, e aos seus apoiantes, de terços, bíblias, cilícios e cintos de castidade, é impossível de destruir. O medo e a ignorância são forças poderosas a favor do obscurantismo, é certo, mas a mim, neste momento, basta-me ligar a televisão na mais brejeira das novelas da TVI (onde abundam os casais gay e as mulheres que fodem por prazer) para a derrotar.


Atenciosamente,

Manuel Campos de Magalhães.

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