quarta-feira, 24 de julho de 2013

E se o fervor da esquerda radical causar a nossa destruição? Desabafos - parte I.



É algo compungido que escrevo esta pequena reflexão. Isto porque sinto, pela primeira vez, que escrevo, também, contra mim próprio. Comecemos, assim, por um bater de punho cerrado no peito ("por minha culpa, minha tão grande culpa..."), um ritual tão cristão, mas prossigamos para outras actividades mais úteis. Aquilo que hoje me interessa, então, é procurar lançar uma ou duas ideias acerca de alguns excessos que podem estar a ser cometidos pelas esquerdas mais progressistas e seus praticantes (nos quais, obviamente, me incluo).

Em Portugal, creio, podemos dividir, assim de forma impressiva, todo o set de ideologias à esquerda do PS - a Esquerda proprio sensu - em dois grandes grupos: os marxistas ortodoxos e a novíssima esquerda (ou pós-marxista, ou marxista radical, vá....) - É impossível ser-se de esquerda sem se ter uma base, ainda que longíqua, marxista. Os marxistas ortodoxos têm, no nosso país e na maior parte daqueles que possuem um sistema político parecido com o nosso, representação parlamentar (por aqui, atravéds do PCP e BE) e continuam a basear a sua actuação numa leitura da sociedade através de umas lentes de um marxismo mais puro, ainda que alargado a todas as questões que a partir dos anos de 1960 a Nova Esquerda foi introduzindo: o género, a raça, a orientação sexual, etc., e não somente, ou preferencialmente, nalguns casos, o poder económico e as desigualdades na sua distribuição.

A novíssima esquerda será já uma evolução, de contornos ainda imprecisos, das esquerdas de 60's e, ao contrário destas últimas, procura, antes de mais, derrubar os conceitos de género, orientação sexual, raça, etc. É no seio ideológico que considero incluir-me. A novíssima esquerda não está, normalmente, organizada em partidos, embora exerça uma influência considerável sobre as margens esquerdas dos sistemas partidários (em Portugal, concretamente, sobre o Bloco de Esquerda). Na medida em que, muitas vezes, faz a junção da análise marxista com as soluções anarquistas, não se encontra, num vasto número de casos, estruturada em organizações hierárquicas, mas em grupos, movimentos, blogues, de pequenas dimensões e, normalmente, com uma orgânica interna relativamente fluída. Une-a (une-nos) o propósito da destruição do modelo branco, patriarcal, heterossexual e capitalista que estrutura as sociedades contemporâneas no ocidente.


Os nossos errros têm derivado tanto da constituição e genealogia do movimento, como de excessos e injustiças cometidos em relação a uma esquerda mais tradicional, digamos. Os primeiros relacionam-se, sobretudo, com a eterna demanda daquele que representa, de forma mais verdadeira, o pensamento de esquerda, daquele que é o mais esquerdista de todos, o mais radical, o mais "desconstrutor", o mais inovador, o mais criativo. E então submergimo-nos em debates infindáveis sobre a forma de artigo definido devemos utilizar ou como devemos terminar as palavras por forma a evitar qualquer referência ao género - o o/a já é demasiado estigmatizante, mas também, recentemente, a @, e então vamos optar, momentaneamente, pelo x, enquanto  não encontrarmos uma forma ainda mais inovadora e marginal - ou sobre a sigla que deve assumir o movimento pela libertação sexual - havia a LGBT, mas agora tem de ser LGBTQ, por causa dos queer, ou LGBTQI, para incluir os intersexuais, ou mesmo LGBTQQI, para ainda se meter os questioning, ou então sigla nenhuma porque, afinal, o que desejamos é mesmo destruir o conceito de orientação sexual, e cada um passa a amar um ser humano, que passa a ser o único conceito aceitável ao nível da sexualidade.

Estas e outras discussões inibem-nos, muitas vezes, de forjarmos alianças duradouras com a esquerda mais tradicional, ainda muito apegada aos conceitos e pensadores dos anos 60, ou anteriores, mesmo, que acusamos, frequentemente de não ir tão longe como seria necessário ou de criar discriminações secundárias no seu desejo de categorizar para eliminar as diferenças entre classes. E, assim, com o nosso desenfreamento podemos estar a excluir aliados importantes. Pessoas para quem o conceito de gay, puta, preto, mulher, tem importância, confere protecção e dá sentido à luta pela liberdade e igualdade.

Nas novíssimas esquerdas temos, sobretudo, de ter atenção para que o nosso fervor destrutivo não nos envolva num fenómeno de desconstrução total ou afastamento surreal em relação aquilo que são as preocupações das pessoas cujas vidas procuramos melhorar. De outra forma, transformamos uma destruição positiva num fenómeno de destruição em massa que contém as raízes do nosso próprio fim...

terça-feira, 16 de julho de 2013

Carta aberta a Isilda Pegado.

Cara Isilda Pegado,


Tomei hoje conhecimento de que planeia organizar, na próxima semana, uma vigília defronte do parlamento português, no sentido de alertar os deputados portugueses para os perigos da aprovação da lei da co-adopção por casais do mesmo sexo. De alguma forma, como protótipo de historiador, fico sensibilizado com organização do evento, um pouco em jeito de feira medieval, onde podemos levar a nossa pequenada e mostrar-lhes como se pensava em 1830. Onde lhes podemos ensinar que, afinal, os fósseis vivos não só se movem e respiram, mas falam, repetindo ladainhas bacocas e preconceitos que a maior parte da sociedade portuguesa já não tem pachorra para ouvir, quanto mais para suportar e reproduzir. Onde é possível mostrar o irrepetível e o errado.

Nestes tempos críticos, creio que a Isilda deveria apostar nesse nicho de mercado e ir fazer o papel de carpideira da perda da moral para um qualquer espaço entre a barraca de farturas e o curral dos cavalos usados na recriação das justas de cavaleiros em Óbidos. Desta forma, pelo menos, rentabilizava o esforço que leva a cabo no sentido de paralisar todo e qualquer progresso social e, quem sabe, se as pessoas lhe achassem graça, poderia até fazer uns trocos que lhe permitissem arrancar essa verruga gigante que já deve ter reparado que possui debaixo do seu igualmente grotesco nariz.

Mas não. A Isilda insiste em encarar a sua intervenção política de forma séria e não em jeito de palhaçada, que é como a maior parte das gentes esclarecidas deste país vai permitindo a sua existência. E, então, ao invés de se apresentar no Villaret, em comédia de quinta categoria, continua a insistir em nos entrar por casa adentro em programas de debate (a maior parte deles muito pouco sérios, diga-se) ou na mobilização pública d@s reaças locais.

Felizmente para todo o povo português, mesmo para aquele conjunto de acéfalos que a vêm apoiando, a sua luta está, creio, neste momento, perdida. E está perdida não, de forma primacial, porque o Estado português tem vindo a pôr em prática políticas de protecção das minorias e da liberdade individual, ou porque a intelectualidade portuguesa tenha evoluído num sentido especialmente libertário, mas porque a sociedade nacional, no seu nível mais chão, mais básico, se tem habituado à ideia muito simples de que, na cama, no sexo, no amor, com o próprio corpo, cada um faz o que quer.

É desta forma que a mulher que aborta já não é, hoje, estigmatizada pela maioria daqueles que a rodeiam, a menos, certamente, que viva no gueto de onde a Isilda não se conseguiu libertar; que o adolescente gay gargalha quando um dos seus compinchas o chama de paneleiro ou o acusa de ser menos merecedor de estabelecer laços familiare; que uma mulher goza de prazer com três ou quatro homens ao mesmo tempo, e se borrifa para aquilo que a senhora ou as outras isildas das nossas ruas pensam ou dizem.

Não quer isto dizer que já se atingiu tudo e que a luta deva terminar, mas simplesmente que, neste momento,    quem dá as cartas somos nós, as pessoas que se preocupam em divulgar a ideia de que a liberdade está intimamente ligada à felicidade. E este tipo de estrutura de pensamento, perdoe-me Isilda, mas por mais que se muna, e aos seus apoiantes, de terços, bíblias, cilícios e cintos de castidade, é impossível de destruir. O medo e a ignorância são forças poderosas a favor do obscurantismo, é certo, mas a mim, neste momento, basta-me ligar a televisão na mais brejeira das novelas da TVI (onde abundam os casais gay e as mulheres que fodem por prazer) para a derrotar.


Atenciosamente,

Manuel Campos de Magalhães.