quinta-feira, 2 de maio de 2013

Portugal e o racismo - percursos (parte I).




Enquanto petiz, uma das coisas que mais confusão me fazia no feixe ideológico que constitui a identidade portuguesa era a relação com a diferença "racial", sobretudo com aqueles que auferiam de ascendência africana, os pretos, ou as "pessoas de cor", como dizia a minha avó. Os pretos tomavam conta de nós (crianças), trabalhavam na pujante construção civil dos anos da minha infância (os anos de ouro dos "patos-bravos", os saudosos anos 90) e nas limpezas. Eram, claramente, subalternos. E, contudo, pelo menos ao nível do discurso das pessoas que então me rodeavam, não eram objecto do mesmo tipo de discriminação de outros subalternos (homossexuais, toxicodependentes, criminosos e, mesmo, pobres), estes últimos vítimas de ataques mais directos. O racismo era, então, mais subtil que a homofobia ou a "discriminação de classe". Actuava e existia, mas era, pelo menos, "feio" ou "indelicado" a assunção de posições assumidamente xenófobas, semelhantes às que, por exemplo, seriam mais habituais nos líderes brancos e protestantes dos EUA na altura.

Eu tinha amigos pretos e uma namorada mulata, a Luana, mas rapidamente compreendi que aquilo não era o mais habitual e que o "meu" mundo era bastante mais branco do que a ideologia de "racismo suave" explanada pressupunha - lembro-me, por exemplo, de, certa vez, me ser apresentada por uma amiga uma outra colega de brincadeira "muito simpática, mas que era pretinha" (assim, no diminutivo, porque, na consubstanciação do racismo subtil imperante em Portugal, é, ainda hoje, talvez, muito feio dizer os pretos, ou os negros). Portanto, no ambiente cristão em que cresci, não havia mal nenhum, na aparência, nos contactos branco-preto, simplesmente não aconteciam muito, e não interessava muito pensar sobre isso.

E eu fui crescendo, muitas vezes, sempre inconscientemente, evitando dizer "o preto" (substituía por "o black", terminologia muito comum nos subúrbios de Lisboa) e com muito poucas amizades "africanas", apesar de toda a propaganda católica em que nos emergiam, na escola, sobre a necessidade de rifarmos meia dúzia de porcarias para recolhermos dinheiro para "ajudar" os nossos "irmãos" africanos (a Igreja Católica tem destas coisas, em que somos todos irmãos e filhos do mesmo pai, e deve ser por isto que o sexo é tão mal visto, pois, como bem sabemos, não deve ser feito por membros de uma mesma família).

Entretanto, e por força do crescimento, fui sendo introduzido nos "rendez-vous coloniais", i. e., as reuniões dos retornados das ex-colónias, mormente de Angola, onde haviam vivido os meus avós maternos e nascido a minha mãe, em que o saudosismo do antigo império e as benfeitorias do mesmo eram exacerbados e o sonho de sociedades africanas multiraciais, repetido como mantra daquilo que Angola deveria ter sido e não foi.

A negritude (para utilizar um termo popular a partir da segunda metade de 1950's) era-me, assim, apresentada, não como uma despromoção do ser humano mais civilizado (o branco), mas como algo de diferente, ainda que, por força do desnível económico, com repercussões culturais e sociais fortes, ligeiramente inferior. O racismo em Portugal era, assim, algo de estranho, de antigo, de desactualizado, de pouco sexy e moderno. Se aparecia era aliado ao desconhecimento ou à idade mais avançada do orador. O racismo, tal como me era apresentado, tinha pouco de científico.

As origens deste racismo subtil vim a descobri-las, já homem feito, na Academia e provinham de um discurso pós-colonialista que adoptou uma data de preceitos advenientes do pensamento colonialista tardio (do Estado Novo). Este pensamento alicerçava-se na "teoria" (muito pouco científica, contando, sobretudo, com os inputs da intuição de um autor brasileiro, Gilberto Freyre) luso-tropicalista, que pregava a diferença do colonialismo português, sobretudo quando comparado com os seus congéneres norte-europeus (inglês e holandês). A colonização nacional, para além de periférica quase desde o seu começo, teria, assim, sido marcada por uma forte miscigenação, resultado da especial apetência dos portugueses para os contactos com as populações "tropicais". 

O racismo não tinha, assim, sido característica do colonialismo nacional e não poderia, dessa forma, fazer parte da ideologia do Portugal pós-colonial, que se queria pioneiro do "multiculturalismo" e da cooperação para o desenvolvimento. Ao contrário da homofobia e, mesmo, do machismo/sexismo, o racismo (no sentido branco-preto) foi sempre, de alguma forma, mitigado nas sua exteriorização, optando-se por formas mais subtis (ligadas em primeira instância à inferioridade económica).

E, assim, desmontando toda a lógica histórico-filosófica do Ocidente, a ideologia colonialista portuguesa poderá ter contribuído para o combate do racismo nos decénios seguintes...