quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Eu e Freitas do Amaral, ou de como a loucura (também apelidada de sonho) apenas alimenta as esquerdas.




Com tanto que tenho para ler, deu-me, numa noite de insónia, todavia, para pegar no I volume das memórias políticas do Freitas do Amaral, conhecido "socialista" que nos tempos da Gloriosa Revolução andava mais pelas (ou às...) direitas. Entre Malraux, Saramago, Freyre e uma série de bibliografia científica que me convinha conhecer urgentemente, a selecção era vasta, e estas memórias não constituíam prioridade. Mas, como bem se sabe - e se não o sabem ou sentiram alguma vez, é porque não fazem da leitura um passatempo de primacial estima -, são os livros que nos escolhem, e não o inverso.

Naquela noite, dizia eu, então, a obra que me escolheu foi o referido memorial do conhecido político e jurista nacional, o Freitas, como lhe chamam, sempre, os alunos de direito, o que cheguei a ser numa vida passada e talvez venha a reencarnar em existência futura. Logo nas primeiras páginas me apaixonei. O sentimento foi o mesmo que em mim havia sido desperto pelas memórias de Cavaco Silva, embora desta vez tenha ficado menos assustado por ser de índole positiva - agrada-me, no fundo, a forma simples como aquelas pessoas de direita explanam a sua formação política inicial, sempre muito pouco literária, roçando o simplório de se basear em situações quotidianas ou absurdos preconceitos basistas para alicerçar convicções ideológicas que crêem profundas. (As historietas políticas pessoais das esquerdas começam sempre com introduções intermináveis, ultra-ideológicas, com centenas de referências bibliográficas, desculpando nascimentos em berços de oiro, e explicando o apego às solidariedades marxistas. Nas direitas, ninguém leu ou escreveu grande coisa que se aproveite, e portanto, cumpre, apenas, procurar, depois de consolidado comezinhamente o pensamento, justificá-lo com duas ou três citações do Adam Smith, devidamente traduzidas pelo César das Neves).

Mas, voltando ao Freitas e às suas recordações... A certa altura, diz o notável jurista (não vejam isto como um elogio...) que, por volta da minha idade, talvez um pouco mais novo, se encontrava em Londres, com o intuito de melhorar o seu inglês, e se deparou com três personagens que, numa mesma rua, e alcandorados em improvisados púlpitos, discursavam. O primeiro sobre política, o segundo acerca de arte, o terceiro afirmando ser o Novo Messias, e justificando a sua condição. Freitas escolheu ouvir político, e ficou maravilhado com a forma como a polícia britânica o protegeu das vaias da multidão, quando insultava a Rainha - foi aqui que compreendeu e aderiu, definitivamente, à democracia, afirma.

Como é bom de ver, se me conhecem minimamente, ainda que apenas através do palavreado com que, atabalhoadamente, vou compondo estas atoardas, eu sentar-me-ia, no chão, defronte do novo salvador. E é aqui que, sinto, tudo me afasta de Freitas e, com alguma soberba na extensão do argumento, aparta a esquerda da direita.

Então se eu poderia estar a ouvir todo o arsenal argumentativo de um tipo que se proclama o novo messias, porque haveria de me perder em discussões políticas, que até podiam ser articuladas e bem sustentadas, claro, mas que não trariam muito de muito novo? Pior ainda se tratando da converseta sobre arte, onde poderia aprender imenso, certamente - porque é a minha principal e aflitiva falha cultural -, mas onde a informação veiculada seria aquela contida numa qualquer edição da Tate. Já a pretensa reencarnação de Deus, teria de desenvolver uma argumentária toda nova, senão cairia naquilo que já foi dito e feito pelo "verdadeiro" Messias (na concepção do Freitas). As perspectivas teriam de ser totalmente inéditas, sonhadoras, tresloucadas. E eu queria ouvi-las em primeira mão, ainda que fosse para, depois, as considerar absolutamente tontas e deslocadas.

Freitas, não. E a direita, genericamente, também não o faz. Procura instruir-se, obviamente, aumentar conhecimento, solidificar posições, como as ideologias políticas à esquerda. E, no entanto, ao contrário desta últimas, não busca (e rejeita, até) o sonho (apelidam de "idealistas" os tipos como eu, como se isso se tratasse de crítica e não panegírico), afasta a loucura da transformação radical (a Revolução), trucida as pontas das asas que nos levariam a poder saltar a capoeira da "segurança", do pragmatismo, do esperado e expectável. Mata a inovação pura.

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