quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A indentidade portuguesa - percursos históricos.




Hoje apetece discorrer, livre e acientificamente, sobre temáticas em relação às quais o meu enfoque tem sido, primacialmente, profissional - e, portanto, racional, lógico, etc. Desta feita, permite-se, para além da análise intelectual, a contaminação emotiva, tão mais cheia de conteúdo. No tocante à matéria sub judice, posso adiantar que pretendo elucubrar sobre a "identidade portuguesa".

Portugal é um acidente histórico. A formação da coroa espanhola na segunda metade do séc. XV e a posterior incorporação na mesma dos pequenos reinos da península Ibérica (geograficamente muito bem delimitada pelos mares e Pirinéus) – Granada e Navarra -, pareciam traçar o destino da miúda nação atlântica. O “império” havia, contudo, de a salvar - mais por causa da ideologia que em torno da conquista e ocupação de espaços extra-europeus foi criada, do que pelos benefícios económicos directos da exploração colonial.

O sucesso que se seguiu à saída das primeiras barcaças nos alvores do século XV - em menos de um século, os navegadores portugueses haviam conseguido chegar à Índia, contornando todo o continente africano, descoberto o Brasil e criado, nos primeiros espaços onde chegaram, sociedades produtivas que abriam boas perspectivas para a experiência ultramarina -, permitiu a concepção do português, em primeiro lugar, como um aventureiro resiliente, um soldado fiel ao seu rei e a Deus e um explorador preparado para climas e habitats menos acolhedores. Proporcionou, depois, uma nova conceptualização da cultura portuguesa. A expansão e instalação nacional nos "trópicos" foi, sempre, justificada, primacialmente, pelo espírito de "missionação" e "civilização", mesmo no século XX, quando o desenvolvimento económico passou, na alma europeia, a ser considerado um valor tão importante como a preparação religiosa e social humana. Se se queria ensinar alguma coisa aos povos que se iam encontrado, tinha de ser criado conhecimento, novo e antigo, estruturado naquilo que passou a ser a "identidade portuguesa".

A "ocupação" espanhola - de 1580 a 1640 - não destruiu este corpo teórico que, na proclamação e posterior garantia da independência, foi fundamental. O apoio inglês, as questões materiais do Império, a revolta na Catalunha, consubstanciaram condições importantes para o sucesso da  iniciativa portuguesa. Sem suporte ideológico, todavia, não teriam proporcionado mais do que uma revolta de escravos, como aconteceu, por exemplo, nas ilhas açucareiras das caraíbas, onde os "senhores", mais fracos em número, venciam porque os revoltosos não eram capazes de avançar uma alternativa de regime viável. Desta forma, as vitórias militares seiscentistas foram menos importantes do que a afirmação da identidade nacional, na sua vertente colonizadora e marítima, por personalidades como o Padre António Vieira e, sobretudo, pelo sentimento de "ser português" presente na metrópole e nas colónias.

O lusitanismo, com obra literária e ensaística própria - na poesia de Camões e prosa de Vieira e, muito depois, em Fernando Pessoa e Salazar, por exemplo - permitiu-nos, desta forma, resistir à eterna inimiga - Castela -, mais tarde, conviver com a colonização inglesa do nosso país e, já no século XX, manter, por muito mais tempo do que qualquer estratega militar imaginou, uma guerra contra os "verdadeiros interesses da nação e das populações africanas" nos despojos remanescentes do Império.

Não morreu, não obstante, este tipo de entendimento que nós portugueses temos acerca da nossa própria existência, com o 25 de Abril. Poucos foram aqueles que, no seguimento da Revolução, e sem estarem completamente comprometidos com o regime anterior, tiveram a coragem de asseverar que, com a perda física das colónias, uma parte da identidade portuguesa se desvanecia. Disse-o António José Saraiva, e foi escorraçado pelo regime que se impunha, mais voltado para uma "identidade europeia" e "globalizada". A velhinha identidade portuguesa, sempre reinventada e reconceptualizada, como é próprio de qualquer produto cultural duradoruro, não poderia ser esmagada pela simples perda da matéria (neste caso, os territórios africanos, sobretudo) e foi aqui que Saraiva errou.

Perderam-se as colónias, mas o Quinto Império de Vieira e Pessoa, o império imaterial, ganhou novos contornos nas concepções de Melo Antunes e Eanes de como deveriam ser postas em prática as relações externas pós-coloniais portuguesas. Ficou a saudade da suposta grandeza, que desde o Império Oriental de Afonso de Albuquerque vem alimentando o fado, e, no discurso e prática política, as características fundamentais dos portugueses. A especialidade nacional para a miscigenação, o cristianocentrismo, a hospitalidade "pobrezinha", o aventureirismo, o desprendimento material, permaneceram e alicerçaram, ontem, a CPLP, como conceptualizam hoje a forma como encaramos o racismo em Portugal - uma coisa estranha, politicamente incorrecta, própria dos "ingleses" e seus "derivados" (os "americanos"), menos "preparados" para a faina do contacto inter-cultural.

E a identidade portuguesa volta, neste século XXI, para fazer de nós maiores - os percursores (em conjunto com as nossas derivações, como o Brasil) do multiculturalismo, essa outra forma de racismo brando, muito próprio das nossas gentes, com Boaventura de Sousa Santos, à proa, desta feita, de novas caravelas apelidades de "conhecimentos periféricos".

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