quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Da "falta de alternativas" à realidade como mecanismo de coerção do sonho.


 
As últimas semanas têm sido de reflexão. Pessoal, mas também política, naquilo em que o político se pode separar do que nos é mais íntimo. Isto, sobretudo, a partir da brutal repressão que se seguiu à manifestação do dia da Greve Geral - 14 de Novembro. Percebi, então, que os alicerces do actual sistema político-económico são muito mais sólidos do que imaginava. Por um lado, porque o capitalismo parece estar a conseguir sair incólume, do ponto de vista ideológico, desta espécie de crise político-financeira em que nos imergiu - as tretas das teorias do ciclos económicos e outras que tais têm contribuído com justificações "académicas" para as depressões recorrentes das economias "liberais". Depois, porque a generalidade da população portuguesa, enquanto passa fome e privações, vai comendo o discurso de que "vivemos acima das nossas possibilidades" e de que a convocação de eleições antecipadas consubstanciaria aquilo a que comummente se chama de "crise política" - como se a ocorrência de escrutínios regulares não devesse ser actividade corriqueira numa democracia...

O que mais preocupa, e assusta, mesmo, as mentes mais amarguradas como a minha, não é a inaptidão da populaça nacional para vislumbrar para além daquilo que vai absorvendo, acriticamente, do ecrã da televisão, mas a falta de interesse nas e das alternativas em relação ao actual sistema político-económico de "capitalismo subsidiado" - sim, porque no continente europeu, e não apenas no sul, o Estado tem sido o principal promotor e protector de uma certa espécie de capitalismo que está muito pouco interessado na "regulação dos mercados" e na "livre concorrência". Em primeiro lugar, a intelectualidade pequeno-burguesa que, como referiu Borges Coutinho, resistente anti-fascista açoriano, foram "mantendo a honra do convento", com a estruturação e promoção de uma cultura democrática e oposta à situação vigente no período do Estado Novo, desapareceu. Hoje, ou se pensa "academicamente" e, então, enjaulado por todo o tipo de princípios pseudo-científicos que "norteiam" as "ciências" sociais, ou, então, cai-se num debate completamente inútil em que só interessa a renegociação da dívida, a "democratização" das instituições do regime ou a "qualidade" e "honestidade" das classes políticas.

A concepção de sistemas opostos ao "capitalismo subsidiado" não tem qualquer força na Europa, desde a derrocada da União Soviética - a maior tragédia para a Europa Ocidental desde a II Guerra Mundial. Desta forma, o comunismo e todas as formas de socialismo que preconizem um qualquer tipo de coerção à propriedade privada, estão, absolutamente, arredadas e vão resistindo, somente, na cabeça da meia-dúzia de intelectuais "marxistas" que se deliciam a ler Marcuse ou Gramsci, nos intervalos de um cigarro taxado a 80% ou das compras de Natal no shopping mais próximo - como eu -, ou na percepção do remanescente campesinato alentejano beneficiário da reforma agrária de 75, hoje já todos com mais de 60 anos, certamente. De resto, o anarquismo não tem, actualmente, pensadores dignos de nota e vive concentrado nos antros de música punk e no movimento queer, que tanto pugna pela "destruição da sociedade patriarcal", como se contenta com o fim das conceptualizações do "binarismo de género" - essa merda de existirem homens e mulheres e diferenças assinaláveis entre uns e outras.

Assim sendo, a esquerda sul-europeia - e falo, em Portugal, genericamente, das pessoas que, em tempos, votaram no ps, mas que hoje andam votando BE ou não votando de todo, almeja, no máximo, a construção de sistemas próximos daqueles vigentes nos "países nórdicos", em que, supostamente, o capitalismo e a vertente socialista da educação, saúde e segurança social públicas, fortes e proporcionadas pelo Estado se vão compaginando na criação de sociedades capazes de "competir" no sistema de trocas e baldrocas global, mas em que as pessoas auferem de níveis de qualidade de vida apreciáveis. Este tipo de pensamento, que, desde logo, não me parece desadequado de todo, não consubstancia, na verdade, uma alternativa ideológica capaz de abalar os sustentáculos do sistema vigente. Trata-se de uma reordenação dos já antiquíssimos princípios da necessidade de acumulação de riqueza para criação de bem-estar e que, portanto, se subjuga, também, aos pressupostos das dinâmicas actuais. E isso não me chega.

Vi-me, assim, sobretudo, como vos digo, depois de 14 de Novembro, sozinho e perdido. Tenho as minhas ideias e concepções políticas, mas não consigo, no momento presente, encontrar os mecanismos certos para as pôr em prática ou lhes dar destino. Não sei, sequer, se são úteis ou pertinentes, se têm cabimento ou se não passam de um saudosismo absurdo de um passado que nunca existiu. Assim, prefiro calar-me, e pensar, ler, discutir, amarrotar papéis, destruir ilusões, apagar memórias irrepetíveis e criar (novos) sonhos. Até lá, é possível que não nos vejamos em nenhuma manifestação.

1 comentário:

  1. És Patriota! Não estás de acordo com as políticas tomadas pelos nossos políticos.

    Queres juntar a tua força à nossa força!

    Visita: http://upl-portuguesa.net63.net/

    e inscreve-te como simpatizante.

    ResponderEliminar