quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Carta aberta a Isabel Jonet.

Cara Isabel Jonet,

Na sequência dos comentários que teceu em meados de Setembro transacto, aquando da apresentação de um novo pacote de austeridade, em que considerava a política governativa que tem atirado milhares de cidadãos portugueses para a pobreza um "mal menor", critiquei-a, no mural do Banco Alimentar contra a Fome. Através de mensagem privada no facebook, não sem ponta de arrogância, respondeu-me o seguinte:

"Manuel Magalhães
Se um dia quiser passar no BA e conversar talvez perceba o real enquadramento das necessidades dos mais pobres. Não gostaria de ver em Portugal o que vi na Grécia: miséria tal que nem daqui a 10 anos terão pensões ou reformas mínimas.Por vezes comentar é fácil quando se desconhece o todo em causa
Isabel Jonet"

Na altura, encontrava-me nos momentos finais de redacção da minha tese de mestrado, razão pela qual não tive oportunidade de lhe responder de imediato. Inicialmente, a minha ideia era aceitar, simplesmente, o seu convite e procurar que esclarecesse o "desconhecimento" em que acredita que me encontro submerso. Afinal, não é por acaso que escolhi a carreira académica - estou sempre pronto para aprender. Não obstante, aquilo que disse, ontem à noite, em debate na SIC Notícias, fiz-me repensar o texto original e sentir a necessidade de lhe remeter esta carta aberta.

Assim sendo, começo por lhe dizer que algumas das opiniões que avançou, como a de que vivemos, durante muito tempo, "acima das nossas possibilidades", não me surpreenderam, tendo em conta aquele que vem sendo o seu discurso, sobretudo desde a instalação da «crise». Outras, todavia, recebi-as com larga surpresa e inusitado receio, a começar por aquela através da qual nos procura endoutrinar no sentido de vermos a contabilidade pública como a contabilidade doméstica. Não sei se se recorda quem foi a última pessoa que, em Portugal, defendeu e praticou esse tipo de «orientação económica»? Se a Isabel Jonet considera que tem vivido acima das suas possibilidades, eu devo contrapor que não concordo ser essa a situação da maioria do povo português, um daqueles onde, no seio da Europa Ocidental, sempre mais grassou a pobreza, como deverá ter conhecimento.

Ultrajante considerei, depois, a forma como se dirigiu ao povo português, dizendo que este tinha de "reaprender a viver mais pobre", a "viver com menos". E foi esta a solução que foi apresentando, ao longo de todo o programa, para a «crise» em que se encontram envolvidas as economias europeias e, especificamente, a portuguesa. Advogou, desta forma, a coerção dos direitos sociais "insustentáveis" e a reformulação do Estado Social, no sentido de "acudir somente às situações de emergência que não podemos tolerar", servindo apenas aquelas "pessoas que efectivamente não conseguem fazer face às suas despesas". Neste tipo de afirmações, lê-se que a Isabel considera como solução a destruição do Estado Social que fomos, a partir de 25 de Abril de 1974, construindo e que vinha, apesar das suas fragilidades e deficiências, melhorando substancialmente a qualidade de vida da população portuguesa, como indicam todas as estatísticas.

A ideia com que fiquei é a de que imagina a satisfação da responsabilidade social do Estado um pouco à semelhança do "seu" Banco Alimentar, como o serviço de meia dúzia, ou milhares de meias dúzias, de refeições diárias e a prestação dos cuidados de saúdes mínimos aos «carenciados» e «indigentes» deste país. Não vê o Estado Social como a estrutura passível de proporcionar àqueles que procura proteger as mesmas oportunidades a que a Isabel, claramente, teve acesso. Prefere, então, uma alternativa que se centre no "essencial", que relaciona com "a inovação chinesa e indiana" da "criação de riqueza a partir do nada", com as "pequenas empresas" e com os "jovens a fazer coisas quase sem custos", o que, para além de consubstanciar uma falácia, porque não se pode criar riqueza a partir do "nada" ou "sem custos", orienta a solução portuguesa no sentido de sistemas sociais profundamente injustos, como são o chinês e o indiano.

Com toda a certeza que a Isabel sabe, finalmente, que o Banco Alimentar é uma solução de recurso que não existiria na situação ideal, em que todas as pessoas, não teriam somente o mínimo para viver, mas acesso às condições materiais que lhes permitissem dar uso ao máximo das suas potencialidades. Penso, desta forma, ter deixado claras as minhas concepções e a medida em que se afastam das suas. Espero, igualmente, ter sido suficientemente incisivo na asseveração de que algumas das coisas que vai transmitindo podem ser consideradas injustas e, mesmo, desagradáveis para aqueles que menos têm. É que, Isabel, por vezes comentar é fácil quando se desconhece o todo em causa...

Com os melhores cumprimentos, ficando à sua disposição para todas as conversas e discussões,

Manuel Magalhães.

11 comentários:

  1. Essa gaja vive da exploração da pobreza alheia portanto é normal que defenda a babárie actual.

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  2. http://www.entrajuda.pt/pdf/Corpos%20Sociais%202011%202013.pdf

    http://www.ffms.pt/fundacao-orgaos_sociais-conselho_curadores

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  3. Quase se pode falar, como diria a minha mãe, de uma indústria do "pobrezinho"....

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  4. A Isabel Jonet,faz "Alarde" em dizer que a sua missão no Banco Alimenta contra a Fome e mais recentemente na ENTRAJUDA - Banco de Bens Doados, que é Voluntária e nada recebe como contra partida.
    Mas, sustentar e educar 5 filhos, não é tarefa fácil para qualquer Mãe, sem que tenha alguns proventos seja qual for a sua função na coletividade. Será que no caso dela, nada usufrui, pelo fato de ter o privilégio de governar as referidas Instituições de Solidariedade Social, a seu belo prazer sem que exista nunhuma Entidade Reguladora ?

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  5. De facto, aqui é, realmente, possível dizer que "há males que vêm por bem", na medida em que as declarações patéticas de Jonet permitem-nos reflectir mais profundamente sobre a caridade e as instituições que a praticam.

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  6. As instituições de solidariedade social ou de ajuda aos mais desfavorecidos, sejam elas públicas ou privadas, não garantem, por si só e pela sua mera existência, um estatuto e uma prática insindicáveis ou acima de monitorização pela sociedade onde se inserem, sob pena de poderem ocultar «abjecções» ou disfunções procedimentais, como aquelas que vieram a público, no âmbito de entidades, aparentemente, tão insuspeitas, como a igreja católica dos EUA, os colégios irlandeses ou belgas e, mais próximas de nós – embora ainda não existam sentenças transitadas em julgado -, como a Casa Pia de Lisboa.

    A Senhora Dra. Isabel Jonet, nas declarações que proferiu, na Edição da Noite, da SIC Notícias, acabou por (des)construir, publicamente, o auto-retrato da presidente do Banco Alimentar Contra a Fome. Ou seja, para além do significado próprio das palavras e das expressões que utilizou – salvo melhor entendimento, «execráveis» -, acabou por (des)caracterizar, inevitavelmente e por consequência, a forma como a instituição a que preside é gerida mas, mais do que isso, a verdadeira «alma» que a sua direcção e gestão imprime àquele projecto.

    Deve, antes de mais, ficar claro, que o Banco Alimentar Contra a Fome, em abstracto e para quem desconhece a forma como e com que intuitos será gerido, constitui, de facto, uma obra meritória, sendo que esse mérito só, abusivamente, pode ser descentrado dos doadores e dos voluntários que nela participam. Repete-se: o Banco Alimentar Contra a Fome não resulta de qualquer doação patrimonial da Dra. Maria Isabel Parreira Jonet mas, isso sim, da participação, generosa e louvável, de doadores e de voluntários. Objectivamente, a Dra. Isabel Jonet acedeu à presidência daquela instituição, que consiste, estatutariamente, numa plataforma de “recolha, armazenagem e distribuição de bens alimentares”.

    Partindo do, simples e básico, princípio de que quem, eventualmente, viva acima das suas possibilidades não é mais rico mas, ao invés, é mais endividado e, logo, mais pobre, não se entenderá – a não ser que se suponha a existência de uma «agenda», político-ideológica ou de carácter «moral», oculta – como é que, neste momento trágico de meios, para centenas de milhar de famílias portuguesas, se pode fazer a apologia do empobrecimento, em que a dieta de “papas” deverá prevalecer sobre os luxuosos “bifes”? Como é que não pode deixar de ser ultrajante, para muitos milhares de pessoas que sobrevivem, actualmente, sem condições mínimas de dignidade, a defesa do regresso “ao mais básico”?

    Ficou claro, nas palavras, em análise, da Dra. Isabel Jonet que, pese embora a grosseira incompetência metodológica do seu discurso, defende uma sociedade em que a «elite» tutela, através do assistencialismo miserabilista, i.e., da «esmola», uma população de plebeus, para quem um “bife” deve constituir uma excepção festiva. Seria uma perspectiva pessoal, perfeitamente, legítima e defensável, não ocupasse, esta Senhora, o cargo que ocupa, ou seja, o de “Superintender na Direcção e gestão da Federação [dos Bancos Alimentares Contra a Fome] orientando e fiscalizando os respectivos serviços” [alínea a), art. 20º, dos Estatutos], sendo que, a este título, não se pode estabelecer uma estanquicidade entre a função, em si própria, e as características, sócio-políticas e de mundividência, da pessoa que a exerce. Deve ficar, mais uma vez, claro que está em causa a responsabilidade de guarda e distribuição de dezenas de milhar de toneladas de alimentos que, anualmente, pessoas e instituições, de boa-fé, confiam à superintendência, direcção e gestão da referida Senhora. A isto, acrescem subsídios estatais e outras subvenções.

    Finalmente e, também, pelo exposto, confirma-se que esta Senhora, pelas características e pelo perfil, inferidos do seu «apetite» e desempenho mediáticos, deve demitir-se do cargo que ocupa ou, em alternativa, ser demitida, ao abrigo da alínea g), nº 3, do art. 6º, do Estatuto da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome.

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  7. COSMO POLITA,

    Gostei muito do texto. Concordo com a demissão, mas, mais, desejo um mundo em que termine este tipo de "assistencialismo social"...

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  8. http://senzapagare.blogspot.it/2012/11/obviamente-demita-se-dr-isabel-jonet.html

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  9. Claro que os que dizem que temos de empobrecer - seja Isabel Jonet, Fernando Ulrich, Eduardo Catroga, Passos Coelho ou outro - não são capazes de dar o exemplo e entregar uma parte do salário ao Estado (além do IRS, que alguns pagam, outros talvez não) e ajudarem a pagar os juros da dívida..
    Dívida essa que foi o Estado (governado por PS, PSD e CDS) que criou. Nalguns casos para entregar o dinheiro a empresas como a EDP ou a Construtoras (as PPPs eram um excelente modelo de negócio há uns anos), empresas para onde os ex-governantes vão trabalhar - isso dava agora para escrever várias páginas sobre o assunto...
    E ainda pedimos um empréstimo adicional à "troika" - com o custo dos juros associados - para resgatar bancos, incluindo o BPI do sr. Ulrich! Não me parece que o sr. Ulrich tenha aplicado a austeridade no seu Banco, apesar do entusiasmo que tem pela austeridade aplicada ao resto do país.
    À Isabel Jonet só lembrava que os responsáveis pelos actuais 120% do PIB de dívida pública nunca foram as famílias que fazem a loucura de comer bifes todos os dias (é isso é que é gastar demais, a sério Isabel?) mas sim os governantes deste país.

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  10. João Silveira, como é lógico não passei da segunda ou terceira linha do texto que me indicou. Mas obrigado na mesma :P

    Daniel, concordo com tudo e, sobretudo, com a conclusão. Obrigado pelo comentário ;).

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