domingo, 2 de setembro de 2012

"Revolução" sexual? Elucubrações do Maio de 68 aos nossos dias - Parte II.

LUGAR_PUBLICO_SEXO




Marcuse, dizia eu no post anterior, acusava a libertação sexual de ter conduzido à mercantilização do sexo e, dessa forma, a um outro tipo de aprisionamento. “A libertação não liberta”, dizia. E, transpondo a conceptualização para a realidade portuguesa actual, tendo a concordar.


Enquanto em 68/69, nas democracias liberais da Europa e nos EUA, a juventude aborrecida da alta burguesia gritava pelo sexo livre, em Portugal, os mesmos jovens (talvez mais aborrecidos ainda – afinal estavam em Portugal) clamavam por um tipo de liberdade mais genérica – que a maior parte não sabia (ou soube) concretizar e criou esta situação actual, em que até já há quem fale de “excesso de liberdade”, como se isso fosse um conceito possível. Ainda assim, vivia-se numa estranha espécie de ditadura, em que o falecido ditador parecia continuar a controlar tudo a partir do túmulo, e, então, a reivindicação nunca foi, no final dos anos 60/princípios dos 70, especificamente sexual. Mesmo na Revolução de Abril, a questão sexual foi, quase completamente, marginalizada. Afinal, havia muito para mudar, para que tudo ficasse na mesma (fim de citação – e se não conhecem o livro, não sei como compreendem a Europa do Sul).

A mudança ocorreu, entre nós, ao longo de um período muito longo, e apenas terá tido efeitos notórios, creio, lá para os anos 90. A partir daí, a promiscuidade (não gosto do conceito, mas serve) sexual começou a ser mais consensual, na prática, apesar de amplamente criticada. Hoje, só não fode muito quem não quer. Só não varia, não experimenta, não explora, quem não tiver “interesse” (e aqui cabe tudo – vontade, inteligência, imaginação, etc.).

E, no entanto, são muito poucas as franjas, na sociedade portuguesa, em que existe verdadeira liberdade sexual. E este tipo de liberdade significa, simplesmente, a possibilidade de, sem crítica, vivenciar, confortavelmente, todo o tipo de experiências consentidas. Ainda que a experiência seja não experimentar nada. Não foder, e acabou, e isso ser considerado normal. Ou comer vinte ou trinta homens numa noite, ou um numa vida. Ou só gostar de beijar, ou de sexo oral, ou de tântrico, ou de 4.

Mas não, tirando, talvez, os que dão pelo nome de poliamorosos (que talvez sejam, como todos os anarquistas actuais, mais uns pseudo-libertários que substituíram o punk pela foda), toda a gente contabiliza, julga, elucubra sobre, exprime opiniões acerca do sexo próprio e alheio. E há um conjunto tão gigantesco de regras que devem ser cumpridas para se ser “sexualmente normal” - em relação ás situações em que se pode ser puta ou não, idades, vestuário, primeiros contactos, segundos, terceiros, posições, tempos, comprimentos, vezes, regularidade…- que matam qualquer possibilidade de uma vivência livre da sexualidade. A libertação, assim, longe de libertar, parece ter tido somente o efeito de atirar o sexo de dentro de casa para a rua, normalizando-o em muitos casos. Publicitar não significa, assim, libertar – coisa, que por exemplo, as pessoas que andaram atrás do casamento gay nunca conseguiram perceber.

Hoje, fode-se mais atrás dos números, de uma suposta acumulação de prazer, da hiperbolização do corpo, da aprovação alheia, do cumprimento dos actuais preceitos morais (que os há, mais do que no passado, nesta área), do preenchimento do calendário, do que com a preocupação de satisfazer o próprio desejo.

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