sábado, 29 de setembro de 2012

As esquerdas não se entendem


Tendo andado agora moderadamente envolvido em várias plataformas de esquerda, tais como o manifesto para uma esquerda livre e o congresso democrático das alternativas, que procuram discutir ideias e congregar as esquerdas portuguesas, deparo-me com incontáveis horas de discussão sobre como melhor concretizar este velho sonho de unir a esquerda.

Ora se debater o que quer que seja é sempre positivo, discutir o estado e o futuro da esquerda é fulcral. No entanto convém situar o debate nos pontos verdadeiramente importantes, caso contrário corremos o risco de estarmos apenas a perder tempo.

Na minha opinião é exactamente isso que estamos a fazer: a perder tempo, a discutir ao lado daquilo que interessa.

Senão vejamos: Todos os oradores, de todas as áreas da esquerda, atribuem a incapacidade de entendimento entre estas ao sectarismo, à história difícil e conflituosa das esquerdas, a Mário Soares, a Álvaro Cunhal, ao PREC em geral, a Sócrates, a Louçã, ao chumbo do PEC IV, etc. Se as (outras) pessoas que estão nos partidos fossem inteligentes e bondosas isto resolvia-se, parece ser o consenso geral.

No entanto, se estivermos atentos ao resto dos debates, os das ideias, vemos bem porque as esquerdas não se entendem e provavelmente nunca se entenderão: elas pura e simplesmente não concordam. Pensam que sim porque todas falam do falhanço do memorando, da estupidez das políticas actuais e da necessidade da preservação do estado social, mas isso não chega.

O memorando não serve, é óbvio, mas e depois? À esquerda defende-se desde o cumprimento do memorando sem mais nenhuma medida enquanto se reza para que a Europa mude, ao rasgar total dos acordos com os credores, o default, e a nacionalização da banca. Defende-se desde a renegociação dos juros à saída unilateral do euro. Defende-se desde o uso do mecanismo da moção de censura, à revolução violenta. Defende-se desde pedir mais tempo para pagar, a ir buscar dinheiro à Rússia. Defende-se desde mais investimento público a cortar no número e salário de deputados. Defende-se desde mais crédito para a economia através dos bancos, a “mudar o paradigma da sociedade de consumo”, o que quer que isso seja.

Percebe-se muito facilmente, assim, que o entrave à união das esquerdas não é a má vontade dos protagonistas políticos mas sim visões diferentes e idealismo no bom sentido.

Se queremos mesmo mudar esta situação, cada um de nós tem de pensar muito bem naquilo em que realmente acredita, que caminho defende, e, sobretudo, de que partes do seu sonho é que está disposto a abdicar. 

Penso que é impossível entendermo-nos. Mas se for possível, terá de ser assim.

2 comentários:

  1. A esquerda tem dificuldade em unir-se. Ao contrário do centro direita, que constantemente se une, a esquerda descura isso. as também basta que se olhe para a Europa, poucos países verdadeiramente de esquerda. Mas afinal o que é ser-se de direita e de esquerda?
    http://inventariopolitico.blogspot.pt/

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  2. Para mim, a diferença entre esquerda e direita é, não só extremamente importante e bem delimitada, como inultrapassável. Consubstancia-se, a meu ver, e, no âmago, se quisermos, na resposta à seguinte pergunta: "sinto-me, ou não, responsável pelos outros seres humanos, ainda que não tenha qualquer tipo de ligação com os mesmos?".

    A resposta positiva à questão precedente só pode apontar para uma preferência pela área política da esquerda.

    PS: Dei uma olhadela no seu blog. Bastante interessante! :)

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