quinta-feira, 30 de agosto de 2012

"Revolução" sexual? Elucubrações do Maio de 68 aos nossos dias - Parte I.




Herbert Marcuse, filósofo alemão cujos escritos auferiram de enorme popularidade no nosso país no período que se seguiu à Revolução dos Cravos, escreveu, certa vez, que “A libertação dos costumes conduziu à transformação do sexo em mercadoria. A libertação não liberta”, acabava por concluir. Li isto e imediatamente me pus a pensar na realidade nacional actual e se a citação se deixava encaixar. Cheirava-me que sim, mas isso ficará para a segunda parte deste post. Nesta primeira, gostava de elucubrar sobre o contexto da reflexão marcusiana.

Marcuse escrevia, nos anos 70, no rescaldo Maio de 68, em que a “revolução” sexual talvez tenha sido a conquista mais permanente. Não se tratou de uma Revolução. Os sindicatos aproveitaram as manifs estudantis (com as quais, aliás, nem concordavam) para ver satisfeitas exigências concretas e os pequenos revoltosos, recolhidos nos braços fortes das mamãs, todas matronas burguesas, lamberam uma ou outra ferida de bastonada errática da polícia, enquanto assistiam (ou participavam, mesmo) na grande manifestação de apoio a de Gaulle.

O descontentamento estudantil relativamente à “opressão moral” e a “frustração com a sociedade moderna” desapareceram debaixo do manto das reivindicações megalómanas, mas vazias. O sexo livre, enquanto reclamação concreta e “justa”, ficou (em parte). A verdadeira motivação do Maio de 68 foi o sexo – os estudantes de Nanterre queriam enfiar-se nos dormitórios das estudantes e vice-versa, prática que era proibida e Daniel Cohn-Bendit foi ameaçado com sanções disciplinares por ter interpelado o ministro da Juventude para que se discutisse o “problème sexuel” (sic). Disse o jovem Daniel, impregnado de testosterona, e, naturalmente, dos escritos inflamados de Frantz Fannon, Marx e Mao (muito popular, ainda, na altura), “qu’il faut avant tout assurer l’équilibre sexuel de l’étudiant”. A foda! Estava encontrado o mote para a revolução que havia de chegar à mais conceituada (e burguesa) Sorbonne.

Gritaram-se os mais variados slogans:
- Faites l'Amour pas la Guerre!

- Déboutonnez votre cerveau aussi souvent que votre braguette (Abre a tua mente tantas vezes como a tua braguilha)

- Embrasse ton amour sans lâcher ton fusil

- Inventez de nouvelles perversions sexuelles (je peux pus !)

- Les jeunes font l'amour, les vieux font des gestes obscènes.

- Plus je fais l'amour, plus j'ai envie de faire la révolution. Plus je fais la révolution, plus j'ai envie de faire l'amour

- Les réserves imposées au plaisir excitent le plaisir de vivre sans réserve
 
Interessantes, a maior parte, e, felizmente, com capacidade para abrir a caixa de Pandora do sexo - heterossexual, o homossexual ia ter de esperar um ano para despontar, em motins muito menos burgueses, do outro lado do Atlântico. Com uma data de consequências positivas, em princípio relacionadas com a liberdade da vivência sexual. Marcuse, todavia, acusa esta abertura de ter mercantilizado o sexo. Tornou-o demasiado desinibido, demasiado rápido, demasiado inconsequente, demasiado contabilizado, banalizado. Assim, a libertação não tinha libertado nada. O sexo, desta forma, não saía solto da revolta, mas constrangido por uma outra série de "convenções" sociais que se começavam a construir, baseadas nos tamanhos, quantidades, performances, etc.

A libertação era, assim, abocanhada na prisão social inversa daquela de onde tinha saído. E o meio termo - a verdadeira, genuína, descomplexada, etc., liberdade sexual - não tinha sido encontrado. Era mais uma das revoluções falhadas sobre as quais Marcuse gostava de reflectir e cujo falhanço se reflecte, creio, ainda nos dias de hoje. Mas isto, fica para depois...



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