quarta-feira, 25 de julho de 2012

Do desconforto social como forma de violência (e de como tudo acabou comigo a mandar-vos para o caralho)



Há muito tempo que aqui não escrevo sobre questões LGBT, porque, confesso, egoisticamente, não tenho estado centrado nesse tipo de preocupações. Um um triste acontecimento recente fez-me, contudo, recordar um maravilhoso texto do Mario Vargas Llosa que li aquando do assassinato de um homossexual chileno por um grupo de patifezecos.

Há pouco tempo, um familiar de uma amiga minha suicidou-se, num país da América do Sul, onde vivia. Não teria mais de 20 anos, tinha estado em Portugal de férias e, quando regressou a casa, decidiu pôr fim à própria vida. Ontem soube a razão mais que provável - era gay e não aguentou a pressão social relacionada com a afirmação dessa característica. Não suportava viver escondido, e a sociedade reagiu negativamente à saída do esconderijo. Não foi assassinado como o rapaz chileno, mas foi encaminhado para a morte por um contexto injusto e violento, em que, em pleno séc. XXI, a homossexualidade continua a ser vista como um bicho de sete cabeças, todas elas conspurcadas e pejadas de vício. Não era fraco, mas não conseguiu suportar o peso da rejeição e do ódio. Caiu onde qualquer um de nós cairia, talvez muito antes.

Vargas Llosa, no seu artigo no El País, culpava pela morte do jovem toda a sociedade chilena e a homofobia que esta aceita e reproduz, e não apenas o bando de marginais que executou directamente o acto. Eu acho que todos nós, que continuamos a permitir que o racismo, a homofobia, o preconceito religioso, e todo o tipo de discriminação continuem a minar a nossa existência comum, somos culpados pelo estado de desesperança, de desamparo, de solidão, de desespero, em que colocamos os nossos jovens, levando-os, com a nossa acção ou apatia, à morte.

E não somos menos culpados porque não nos importamos, porque não querermos saber, porque, normalmente, a menos que a diferença seja muito estridente, até nem nos incomodarmos com a presença do gay ou do preto. Somos cúmplices quando "não temos nada contra", mas ficamos "desconfortáveis" com a presença de dois homossexuais, quando "até gostamos de ir ao chinês", mas achamos que aquela cultura é "muito estranha", "são gente com que nunca se vai «integrar» completamente".

É este desconforto que eu não entendo. E não há, creio, com a informação a que a minha geração tem acesso, proveniências de Bragança, frequências de colégios internos, profissão de religiões ou seitas mais radicais, que o possam desculpar.  A diferença devia suscitar curiosidade, nunca incómodo, sobretudo nas gentes com vinte e poucos anos, que andam sempre a comprar as roupas mais estapafúrdias, a ouvir a música mais idiota, mas mais recente, o cinema mais estupidificante, mas mais "moderno"...

E é por tudo isto que me senti extremamente incomodado, e agora com razão, quando, outro dia, chegaram dois amigos gays, e, posteriormente, uma tipa que estava no meu grupo revelou ter-se sentido "desconfortável" a partir daí. Desconfortável...na presença de dois outros seres humanos só por causa de uma característica que não escolheram e que, principalmente, não prejudica absolutamente ninguém.

Desconfortável...só gostava era de saber o que pensaria a criatura se tivesse noção de que foi, provavelmente, a partir de manifestações, mais violentas talvez, deste nosso "desconforto" que partiu a decisão de morrer daquele rapaz, de abandonar tudo, de desistir... Se calhar, marimbava-se no assunto. Com certeza que a puta do nosso mundinho, das nossas merdinhas, dos nossos preconceitozinhos, é mais importante do que a vida de um tipo que nem conhecíamos e que se calhar, não passava de um fraco, porque, afinal, ser paneleiro, hoje, já não custa nada.

Opá, vão todos para o caralho, é o que me apetece dizer, e peço desculpa pela fraquíssima qualidade estilística do texto, mas hoje, e perante este tipo de acontecimentos, não sou capaz de melhor.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Cansei de ser sexy (ou por que é que a liberdade aparece em forma de loucura).



O abandono deste lupanar reflexivo explica-se em três palavras: trabalho, férias, inspiração (falta de). O pedido de desculpas segue dentro de momento, como sempre, sob a forma elucubrativa a que, para vosso desespero, vos venho habituando.

Hoje, que as bases de dados da Assembleia da República decidiram boicotar a finalização de uma tarefa laboral, gostava de discorrer sobre liberdade. Liberdade social.

Portugal é, pelo que me tenho apercebido, neste campo, um dos países onde mais dificilmente se consegue atingir este tipo de libertação - e chamem-me essencialista, e, até, racista, se quiserem. A tradição católica de controlo dos hábitos carnais, o pequenito polícia de costumes que vive no interior de cada um de nós, o ultra-moralismo sul-europeu e uma certa dose de felino-mortífera curiosidade combinam-se para fazer de nós um povo muito preocupado com o impacto que causamos junto do outro (do próximo, diríamos num jeito mais clerical) - e talvez isto se passe com todos os povos, mas este tempo, demasiado frio para Verão, dá-me ganas de bater no português, em qualquer um e, se possível, no povo todo, genericamente.

Assim, preocupados com a imagem que fulano e sicrano têm de nós, deixamos de usar uma saia mais curta (ou uma saia tout court, tratando-se de criatura masculina), tirar ou deixar um pêlo, ouvir determinada música, falar de certo assunto, nadar nus, gritar o que nos apetece, foder com ou quem queremos, enfim, deixamos, paulatinamente, de viver. Ou melhor, vivemos, até mais confortáveis, provavelmente - porque a pressão dos pares há-de ser, num animal gregário como o homem, um dos mecanismos de controlo mais eficazes e nocivos -, mas com menos experimentação e diversão. A maluqueira fica arrumada num canto qualquer da vida, para aparecer, por vezes, em "crises de meia idade", e se alguém com mais de 25 anos decide, um dia, nadar de rabo ao léu, logo é apelidado de adolescente, como se a adolescência não fosse a fase menos louca e mais controlada da vida, mas adiante...

Eu vivia nesta angústia. Por um lado, tinha uma vontade enorme de mandar grande parte das pessoas que me rodeiam para o caralho e passar a fazer aquilo que me apetece, mas, por outro, vivia atemorizado com o chorrilho de acusações de irresponsabilidade e infantilidade - porque essas sim, se saudáveis, são mais livres que os adolescentes - que rapidamente brotariam daqueles que, verdadeiramente, a única coisa que desejam era fazer o mesmo. Mas não conseguem.

Hoje, vivo menos estes temores. A beata que vivia em mim, e que ainda vive, embora, talvez, numa sacristia mais ranhosa, e não na sé catedral, tem vindo a perder força e, assim, a crítica alheia, vai caindo num saco cada vez mais roto - e qualquer dia já cai directamente no chão sem sequer ter direito a passar no buraco. (A crítica social, bem entendido, porque a nível académico, como é óbvio, seria de uma estupidez incomensurável não criticar e ser criticado - afinal é assim que se aprende).

E eu vivo cada vez mais feliz, porque mais tranquilo. Se quero vestir uma camisola indiana toda rota, faço-o porque não atinjo negativamente ninguém com isso. Se quero gritar que os vendilhões invadiram o tempo quando passo na Igreja e vejo que um grupo de gospel está a fazer uma "recolha de fundos", faço-o. E se quero nadar nu, tiro os calções, e enrolo uma ganza se assim me apetecer, ou fodo com este, com a outra e com toda a gente se assim me der na gana.

E os cânones sociais, vou-os abraçando na medida em que considero que não posso, nem quero, viver afastado dos meus concidadãos. E, assim, não ando por aí aos tiros contra este ou aquele (embora me apeteça, frequentemente), a peidar-me desmesuradamente a meio de um jantar, ou a chamar de gordos todos os paquidermes que se atravessam no meu caminho.

Há um equilíbrio que tem de se encontrar entre a vida em contacto com os outros e a construção da nossa liberdade pessoal. Admito, assim, que me digam que não estou a fazer o meu trabalho em condições, que procrastino nos treinos de vólei ou que estou a ser demasiado desagradável para a pessoa X ou Y. Aquilo que já não posso aceitar é que me imponham princípios morais, moralistas ou moralizantes, que não sufraguei e com os quais, as mais das vezes, não concordo. Vive, e deixa viver, tem sido o meu mantra. E acho que resulta.