quinta-feira, 14 de junho de 2012

Teorizações da banalidade.




Acontece-me - noto-o, pelo menos desde o ano transacto - perder, quase completamente, no período que sucede ao 25 de Abril, o interesse pela política nacional. Assim, mais ou menos entre Maio e o final de Agosto, fico sem vontade de comentar as novas falcatruas do primeiro-ministro Relvas, o desastre da "solução" alemã para a "crise" europeia, ou qualquer acto das caricaturas que integram o governo português.

Não sei bem porque se dá o fenómeno, mas tenho a certeza que não está relacionado com a falta de rumo (ou interesse mesmo) da política nacional. Se assim fosse, nunca teria despertado para esta realidade, já que, desde pelo menos os governos Cavaco Silva, que se perdeu toda a esperança de, pelo menos, ver na política portuguesa motivo de alguma diversão. Simplesmente, acontece-me perder os ímpetos "revolucionários" de modificar alguma coisa, de ir a todas as manifestações possíveis, de encontrar vias de contestar a situação actual, de pensar, meditar e escrever sobre aquilo que desejo, de um ponto de vista colectivo, para o meu país.

E não é que me torne mais egocêntrico, que passe a preocupar-me muito mais com as minhas questões pessoais, a perder mais tempo com o planeamento do meu futuro. Esse tipo de elucubrações continuam a ocupar, mais ou menos, o mesmo espaço no meu pensamento. As políticas é que desaparecem quase completamente, ao ponto de, algumas vezes, andar, mesmo, relativamente, desinformado em relação àquilo que vai acontecendo.Acho que me apetece ser mais mundano, mais banal, até. Menos pseudo-revolucionário, pseudo-marxista e mais pseudo-boémio, ou básico, simplesmente.

Esta situação assalta-me com doses iguais de algum desgosto misturado com preocupação e tranquilidade. Preocupa-me não estar tão activo no campo político-social, porque acredito, e atormento toda a gente com isto, que cada um de nós pode, se quiser, transformar a merda desta sociedade consumista/capitalista/competitiva numa outra em que a meta será o bem-estar, a felicidade, a solidariedade, em vez do progresso tecnológico e crescimento económico. Em que a maior parte dos seres humanos será mais pessoa e menos máquina.

Tranquiliza-me, por outro lado, porque me permite pensar um pouco menos, ir na onda, despreocupar-me, ser mais português - acreditar que, mesmo que não faça grande coisa, algo há-de se arranjar, alguém há-de providenciar para que as causas em que acredito não se percam completamente. E isto é, estranhamente, tendo em conta a minha personalidade laboriosa e perfeccionista, um descanso enorme. Umas férias, no fundo, da luta, ou daquilo que defendo com mais convicção.

Enfim, esperemos que seja um efeito do calor que, ainda, me possibilite, pelo menos, acompanhar com alguma atenção as eleições gregas e elucubrar, alguma coisa, ainda que manhosa, sobre os efeitos perniciosos dos dislates financeiros dos mercados e restantes instituições cleptocráticas mundiais sobre o sistema democrático. E, sobretudo, quando chegar o Outono, ser invadido por uma vontade revolucionária, pelo menos, tão forte como aquela que me permitiu, no Arraial do 25 de Abril, servir cervejas ao ritmo de 200/hora.


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Reflexões sexuais - Paris.



Eu era, até recentemente, relativamente conservador no que concernia às minhas práticas amorosas/sexuais. Do ponto de vista teórico, como já terão reparado aqueles que não têm grande coisa para fazer e decidiram ler qualquer coisita do que escrevi, aceito quase tudo, mas tinha dificuldade em me imaginar em situações que saíssem da norma. E, então, os relacionamentos (sexuais e emocionais) eram a dois, com uma série de limites auto-impostos, em que quase todas as liberdades caíam no âmbito da traição e as relações "abertas", poliamorosas, ou outras que fugissem à história monogâmica dos príncipes encantados eram estranhas, menores, menos completas. E isto mesmo depois de ter lido a Insustentável Leveza do Ser, que já me fez, pelo menos, repensar, quando não mesmo aniquilar, uma série de (pre)conceitos enraizados acerca da forma como as relações sentimentais humanas (genericamente) deveriam funcionar. E sobre o que era o Amor, como deveria ser posto em prática, a conjugação com o sexo, o funcionamento da parte física em correlação com aquela a que (no "ocidente") chamamos de psíquica/emocional.

A mente arejou, mas a manifestação material do pensamento continuava a seguir a rotina judaico-cristã do 1x1, com pouca variedade e, de preferência, apenas as vezes suficientes para os nossos amigos verem que não somos estranhos por não fodermos, mas também não nos acusarem de estarmos a enveredar pelo carreira profissional das senhoras do Intendente (ainda por cima de forma gratuita!).

Depois estive em Paris, 4 dias, para um torneio no qual ficámos, já agora, em último lugar. E estive-me a cagar - por estar em Paris, por estar com (algumas) pessoas que já não têm idade (nem pachorra) para andar com a cartilha das restrições sociais atrás, porque me apeteceu. E foi muito bom não ter de encaixar comportamentos em normas, deixar materializar a imaginação, evitar elucubrações desnecessárias sobre momentos positivos, mas dificilmente definíveis. E, afinal, o número perfeito podem não ser 2, a fidelidade não é sinónimo de monogamia, o sexo fora do um contra um não carrega, automaticamente, a estampa da traição ou da promiscuidade, e o amor, o desejo sexual, a atracção emocional, os relacionamentos assumem uma diversidade tal de matizes que será sempre impossível tentar encontrar uma norma final de definição da completude que se afaste do hedonismo particular de cada um.

Não quer isto dizer que, de volta ao Portugal católico (do apego ao escondido e ao proibido), venha completamente mudado e preparado para largar uma estrutura (normativa emocional) construída ao longo dos meus 25 anos de vida. Mas venho, pelo menos, confuso, inseguro acerca da linha que separa o correcto do inadmissível, num estado de incerteza acerca das normas que convém manter e daqueles que deixou de fazer sentido prosseguir, com muito menos ideias relativamente àquilo que quero, do sexo e do amor, para o futuro. E, não obstante, com uma certeza muito clara de que a felicidade amorosa/sexual se constrói muito mais facilmente no meio da confusão de ideais, de premissas, de comportamentos, do que no marasmo da rotina e na coerção das práticas socialmente tipificadas ou aceites.