quinta-feira, 3 de maio de 2012

Do luto amoroso (ou a minha tentativa de um post intimista)




Ando, por aqui, há mais de uma semana, encalhado com dois textos que queria publicar – um sobre a participação da JS na Marcha do 25 de Abril, outro sobre o descrédito popular em que caiu a democracia portuguesa – e vejo-me, como me acontece frequentemente, aliás, na impossibilidade de alinhavar mais de duas frases coerentes sobre os referidos assuntos. Desta vez, contudo, a incapacidade literária não se deve à inabilidade habitual, mas ao facto de estar, incessantemente, a elucubrar, de forma quase científica, por vezes, sobre um assunto mais pessoal – o luto (amoroso).


Acabei – há cerca de 3-4 semanas, prefiro não contar exactamente o tempo – uma relação de 5 meses. Não é muito tempo, mas a “coisa”, sobretudo o seu final, foi para mim, particularmente intensa. Trágica, quase poderia dizer-se. No Domingo – foi quando terminou – estava, verdadeiramente, destruído. E aconselharam-me o luto – que eu nunca tinha feito em relação a compromissos anteriores – mordedura de cão cura-se com pêlo de outro, era o meu lema na “resolução” destas questões. E, para além disso, “luto” cheirava-me a livro de auto-ajuda e a psicoterapia de 3.ª categoria.

Neste caso, todavia, o luto fazia algum sentido. Sobretudo, porque, desligado o telemóvel e evitadas as espreitadelas no facebook, a segunda-feira foi dos dias mais tranquilos dos últimos tempos. E senti, como não sentia há muito tempo, liberdade. Tinha de perceber como é que me tinha recomposto tão depressa e, sobretudo, porque é que estava melhor separado do que junto e porque é que não tinha conseguido ver isso.

E uma parte do luto, disseram-me os entendidos (e com isto quero dizer as pessoas capazes de manter relações maiores do que um semestre), consistia, exactamente, nisto. Em perceber a relação, os sentimentos envolvidos – voltei, pela segunda vez na vida, a dizer “Eu amo-te”, sem o sentir -, o meu esforço de adaptação, a minha insatisfação permanente no compromisso (naquele compromisso) e, ao mesmo tempo, a minha ânsia de que não terminasse.

No restante, continuaram os entendidos, o luto requer um certo rompimento com a vida emocional/sexual. Tem de se parar, até que se ganhe, novamente, alguma estrutura. Fazer outras coisas, estar com amigos, evitar certos “ambientes”. E esta parte tenho-a cumprido, somente, pela metade. Tenho, felizmente, feito imensas coisas que me davam um enorme prazer e que haviam sido, relativamente, postas de parte – ler era uma delas. Não consegui, todavia, desligar o botão emocional e, de certa forma, procurar, desde já, preencher essa componente. E não creio, desta vez, que seja por medo da solidão, ou produto de uma voragem abrupta de “aproveitar a vida”. As coisas vão acontecendo e eu tenho sentido, de forma absolutamente consciente, que não as devo impedir, ainda que sinta que não ultrapassei o período de “nojo” amoroso.

E, pergunto-me, quanto tempo temos de “esperar”? É certo que o incumprimento da parte celibatária do luto prejudique o processo reflexivo do período? Quando é que podemos deixar, novamente, que alguém se intrometa, ainda que só fisicamente, na nossa fragilidade? Enfim, quando é que sei que posso largar os douradinhos com salada russa (o meu prato preferido), os boxers “Che Guevara”, as noites a ver Mentes Criminosas enroladinho na manta roubada na SATA e “enrolar-me” na próxima pessoa.?

E estas são as perguntas a que mesmos os “entendidos” não me conseguem responder.

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