quinta-feira, 10 de maio de 2012

Feios, porcos e maus - uma crónica sobre as gorduras do Estado capitalista.



Retornando às temáticas mais políticas (e mais públicas), até porque a minha vida pessoal está, por um lado, muito longe de ter o interesse que têm os acontecimentos social e economicamente relevantes que vão tendo lugar neste rectângulo a que a maioria de nós continua a insistir chamar de país e, por outro, porque, por ora, decidi que a minha vida emocional tem que se reduzir à insignificância que vai assumir, pelo menos, até Setembro.

Desta forma, pus-me, outro dia, enquanto, ao longe, ouvia vagamente o professor Marcelo falar das promoções do Pingo Doce, a pensar na oposição que alguns insistem em fazer entre capitalismo regulado (o que temos nos países da UE) e capitalismo selvagem (aquele em que imperaria, sem rei nem roque, o poderio do capital e da força). Imediatamente me veio à ideia a frase com que um colunista espanhol rematava uma crónica em que reflectia, exactamente, sobre as instâncias reguladoras daquilo a que nos regimes democráticos ocidentais podemos chamar os mecanismos produtores de riqueza.

A conclusão do cronista era a de que o capitalismo "à europeia" (= capitalismo regulado) se traduzia na seguinte expressão: "para os ricos há o Estado, os pobres têm de se haver com o mercado". E, de facto, é exactamente a isto que vimos assistindo na nossa, agora já não tão idílica e paradisíaca, União Europeia. Todos os dias, ouvimos o nosso primeiro-ministro (Miguel Relvas) e o seu ajudante-de-campo (um tipo de fraca figura que dá pelo nome de Passos Coelho, penso que sem hífen a ligar os dois apelidos) bombardearem as nossas pobres cabeças com a ideia de que já não há "empregos para a vida", que o Estado é "demasiado gordo", que os idosos só têm direito à hemodiálise se tiverem dinheiro para a pagar (esta última acho que, se calhar, foi proferida por aquela carantonha que me faz lembrar a Faixa de Gaza 5 minutos depois do último bombardeamento da democracia israelita).

Enfim, que temos de trabalhar mais, que não podemos contar tanto com o amparo governamental, que temos de nos safar sozinhos e que, se formos trabalhadores e servis, vamos conseguir alcançar uma posição social e económica confortável. Afinal, os pais do dr. Salazar e do Cavaco (que desconfio que eram as mesmas pessoas) eram trabalhadores rurais, ou pequenos comerciante - ou qualquer outra coisa de fraco rendimento, o que interessa é a metáfora.

E até aqui, tudo bem, não é? Afinal se a Maria Cavaco Silva chegou à Presidência da República, eu também hei-de conseguir ter um salário fixo de, pelo menos, 1.500 euros.

A pequenita questão que, todavia, me encanita, ao ponto de não conseguir parar de coçar o colóide que tenho no canto do peito, é que, quando se trata de grandes empresas ou empresários, os mesmos que nos andam, tal como esta espécie de governo, a moer o juízo com a ideia de que o Estado é demasiado "interventivo", as autoridades nunca lhes respondem com um: "temos pena, mas a verdade é que viveram acima das vossas possibilidades". Simplesmente, porque estes senhores/instituições são os supostos criadores da riqueza que nos permite (a todos, dizem eles) viver cada vez melhor.

E é assim que, quando os bancos (que a única coisa que têm de fazer para dar lucro é ir buscar dinheiro a 1% a Bruxelas e emprestá-lo à nação a 8% e a nós a 10% ou 12%) falem, lá vem a mão sapuda do Estado acudir - porque vocês não imaginam a desgraça que seria para a Economia, e, portanto, para o vosso bem-estar se um banco se desmoronasse!) e quando uma "grande" empresa decide abrir uma "grande" fábrica que vai empregar um "grande" número de pessoas (a maior parte a ganhar o salário mínimo, mas também ninguém lhes mandou não estudar) o Estado avança logo com uma data de subsídios e linhas de crédito, entre outros mecanismos económicos que reduzem, na prática, o risco dos grandes investimentos a zero.

Foi a pensar nisto, certamente, que a minha mãe exclamava, no dia da dita, que "a grande partida que podíamos pregar ao grande capital era acabar, definitivamente, com o Estado". Porque, de facto, atrevo-me a aventar, as gorduras do Estado não estão no excesso de assistencialismo à base da pirâmide, mas no controlo da "mão invisível" do mercado, não vá ela começar à bofetada àqueles que se encontram no topo.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Do luto amoroso (ou a minha tentativa de um post intimista)




Ando, por aqui, há mais de uma semana, encalhado com dois textos que queria publicar – um sobre a participação da JS na Marcha do 25 de Abril, outro sobre o descrédito popular em que caiu a democracia portuguesa – e vejo-me, como me acontece frequentemente, aliás, na impossibilidade de alinhavar mais de duas frases coerentes sobre os referidos assuntos. Desta vez, contudo, a incapacidade literária não se deve à inabilidade habitual, mas ao facto de estar, incessantemente, a elucubrar, de forma quase científica, por vezes, sobre um assunto mais pessoal – o luto (amoroso).


Acabei – há cerca de 3-4 semanas, prefiro não contar exactamente o tempo – uma relação de 5 meses. Não é muito tempo, mas a “coisa”, sobretudo o seu final, foi para mim, particularmente intensa. Trágica, quase poderia dizer-se. No Domingo – foi quando terminou – estava, verdadeiramente, destruído. E aconselharam-me o luto – que eu nunca tinha feito em relação a compromissos anteriores – mordedura de cão cura-se com pêlo de outro, era o meu lema na “resolução” destas questões. E, para além disso, “luto” cheirava-me a livro de auto-ajuda e a psicoterapia de 3.ª categoria.

Neste caso, todavia, o luto fazia algum sentido. Sobretudo, porque, desligado o telemóvel e evitadas as espreitadelas no facebook, a segunda-feira foi dos dias mais tranquilos dos últimos tempos. E senti, como não sentia há muito tempo, liberdade. Tinha de perceber como é que me tinha recomposto tão depressa e, sobretudo, porque é que estava melhor separado do que junto e porque é que não tinha conseguido ver isso.

E uma parte do luto, disseram-me os entendidos (e com isto quero dizer as pessoas capazes de manter relações maiores do que um semestre), consistia, exactamente, nisto. Em perceber a relação, os sentimentos envolvidos – voltei, pela segunda vez na vida, a dizer “Eu amo-te”, sem o sentir -, o meu esforço de adaptação, a minha insatisfação permanente no compromisso (naquele compromisso) e, ao mesmo tempo, a minha ânsia de que não terminasse.

No restante, continuaram os entendidos, o luto requer um certo rompimento com a vida emocional/sexual. Tem de se parar, até que se ganhe, novamente, alguma estrutura. Fazer outras coisas, estar com amigos, evitar certos “ambientes”. E esta parte tenho-a cumprido, somente, pela metade. Tenho, felizmente, feito imensas coisas que me davam um enorme prazer e que haviam sido, relativamente, postas de parte – ler era uma delas. Não consegui, todavia, desligar o botão emocional e, de certa forma, procurar, desde já, preencher essa componente. E não creio, desta vez, que seja por medo da solidão, ou produto de uma voragem abrupta de “aproveitar a vida”. As coisas vão acontecendo e eu tenho sentido, de forma absolutamente consciente, que não as devo impedir, ainda que sinta que não ultrapassei o período de “nojo” amoroso.

E, pergunto-me, quanto tempo temos de “esperar”? É certo que o incumprimento da parte celibatária do luto prejudique o processo reflexivo do período? Quando é que podemos deixar, novamente, que alguém se intrometa, ainda que só fisicamente, na nossa fragilidade? Enfim, quando é que sei que posso largar os douradinhos com salada russa (o meu prato preferido), os boxers “Che Guevara”, as noites a ver Mentes Criminosas enroladinho na manta roubada na SATA e “enrolar-me” na próxima pessoa.?

E estas são as perguntas a que mesmos os “entendidos” não me conseguem responder.