terça-feira, 10 de abril de 2012

José António Saraiva, tanta preocupação é um bocado gay...



 
No seu último artigo de “opinião” no folhetim a que uns poucos, cada vez menos, felizmente, continuam a querer chamar de jornal - Sol, José António Saraiva (o director da publicação panfletária) decidiu debruçar-se sobre um tema em relação ao qual, ultimamente, se tem revelado um “connaisseur” – a homossexualidade.Não faço ideia de onde lhe vem tamanha ciência, mas, assumo, começo a suspeitar que, nalgum momento, tenha tido acesso a informações mais “profundas” sobre a matéria, se é que me faço entender...

Passemos, todavia, adiante, porque o que aqui nos ocupa são as extraordinárias capacidades de JAS para adivinhar a orientação sexual alheia através da “inclinação da cabeça” e de prever e explicar as tendências demográficas daquilo a que chama a “comunidade gay” e não as preferências da criatura. (Ainda que, a obsessão com a matéria, fizesse com que qualquer motard algarvio exclamasse que o senhor “tem um piquinho a azedo”).

A crónica a que me venho referindo abre com o seguinte parágrafo, no estilo quase literário a que, quando o conseguimos levar a sério, o que, graças a Deus, raramente acontece, JAS nos vem habituando:

«À minha frente, no elevador, está um rapaz dos seus 16 ou 17 anos. Pelo modo como coloca os pés no chão, cruza as mãos uma sobre a outra e inclina ligeiramente a cabeça, percebo que é gay”.

Ontem, a primeira vez, provavelmente, que li alguma coisa do «Sol», fiquei logo entusiasmado com o estilo quase neo-realista do trecho e, rapidamente, me consegui imaginar no citado ascensor, bem ao lado do jornalista e do adolescente visado. E quase podia ver JAS, no seu sonho (molhado, como dizia no fb o D.), com a sagacidade habitual com que desmonta as mais complexas intrigas políticas, a desvendar as preferências e, quem sabe, mesmo as posições sexuais predilectas do jovem. Tudo isto, superando qualquer velha cigana de Belém, somente através da leitura da posição dos pés, mãos e cabeça do sujeito.

Esta visão serve de mote para que o articulista avance, como é seu hábito, duas “brilhantes” e “iluminadas” conclusões – que o Chiado é um “lugar de preferência da comunidade gay” e que é um “facto notório” que esta comunidade “tem vindo a crescer”.

O alargamento do número de homossexuais, explica-o JAS pela influência de amigos ou figuras públicas, por pressão do meio e pela utilização da homossexualidade como forma de expressão de rebeldia e irreverência.

Quando fala da pressão do meio, esclarece JAS, refere-se, nomeadamente, ao mundo da moda, onde o fenómeno se dá de forma “clara” – deve estar, certamente, a pensar no duo Carlos Castro/Renato Seabra. Assim, os modelos, estilistas e restante entourage são, segundo JAS, gays, simplesmente porque o contexto laboral é, predominantemente, homossexual. Que brilhante e científica conclusão! Não diz, o "jornalista", o mesmo das manequins, com certeza porque não acredita que mulheres tão bem aperaltadas e "femininas" possam ser lésbicas...novamente porque, mesmo no preconceito, JAS é básico.

A proposição mais extraordinária (se não conhecêssemos a peça, diríamos lunática, mesmo) é contudo aquela através da qual o Saraiva liga o "crescimento da comunidade gay" à necessidade juvenil de contestação. Tal como quando era jovem, militava nas"esquerdas" para chatear o "corajoso" tio José Hermano, os adolescentes de hoje dão o corpo (literalmente...) ao manifesto da homossexualidade para aborrecerem os paizinhos...

José António, em primeiro lugar, nem todos os pais do mundo e, felizmente, cada vez menos, têm a mesma visão bacoca da liberdade sexual que o José preconiza e, graças a Deus, a maior parte dos membros da nossa sociedade, hetero e homossexuais, já compreendeu que não precisa, nem quer, que cada foda lhes traga mais do que um orgasmo (e só de pensar em filhos, até perdiam a tesão toda). Por outro lado, não lhe parece, José, que há formas menos dolorosas (psicologicamente...e fisicamente, talvez) de ser "contestatário" que não envolvam a vivência de um tipo de sexualidade para a qual a pessoa não tem nenhum tipo de "propensão"? Ou o José, quando quer ser "contestatário", também se imagina logo em elevadores esconsos a galar jovenzinhos (gays) imberbes?

Às vezes, os seus escarros jornalísticos indicam que sim!

2 comentários:

  1. Muito bom, Manel.

    Resta dizer que este "artigo" de opinião de AJS já gerou uma multiplicidade tal de reacções, que pouca falta acrescentar. Eu próprio, não resisti a deixar uma chamada de atenção ao texto do "senhor", publicando ao mesmo tempo um artigo de 2005, da National Geographic, em que a ciência aponta para o facto de se nascer homossexual, e de não ser uma escolha ou um comportamento adquirido por influências do meio.

    Mas também, vindo da família que vem, até nem fico muito surpreso com o facto desta criatura cuspir tanta merda (peço desculpa pela vulgaridade, mas há alturas em que a língua portuguesa não oferece nada mais simples e eficaz do que um bom palavrão!).

    Abraço!

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  2. Obrigado, Miguel! E obrigado, também, pelo texto que partilhaste. ;)

    Entretanto, acho que temos de agradecer ao senhor, porque o texto que decidiu escrever já provocou as reacções mais criativas e divertidas da blogosfera!

    Abraço ;)

    PS: Temos de ter, contudo, cuidado que o José António Saraiva, apesar de sobrinho do salazarento José Hermano, é filho do António José Saraiva, um grande historiador da literatura e, sobretudo, um fervoroso opositor do regime fascista.

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