segunda-feira, 23 de abril de 2012

"O 25 de Abril e a História" - António José Saraiva




Já em jeito de celebração do 25 de Abril de 1974, e tal como vos tinha prometido, deixo-vos uma crónica do António José Saraiva escrita para o Diário de Notícias em 1979. Trata-se de uma visão com a qual, por várias razões, não consigo concordar, mas, pelo estilo, e por algumas críticas verrinosas e bem aplicadas, embora, ligeiramente, mal direccionadas, penso que vale a pena dar uma vista de olhos.

Não posso aderir ás críticas de AJS em primeiro lugar porque, apesar de tudo, os acontecimentos desencadeados pela Revolução dos Cravos tiveram, em geral, consequências positivas: criação do Serviço Nacional de Saúde, outros sistemas de assistência social, democratização do ensino, liberdade de imprensa, opinião, reunião, etc., entre outras coisas que o governo actual se tem entretido, perante o embrutecimento popular, a destruir.

Por outro lado, e quanto à descolonização, acho que, de facto, a pressão partidária e social era demasiado grande e os próprios soldados não queriam, de forma alguma, continuar a ser compelidos a combater. Assim, não vejo de que outra forma poderia ter sido levado a cabo o processo, até porque em 1974, obviamente, o livro do Spínola nunca poderia servir de base a acordo nenhum. Em 1945, ou mesmo em 1961, talvez, naquela altura não, seguramente.

AJS toca, contudo, em vários pontos correctos quando se refere ás falhas na liquidação do regime. De facto, a corrupção não foi, nunca, uma situação combatida pelo regime pós-25 de Abril e nunca se procedeu a uma, efectiva, "limpeza" e julgamento dos responsáveis pelos crimes mais abomináveis cometidos durante a ditadura. basta, aliás, ver que os delfins do antigo regime, continuaram, no novo, a ser caras bem conhecidas da nossa vida política - Adriano Moreira, José Miguel Júdice, Freitas do Amaral, Jaime Nogueira Pinto, etc.

Enfim, com estes sintéticos alertas, deixo-vos, então, o texto de AJS, que, nalguns pontos, mais soa a previsão dos dias que correm...


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"Se alguém quisesse acusar os portugueses de cobardes, destituídos de dignidade ou de qualquer forma de brio, de inconscientes e de rufias, encontraria um bom argumento nos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril.

Na perspectiva de então havia dois problemas principais a resolver com urgência. Eram eles a descolonização e a liquidação do antigo regime. Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com a vantagem para ambas as partes: o Exército Português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que tivera a aceitação nacional e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa.
 

Todavia, o acordo não se realizou e retirada não houve mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer Quibir. 

 
Pelo que agora se conhece, este comportamento inesquecível e inqualificável deve-se a duas causas. Uma foi que o PCP, infiltrado no Exército, não estava interessado num acordo ne numa retirada em ordem, mas num colapso imediato que fizesse cair esta parte da África na zona soviética. O essencial era não dar tempo de resposta às potências ocidentais. De facto, o que aconteceu nas antigas colónias portuguesas insere-se na estratégia africana da URSS, como os acontecimentos subsequentes vieram mostrar.


Outra causa foi a desintegração da hierarquia militar a que a insurreição dos capitães deu início e que o MFA explorou ao máximo, quer por cálculo partidário, quer por demagogia, para recrutar adeptos no interior das Forças Armadas. Era natural que os capitães quisessem voltar depressa para casa. Os agentes do MFA exploraram e deram cobertura ideológica a esse instinto das tripas, justificaram honrosamente a cobardia que se lhe seguiu.
Um bando de lebres espantadas recebeu o nome respeitável de «revolucionários».




E nisso foram ajudados por homens políticos altamente responsáveis, que lançaram palavras de ordem de capitulação e desmobilização num momento em que era indispensável manter a coesão e o moral do Exército para que a retirada em ordem ou o acordo fossem possíveis. A operação militar mais difícil é a retirada; exige em grau elevadíssimo o moral da tropa. Neste caso a tropa foi atraiçoada pelo seu próprio comando e por um certo número de políticos inconscientes ou fanáticos e em qualquer caso destituídos de sentimento nacional. Não é ao soldadinho que se deve imputar esta fuga vergonhosa, mas aos que desorganizaram conscientemente a cadeia de comando, aos que lançaram palavras de ordem que nas circunstâncias do momento eram puramente criminosas. Isto quanto à descolonização, que na realidade não houve.

O outro problema era o da liquidação do regime deposto. Os políticos aceitaram e aplaudiram a insurreição dos capitães, que vinha derrubar um governo que, segundo eles, era um pântano de corrupção e que se mantinha graças ao terror policial: impunha-se, portanto, fazer o seu julgamento, determinar as responsabilidades, discriminar entre o são e o podre, para que a nação pudesse começar uma vida nova. Julgamento dentro das normas justas, segundo um critério rigoroso e valores definidos. Quanto aos escândalos da corrupção, de que tanto se falava, o julgamento simplesmente não foi feito.

O povo português ficou sem saber se as acusações que se faziam nos comícios e nos jornais correspondiam a factos ou eram simplesmente atoardas. O princípio da corrupção não foi responsavelmente denunciado, nem na consciência pública se instituiu o seu repúdio. Não admira por isso que alguns homens políticos se sentissem encorajados a seguir pelo mesmo caminho, como se a corrupção impune tivesse tido a consagração oficial.

Em qualquer caso já hoje não é possível fazer a condenação dos escândalos do antigo regime, porque outras talvez piores os vieram desculpar.

Quanto ao terror policial, estabeleceu-se uma confusão total. Durante longos meses esperou-se uma lei que permitisse levar a tribunal a PIDE-DGS. Ela chegou, enfim, quando uma parte dos eventuais acusados tinha desaparecido e estabelecia um número surpreendentemente longo de atenuantes, que se aplicavam praticamente a todos os casos. A maior parte dos julgados saiu em liberdade. O público não chegou a saber, claramente, as responsabilidades que cabiam a cada um. Nem os acusadores ficaram livres da suspeita de conluio com os acusados, antes e depois do 25 de Abril.

Havia, também, um malefício imputado ao antigo regime, que era o dos crimes de guerra, cometidos nas operações militares do Ultramar.
Sobre isto lançou-se um véu de esquecimento. As Forças Armadas Portuguesas foram alvo de suspeitas que ninguém quis esclarecer e que, por isso, se transformaram em pensamentos recalcados.

Em resumo, não se fez a liquidação do antigo regime, como não se fez a descolonização. Uns homens substituíram outros, quando os homens não substituíram os mesmos; a um regime monopartidário substituiu-se um regímen pluripartidário. Mas não se estabeleceu uma fronteira entre o passado e o presente. Os nossos homens públicos contentaram-se com uma figura de retórica: «a longa noite fascista». Com estes começos e fundamentos, falta ao regime que nasceu do 25 de Abril um mínimo de credibilidade moral.

A cobardia, a traição, a irresponsabilidade, a confusão, foram as taras que presidiram ao seu parto e, com esses fundamentos, nada é possível edificar. 


O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres da anterior; mais a vergonha da deserção. E com este começo tudo foi possível depois, como num exército em debandada: vieram as passagens administrativas, sob a capa de democratização do ensino; vieram «saneamentos» oportunistas e iníquos, a substituir o julgamento das responsabilidades; vieram os bandos militares, resultado da traição do comando, no campo das operações; vieram os contrabandistas e os falsificadores de moeda em lugares de confiança política ou administrativa; veio o compadrio quase declarado, nos partidos e no Governo; veio o controlo da Imprensa e da Radiotelevisão pelo Governo e pelos partidos, depois de se ter declarado a abolição da censura; veio a impossibilidade de se distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de esclarecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira; veio o considerar-se o endividamento como um meio honesto de viver.


Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma Primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco. Ao contrário das esperanças de alguns, não se começou vida nova, mas rasgou-se um véu que encobria uma realidade insuportável. Para começar, escreveu-se na nossa História uma página ignominiosa de cobardia e irresponsabilidade, página que, se não for resgatada, anula, por si só todo o heroísmo e altura moral que possa ter havido noutros momentos da nossa História e que nos classifica como um bando de rufias indignos do nome de Nação.


Está escrita e não pode ser arrancada do livro. É preciso lê-la com lágrimas de raiva e tirar dela as conclusões, por mais que nos custe. Começa por aí o nosso resgate. Portugal está hipotecado por esse débito moral, enquanto não demonstrar que não é aquilo que o 25 de Abril revelou.


As nossas dificuldades presentes, que vão agravar-se no futuro próximo, merecemo-las, moralmente. Mas elas são uma prova e uma oportunidade. Se formos capazes do sacrifício necessário para as superar, então poderemos considerar-nos desipotecados e dignos do nome de povo livre e de Nação independente."

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ao António José Saraiva, que não tem culpa.






Por causa da publicação abjecta com que JAS nos brindou recentemente no pasquim de que é director e, sobretudo, por causa do rasgado elogio que teceu ao "tio José Hermano" - colaborador próximo do regime fascista -, têm-se ouvido dizer algumas coisas relativamente injustas, nomeadamente, que é natural que JAS seja assim (facho) porque provém de uma família em que todos seguiam a mesma cartilha salazarenta.

Ora, se é certo que o "tio José Hermano" é reaccionário até à medula, a verdade é que o pai do JAS, o António José Saraiva, se opôs, sempre, ao regime fascista, tendo, por isso, sido afastado das actividades docentes na Faculdade de Letras da UL.

Militou no Partido Comunista, apoiou a candidatura de Norton de Matos e, nos anos 60, exilou-se em França. Depois de duas viagens à União Soviética, abandona o comunismo e, regressado a Portugal já depois da Revolução dos Cravos, critica duramente o (novo) regime instituído e assume uma postura mais "conservadora". A epítome destas críticas é a famosa crónica de 1979 "O 25 de Abril e a História" publicada no Diário de Notícias - com a qual, pessoalmente, não posso concordar na totalidade, mas que hei-de publicar aqui.

António José Saraiva era, assim, um homem com uma formação académica exemplar, um pensador livre, um verdadeiro contestatário, um homem inteligente, no limiar da loucura muitas vezes. Era polémico sem precisar de inventar trapalhadas ou fazer figura de parvo. Era repeitado.

O filho, infelizmente, parece não ter herdado nenhuma destas qualidades. Não se respeita, cientifica e moralmente, aprecia a polémica de baixo nível, disserta sobre aquilo que não conhece, não se respeita e, por isso, não é respeitado e, de cronista, vem-se metamorfoseando em piada nacional - mesmo na direita, atraiçoando, em parte, a linhagem de onde provém.


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AJS pelo próprio:


"Eu sou existencialmente inconformista.


Eu sou, de origem, um camponês.

Eu fui espiritualmente cristão e teoricamente marxista.


Eu estou contra a sociedade, independentemente das teorias.


Eu acredito no espírito, mas não sou capaz de o definir.


Eu estou pronto a emigrar de novo, se necessário. Eu sou António José Saraiva."



terça-feira, 10 de abril de 2012

José António Saraiva, tanta preocupação é um bocado gay...



 
No seu último artigo de “opinião” no folhetim a que uns poucos, cada vez menos, felizmente, continuam a querer chamar de jornal - Sol, José António Saraiva (o director da publicação panfletária) decidiu debruçar-se sobre um tema em relação ao qual, ultimamente, se tem revelado um “connaisseur” – a homossexualidade.Não faço ideia de onde lhe vem tamanha ciência, mas, assumo, começo a suspeitar que, nalgum momento, tenha tido acesso a informações mais “profundas” sobre a matéria, se é que me faço entender...

Passemos, todavia, adiante, porque o que aqui nos ocupa são as extraordinárias capacidades de JAS para adivinhar a orientação sexual alheia através da “inclinação da cabeça” e de prever e explicar as tendências demográficas daquilo a que chama a “comunidade gay” e não as preferências da criatura. (Ainda que, a obsessão com a matéria, fizesse com que qualquer motard algarvio exclamasse que o senhor “tem um piquinho a azedo”).

A crónica a que me venho referindo abre com o seguinte parágrafo, no estilo quase literário a que, quando o conseguimos levar a sério, o que, graças a Deus, raramente acontece, JAS nos vem habituando:

«À minha frente, no elevador, está um rapaz dos seus 16 ou 17 anos. Pelo modo como coloca os pés no chão, cruza as mãos uma sobre a outra e inclina ligeiramente a cabeça, percebo que é gay”.

Ontem, a primeira vez, provavelmente, que li alguma coisa do «Sol», fiquei logo entusiasmado com o estilo quase neo-realista do trecho e, rapidamente, me consegui imaginar no citado ascensor, bem ao lado do jornalista e do adolescente visado. E quase podia ver JAS, no seu sonho (molhado, como dizia no fb o D.), com a sagacidade habitual com que desmonta as mais complexas intrigas políticas, a desvendar as preferências e, quem sabe, mesmo as posições sexuais predilectas do jovem. Tudo isto, superando qualquer velha cigana de Belém, somente através da leitura da posição dos pés, mãos e cabeça do sujeito.

Esta visão serve de mote para que o articulista avance, como é seu hábito, duas “brilhantes” e “iluminadas” conclusões – que o Chiado é um “lugar de preferência da comunidade gay” e que é um “facto notório” que esta comunidade “tem vindo a crescer”.

O alargamento do número de homossexuais, explica-o JAS pela influência de amigos ou figuras públicas, por pressão do meio e pela utilização da homossexualidade como forma de expressão de rebeldia e irreverência.

Quando fala da pressão do meio, esclarece JAS, refere-se, nomeadamente, ao mundo da moda, onde o fenómeno se dá de forma “clara” – deve estar, certamente, a pensar no duo Carlos Castro/Renato Seabra. Assim, os modelos, estilistas e restante entourage são, segundo JAS, gays, simplesmente porque o contexto laboral é, predominantemente, homossexual. Que brilhante e científica conclusão! Não diz, o "jornalista", o mesmo das manequins, com certeza porque não acredita que mulheres tão bem aperaltadas e "femininas" possam ser lésbicas...novamente porque, mesmo no preconceito, JAS é básico.

A proposição mais extraordinária (se não conhecêssemos a peça, diríamos lunática, mesmo) é contudo aquela através da qual o Saraiva liga o "crescimento da comunidade gay" à necessidade juvenil de contestação. Tal como quando era jovem, militava nas"esquerdas" para chatear o "corajoso" tio José Hermano, os adolescentes de hoje dão o corpo (literalmente...) ao manifesto da homossexualidade para aborrecerem os paizinhos...

José António, em primeiro lugar, nem todos os pais do mundo e, felizmente, cada vez menos, têm a mesma visão bacoca da liberdade sexual que o José preconiza e, graças a Deus, a maior parte dos membros da nossa sociedade, hetero e homossexuais, já compreendeu que não precisa, nem quer, que cada foda lhes traga mais do que um orgasmo (e só de pensar em filhos, até perdiam a tesão toda). Por outro lado, não lhe parece, José, que há formas menos dolorosas (psicologicamente...e fisicamente, talvez) de ser "contestatário" que não envolvam a vivência de um tipo de sexualidade para a qual a pessoa não tem nenhum tipo de "propensão"? Ou o José, quando quer ser "contestatário", também se imagina logo em elevadores esconsos a galar jovenzinhos (gays) imberbes?

Às vezes, os seus escarros jornalísticos indicam que sim!