quinta-feira, 8 de março de 2012

O sentido da celebração do Dia da Mulher.




Durante muito tempo fui contra a celebração do Dia Internacional da Mulher. Porque achava que servia, apenas, para marcar a diferença, num país em que, juridicamente, homens e mulheres auferiam do mesmo estatuto. Depois, eu fui criado por uma mulher (a minha mãe) que nunca se sujeitou a nenhum cânone sexista social e que sempre deixou bem claro, para mim, para o meu irmão, para o meu pai e para todos os homens (e mulheres) que a rodeavam, que não era por ser mulher que lhe cabia algum papel laboral ou doméstico específico. E, assim, eu vivia num mundo, jurídico e caseiro, em que tudo era igual e em que assinalar aquele dia (em Portugal) serviria, de certa forma, para alicerçar a discriminação.

Depois, saí de casa, saí da escola, saí da Faculdade, e a fazer algum activismo político e, muito rapidamente, tive a oportunidade de me aperceber que o mundo real se afastava largamente da minha vivência pessoal e que, por outro lado, aquilo que eu imaginava que era a vida da minha mãe não correspondia, exactamente, aos desafios que aquela mulher, ainda assim, tinha tido que enfrentar.

Em primeiro lugar, e em relação à minha mãe, apercebi-me de que a sua condição de mulher a havia feito, contra toda a sua competência, formação e qualidades pessoais, permanecer num lugar subalterno em relação a homens menos capazes, menos competentes, menos formados. E que muito tinha tido que lutar contra os preconceitos sociais que lhe ditavam determinados tipos de comportamentos, supostamente femininos, que nada tinham que ver com a sua personalidade e que, desde muito cedo, desafiou e procurou destruir.

Por outro lado, no meu país, as mulheres, ainda hoje, ganham menos 25% do que os seus congéneres masculinos em funções similares, apesar de, e todas as estatísticas, hoje, confirmam esta realidade, auferirem de um grau de formação superior. Para além disto, ainda têm de arcar com a parte de leão do trabalho doméstico e com uma série de crenças sociais que as impedem, designadamente, de foderem quanto e com quem querem.

Ainda num prisma diferente, e sobretudo graças aos ensinamentos preciosos recolhidos nas diversas experiências na Amnistia Internacional, pude tomar consciência de que não é possível contentar-me com a, relativa, igualdade conseguida pelas mulheres em Portugal, se às mulheres somalis é negado o prazer sexual e às mulheres afegãs o direito de se vestirem como entendem.

Finalmente, há todo um conjunto de pessoas - travestis, transexuais,  andrógin@s - que necessitam do esbatimento das diferenças entre os sexos biológicos masculino e feminino e para quem este dia faz todo o sentido, porque lhes permite avançar na luta contra as supostas diferenças promovidas pela biologia. E, afinal, a discriminação tem apenas um sentido, ainda que se manifeste de diversas formas, e, portanto, batalhar contra a discriminação com base na identidade de género ou sexo biológico é, igualmente, lutar contra o preconceito racista, homofóbico, cultural, étnico, etc.

Assim, hoje, faz todo o sentido, para mim e, espero, também para vocês, comemorar o Dia Internacional da Mulher (ainda por cima, no dia em que se iniciaram os protestos das operárias fabris russas que deram origem à Revolução de Fevereiro, Março no calendário gregoriano). Como um dia em que, mais do que relatar as falhas da humanidade em relação ao sexo feminino, possamos tomar uma qualquer atitude, ainda que diminuta, no sentido de minorar o sofrimento das nossas mães, amigas, colegas de trabalho, companheiras, professoras, operárias, putas, etc.

Feliz Dia da Mulher para tod@s nós!

PS: Este post é dedicado a todas as mulheres que já foram chamadas de putas, não por exercerem a profissão, mas porque decidem foder com quem querem. São as minhas preferidas!!

2 comentários:

  1. Grande post, amei!! Ainda há tanta discriminação, meu deus... 1 grande dia da mulher para ti*

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  2. Obrigado, querida! E posso dizer que tu, com a tua atitude, és uma das mulheres que contribuiu para que essa discriminação diminua! Beijo!

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