sábado, 10 de março de 2012

É todo um programa.


Às vezes oiço dizer que este governo não tem ideologia. É pragmático. É preciso cumprir o memorando da troika, cumpre-se.
São, naturalmente, pessoas pouco informadas as que caem nesta cantiga. Este governo tem todo um programa, que, claro, nada tem a ver com o que levou a eleições, mas que está bem definido, como o provam as medidas “para além da troika” que tem tomado.

Uma medida, tomada logo após o início de funções deste governo, que nos disse muito da sua ideologia foi a decisão de dar os restos da comida dos restaurantes aos pobres. Na altura ouvimos até muitas personalidades da mesma área ideológica a pedir que coisas como o rendimento mínimo e o subsídio de desemprego passassem a ser pagas com senhas de comida (não me surpreenderia aliás que tal política fosse seguida muito em breve).
Ora este tipo de medidas são muito reveladoras da posição ideológica deste governo. Para os pobres qualquer coisa serve porque só é pobre quem não trabalha o suficiente. Que vão trabalhar nem que seja em part-time em vez de ficarem refastelados à espera de subsídios do estado (que depois gastam em cigarros, cerveja, internet e cartazes para manifestações). Se fossem bons trabalhadores não tinham ficado sem emprego e se procurassem com vontade encontrariam outro. Resumindo: só passa fome quem quer.

Outras medidas muito interessantes, de tão revoltantes, são aquelas tomadas pelo ministro Pedro “Motard” Soares em relação aos lares de idosos. Há uns meses o ministro anunciou que as condições que estes estabelecimentos teriam de ter para estarem em funcionamento seriam drasticamente diminuídas (a tal “menos burocracia” de que a direita tanto fala). E, para completar, o mesmo ministro anunciou ontem que irá aumentar em dez mil o número de lugares nestes lares. Como? Muito simples: enfiando mais uma caminha (ou duas se couberem) nos quartos que existem hoje, muitos dos quais já atafulhados com dois ou três velhos.
Mas antes que comecem a ter pena destes idosos que vão passar a viver em péssimas condições e perderão qualquer ponta de privacidade que ainda lhes restasse, tenham em mente algumas coisas. Por um lado este número de velhos das sociedades modernas é perfeitamente incomportável. Temos de reverter a pirâmide demográfica urgentemente.
Por outro lado, continuarão a existir lares de luxo abertos a todos (os que tenham largos milhares de euros por mês, naturalmente) e com condições fantásticas. E claro que só não vive nestes lares quem não trabalhou o suficiente, quem não poupou todos os meses e quem não investiu parte do seu salário, ficando à espera que o estado gordo, protector o amparasse.

Se por esta altura precisarem de fazer uma pausa na leitura deste texto, não vos levarei a mal pois eu próprio me sinto bastante repugnado pelo que escrevo neste momento.

Mas, continuando, podemos falar dos cortes na saúde e do aumento das taxas moderadores que, como os próprios ministros admitiram, foram muito para além do que era pedido pela troika. Mais uma vez a opção é óbvia. Para além de haver um número significativo de pessoas que gosta de ir ao médico “por tudo e por nada” e às vezes só por diversão, o nosso sistema anterior era uma injustiça. Porque haveriam de pagar aqueles que realmente trabalham, através dos impostos, as doenças dos outros? Que não fumem! Que não tenham sexo com mais que um parceiro (ou de todo)! Que não bebam! Que não se droguem! Que façam exercício físico! De outra maneira qual seria a motivação desta gente para mudar os seus comportamentos? E, naturalmente, só não tem dinheiro para pagar os seus cuidados de saúde quem não trabalha (porque não quer).

Por fim gostaria de falar do “se estão mal emigrem”, frase querida de, pelo menos, um secretário de estado e do próprio primeiro-ministro deste governo. De facto se quem estiver mal (leia-se, desempregado) emigrar resolvem-se vários problemas de uma assentada. Para já se estão desempregados é porque ou são preguiçosos ou incapazes e portanto só nos fazem um favor ao desamparar a loja. E, não menos importante, são menos subsídios que o estado tem que pagar.

E não, o objectivo deste governo não é que as pessoas vivam melhor mas sim que as empresas exportem! Portanto se você não exporta nada, faça o favor de morrer, emigrar ou deixar-se empilhar num lar.

É todo um programa.

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