terça-feira, 20 de março de 2012

Da homofobia na Libéria à destruição do sonho de Johnson-Sirleaf.




A actual Presidente da Libéria decidiu, numa entrevista recente, deixar clara a sua posição favorável em relação a uma lei criminalizadora da homossexualidade. Fiquei, a todos os níveis, pasmo. Não só porque Ellen Johnson-Sirleaf foi a última vencedora, em conjunto com duas outras mulheres, do Prémio Nobel da Paz, mas também porque pensei que a história daquele país já devia ter ensinado a pessoas como Johnson-Sirleaf (educada em Harvard) que é impossível combater um tipo de preconceito e permitir que outros géneros se consolidem.


Um pouco de história, porque o percurso daquele país, encetado no séc. XIX, é, no mínimo, curioso:

Aquando da Conferência de Berlim, nos finais do séc. XIX, em que algumas potências europeias (e Portugal) definiram a forma como iriam, posteriormente, retalhar o continente africano, a Libéria e a Etiópia foram os únicos "Estados" africanos respeitados. O segundo, porque dispunha de uma forma de governo relativamente centralizada e de um exército vagamente organizado, que lhe permitiu derrotar os italianos entre 1895-1896. O primeiro, porque havia sido criado pelos Estados Unidos, nos anos 20 do séc. XIX, para "escoar" os escravos que iam sendo libertados e os seus descendentes, que poderiam causar toda uma série de problemas no seio da sociedade americana que se construía. Porque, afinal, as liberdades concedidas pelas Constituição americana restringiam-se ao grupo dos homens brancos e possidentes.

Assim, em 1847, a Libéria declara a independência e um Presidente negro, Joseph Jenkins Roberts, assume o comando de uma nação que teria, no final do século, de conter os ímpetos expansionistas da Inglaterra e da França. Resistiu, mas isso não significou a criação de um país negro igualitário, na medida em que os nativos do território (aqueles que nunca se tinham "civilizado" no espaço americano) ficaram afastados da cidadania até 1904 e do poder por muitos mais anos. A desigualdade que marcara o nascimento da Libéria (do latim "Liber" - Livre) continuava a traçar os destinos do Estado.

E continuou nos anos seguintes e, sobretudo, já quase no final do séc. XX, quando uma brutal guerra civil estalou em 1980. Terminada a guerra civil e encetada a transição para a paz, Ellen Johnson-Sirleaf, opositora do regime de Charles Taylor, empenha-se na defesa das mulheres liberianas e, quando assume a presidência, com gestos bem-intencionados na tentativa de melhorar as condições de vida das populações mais desfavorecidas. E isto valeu-lhe a atribuição do Nobel da Paz no ano transacto. Um prémio, em princípio, merecido.

O que Ellen Johnson-Sirleaf parece não compreender e, mais grave, indicia ignorar, observando a história do país que governa, é que a discriminação tem apenas um sentido, o da menorização e degradação do ser humano, independentemente das formas como se manifesta – racismo, homofobia, sexismo, etc.

Desta forma, e com aqueles parcos minutos de entrevista em que rotulou os cidadãos homossexuais do seu país, homens e mulheres que, em muitos casos, a terão apoiado na sua ascensão ao comando do Estado, como menos dignos, Johnson-Sirleaf destruiu todo o trabalho de uma vida (de luta pela igualdade, de combate à discriminação, à pobreza, a todas as formas de racismo e sexismo).

Porque não existe igualdade racial onde gays e lésbicas podem ser encarcerados, porque não se pode combater as diferenças económicas e aceitar o preconceito com base na orientação sexual, porque é impossível igualar homens e mulheres, quando alguns destes são tratados com menos igualdade do que aquela que lhes é devida.

“Nenhum homem será realmente livre, enquanto aos seus ouvidos ressoarem os grilhões de outrem”.

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