quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Da "falta de alternativas" à realidade como mecanismo de coerção do sonho.


 
As últimas semanas têm sido de reflexão. Pessoal, mas também política, naquilo em que o político se pode separar do que nos é mais íntimo. Isto, sobretudo, a partir da brutal repressão que se seguiu à manifestação do dia da Greve Geral - 14 de Novembro. Percebi, então, que os alicerces do actual sistema político-económico são muito mais sólidos do que imaginava. Por um lado, porque o capitalismo parece estar a conseguir sair incólume, do ponto de vista ideológico, desta espécie de crise político-financeira em que nos imergiu - as tretas das teorias do ciclos económicos e outras que tais têm contribuído com justificações "académicas" para as depressões recorrentes das economias "liberais". Depois, porque a generalidade da população portuguesa, enquanto passa fome e privações, vai comendo o discurso de que "vivemos acima das nossas possibilidades" e de que a convocação de eleições antecipadas consubstanciaria aquilo a que comummente se chama de "crise política" - como se a ocorrência de escrutínios regulares não devesse ser actividade corriqueira numa democracia...

O que mais preocupa, e assusta, mesmo, as mentes mais amarguradas como a minha, não é a inaptidão da populaça nacional para vislumbrar para além daquilo que vai absorvendo, acriticamente, do ecrã da televisão, mas a falta de interesse nas e das alternativas em relação ao actual sistema político-económico de "capitalismo subsidiado" - sim, porque no continente europeu, e não apenas no sul, o Estado tem sido o principal promotor e protector de uma certa espécie de capitalismo que está muito pouco interessado na "regulação dos mercados" e na "livre concorrência". Em primeiro lugar, a intelectualidade pequeno-burguesa que, como referiu Borges Coutinho, resistente anti-fascista açoriano, foram "mantendo a honra do convento", com a estruturação e promoção de uma cultura democrática e oposta à situação vigente no período do Estado Novo, desapareceu. Hoje, ou se pensa "academicamente" e, então, enjaulado por todo o tipo de princípios pseudo-científicos que "norteiam" as "ciências" sociais, ou, então, cai-se num debate completamente inútil em que só interessa a renegociação da dívida, a "democratização" das instituições do regime ou a "qualidade" e "honestidade" das classes políticas.

A concepção de sistemas opostos ao "capitalismo subsidiado" não tem qualquer força na Europa, desde a derrocada da União Soviética - a maior tragédia para a Europa Ocidental desde a II Guerra Mundial. Desta forma, o comunismo e todas as formas de socialismo que preconizem um qualquer tipo de coerção à propriedade privada, estão, absolutamente, arredadas e vão resistindo, somente, na cabeça da meia-dúzia de intelectuais "marxistas" que se deliciam a ler Marcuse ou Gramsci, nos intervalos de um cigarro taxado a 80% ou das compras de Natal no shopping mais próximo - como eu -, ou na percepção do remanescente campesinato alentejano beneficiário da reforma agrária de 75, hoje já todos com mais de 60 anos, certamente. De resto, o anarquismo não tem, actualmente, pensadores dignos de nota e vive concentrado nos antros de música punk e no movimento queer, que tanto pugna pela "destruição da sociedade patriarcal", como se contenta com o fim das conceptualizações do "binarismo de género" - essa merda de existirem homens e mulheres e diferenças assinaláveis entre uns e outras.

Assim sendo, a esquerda sul-europeia - e falo, em Portugal, genericamente, das pessoas que, em tempos, votaram no ps, mas que hoje andam votando BE ou não votando de todo, almeja, no máximo, a construção de sistemas próximos daqueles vigentes nos "países nórdicos", em que, supostamente, o capitalismo e a vertente socialista da educação, saúde e segurança social públicas, fortes e proporcionadas pelo Estado se vão compaginando na criação de sociedades capazes de "competir" no sistema de trocas e baldrocas global, mas em que as pessoas auferem de níveis de qualidade de vida apreciáveis. Este tipo de pensamento, que, desde logo, não me parece desadequado de todo, não consubstancia, na verdade, uma alternativa ideológica capaz de abalar os sustentáculos do sistema vigente. Trata-se de uma reordenação dos já antiquíssimos princípios da necessidade de acumulação de riqueza para criação de bem-estar e que, portanto, se subjuga, também, aos pressupostos das dinâmicas actuais. E isso não me chega.

Vi-me, assim, sobretudo, como vos digo, depois de 14 de Novembro, sozinho e perdido. Tenho as minhas ideias e concepções políticas, mas não consigo, no momento presente, encontrar os mecanismos certos para as pôr em prática ou lhes dar destino. Não sei, sequer, se são úteis ou pertinentes, se têm cabimento ou se não passam de um saudosismo absurdo de um passado que nunca existiu. Assim, prefiro calar-me, e pensar, ler, discutir, amarrotar papéis, destruir ilusões, apagar memórias irrepetíveis e criar (novos) sonhos. Até lá, é possível que não nos vejamos em nenhuma manifestação.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Carta aberta a Isabel Jonet.

Cara Isabel Jonet,

Na sequência dos comentários que teceu em meados de Setembro transacto, aquando da apresentação de um novo pacote de austeridade, em que considerava a política governativa que tem atirado milhares de cidadãos portugueses para a pobreza um "mal menor", critiquei-a, no mural do Banco Alimentar contra a Fome. Através de mensagem privada no facebook, não sem ponta de arrogância, respondeu-me o seguinte:

"Manuel Magalhães
Se um dia quiser passar no BA e conversar talvez perceba o real enquadramento das necessidades dos mais pobres. Não gostaria de ver em Portugal o que vi na Grécia: miséria tal que nem daqui a 10 anos terão pensões ou reformas mínimas.Por vezes comentar é fácil quando se desconhece o todo em causa
Isabel Jonet"

Na altura, encontrava-me nos momentos finais de redacção da minha tese de mestrado, razão pela qual não tive oportunidade de lhe responder de imediato. Inicialmente, a minha ideia era aceitar, simplesmente, o seu convite e procurar que esclarecesse o "desconhecimento" em que acredita que me encontro submerso. Afinal, não é por acaso que escolhi a carreira académica - estou sempre pronto para aprender. Não obstante, aquilo que disse, ontem à noite, em debate na SIC Notícias, fiz-me repensar o texto original e sentir a necessidade de lhe remeter esta carta aberta.

Assim sendo, começo por lhe dizer que algumas das opiniões que avançou, como a de que vivemos, durante muito tempo, "acima das nossas possibilidades", não me surpreenderam, tendo em conta aquele que vem sendo o seu discurso, sobretudo desde a instalação da «crise». Outras, todavia, recebi-as com larga surpresa e inusitado receio, a começar por aquela através da qual nos procura endoutrinar no sentido de vermos a contabilidade pública como a contabilidade doméstica. Não sei se se recorda quem foi a última pessoa que, em Portugal, defendeu e praticou esse tipo de «orientação económica»? Se a Isabel Jonet considera que tem vivido acima das suas possibilidades, eu devo contrapor que não concordo ser essa a situação da maioria do povo português, um daqueles onde, no seio da Europa Ocidental, sempre mais grassou a pobreza, como deverá ter conhecimento.

Ultrajante considerei, depois, a forma como se dirigiu ao povo português, dizendo que este tinha de "reaprender a viver mais pobre", a "viver com menos". E foi esta a solução que foi apresentando, ao longo de todo o programa, para a «crise» em que se encontram envolvidas as economias europeias e, especificamente, a portuguesa. Advogou, desta forma, a coerção dos direitos sociais "insustentáveis" e a reformulação do Estado Social, no sentido de "acudir somente às situações de emergência que não podemos tolerar", servindo apenas aquelas "pessoas que efectivamente não conseguem fazer face às suas despesas". Neste tipo de afirmações, lê-se que a Isabel considera como solução a destruição do Estado Social que fomos, a partir de 25 de Abril de 1974, construindo e que vinha, apesar das suas fragilidades e deficiências, melhorando substancialmente a qualidade de vida da população portuguesa, como indicam todas as estatísticas.

A ideia com que fiquei é a de que imagina a satisfação da responsabilidade social do Estado um pouco à semelhança do "seu" Banco Alimentar, como o serviço de meia dúzia, ou milhares de meias dúzias, de refeições diárias e a prestação dos cuidados de saúdes mínimos aos «carenciados» e «indigentes» deste país. Não vê o Estado Social como a estrutura passível de proporcionar àqueles que procura proteger as mesmas oportunidades a que a Isabel, claramente, teve acesso. Prefere, então, uma alternativa que se centre no "essencial", que relaciona com "a inovação chinesa e indiana" da "criação de riqueza a partir do nada", com as "pequenas empresas" e com os "jovens a fazer coisas quase sem custos", o que, para além de consubstanciar uma falácia, porque não se pode criar riqueza a partir do "nada" ou "sem custos", orienta a solução portuguesa no sentido de sistemas sociais profundamente injustos, como são o chinês e o indiano.

Com toda a certeza que a Isabel sabe, finalmente, que o Banco Alimentar é uma solução de recurso que não existiria na situação ideal, em que todas as pessoas, não teriam somente o mínimo para viver, mas acesso às condições materiais que lhes permitissem dar uso ao máximo das suas potencialidades. Penso, desta forma, ter deixado claras as minhas concepções e a medida em que se afastam das suas. Espero, igualmente, ter sido suficientemente incisivo na asseveração de que algumas das coisas que vai transmitindo podem ser consideradas injustas e, mesmo, desagradáveis para aqueles que menos têm. É que, Isabel, por vezes comentar é fácil quando se desconhece o todo em causa...

Com os melhores cumprimentos, ficando à sua disposição para todas as conversas e discussões,

Manuel Magalhães.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Da aceitação da normalidade, ou a minha segunda tentativa de um post intimista.



Hoje à tarde, tentei alinhavar duas ou três linhas sobre o conceito de normalidade e como o cumprimento dos requisitos para o seu preenchimento suscita em mim sentimentos paradoxais - de atracção e necessidade, por um lado, de rejeição e repulsa, por outro. À medida que a noite se ia aproximando, foi-se cimentando no meu pensamento a certeza de que abraçar a "anormalidade" poderá ser a única solução possível, embora a mais dolorosa, certamente. Na senda de John Lennon, "tenho medo dessa coisa da normalidade" e, pela minha experiência, já vi que é um caminho, não só extremamente perigoso para quem não lhe conhece os entremeios, como eu, mas também altamente castrador e normativo.

O normal representa, todavia, para além do mais habitual, o correcto, o justo, até, o previsível, aquilo que, no fundo, sustenta as interacções humanas, e que é a base da felicidade. Para quem consegue viver dentro dos seus largos parâmetros, a vida será, provavelmente, um experiência doce e reconfortante. Talvez não muito louca ou diametralmente diferente daquela que enfrenta a generalidade das pessoas, mas, por isso mesmo, mais partilhada e simples.

Para aqueles como eu, incapazes de nadar nessas águas calmas, a existência torna-se, essencialmente, penosa. A solidão, o espanto, o desfasamento, a inconstância e a incompreensão são estados ou sentimentos mais ou menos permantes, que se agravam se a tentativa subjacente ao crescimento intelectual e emocional é no sentido de abraçar a normalidade, o que consubstancia, infelizmente, o meu caso. Não sou um artista, no sentido amplo da palavra, e, desta forma, a expressão da diferença fica sujeita aos escolhos da vida corriqueira. E tudo se torna mais difícil.

O essencial, seria pedir um duplo padrão - ser julgado, não segundo a norma "natural", mas segundo princípios próprios, adequados à minha situação de anormal. Não é isto, todavia, possível e, na esmagadora maioria dos casos, o máximo que consigo é que aceitam a minha maneira de ser como "doidices", o que tem de ior servindo, mas não chega ao patamar da compreensão.

Ainda assim, entre a espada e a parede, preferirei sempre a espada. Chamem-lhe o meu fado, mas só de pensar na crueza de uma superfície nua e lisa, normal, opto pela incerteza da lâmina - morro ou não? Não quero saber, antes digo como o outro, o saudoso, chamem-me doido, abandonem-me, por pessoa normalizada é que não me tomem, não!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

p.s.: na Damaia ainda se acredita.



Enquanto vou procrastinando a conclusão da minha tese de mestrado, tem-me dado para pensar na situação do meu portugal. E em vez de chorar, que seria o estado natural de quem se apercebe daquilo que se passa, dá-me para rir. Não o "rir para não chorar", mas o rir com algum gosto, e alguma inconfessada atracção pelo abismo. E hoje deu-me para rir da "oposição" e falo do partido socialista, para quem não tiver percebido as aspas.

antónio josé seguro, o tonto em quem toda a gente depositava as maiores esperanças, até Soares, tem-se revelado uma nódoa muito maior do que aquilo que se podia imaginar. Claro que eu nunca acreditei que a criatura fosse capaz do que quer que fosse, porque lhe conheço a proveniência - Penamacor, uma vilazita que em tempos que já lá vão (há muitos séculos) chegou a ser muito importante, mas que hoje é a capital do "enterior desquecido e ostracizado" e de onde partiram os meus avós maternos para as África -, mas não imaginei que a desgraça pudesse ser tão monstruosa. Mas é. E consubstancia-se a "oposição" de seguro, perante a destruição do país, em meia dúzia de "abstenções", cada vez menos "violentas" e, espantem-se, na adesão à antiga proposta dos "reaças" (leia-se psd's) de reduzir o número de deputados na AR...

Ainda por cima, teve de sofrer uma das mais brutais desautorizações da democracia portuguesa, protagonizada pelo "seu" grupo parlamentar e pelo líder dos delinquentes, o estratega carlos zorrinho (lembram-se do falecido plano tecnológico e tal?), tipo muito próximo do "querido líder" que se encontra, a "estudos" (porque para lá não se vai a banhos") em Paris.

As "alternativas", dentro do campo "socialista", apresentam-se, todavia, ainda mais risíveis. Os sebastianistas querem ver no actual presidente da câmara de Lisboa o "retorno do rei". O tipo até é um bocado "pró" escuro e, portanto, confundível com marroquino. Mas, desenganem-se os esperançosos, a criatura é originária - e sim, para os que me criticavam no outro dia, quem tem razão sou eu, sendo oriundo sinónimo de originário - do antigo Estado Português da Índia - daí a fixação com o Martin Moniz - e mais não tem feito do que transformar a rotunda do famoso marquês num ponto de caos durante 24h por dia, ao invés das 4 ou 5 habituais.

O pior seria, contudo, se os que pedem que a travessia do deserto do príncipe socialista termine, conseguissem concretizar o sonho e fizessem retornar sócrates, com quem eu só contava para as presidenciais de 2026! A desastrosa gestão do presente executivo tem, não obstante, feito esquecer as trapalhadas do serrano e é, assim, natural que a criatura nos possa vir assombrar bem antes de terminar o "doutoramento" que anda realizando no estrangeiro - e nós sabemos como ele é "rápido" nessas coisas dos estudos.

"Ficamos", assim, à "esquerda", metidos entre o tontinho, o actual líder, que foi sempre uma figura de transição, o cada vez menos "sebastianizável" costa e o príncipe, ou um dos seus capangas - assis, silva pereira, zorrinho... Quase se poderia pedir ao demo que escolhesse. Mas eu, ainda assim, preferia retirar a opção aos demónios deste país - as hostes "socialistas" - e apostar em costa. Apesar de tudo, nos males, escolha o menor...

domingo, 7 de outubro de 2012

aníbal cavaco silva: biografia não autorizada ou "a anatomia de uma tragédia".



O nosso presidente é uma das mais caricatas figuras da "democracia" portuguesa - talvez só superado pelo dr. Soares. Em primeiro lugar, porque, não sendo, de nenhum ponto de vista, um democrata, foi a democracia que o tirou do escritório bafiento de alguma repartição universitária para o palco principal da política portuguesa. Nos tempos do fascismo, andava alegrete, pedindo e recebendo atestados de bom comportamento da polícia política. Não passaria, nunca, contudo, de um funcionário, relativamente competente, acredito, mas sem grande brio ou brilho que o pudessem alcandorar num lugar maior que a chefia de uma direcção de serviços ou equivalente.

Do 25 de Abril, nada percebeu ou sabe. Na sua autobiografia política classifica-o, simplesmente, como um período de "grande confusão". Foi Sá Carneiro quem, provavelmente em noite de ópio com a amante Abecassis, achou que tinha descoberto o novo salazar num outro bolorento professor universitário e o convidou para ministro das Finanças, com prerrogativas semelhantes àquelas de que havia auferido o virginal ditador. Não havia descoberto e, graças ao acidente/atentado que vitimou o líder histórico do PPD, as "cavacadas" - como começaram a ser conhecidas as peculiares estratégias financeiras que ia utilizando - ficaram escondidas sob um manto de uma administração austera, mas eficiente, que muitos problemas haveria de causar aos senhores do fmi em 1983.

Na oposição a Francisco Balsemão e Mota Pinto, vai construindo, sob a asa protectora da sua mulher, uma aura de sucessor legítimo do pensamento de Sá Carneiro, e, em animado festim numa famosa praia portuguesa, conquista o partido e havia de conseguir uma minoria relativa e duas absolutas nos anos seguintes. Governaria nos 10 melhores anos de Portugal, em que os "fundos de coesão" - na verdade a estratégia final hitleriana de vergar a europa reinventada - davam para minar um país de auto-estradas, arrancar linha férrea e oliveiras, desmantelar fábricas e ainda alimentar as cliques do grande partido PSD-PS que começa então a constituir-se.

Perdeu as eleições de 96, mas o esforço de Maria compensaria em 2006 quando é eleito para Bélém, onde era necessário um "economista pragmático" - o que quer que essas palavras, "economista" e "pragmático", friso, signifiquem. Finalmente, com a queda de sócrates, de quem já muitos vêm fazendo a apologia, muitos mais do que aqueles que defenderam o antigo, concretiza o sonho de Sá Carneiro: um Presidente, um Governo, uma Maioria, que ainda por cima contava com o CDS, que cavaco havia reduzido ao táxi nos anos de governo. Finge, então, governar de Belém, chamando o ministro das Finanças para "explicações", um pouco à semelhança do velhinho Salazar, em 1969, quando continuava pretendendo governar, despachando, como em qualquer outro dia dos gloriosos anos de 1950, com a outra Maria e restantes membros do executivo.

A 5 de Outubro, finalmente, hasteia a bandeira nacional ao contrário e leva o processo todo até ao fim - via-se-lhe o olhar perdido, procurando Maria, e agora o que é que faço? Esconde-se, então, no sitiozinho onde realizam aquela parolagem da "Moda Lisboa". E aí, tem de ouvir o líder da oposição - uma criaturinha que, há falta de espaços para rotundas na capital, decidiu violentamente (como é hábito partidário) perturbar o já caótico trânsito do Marquês de Pombal - criticar "fortemente" o "seu" governo. Criaturinha essa que, soubemo-lo depois, foi quem trocou o lado da bandeirola.

E, depois disto tudo, digam-me, ainda há quem acredite que aníbal cavaco silva será o salvador da nação? Procederá no sentido de formar um governo de iniciativa presidencial, afirmam os sebastianistas chefiado por leonor beleza? Não me deixem pensar isto...

sábado, 29 de setembro de 2012

As esquerdas não se entendem


Tendo andado agora moderadamente envolvido em várias plataformas de esquerda, tais como o manifesto para uma esquerda livre e o congresso democrático das alternativas, que procuram discutir ideias e congregar as esquerdas portuguesas, deparo-me com incontáveis horas de discussão sobre como melhor concretizar este velho sonho de unir a esquerda.

Ora se debater o que quer que seja é sempre positivo, discutir o estado e o futuro da esquerda é fulcral. No entanto convém situar o debate nos pontos verdadeiramente importantes, caso contrário corremos o risco de estarmos apenas a perder tempo.

Na minha opinião é exactamente isso que estamos a fazer: a perder tempo, a discutir ao lado daquilo que interessa.

Senão vejamos: Todos os oradores, de todas as áreas da esquerda, atribuem a incapacidade de entendimento entre estas ao sectarismo, à história difícil e conflituosa das esquerdas, a Mário Soares, a Álvaro Cunhal, ao PREC em geral, a Sócrates, a Louçã, ao chumbo do PEC IV, etc. Se as (outras) pessoas que estão nos partidos fossem inteligentes e bondosas isto resolvia-se, parece ser o consenso geral.

No entanto, se estivermos atentos ao resto dos debates, os das ideias, vemos bem porque as esquerdas não se entendem e provavelmente nunca se entenderão: elas pura e simplesmente não concordam. Pensam que sim porque todas falam do falhanço do memorando, da estupidez das políticas actuais e da necessidade da preservação do estado social, mas isso não chega.

O memorando não serve, é óbvio, mas e depois? À esquerda defende-se desde o cumprimento do memorando sem mais nenhuma medida enquanto se reza para que a Europa mude, ao rasgar total dos acordos com os credores, o default, e a nacionalização da banca. Defende-se desde a renegociação dos juros à saída unilateral do euro. Defende-se desde o uso do mecanismo da moção de censura, à revolução violenta. Defende-se desde pedir mais tempo para pagar, a ir buscar dinheiro à Rússia. Defende-se desde mais investimento público a cortar no número e salário de deputados. Defende-se desde mais crédito para a economia através dos bancos, a “mudar o paradigma da sociedade de consumo”, o que quer que isso seja.

Percebe-se muito facilmente, assim, que o entrave à união das esquerdas não é a má vontade dos protagonistas políticos mas sim visões diferentes e idealismo no bom sentido.

Se queremos mesmo mudar esta situação, cada um de nós tem de pensar muito bem naquilo em que realmente acredita, que caminho defende, e, sobretudo, de que partes do seu sonho é que está disposto a abdicar. 

Penso que é impossível entendermo-nos. Mas se for possível, terá de ser assim.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Uma criança chamada pedro passos coelho.




Sempre que tenho o desprazer de me deparar com uma imagem de pedro passos coelho, o fantoche que dá a cara pela trupe que vem desgovernando portugal desde há mais de um ano, logo me vem à memória uma daquelas crianças apatetadas da minha infância. Das que andavam sempre com um ar satisfeito que iam buscar não sei aonde – já enquanto infante eu encontrava mil e uma razões de desprazer na vida, fosse a estúpida da regra que nos impedia de correr à chuva ou o facto de eu achar que à realidade pertenciam tanto o recreio da escola, como a quinta imaginária com cavalos da minha tia, ideia que os adultos contrariam sempre, até que, dez anos depois, numa cadeira a que chamaram de Filosofia, me tentaram fazer crer no contrário… mas eu já não era a criança que voltei a ser hoje…


Mas falava eu de passos coelho e da sua assustadora semelhança com o menino da lágrima, embora a falta de qualquer tipo de função cognitiva do primeiro o prive do olharzinho triste e o brinde com uma expressão vazia e feliz (pois toda a felicidade é vazio). Sorri a criança porque o nenhures que habita não lhe dá a dimensão da tragédia que se ergue em seu redor. E sorri, mesmo quando a maior das humilhações o atinge. Quando qualquer um de nós procuraria o refúgio mais esconso, a criança ri-se, olha, ligeiramente envergonhada, mas quase orgulhosa da proeza, para o progenitor que lhe devolve o olhar calmo e sereno de “a culpa não é tua”.

A criança foi educada pelos barões (ângelos correias e uma outra série de crápulas que ganharam proeminência, sobretudo, depois da desastrosa gestão de cavaco silva) e viveu sempre numa redoma patética a que se usa chamar psd. Saía para uma qualquer espécie de curso que terminou já com bem mais de 30 anos e para ir “administrar” as empresas dos ângelos. Mas voltava sempre, primeiro para a liderança da “jota”, depois, do partido dos grandes, por fim, do país dos parvos. Não perdeu, nunca, a criança, o ar pueril e nunca ganhou a noção da consequência dos actos, que é o que marca o abandono da infância.

E, assim, quando assevera, com ar sorridente, que a solução para os problemas da população que desgoverna é “emigrar”, fá-lo como a criança que diz que quer almoçar rebuçados para sempre. Quando Maria Teresa Horta, resistente antifa e escritora de renome, afirma recusar-se a receber o prémio das mãos do infante, este não chora, e ignora, porque afinal nem idade tem para ler aquelas coisas. E, finalmente, quando o Presidente da República pede explicaçõezinhas de matemática ao seu ministro das Finanças, na sua cara (porque tem assento no Conselho de Estado), ignorando a posição do primeiro-ministro como interlocutor entre o governo que comanda e o PR, a criança acha normal, porque, afinal, mais não se trata do que do avô que quer ouvir o irmãozinho mais novo e mais esperto. E em vez do homem adulto se demitir ou exigir ao Presidente que fale directamente com ele, a criança trapalhona esboça um sorriso, limpa a boquinha suja de chocolate à pontinha do bibe e segue para Belém pela mão do tio antónio (borges ou outro).


domingo, 2 de setembro de 2012

"Revolução" sexual? Elucubrações do Maio de 68 aos nossos dias - Parte II.

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Marcuse, dizia eu no post anterior, acusava a libertação sexual de ter conduzido à mercantilização do sexo e, dessa forma, a um outro tipo de aprisionamento. “A libertação não liberta”, dizia. E, transpondo a conceptualização para a realidade portuguesa actual, tendo a concordar.


Enquanto em 68/69, nas democracias liberais da Europa e nos EUA, a juventude aborrecida da alta burguesia gritava pelo sexo livre, em Portugal, os mesmos jovens (talvez mais aborrecidos ainda – afinal estavam em Portugal) clamavam por um tipo de liberdade mais genérica – que a maior parte não sabia (ou soube) concretizar e criou esta situação actual, em que até já há quem fale de “excesso de liberdade”, como se isso fosse um conceito possível. Ainda assim, vivia-se numa estranha espécie de ditadura, em que o falecido ditador parecia continuar a controlar tudo a partir do túmulo, e, então, a reivindicação nunca foi, no final dos anos 60/princípios dos 70, especificamente sexual. Mesmo na Revolução de Abril, a questão sexual foi, quase completamente, marginalizada. Afinal, havia muito para mudar, para que tudo ficasse na mesma (fim de citação – e se não conhecem o livro, não sei como compreendem a Europa do Sul).

A mudança ocorreu, entre nós, ao longo de um período muito longo, e apenas terá tido efeitos notórios, creio, lá para os anos 90. A partir daí, a promiscuidade (não gosto do conceito, mas serve) sexual começou a ser mais consensual, na prática, apesar de amplamente criticada. Hoje, só não fode muito quem não quer. Só não varia, não experimenta, não explora, quem não tiver “interesse” (e aqui cabe tudo – vontade, inteligência, imaginação, etc.).

E, no entanto, são muito poucas as franjas, na sociedade portuguesa, em que existe verdadeira liberdade sexual. E este tipo de liberdade significa, simplesmente, a possibilidade de, sem crítica, vivenciar, confortavelmente, todo o tipo de experiências consentidas. Ainda que a experiência seja não experimentar nada. Não foder, e acabou, e isso ser considerado normal. Ou comer vinte ou trinta homens numa noite, ou um numa vida. Ou só gostar de beijar, ou de sexo oral, ou de tântrico, ou de 4.

Mas não, tirando, talvez, os que dão pelo nome de poliamorosos (que talvez sejam, como todos os anarquistas actuais, mais uns pseudo-libertários que substituíram o punk pela foda), toda a gente contabiliza, julga, elucubra sobre, exprime opiniões acerca do sexo próprio e alheio. E há um conjunto tão gigantesco de regras que devem ser cumpridas para se ser “sexualmente normal” - em relação ás situações em que se pode ser puta ou não, idades, vestuário, primeiros contactos, segundos, terceiros, posições, tempos, comprimentos, vezes, regularidade…- que matam qualquer possibilidade de uma vivência livre da sexualidade. A libertação, assim, longe de libertar, parece ter tido somente o efeito de atirar o sexo de dentro de casa para a rua, normalizando-o em muitos casos. Publicitar não significa, assim, libertar – coisa, que por exemplo, as pessoas que andaram atrás do casamento gay nunca conseguiram perceber.

Hoje, fode-se mais atrás dos números, de uma suposta acumulação de prazer, da hiperbolização do corpo, da aprovação alheia, do cumprimento dos actuais preceitos morais (que os há, mais do que no passado, nesta área), do preenchimento do calendário, do que com a preocupação de satisfazer o próprio desejo.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

"Revolução" sexual? Elucubrações do Maio de 68 aos nossos dias - Parte I.




Herbert Marcuse, filósofo alemão cujos escritos auferiram de enorme popularidade no nosso país no período que se seguiu à Revolução dos Cravos, escreveu, certa vez, que “A libertação dos costumes conduziu à transformação do sexo em mercadoria. A libertação não liberta”, acabava por concluir. Li isto e imediatamente me pus a pensar na realidade nacional actual e se a citação se deixava encaixar. Cheirava-me que sim, mas isso ficará para a segunda parte deste post. Nesta primeira, gostava de elucubrar sobre o contexto da reflexão marcusiana.

Marcuse escrevia, nos anos 70, no rescaldo Maio de 68, em que a “revolução” sexual talvez tenha sido a conquista mais permanente. Não se tratou de uma Revolução. Os sindicatos aproveitaram as manifs estudantis (com as quais, aliás, nem concordavam) para ver satisfeitas exigências concretas e os pequenos revoltosos, recolhidos nos braços fortes das mamãs, todas matronas burguesas, lamberam uma ou outra ferida de bastonada errática da polícia, enquanto assistiam (ou participavam, mesmo) na grande manifestação de apoio a de Gaulle.

O descontentamento estudantil relativamente à “opressão moral” e a “frustração com a sociedade moderna” desapareceram debaixo do manto das reivindicações megalómanas, mas vazias. O sexo livre, enquanto reclamação concreta e “justa”, ficou (em parte). A verdadeira motivação do Maio de 68 foi o sexo – os estudantes de Nanterre queriam enfiar-se nos dormitórios das estudantes e vice-versa, prática que era proibida e Daniel Cohn-Bendit foi ameaçado com sanções disciplinares por ter interpelado o ministro da Juventude para que se discutisse o “problème sexuel” (sic). Disse o jovem Daniel, impregnado de testosterona, e, naturalmente, dos escritos inflamados de Frantz Fannon, Marx e Mao (muito popular, ainda, na altura), “qu’il faut avant tout assurer l’équilibre sexuel de l’étudiant”. A foda! Estava encontrado o mote para a revolução que havia de chegar à mais conceituada (e burguesa) Sorbonne.

Gritaram-se os mais variados slogans:
- Faites l'Amour pas la Guerre!

- Déboutonnez votre cerveau aussi souvent que votre braguette (Abre a tua mente tantas vezes como a tua braguilha)

- Embrasse ton amour sans lâcher ton fusil

- Inventez de nouvelles perversions sexuelles (je peux pus !)

- Les jeunes font l'amour, les vieux font des gestes obscènes.

- Plus je fais l'amour, plus j'ai envie de faire la révolution. Plus je fais la révolution, plus j'ai envie de faire l'amour

- Les réserves imposées au plaisir excitent le plaisir de vivre sans réserve
 
Interessantes, a maior parte, e, felizmente, com capacidade para abrir a caixa de Pandora do sexo - heterossexual, o homossexual ia ter de esperar um ano para despontar, em motins muito menos burgueses, do outro lado do Atlântico. Com uma data de consequências positivas, em princípio relacionadas com a liberdade da vivência sexual. Marcuse, todavia, acusa esta abertura de ter mercantilizado o sexo. Tornou-o demasiado desinibido, demasiado rápido, demasiado inconsequente, demasiado contabilizado, banalizado. Assim, a libertação não tinha libertado nada. O sexo, desta forma, não saía solto da revolta, mas constrangido por uma outra série de "convenções" sociais que se começavam a construir, baseadas nos tamanhos, quantidades, performances, etc.

A libertação era, assim, abocanhada na prisão social inversa daquela de onde tinha saído. E o meio termo - a verdadeira, genuína, descomplexada, etc., liberdade sexual - não tinha sido encontrado. Era mais uma das revoluções falhadas sobre as quais Marcuse gostava de reflectir e cujo falhanço se reflecte, creio, ainda nos dias de hoje. Mas isto, fica para depois...



terça-feira, 21 de agosto de 2012

Direito ou esmola: uma estória do subsídio de desemprego.




Sobre o subsídio de desemprego (SD) é comum ouvir pessoas menos esclarecidas, para não lhes atirar com epíteto pior, dizerem o tipo de coisas que se seguem:


- Ah, fulano preferiu ficar a receber o subsídio de desemprego em vez de ir trabalhar;

- Sicrano rejeitou uma proposta de emprego porque o SD é mais alto;

- Beltrano já está há mais de um ano a viver à conta do SD;

E rematam, inevitavelmente, com um assertivo “isto é uma vergonha!” – porque não são eles que estão na situação de estenderem a perninha à sombra de uma qualquer prestação estatal, certamente. Mas adiante…

Este tipo de afirmações tem a capacidade de me encanitar, profundamente, mesmo que, profundamente, esteja sob o efeito de substâncias relaxantes. E isto porque transmite a ideia de que o subsídio de desemprego (assim como todas as subvenções do mesmo tipo) é uma regalia atribuída pelo Estado, uma espécie de gratificação caritativa para impedir que se caia na miséria e que, se as pessoas fossem honestas e trabalhadoras, deveriam ter vergonha de receber. Para alguns, deveria mesmo terminar, porque desincentiva a procura de trabalho – “pois se a pessoa está repimpada a receber sem fazer nenhum, que motivação tem para procurar emprego?” – e a partir daqui já não há tranquilizante cavalar que me sossegue.

Isto porque o SD não é uma prestação entregue pro bono pelo Estado, não se trata de um montante recebido de forma gratuita, de um tipo de esmola um pouco mais substancial. Consubstancia, pelo contrário, um determinante quantitativo a que uma pessoa tem todo o direito porque descontou do vencimento normal, todos os meses, enquanto trabalhou, o montante indicado pelo sistema de segurança social. O dinheiro que, assim, recebe à conta de SD não é mais do que o retorno do Estado Social, ao qual não deveria estar associado qualquer tipo de contrapartida, nem sequer a obrigatoriedade de procurar emprego, enquanto durar o direito à prestação.

Cominar a recepção do subsídio com a imposição de frequentar “cursos de actualização profissional” ou idas a duas ou três entrevistas de emprego por mês (ou mais) consubstancia, a meu ver, uma claríssima violação, em primeiro lugar, do princípio da dignidade da pessoa humana e, depois, de todas as normas estruturantes de um Estado Social de Direito, como é suposto ser o estado português – assim com letra minúscula, até que se liberte da colonização capitalista.

Mas o que mais me custa não é a existência deste tipo de regulamentação e que os tipos que nos meteram nas alhadas em que nos encontramos e nos quais continuamos a confiar os destinos deste pedaço de terra e gente (aka PS’s, PSD’s, CDS’s) nos endrominem com o discurso de que há que trabalhar, sem esperar que o estado (gordo, ultra-protector, asfixiante) venha atrás amparar todas as quedas. Aquilo que verdadeiramente me transtorna e que chega, mesmo, a ameaçar os alicerces do marxismo que defendo – a possibilidade de haver em cada um de nós uma, nem que seja mínima, predisposição para nos preocuparmos com aqueles que nos rodeiam – é que aqueles que se encontram nos lugares mais ingratos do sistema de capitalismo cleptocrata sustentem e promovam o tipo de discurso referido. Esses, sim, deveriam ter vergonha!

domingo, 19 de agosto de 2012

Ainda sobre drogas, ou porque é que isto continua a ser uma crónica de maus costumes.






Ainda sobre drogas... Sobre legais e ilegais e sobre o disparate que é o esforço que se faz na proibição da cannabis e derivados e, depois, se permite que se consumam tudo quanto é fertilizantes e incensos nas smartshops (Cogumelo Mágico, entre outras). E bem, que, no fundo, cada um mete no seu corpo o que quer, desde que informado das consequências.

Este governo, liberal como se afirma, já anda a preparar legislação proibitiva do consumo das, actualmente, drogas legais e vai, sem dúvida, chumbar o projecto do BE acerca da liberalização do consumo dos canábicos. Porque o liberalismo do executivo Relvas só funciona no sentido de desmantelamento da (parca) protecção social daqueles que menos têm. No resto, comporta-se como o mais conservador dos Estados do socialismo real.

E tem de ser assim. Manietado pelas desastrosas políticas económicas impostas por aquela criatura andrógina da Alemanha de Leste que insiste em ser tratada pelo nome feminino de Angela e pelas ainda mais idióticas "soluções" da figurinha ridícula que se ocupa, quando não se encontra frente ao espelho, treinando a vozinha de falsete de Salazar, das finanças nacionais, o governo Relvas tem necessidade de assumir que governa "à direita" nas questões sociais. Assim, tal como Sócrates pôs a paneleiragem a casar para dar um vago ar progressista à desgraça, o presente executivo, não podendo atender às reivindicações novecentistas da Isilda Pegado, pretende pegar nas drogas.

Não podendo voltar a regular o sexo nos termos do Estado Novo, volta-se para as drogas, o elo mais fraco da liberdade contemporânea. E em vez de se percorrer o caminho natural da liberalização do consumo dos derivados da cannabis - cujos malfícios, quando comparados com os do álcool ou tabaco, fazem com que nem sequer possam ser considerados, efectivamente, drogas - calcorreiam-se as veredas da proibição, não só tornando o fruto proibido mais apetecido, mas continuando a infantilizar as pessoas com base em preconceitos básicos e profundamente incorrectos.

E eu não defendo, atenção, que os fertilizantes das smartshops possam continuar a ser vendidos à vontade de todo e qualquer freguês. Agora, não me parece, neste caso, que avançar para a proibição pura e simples - como adivinho que aí venha - consusbtancie um qualquer tipo de solução. E, noutro ponto, continuar a proibir o consumo do haxixe, baseado nas (supostas) consequências gravíssimas para a saúde mental e na ideia de que se trata de uma droga de passagem para outras mais fortes, é uma "solução" tão idiota como permitir que um analfabeto funcional governe um país - o que, afinal, até acontece no nosso, mas, enfim, não é por isso que perde o epíteto.

Nas actividades recreativas (como se viu, historicamente, com o sexo), proibir é sempre o pior remédio.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Da proibição do consumo da ganza como retrato da hipocrisia nacional (ou mais uma crónica de maus costumes).





O Bloco de Esquerda decidiu, há uns dias, apresentar, novamente, legislação no sentido da legalização do consumo da marijuana e (alguns) derivados. Claro que os mais néscios (ps’s, psd’s, cds’s e talvez, também, alguns pcp’s) vão argumentar que, neste momento de enormes dificuldades económicas para a nação, se trata de uma perda de tempo encetar a discussão sobre a legalização deste tipo de drogas levas. Este tipo de argumentação, de tão demagoga e desprovida de sentido, não merece, sequer, que contra ela se tergiverse. Ainda assim, e para os que nela podem, apesar de todos os avisos, cair, aqui fica um dado histórico: este nosso pequeno país vive em (permanente) crise financeira desde 1143 (data estabelecida de começo da nacionalidade). Desta forma, se andássemos sempre preocupados com a economia, ainda hoje vivíamos como os compinchas do bronco que deu pelo nome de Afonso Henriques (fundador deste protótipo mal amanhado de nação). Depois, e se ainda não se aperceberam, subsistimos hoje em regime colonial, sujeitos ao jugo de um conjunto de incompetentes a soldo da banca internacional (os “funcionários” do FMI, BCE e CE) e daquela espécie andrógina que insiste, vá-se lá saber porquê, em ser tratada pelo nome feminino de Angela Merkel, mas que faz muito mais lembrar uma versão gorda daquele senhor que há cerca de 70 anos decidiu exterminar os judeus e remeter os restantes europeus à subserviência do Reich.


Assim, subservientes e colonizados – nós que sempre fomos “potência” colonial – deixámos de poder decidir acerca do nosso futuro económico-financeiro, sobre o estado da nossa saúde, do nosso ensino, da nossa segurança social. Já desistimos, e a solução, a nível do governo do demissionário (esperemos) Relvas, é emigrar ou o retorno ao campo (ideia da Sra. Cristas que, com certeza, a única fez que se desfez dos saltos foi para ir àquele encontrozinho “informal” no forte de S. Julião da Barra). Ainda podemos, todavia, encontrar soluções nos termos da nossa política de consumo de substâncias recreativas. Afinal, a definição de (algum) do enquadramento dos bons costumes era prerrogativa das elites colonizadas.

É neste sentido que me pronuncio sobre o projecto do bloco, que será, mais do que certamente, chumbado, pelos votos contrários do CDS (só metem coca os meninos, a “ganza” é para pobre) e da maior parte do PSD (já estão enterrados em várias camadas de esterco, não precisam, minimamente, neste momento, de uma Isilda Pegado, defensora dos abstémios, a combatê-los nas ruas e blogues). O PS, naquela pasmaceira beirã em que se enleia sob a liderança do Seguro não deve tomar decisão nenhuma e, como sempre, seguirá as pisadas da direita. Interessante poderá ser o voto comunista. À partida, e tendo em conta o eleitorado que representam e as preocupações que os movem, prefeririam chumbar a iniciativa bloquista. Todavia, quem já foi à festa do Avante, bem sabe que o PCP terá poucas hipóteses de sair incólume do chumbo. É possível que prefira fazer como com o casamento gay – outro tema espinhoso para os comunistas – e aprovar pela calada, esperando que aqueles velhinhos simpáticos do Alentejo ainda não tenham adquirido o descodificar para a TV.

A balança penderá, então, nesta matéria para a hipocrisia e o mantra português dos (maus) costumes continuará a ser o mesmo: “fá-lo, desde que não se saiba”. Para gáudio, sobretudo, das massas consumidoras da marijuana, que podem continuar, livremente, a consumir o seu produto tax-free!

PS: num texto próximo tentarei, com algum conhecimento de causa, expor os malefícios dos produtos derivados da marijuana, quando comparados com as drogas legais: tabaco, álcool, fertilizantes, etc.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Do desconforto social como forma de violência (e de como tudo acabou comigo a mandar-vos para o caralho)



Há muito tempo que aqui não escrevo sobre questões LGBT, porque, confesso, egoisticamente, não tenho estado centrado nesse tipo de preocupações. Um um triste acontecimento recente fez-me, contudo, recordar um maravilhoso texto do Mario Vargas Llosa que li aquando do assassinato de um homossexual chileno por um grupo de patifezecos.

Há pouco tempo, um familiar de uma amiga minha suicidou-se, num país da América do Sul, onde vivia. Não teria mais de 20 anos, tinha estado em Portugal de férias e, quando regressou a casa, decidiu pôr fim à própria vida. Ontem soube a razão mais que provável - era gay e não aguentou a pressão social relacionada com a afirmação dessa característica. Não suportava viver escondido, e a sociedade reagiu negativamente à saída do esconderijo. Não foi assassinado como o rapaz chileno, mas foi encaminhado para a morte por um contexto injusto e violento, em que, em pleno séc. XXI, a homossexualidade continua a ser vista como um bicho de sete cabeças, todas elas conspurcadas e pejadas de vício. Não era fraco, mas não conseguiu suportar o peso da rejeição e do ódio. Caiu onde qualquer um de nós cairia, talvez muito antes.

Vargas Llosa, no seu artigo no El País, culpava pela morte do jovem toda a sociedade chilena e a homofobia que esta aceita e reproduz, e não apenas o bando de marginais que executou directamente o acto. Eu acho que todos nós, que continuamos a permitir que o racismo, a homofobia, o preconceito religioso, e todo o tipo de discriminação continuem a minar a nossa existência comum, somos culpados pelo estado de desesperança, de desamparo, de solidão, de desespero, em que colocamos os nossos jovens, levando-os, com a nossa acção ou apatia, à morte.

E não somos menos culpados porque não nos importamos, porque não querermos saber, porque, normalmente, a menos que a diferença seja muito estridente, até nem nos incomodarmos com a presença do gay ou do preto. Somos cúmplices quando "não temos nada contra", mas ficamos "desconfortáveis" com a presença de dois homossexuais, quando "até gostamos de ir ao chinês", mas achamos que aquela cultura é "muito estranha", "são gente com que nunca se vai «integrar» completamente".

É este desconforto que eu não entendo. E não há, creio, com a informação a que a minha geração tem acesso, proveniências de Bragança, frequências de colégios internos, profissão de religiões ou seitas mais radicais, que o possam desculpar.  A diferença devia suscitar curiosidade, nunca incómodo, sobretudo nas gentes com vinte e poucos anos, que andam sempre a comprar as roupas mais estapafúrdias, a ouvir a música mais idiota, mas mais recente, o cinema mais estupidificante, mas mais "moderno"...

E é por tudo isto que me senti extremamente incomodado, e agora com razão, quando, outro dia, chegaram dois amigos gays, e, posteriormente, uma tipa que estava no meu grupo revelou ter-se sentido "desconfortável" a partir daí. Desconfortável...na presença de dois outros seres humanos só por causa de uma característica que não escolheram e que, principalmente, não prejudica absolutamente ninguém.

Desconfortável...só gostava era de saber o que pensaria a criatura se tivesse noção de que foi, provavelmente, a partir de manifestações, mais violentas talvez, deste nosso "desconforto" que partiu a decisão de morrer daquele rapaz, de abandonar tudo, de desistir... Se calhar, marimbava-se no assunto. Com certeza que a puta do nosso mundinho, das nossas merdinhas, dos nossos preconceitozinhos, é mais importante do que a vida de um tipo que nem conhecíamos e que se calhar, não passava de um fraco, porque, afinal, ser paneleiro, hoje, já não custa nada.

Opá, vão todos para o caralho, é o que me apetece dizer, e peço desculpa pela fraquíssima qualidade estilística do texto, mas hoje, e perante este tipo de acontecimentos, não sou capaz de melhor.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Cansei de ser sexy (ou por que é que a liberdade aparece em forma de loucura).



O abandono deste lupanar reflexivo explica-se em três palavras: trabalho, férias, inspiração (falta de). O pedido de desculpas segue dentro de momento, como sempre, sob a forma elucubrativa a que, para vosso desespero, vos venho habituando.

Hoje, que as bases de dados da Assembleia da República decidiram boicotar a finalização de uma tarefa laboral, gostava de discorrer sobre liberdade. Liberdade social.

Portugal é, pelo que me tenho apercebido, neste campo, um dos países onde mais dificilmente se consegue atingir este tipo de libertação - e chamem-me essencialista, e, até, racista, se quiserem. A tradição católica de controlo dos hábitos carnais, o pequenito polícia de costumes que vive no interior de cada um de nós, o ultra-moralismo sul-europeu e uma certa dose de felino-mortífera curiosidade combinam-se para fazer de nós um povo muito preocupado com o impacto que causamos junto do outro (do próximo, diríamos num jeito mais clerical) - e talvez isto se passe com todos os povos, mas este tempo, demasiado frio para Verão, dá-me ganas de bater no português, em qualquer um e, se possível, no povo todo, genericamente.

Assim, preocupados com a imagem que fulano e sicrano têm de nós, deixamos de usar uma saia mais curta (ou uma saia tout court, tratando-se de criatura masculina), tirar ou deixar um pêlo, ouvir determinada música, falar de certo assunto, nadar nus, gritar o que nos apetece, foder com ou quem queremos, enfim, deixamos, paulatinamente, de viver. Ou melhor, vivemos, até mais confortáveis, provavelmente - porque a pressão dos pares há-de ser, num animal gregário como o homem, um dos mecanismos de controlo mais eficazes e nocivos -, mas com menos experimentação e diversão. A maluqueira fica arrumada num canto qualquer da vida, para aparecer, por vezes, em "crises de meia idade", e se alguém com mais de 25 anos decide, um dia, nadar de rabo ao léu, logo é apelidado de adolescente, como se a adolescência não fosse a fase menos louca e mais controlada da vida, mas adiante...

Eu vivia nesta angústia. Por um lado, tinha uma vontade enorme de mandar grande parte das pessoas que me rodeiam para o caralho e passar a fazer aquilo que me apetece, mas, por outro, vivia atemorizado com o chorrilho de acusações de irresponsabilidade e infantilidade - porque essas sim, se saudáveis, são mais livres que os adolescentes - que rapidamente brotariam daqueles que, verdadeiramente, a única coisa que desejam era fazer o mesmo. Mas não conseguem.

Hoje, vivo menos estes temores. A beata que vivia em mim, e que ainda vive, embora, talvez, numa sacristia mais ranhosa, e não na sé catedral, tem vindo a perder força e, assim, a crítica alheia, vai caindo num saco cada vez mais roto - e qualquer dia já cai directamente no chão sem sequer ter direito a passar no buraco. (A crítica social, bem entendido, porque a nível académico, como é óbvio, seria de uma estupidez incomensurável não criticar e ser criticado - afinal é assim que se aprende).

E eu vivo cada vez mais feliz, porque mais tranquilo. Se quero vestir uma camisola indiana toda rota, faço-o porque não atinjo negativamente ninguém com isso. Se quero gritar que os vendilhões invadiram o tempo quando passo na Igreja e vejo que um grupo de gospel está a fazer uma "recolha de fundos", faço-o. E se quero nadar nu, tiro os calções, e enrolo uma ganza se assim me apetecer, ou fodo com este, com a outra e com toda a gente se assim me der na gana.

E os cânones sociais, vou-os abraçando na medida em que considero que não posso, nem quero, viver afastado dos meus concidadãos. E, assim, não ando por aí aos tiros contra este ou aquele (embora me apeteça, frequentemente), a peidar-me desmesuradamente a meio de um jantar, ou a chamar de gordos todos os paquidermes que se atravessam no meu caminho.

Há um equilíbrio que tem de se encontrar entre a vida em contacto com os outros e a construção da nossa liberdade pessoal. Admito, assim, que me digam que não estou a fazer o meu trabalho em condições, que procrastino nos treinos de vólei ou que estou a ser demasiado desagradável para a pessoa X ou Y. Aquilo que já não posso aceitar é que me imponham princípios morais, moralistas ou moralizantes, que não sufraguei e com os quais, as mais das vezes, não concordo. Vive, e deixa viver, tem sido o meu mantra. E acho que resulta.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Teorizações da banalidade.




Acontece-me - noto-o, pelo menos desde o ano transacto - perder, quase completamente, no período que sucede ao 25 de Abril, o interesse pela política nacional. Assim, mais ou menos entre Maio e o final de Agosto, fico sem vontade de comentar as novas falcatruas do primeiro-ministro Relvas, o desastre da "solução" alemã para a "crise" europeia, ou qualquer acto das caricaturas que integram o governo português.

Não sei bem porque se dá o fenómeno, mas tenho a certeza que não está relacionado com a falta de rumo (ou interesse mesmo) da política nacional. Se assim fosse, nunca teria despertado para esta realidade, já que, desde pelo menos os governos Cavaco Silva, que se perdeu toda a esperança de, pelo menos, ver na política portuguesa motivo de alguma diversão. Simplesmente, acontece-me perder os ímpetos "revolucionários" de modificar alguma coisa, de ir a todas as manifestações possíveis, de encontrar vias de contestar a situação actual, de pensar, meditar e escrever sobre aquilo que desejo, de um ponto de vista colectivo, para o meu país.

E não é que me torne mais egocêntrico, que passe a preocupar-me muito mais com as minhas questões pessoais, a perder mais tempo com o planeamento do meu futuro. Esse tipo de elucubrações continuam a ocupar, mais ou menos, o mesmo espaço no meu pensamento. As políticas é que desaparecem quase completamente, ao ponto de, algumas vezes, andar, mesmo, relativamente, desinformado em relação àquilo que vai acontecendo.Acho que me apetece ser mais mundano, mais banal, até. Menos pseudo-revolucionário, pseudo-marxista e mais pseudo-boémio, ou básico, simplesmente.

Esta situação assalta-me com doses iguais de algum desgosto misturado com preocupação e tranquilidade. Preocupa-me não estar tão activo no campo político-social, porque acredito, e atormento toda a gente com isto, que cada um de nós pode, se quiser, transformar a merda desta sociedade consumista/capitalista/competitiva numa outra em que a meta será o bem-estar, a felicidade, a solidariedade, em vez do progresso tecnológico e crescimento económico. Em que a maior parte dos seres humanos será mais pessoa e menos máquina.

Tranquiliza-me, por outro lado, porque me permite pensar um pouco menos, ir na onda, despreocupar-me, ser mais português - acreditar que, mesmo que não faça grande coisa, algo há-de se arranjar, alguém há-de providenciar para que as causas em que acredito não se percam completamente. E isto é, estranhamente, tendo em conta a minha personalidade laboriosa e perfeccionista, um descanso enorme. Umas férias, no fundo, da luta, ou daquilo que defendo com mais convicção.

Enfim, esperemos que seja um efeito do calor que, ainda, me possibilite, pelo menos, acompanhar com alguma atenção as eleições gregas e elucubrar, alguma coisa, ainda que manhosa, sobre os efeitos perniciosos dos dislates financeiros dos mercados e restantes instituições cleptocráticas mundiais sobre o sistema democrático. E, sobretudo, quando chegar o Outono, ser invadido por uma vontade revolucionária, pelo menos, tão forte como aquela que me permitiu, no Arraial do 25 de Abril, servir cervejas ao ritmo de 200/hora.