quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A "queca habitual", uma crónica de maus costumes.



Nos tempos que correm, tornou-se habitual teorizar sobre o sexo sem compromisso como se de uma realidade nova se tratasse. Não o é inteiramente, mas as expressões que foram aparecendo para caracterizar o fenómeno quando este adquire carácter de habitualidade têm interesse e vale a pena, sobre as ditas e sobre os comportamentos e regras que estão implícitos à sua prática, divagar um pouco.


A "queca habitual" (tradução liberal do inglês fuck buddy) refere-se à prática de sexo sem compromisso com uma mesma pessoa por um período de tempo relativamente alargado. Não tenho a certeza de quando tempo é necessário para qualificar uma "queca" como "habitual", mas creio que terá, pelo menos, de ultrapassar os dois meses de encontros intermitentes. A inexistência de compromisso significa que qualquer das partes apenas pode exigir da outra comportamentos que estejam (directamente) relacionados com a prática sexual. Sentimentos, fidelidade, conversas, intelectualidades, cafés, saídas á noite, cinemas, carinho, atenção ficam de fora. O encontro tem o propósito bem definido e qualquer afastamento em relação ao estipulado faz perigar a "relação" de sexo habitual-ocasional. A "queca habitual" existe para satisfazer "necessidades físicas", e nada mais.


Agora, grita a veia puritana que palpita cá dentro, alguém acredita nisto? Que é possível afastar sentimentos, necessidades intelectuais, complexos, medos, da trapalhada que é o sexo? Que é possível trilhar os caminhos da complexidade de uma relação sexual satisfatória com alguém com quem não se fala, num relacionamento onde não existe, pelo menos, preocupação, carinho, numa situação onde não se recebe um mínimo de atenção, onde não se ultrapassa o físico, o animalesco? E que interesse tem uma relação deste tipo, em que momento ultrapassa a "punheta"? É assim tão diferente, tão proveitosa a masturbação com um corpo alheio?


Eu não consigo estabelecer relacionamentos desta índole. E mais, não consigo, tão-pouco, concebê-los. No fundo, que interesse pode ter reduzir a profusão de elementos que compõem a existência humana ao factor físico-sexual? Como se pode foder com alguém e depois deixá-lo ir sem mais? Se calhar, no meio do meu idealismo político, ideológico e existencial, quero encontrar no sexo relações que não devem/podem lá ter lugar. Não sei, mas prefiro, por agora, continuar a acreditar que uma pessoa, qualquer que seja, por menos interesses que tenha, por menos interessante que possa ser, é sempre mais do que um pedaço de carne.

7 comentários:

  1. Boas. Aqui está um texto muito interessante. É um tema que também me dá que pensar e já correu muita "tinta" no meu blog à volta disso. Pela minha experiência o ser humano é muito mau a separar o físico do emocional, e ainda bem, senão éramos máquinas. E tudo o que passa a ser habitual mexe com o lado sentimental de alguma forma, por muito que digam o contrário. Mas também é verdade que as raízes sociais dão-nos cabo da mona. Crescemos acreditando que não há relação sem amor, e esta deve ser assumida para a vida. (o príncipe encantado no cavalo branco). É mentira, e não vejo nada de errado em punhetas com corpos alheios, desde que ambos saibam o que estão a fazer...vejo mais caras felizes em quem tem relações dessas do que em casamentos de 10, 20 anos. Agora eu como menina que viu a cinderela e vestia-se de princesa quando era pequena também acredito que o amor e uma relação estável é mais saudável. Mas não desdenho o fuck buddy, porque por vezes é só isso que precisamos para nos sentirmos bem.

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  2. Hey! Eu aqui não estabeleço que a única alternativa ao fuck buddy e uma relação amorosa estvável. Nos entrementes, uma enorme panóplica de outros tipos de relacionamentos podem existir, incluindo "amizades coloridas" (outra patetitice, mas haverá tempo para discorrer sobre isso), já para não falar do sexo ocasional (uma ou outra vez apenas com uma pessoa). Aquilo que me faz confusão, que intriga uma pessoa que não acredita em príncipes encantados, mas que se revê numa relação estável monogâmica no futuro, é a inibição da criação de outro tipo de laços (afectivos intelectuais) numa queca habitual.

    É-me, confesso, extremamente difícil conceber o acto de chegar a casa de uma pessoa (ou a outro qualquer sítio), foder e bazar. Sem mais.

    Manel.

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  3. Concordo que existem muitas variantes de sexo e de relações, cada vez são mais e menos definidas.É o resultado da evolução e da liberdade. Não é necessariamente mau, mas é confuso e transforma o sexo numa coisa banal, por esta perspectiva é negativa essa evolução. Por outro lado, eu sou perfeitamente capaz de foder e bazar. Sem mais. É uma questão de desligar o lado racional (e o emocional muitas vezes também.) Porquê? Porque chega a um ponto que quase criamos raiva aos estereótipos da felicidade. Gera-se frustração por causa da busca infinita da relação perfeita e é muito mais fácil ter um amigo para ter sexo e mais nada. E ás vezes até resulta melhor assim e torna-se um modo de vida....aparentemente menos saudável, ou talvez não. É tudo tão relativo...é um tema que dá pano para mangas :)

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  4. Aquilo que eu questiono não é, contudo, o porquê. Sobre isso sou capaz de alvitrar uma ou duas coisas. O que a mim me faz confusão, aquilo sobre que tenho pensado sem conseguir encontrar uma resposta é o como. Como é que se desliga o lado intelectual e sentimental e se fode com alguém e, depois, preservativo (ou não) para o lixo, tomar banhinho (ou não) e até à próxima (ou não)?

    Manel.

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  5. A queca habitual é muito praticada dentro do chamado casamento( contrato entre duas pessoas qualquer que seja a vertente sexual), ou seja chegamos a casa fartos do emprego, da falta de tempo para a familia pois temos que baixar o cuzinho e fazer horas extra laborais senão a entidade patronal,contrata um membro brasileiro ou da ex União Sovietica, para trabalhar (a custo mais baixo),fartos de ouvir o nossos colegas de trabalho a falar da falta de dinheiro e dizer mal da entidade patronal, sem sem nada fazer, os nossos filhos a querem os brinquedos e a roupa dos herois made in america produzidos na india ou vietnam,a ouvir as noticias na tvi e os realty shows que só demostram a pobreza de espirito do nosso povo e dos nossos canais televisivos, então como já não nos lembramos de amar senão as coisas materias que conseguimos obter, nem que seja um plasma que não cabe na sala , mas que com tv por cabo ou fibra, tal como os anuncios é uma coisa de outro mundo....e que podemos ver até nos apetecer, então ocasionalmente vamos dar uma queca no nosso/a companheira/o ou então se ela/e tambem fica a viajar no Travel a distancia ainda é maior, e assim quando temos tempo damos uma queca ocasional no nosso/a companheiro/a.....sempre a pensar no papel que temos de desempenhar.

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  6. Que visão tão negativa da vida. Ou realista, quem sabe....
    Enfim, agora, quando existe outro qualquer tipo de relacionamento, não se pode, creio, falar, meramente, de uma "relação" de queca habitual. O sexo está inserido num contexto, normalmente, mais amplo.

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  7. Na realidade o "fuck buddy" devia até ter algum tipo de incentivo pelas instituições que promovem a família. Um fuck buddy pode ser a única solução para um homem que é obrigado a ter sexo de mês a mês, e em algumas dessas vezes, por favor especial da esposa.
    A opção é ir às putas, o que não é manifestamente melhor, a qualquer nível.
    Um fuck buddy na realidade é muito mais do que pode aparentar. Um fuck buddy pode ser igual ao casamento, mas sem o "abuso" que os membros de um casamento acham que têm o direito de praticar sobre o outro, só porque são casados.
    Um fuck buddy serve para tirar a pila da miséria em que algumas "esposas" consideram normal manter os seus maridos, só porque a vida não lhes corre a 100%.
    E quem decidir criticar esta visão, pode e deve fazê-lo. Mas, se possível, tente criticar não inserindo presunções novas mas limitando-se a aceitar os factos acima como verdadeiros, porque são possíveis não é verdade?

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