sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Dos mitos do capitalismo.




Como todos os sistemas ideológicos, o capitalismo também dispõe de uma mitologia própria que ajuda à sua reprodução acrítica e continuidade de funcionamento sem necessidade de constantes indagações. Os mitos não têm, necessariamente, de ser falsos (ou verdadeiros). Percepciono-os mais, nesta reflexão, como conjuntos de pequenas histórias (ou memórias) partilhadas por um número relativamente alargado de pessoas que vivem sob um determinado enquadramento político, social e económico e que, como se disse, contribuem para a sua aceitação e progressão de uma forma pouco pensada. Serão, em princípio, propagados pelas classes dominantes, mas os grupos dominados, com relativa facilidade, delas se apropriam ou criam outras igualmente reprodutivas do sistema que habitam. O capitalismo, creio, dispõe de, pelo menos, dois mitos fundamentais.

Mito 1 – o Self-made man.

O mito do self-made man terá aparecido, de forma ostensiva, nos Estados Unidos em meados do séc. XIX e conta-nos a história do operário fabril, ou outra pessoa de casta mais “humilde”, que, através do seu trabalho e árduo esforço, foi capaz de ultrapassar a sua condição económica e integrar-se numa classe socioeconómica mais favorecida (em termos financeiros). Serve, desta forma, para veicular a ideia de que o liberalismo económico é o único sistema que permite o aumento (grande) de bem-estar e a mobilidade socioeconómica (e política) ascendente. Desta forma, não terá aparecido, apenas, com o sonho americano, tendo as suas bases firmadas, pelo menos, nas reivindicações burguesas do séc. XVIII contra os privilégios auferidos pela nobreza, transmitidos pelo sangue.

Esta história terá, em princípio, origem nas classes sociais mais elevadas e todos os países capitalistas dispõem da sua. Por cá, as figuras meio tristonhas de Belmiro de Azevedo e de Cavaco Silva vão assumindo esse papel.

A historieta está, todavia, muito mal contada e por diversas razões. Em primeiro lugar, o mito refere-se ao homem que se construiu a si próprio e não à mulher, e isto já diz muito sobre a existência de determinados grupos que vêem impedidos os seus percursos ascendente. Depois, normalmente, este homem teve a possibilidade de ter acesso a alguma formação superior. Por fim, a sorte, joga, aqui um papel principal. Assim, o mito é fraco e qualquer pessoa que ganhe 500 euros por mês sabe que terá poucas dificuldades de não “macular” a descendência com a sua condição socioeconómica.

Mito 2 – O dinheiro não traz felicidade.

Este segundo mito acompanha e, muitas vezes, sustenta o sistema capitalista no falhanço do primeiro. Nele está contido todo um conjunto de histórias de desavenças familiares, de depressões (e suicídios), de relacionamentos interesseiros, causados pela abundância de riqueza e, por outro lado, a felicidade que a inexistência da mácula do dinheiro provoca. Desta forma, mesmo que não se conseguisse acumular riqueza e viver, economicamente, de forma desafogada, ao menos auferia-se de amizades e amores verdadeiros e de um contentamento mais genuíno, porque desprovido de preocupações ou bases materiais. A divulgação deste tipo de histórias têm interesse, portanto, tanto para as classes mais abastadas (não vão os pobres começar a querer a partilha do bolo) como para os falhados do sistema.

A “alegria da pobreza” contida em “quatro paredes caiadas” têm particular força em Portugal, porque era parte componente essencial da mitologia dos tempos da “outra senhora”.

Ainda ninguém descobriu, todavia, a equação da felicidade. Aquilo que posso afirmar, com quase absoluta certeza, é que andar a contar os tostões para ver se chega para comprar comida para os filhos é que não pode trazer felicidade de nenhum tipo, por muito masoquista que se seja e que viajar, sair à noite, jantar fora, organizar convívios, ouvir música, ler, escrever, andar vestido como se quer, dar o melhor à descendência, ter uma casa em condições, são tudo actividades e situações que proporcionam prazer a um conjunto alargado de pessoas e que necessitam de investimento de capital. O dinheiro assim, se não produz felicidade, pelo menos abre, em parte, no nosso sistema, o caminho para a mesma.
O segundo mito do capitalismo cai, assim, na companhia do primeiro, em igual descrédito.

E, agora, que história nos contam?

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