segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Da insustentável precariedade do capitalismo.






No rescaldo da queda do muro de Berlim e do posterior colapso da Europa comunista, as teorias do Fim da História ganharam pujança e credibilidade, para além de alguma solidez teórica com os escritos de Fukuyama. Nesta reflexão, não me interessa entrar numa altercação filosófica e abstracta acerca da validade dos argumentos de Hegel (quem primeiro avançou com a possibilidade de se chegar a um final da evolução social, cultural e política das sociedades humanas), mas procurar discutir o impacto (e a veracidade) da propagação da ideia de que a democracia liberal, burguesa, capitalista, consumista, hierarquizada, de estilo ocidental era a alternativa capaz de propiciar um nível de bem-estar e liberdade maior aos seres humanos.

Este discurso era vendido à humanidade havia muitos anos, ainda a União Soviética era uma potência "pujante", interveniente nos 6 continentes e na lua, pelas potências pertencentes ao 1.º Mundo. Existia, contudo, até ao final da década de 80, a opção soviética que ia, de forma igualmente intrujona, prometendo o mesmo. A implosão desta segunda burla a partir do final dos anos 90, remeteu a alternativa comunista para o cemitério da história política e as democracias liberais capitalistas começaram ou continuaram a sua expansão na Europa, América Central e do Sul e, mesmo, na Ásia e África, embora num género já muito mais próximo da farsa evidente. (No nosso país este sistema ideológico-económico consolidando-se em projecto político de governo pela primeira vez em 1976, pela mão do seu grande arauto no período revolucionário, o dr. Mário Soares).

E tudo corria bem. Os Estados Unidos reinavam, finalmente, no panorama geopolítico e económico mundial, o petróleo fluía abundantemente (depois da Guerra do Golfo), as economias cresciam e as sociedades prosperavam, com excepção das brutais crises humanitárias africanas e uma ou outra bancarrota sul-americana, pormenores sem importância, portanto. Até a China já se havia rendido ao liberalismo económico (e o que interessava se no entretanto matava milhares de manifestantes pacíficos em Tiananmen? Afinal, "eles" são tantos, que diferença faz?) e os resquícios do "antigo regime", Cuba e Coreia do Norte, agonizavam sem a ajuda soviética.

O súbito e triste fim dos anos 90 chegou, em 2001, pela mão de 19 terroristas que desviaram quatro aviões comerciais contra alvos económicos e políticos de importância fundamental para os Estados Unidos da América. Mataram mais de 2.000 pessoas e demonstraram que nem todos estavam contentes com o sistema que imperava. O incidente não abalou, todavia, as fundações da benevolência e eficácia do sistema capitalista - os sequestradores não passavam de um bando de loucos assassinos, produto de sociedades fundamentalistas de características medievais. E os primeiros anos do séc. XXI foram continuando a correr de feição para o sistema democrático liberal capitalista. É certo que a Europa e os EUA cresciam cada vez menos, mas a China, a Índia, entre outros países que foram liberalizando os respectivos "mercados", iam demonstrando que a ideologia estava correcta - e que a equação crescimento económico = democracia, se não se tinha verificado, ainda, na prática de alguns países, iria, com certeza, no futuro, instalar-se obrigatoriamente. Era uma questão de tempo.

A "crise" de 2008 veio, todavia, pôr um fim ao conto de fadas. Pela primeira vez desde, pelo menos, a "derrota" do comunismo, as democracias liberais capitalistas ocidentais quebravam a promessa do crescimento constante e aumento permanente do bem-estar e as soluções apresentadas por "ajudas" externas, fundos de resgate e FMI (os expoentes da "solidariedade" capitalista) falhavam redondamente. Na Europa e nos EUA, os cidadãos sabem que vão viver pior do que os seus pais. Em Portugal sabemos que vamos viver muito pior (sobreviver?). E têm-se manifestado contra isso (i, ii, iii, iv, v) E, ainda assim, as alternativas têm tendido a não encontrar espaços amplos de afirmação. No "mundo ocidental", as democracias liberais, apesar dos rotundos falhanços, mantêm-se, na mente das pessoas, como alternativa única.

Não o são. Cumpre, penso, voltar a considerar soluções baseadas num marxismo democrático (socialismo, social-democracia, etc.). Porque a realidade é que as pessoas em Portugal e na Europa democrática e capitalista já passam fome. Fome, num país e num continente em que há pessoas que ganham milhares de euros por dia. A crise financeira é, portanto, nalguns aspectos, uma farsa, porque o capital existe, e sai a rodos nos melhores restaurantes, stands de automóveis e lojas de roupa. Como dizia Teresa Ricou (na forma expressiva e chã como costuma manifestar-se, imbricando-se com o seu alter ego), numa recente tertúlia no Bartô, "dinheiro existe, está é muito mal distribuído!". É imperativo, em Portugal até por obrigatoriedade constitucional, que se ponham, então, todos os recursos financeiros ao serviço da igualdade e do bem-estar da totalidade dos cidadãos.

Não se pode, creio, continuar a aceitar que 1 possa comprar uma Louis Vuitton (é assim que se escreve?) por 2.000 ou mais euros, quando, nas arcadas do prédio do lado, 20 ou 30 dormem em "camas" de cartão e jornal. O socialismo e as suas variantes democráticas terão, então, de encontrar o caminho da afirmação política. E podem começar pela reivindicação da origem dos poucos mecanismos sociais europeus que têm conseguido, cada vez menos, porque cada vez mais atacados por políticas liberalizantes, dar a um conjunto relativamente alargado de pessoas uma vida um pouco mais digna: serviços nacionais de saúde e educação, sistemas de segurança social, etc.

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