quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Experimentar.




Quando escrevia sobre política ou questões sociais ligadas a interacções humanas mais gerais, digamos, não passavam dois ou três posts sem receber um ou outro comentário. Ultimamente, tenho-me atrevido a lançar algumas ideias sobre amor e relacionamentos. E ninguém tem dito nada. Isto pode ter duas explicações: ou são como eu e não percebem, também, nada disto, ou consideram que aquilo que tem sido escrito é tão tonto e desfasado de tudo o que é real e que convosco acontece que desmerece qualquer tipo de nota. (Não que eu percebesse grande coisa de política, mas pelo menos nesse campo, creio, auferia de menos dúvidas em relação à minha própria experiência pessoal e convicções internas). Tenho, todavia, tido uma necessidade grande de discutir estas questões e, portanto, aqui vai mais uma atoarda, sobrevoando o vosso silêncio ou desdém.

No outro dia, no mítico Bairro Alto, discutia com a B. sobre relacionamentos. Ela dizia-me ser incapaz de estabelecer um contacto de carácter amoroso/sexual com uma pessoa com quem não namorasse. A B. não "curte", não "come na noite" (que expressão, realmente), só namora. E namora sempre por pouco tempo. Eu achei estranho. Em primeiro lugar, porque quando se conhece alguém começa-se por "curtir", por conhecer "sem compromisso", como quem vai às compras de roupa e leva uma peça de que gostou para os provadores. Depois veste-a, sente-lhe o tecido, observa o corte, a maneira como assenta, a forma que adquire no corpo. Se gostar, compra-se, senão descarta-se. Com a construção de uma namoro, o processo é semelhante. Hoje, já ninguém compra sem experimentar. E bem.

Mas o experimentar, a prática de relações amorosas relativamente fortuitas, não funciona, somente, penso eu, como precedente da compra. Muitas vezes não se ultrapassa, nem se quer, à partida, ultrapassar, a fase da experimentação. Como quem gosta de uma roupa que sabe perfeitamente que lhe assentará mal. E mesmo assim, pega nela e entra no vestiário. Aqui o acto de experimentar tem uma função primacialmente lúdica e, secundariamente, de sondagem do "mercado". Ver quem anda disponível, porquê, o que têm normalmente as pessoas para oferecer, o que pretendem, como se sentem com elas próprias, como se relacionam. A angariação de todas estas informações será de grande importância quando, em momento posterior, encontrarmos alguém que consideremos merecedor de uma atenção diferente.

Experimentar é, desta forma, acho eu...e isto não é grande coisa, bem sei, o alicerce de relações saudáveis posteriores. O pior é quando, por medo, por hábito, por necessidade, nos quedamos sempre nesta primeira fase.