segunda-feira, 27 de junho de 2011

Ensaio sobre o Amor: José e Pilar.



Cumpriu-se a semana que passou um ano da morte de José Saramago, único Nobel da Literatura português. Eu era, e sou, um fã. Em primeiro lugar e como é óbvio, da escrita. Depois, de algumas concepções políticas e ideológicas que prosseguia - marxismo, iberismo. Por fim, auferíamos de um inimigo comum - Cavaco Silva. Da Pilar, grande amor da vida de Saramago, não gostava minimamente. Ou melhor, não tinha grande opinião, mas, inconscientemente e porque sou português, desagradava-me o facto de uma mulher tão nova (38 anos) ter casado com um homem tão mais velho (66 anos). Preconceitos. Há uns meses, todavia, vi no cinema (e repeti agora na televisão) o documentário "José e Pilar" e não podia ter ficado mais encantado com a segunda mulher do escritor. Uma mulher extremamente cativante, determinadíssima, de ideias muito claras e que, sobretudo, o amava imensamente. Não é, não obstante, sobre ela ou ele que recai a minha reflexão de hoje, mas sim sobre o sentimento que nutriam um pelo outro e que, confesso, me é muitas vezes desconhecido. E falo do Amor. (Assim, com todo a piroseira que é escrevê-lo com letra maiúscula, mas também com toda a admiração, distância, estranheza e encantamento que nutro pelo sentimento e que exponho com uma letra "grande" no início. Um pouco como quando escrevo Deus, e não deus).

Eu já havia "visto" o Amor, nos meus avós, mas já não me lembrava. Quando comecei a ter idade para amar, reparei que ou não conseguia, ou não valia a pena. Ou melhor, muitas vezes, não conseguia, sequer, conceber o sentimento. Dizia que era amizade + sexo. Depois, vi que não. Deveria existir algo mais, porque o sentimento e a sensação anteriores já eu os havia experimentado na mesma pessoa e tinha a certeza que não era Amor. Amor era algo mais. A esse "algo mais" tive acesso no documentário "José e Pilar". Eles amavam-se. Verdadeiramente. E o sentimento manifesta-se de uma forma tão ostensiva que até eu o consegui ver. E bastou-me olhar para eles. Não tive necessidade de raciocinar ou intelectualizar nada, de procurar razões, de indagar. Estava ali, eu vi, e isso bastou-me.

A verdade, contudo, é que o que eu vi no "José e Pilar", não vejo na esmagadora maioria dos casais com os quais me cruzo diariamente. Álias, pensando agora aqui um minuto, penso que o vejo, somente, em mais quatro pessoas (dois casais) que conheço e nunca o vi em ninguém da minha idade. Isto faz-me pensar. Será que todas as pessoas tem acesso ao Amor, ou está reservado para uns quantos que aufiram de uma inteligência emocional superior? É que há um certo número de actividades intelectuais que estão acessíveis, apenas, a pessoas com uma inteligência cognitiva acima da média. É natural, portanto, que o mesmo se passe com as actividades que podem ser exercidadas pela inteligência emocional, nas quais se inclui o Amor. E o Amor será, certamente, das mais complexas.

Saramago não me parecia, ao contrário de Pilar, contudo, uma pessoa com uma inteligência emocional extraordinariamente elaborada. Nesse aspecto, parecia-me que, até ter conhecido Pilar, era uma pessoa, até, um pouco desumana. E, no entanto, lá estava ele a amar. E eu vi. E mesmo nesa foto que aqui publiquei se vê. E então deixei cair a ideia da eleboração emocional e fiquei sem nenhuma.

Mas duas coisas sei sobre o Amor. Quando há Amor não há vontade de partilhar o sexo com outra pessoa. E no Amor sentimo-nos melhor quando acompanhados por que amamos do que sozinhos.

2 comentários:

  1. E o mais certo é que, provavelmente, José Saramago não seria como tivemos oportunidade de o ver, se não fosse por Pilar. Não há dúvida que o Amor é uma força tremenda. Parabéns pela reflexão do post.

    ResponderEliminar
  2. Obrigado! E concordo, sem Pilar, não haveria aquele Saramago.

    ResponderEliminar