quinta-feira, 30 de junho de 2011

Discriminação de dentro para fora.




Há quem considere que gays e lésbicas, por pertencerem a uma classe discriminada, seriam bastante mais tolerantes em relação à diferença. A prática e o estudo teórico destas questões vem demonstrando que a realidade nos revela, exactamente, o contrário. Os estudos que têm vindo a ser realizados dizem-nos que as minorias segregadas (independentemente da motivação ser sexual, racial, cultural, etc.) são as que têm mais dificuldade em aceitar a diversidade. É assim que, por exemplo, na Califórnia, os afro-americanos eram o grupo social onde existiam mais opositores à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Podia pensar-se que isto derivava, não do ciclo vicioso da violência - violência gera violência -, mas do facto de, habitualmente, os grupos sociais mais discriminados (ciganos, imigrantes, pobres, etc.) auferirem de uma menor educação. Os gays quebrariam, então, este ciclo. É pertença do senso comum a evidência de que o gay tem, pelo menos, um curso superior (ainda que possa ser na área das "artes"), integra-se na classe média e aufere de algum poder económico (tem de haver dinheiro para um qualquer trapinho Prada ou Chanel, não é?) (Aos outros homens que se sentem atraídos por pessoas do mesmo sexo damos o nome de "paneleiros". Às mulheres gay chamamos "lésbicas". As outras não contam).

Acontece que mesmo o gay foi vítima de algum tipo de discriminação e desenvolveu, no seio da comunidade a que pertence, mecanismos de defesa e de isolamento. Assim, muito dificilmente, poderia ter a mente mais aberta no sentido da aceitação da diferença alheia. É desta forma que consigo ver, de uma forma muito clara e com confessa tristeza, uma profunda carga discriminatória na comunidade gay lisboeta, com raízes, sobretudo, raciais e económicas, mas também sexuais - imagine-se! (ou quem pensam que cunhou e mais utiliza o termo "bicha"?). É, igualmente, com base na ideia de que as castas discriminadas têm uma maior tendência para desenvolver sentimentos discriminatórios que se podem entendem a abstrusa aliança que gays e lésbicas formaram, na Holanda, com os partidos da extrema-direita racista no sentido de combater a "influência muçulmana

Como podem, gays e lésbicas, pedir aceitação e tolerância se são, muito mais vezes do que aquilo que poderia ser considerado aceitável, os primeiros a ostracizar? Acredito que a discriminação (independentemente da base ser racial, sexual ou outra) tem toda a mesma base e que a maior ameaça à igualdade não vem das componentes mais mainstream de uma sociedade (o homem, branco, classe média, heterossexual, católico), mas do sentimento alimentado pelas próprias classes mais discriminadas. A pior discriminação não é aquela que vem de fora, mas a que nasce dentro da comunidade vítima do desprestígio social. E é com essa que temos, sempre, menos cuidado.

2 comentários:

  1. Olha será que não me podias facultar uns links ou um material desses estudos para servir como reforço, numa discussão sobre o assunto?

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  2. Os estudos que dizem que são os membros das classes discriminadas aqueles que mais discriminam? As pessoas com quem trabalho estudam estas questões e foram quem me facultou estas informações. Vou pedir-lhes para me indicarem alguns estudos que estejam disponíveis online e, depois, "posto-os" aqui.

    Abraço.

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