segunda-feira, 2 de maio de 2011

Os mitos do fascismo - Parte II: O respeito.


Na sequência do post anterior, tentarei, desta feita, desmontar o mito adveniente do regime fascista português de que, nesses tenebrosos tempos, existiria um maior respeito pela instituição familiar, e pelas instituições estatais e religiosas em geral. A desconstrução desta encartada mentira parte da constatação do medo no seio do qual eram vividas algumas, arriscando-me a dizer a maioria, das relações familiares e a quase totalidade das relações do cidadão com o Estado ou com a Igreja.

No meu entender e como já defendi no escrito anterior, a arbitraiedade como era exercida a repressão no regime anterior fazia com que o respeito que qualquer cidadão podia sentir em relação ao Estado fascista se baseasse no medo da sujeição aos criminosos meios como este mantinha a "ordem", ou, então na abstrusa reverência dos seus apoiantes. Já quanto á Igreja (Católica, entenda-se, que as outras não eram, pelo menos, muito bem vistas pelo regime, a base do respeito era mais difusa, na medida em que esta não dispunha (pelo menos oficialmente) de um sistema repressivo baseado na violência física. O maior "respeito" que esta instituição poderia auferir antes do 25 de Abril de 1974 não tinha, considero, que ver com o seu mérito (religioso, social, etc.), porque esse manter-se-á, em príncipio, intacto, mas com as consequências que poderiam advir do facto de não se ser um frequentador assíduo das práticas religiosas.

É possível que em Lisboa a coisa fosse diferente (não muito, contudo), mas numa qualquer aldeia deste país, uma pessoa que não fosse, regularmente, à missa sofreria, certamente, um certo ostracismo social ou, pior, poderia ficar conotado como comunista. Os frequentadores de outras religiões (protestante e islãmica, sobretudo) não conseguiam, tal como os ateus convictos, manter um grande contacto com a restante população "religiosa". Considero, por tudo isto, que o respeito (apesar de a mim me fazer sempre uma certa confusão a noção de respeito quando referida a uma qualquer autpridade) que hoje existe em relação ao Estado e Igreja(s) é muito mais genuíno, porque baseado na liberdade de adesão (no caso da religião) e da escolha da autoridade (no caso do Estado).

Quanto ao respeito no seio da família, é comum dizer-se que hoje não existe e que "antigamente é que era". Diz-se que antigamente (leia-se, para este propósito, no período da brutal ditadura portuguesa)havia uma deferência maior pelos mais velhos, que as famílias eram mais unidas, que as rupturas era menos frequentes. Esquece-se é que, neste campo, o medo imperava de uma forma absoluta. O "bom pai de família" tinha poder absoluto sobre a mesma, mesmo sobre os mais velhos quando deixavam de assumir essa função. A família era a "base da nação", o sustentáculo principal da pátria portuguesa.

Não se podia, assim, tocar neste pilar do regime. Havia que fomentar a sua união, impedindo ao máximo o divórcio (proibindo-o, mesmo, para os casamentos católicos), subalternizando a mulher (não podia viajar e trabalhar, por exemplo, sem autorização do marido). Para além disto, a violência doméstica 8sobre os filhos, mulheres, mas também sobre os mais velhos) era recorrente e, mesmo, aceite pelo Estado. Uns bofetões aqui e ali até eram considerados benéficos, porque, afinal, ao homem cabia educar a esposa. A deferência para com os mais velhos era, assim, alicerçada no medo. Rapidamente, porém, se ultrapassava quando os mais velhos deixavam assumir o papel principal no núcleo familiar.

Todo esta alegada existência de um nível de respeito superior no Estado Novo português era, assim, baseada num enorme medo. Os mais fracos não respeitavam os mais poderosos, temiam-nos. Algum respeito, consideração e deferência saudáveis (sem exagerar muito neste tipo de sentimentos que com facilidade passam a cheirar a submissão) só podem nascer da liberdade que nos permite apreciar uma outra pessoa e instituição. O medo e a insegurança não são factores criadores de respeito, mas fundadores do temor, da sujeição e da aceitação acéfala de todo o tipo de arbitrariedades.

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