terça-feira, 17 de maio de 2011

From Portugal full of historic errors.



Não se sabe ainda bem para quê - para fazermos pouco de nós próprios, para suplicarmos a ajuda finlandesa, para enaltecermos os nossos feitos históricos, ou só por parvoíce - das Conferências do Estoril, em conjunto com a Câmara de Cascais, saiu um vídeo intitulado "What the Finns should know about Portugal". Neste pequenito filme é apresentado um vasto conjunto de factos sobre a nossa História, Economia, enquadramento social e outros factos "curiosos" acerca do nosso país que os obreiros do mesmo vídeo consideram pertinente ser do conhecimento da população finlandesa (que, no final, terá, obviamente, na democrática Europa, de "decidir" "ajudar" Portugal).

Quando soube da existência da "coisa", logo imaginei tratar-se de um conjunto de considerações laudatóricas acerca do nosso Império colonial, do facto de sermos um dos mais antigos da Europa e dos nossos sucessos futebolísticos mais contemporâneos. E isto lá estava tudo, numa imensa misturada de pastéis de Nata, tripas de porco, José Mourinho, Tratado de Tordesilhas, fronteiras do século XIII e milhões de telemóveis Nokia. O pior do vídeo não era, contudo, esta amálgama de factos completamente disparatados e lugares-comuns. Muito mais nos envergonha, considero, a quantidade monumental de erros históricos e factuais apresentada.

Começa logo com a indicação de que na Oceânia há duas vezes mais falantes de português do que população no Luxemburgo. Ora, a menos que exista alguma muito bem escondida comunidade falante de português com um milhão de habitantes em terras australianas e neo-zelandesas, a verdade e que apesar de a população de Timor-Leste ser cerca do dobro da do Luxemburgo, a esmagadora maioria dos habitantes daquela ex-colónia portuguesa está muito longe de dominar o português. Haverá, certamente, bastantes mais falantes do português no micro-Estado europeu do que no território oceânico.

É referido, depois, que Portugal aboliu a escravatura no ano de 1751, o que é uma mentira completa e absoluta. A abolição da escravatura é um tema complicado em Portugal, na medida em que ocorreu por várias fases e sempre com uma enorme resistência na aplicação prática das leis emitidas pela metrópole, mas, de uma forma muito simples, até porque hei-de escrever, depois, mais qualquer coisa sobre isto, importa desmontar este erro. Em primeiro lugar, a lei a que se referem, promovida pelo Marquês de Pombal, data de 1761 e não aboliu a escravatura, como é muitíssimo comum ler-se em todo o lado, mesmo na Wikipedia. Limitou-se a declarar que, a partir daquela data, todos os escravos negros que entrassem no Reino de Portugal e Algarves e no Estado da Índia passavam a ser livres.

Creio, sem poder dar certezas absolutas neste momento, que esta lei apenas se aplicava aos negros vindos das Américas, Ásia ou Espanha e não aos escravos vindos de África, mas, de qualquer maneira, a escravatura continuou a subsistir em Portugal por mais alguns anos, na medida em que não houve libertação dos escravos "portugueses", e os seus filhos só deixaram de nascer escravos a partir de 1773. Ainda assim, depois desta data, a escravatura continuou a ser plenamente aceita nas colónias portuguesas, vindo a ser abolida, apenas, em 1869. Fomos, portanto, o último país europeu a abolir a escravatura, na verdade uns anitos depois dos Estados Unidos da América, ao contrário daquilo que o vídeo que ora analisamos tentou inculcar. Para além disto, o trabalho forçado existiu em Portugal, juridicamente, até 1961 e, na prática, até 1974 para aqueles que, em África, chamávamos de indígenas.

Mas auferimos de alguns verdadeiros primeiros lugares nesta matéria: fomos o primeiro país europeu a promover a venda pública de escravos africanos em grandes quantidade e fomos o maior traficante mundial de escravos com mais de seis milhões de almas comercializadas. Que orgulho, não é?

"Gabamo-nos", depois, na sequência do vídeo, de termos sido os introdutores das armas de fogo no Japão. Não sei se estamos a tentar ter algum crédito pelo belicismo japonês a partir dos finais do séc. XIX e primeira metade do séc. XX que iria culminar com a II Guerra Mundial em que puseram grande parte da Ásia a ferro e fogo, mas se estivermos que se lixe, não é? Afinal foram coisas em grande e se não tivesse sido a nossa primeira espingarda não poderiam ter assassinado aqueles milhares de pessoas!

Quanto à pena de morte, se é verdade que fomos o primeiro país a aboli-la para os crimes civis, quanto a alguns crimes militares a verdade é que vigorou até 1976. Para além disto, durante o regime fascista português, era prática corrente as execuções extra-judiciais efectuadas pela polícia política e, durante a guerra colonial, os fuzilamentos de guerrilheiros.

Prosseguindo, "arigato" não é uma palavra portuguesa e, tanto quanto soube recentemente, não vem, sequer, do português obrigado. Não é, depois, correcto dizer-se que Colombo descobriu a América e revelou esse facto primeiro ao rei português e só depois ao monarca espanhol. Aquilo que se passou foi que Colombo propôs que se navegasse para ocidente e que, dessa forma, se encontraria um caminho mais directo para a Índia. Os matemáticos portugueses não acreditavam nessa possibilidade e, por isso, D. João II rejeitou o projecto de Colombo que acabou por navegar sob a bandeira espanhola para a qual reinvindicou os territórios da América que descobriu em 1492.

Por fim, o vídeo refere, como não podia deixar de ser, dois ou três factos atinentes à colonização portuguesa. Com um certo orgulho, revela a divisão do mundo não-europeu entre portugueses e espanhóis, a presença centenária em Macau e o facto de Portugal ter sido o primeiro Império colonial a estabelecer-se e o último a deixar de existir. Nenhum destas realidades é, para mim, motivo de orgulho, mas muito menos é-o este último facto, que apenas demonstra que o meu país foi o primeiro a considerar ser justo e admissível sujeitar outros povos ao domínio imperial e o último a perceber que essas ideias racistas e pretensiosas eram profundamente injustas.



Um grupo de finlandeses respondeu ao vídeo português com um outro em que apresenta a Finlândia como uma resistente da II Guerra Mundial (ao nazismo e ao comunismo autocrático soviético). Esquecem-se, com certeza, estes senhores que, na II GM, a Finlândia está muito longe de ficar bem na fotografia e de ter levado a cabo uma efectiva resistência à Alemanha nazi. É verdade que, a partir de 1945, enfrentaram as hostes alemãs na Lapónia, mas a tenebrosa realidade é que, entre 1941 e 1944, o exército finlandês lutou ao lado de Hitler na frente oriental. Ups...

4 comentários:

  1. Esqueceste-te da parte em que dizemos que tivemos o nosso próprio Jean Jacques Cousteau, o que seria um grande feito não fosse o facto de pessoa com tal nome nunca ter existido, ou se existiu nunca ninguém ouviu falar dela.

    Ou então era mesmo suposto ser uma fusão entre Jacques-Yves Costeau e talvez Jean-Jacques Rosseau.

    Enfim, erros que ficam um bocado mal quando nos estamos a tentar armar em chico espertos.

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  2. Realmente, nem tinha reparado nesse outro lapso.

    E, agora que penso, se calhar os erros foram mesmo propositados - para dar a ideia da esperteza saloia que, no fundo, é a característica que melhor define o povo português, não é? ; )

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  3. O que diz no vídeo é que há duas vezes mais falantes de português na Oceania, do que há população no Luxemburgo. Não "na Oceânia há duas vezes mais falantes de português do que no Luxemburgo".

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  4. Tem toda a razão. Foi um lapso de escrita meu. Não modifica, contudo, o conteúdo do argumento.

    Manel

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