sexta-feira, 29 de abril de 2011

Os mitos do fascismo - Parte I: a segurança e o respeito.




No seio deste momento das comemorações da instauração da democracia portuguesa, vou aqui tentar desmontar dois grandes mitos do fascismo que ainda hoje perduram nas mentes do nosso povo, sobretudo dos mais jovens (o que é incomensuravelmente assuastador). Um destes mitos diz respeito á consolidação financeira supostamente conseguida por Salazar e os benefícios que isso trouxe para o nosso país. O outro, que me proponho tratar hoje, diz respeito á crença de que existia muito mais segurança e respeito (pelos mais velhos, pela famíla, etc.) durante o Estado Novo do que actualmente.

Veio-me a ideia de tratar esta questão de uma reportagem de um canal de televisão que decidiu, no dia 25 de Abril, ir entrevistar jovens que haviam nascido já no seio da democracia portuguesa sobre a opinião que tinham do regime do Estado Novo. As opiniões eram, graças a Deus, desfavoráveis ao sistema fascista. Contudo, um dos rapazes entrevistados referiu que a única coisa positiva da ditadura portuguesa era a existência de maior segurança (menor criminalidade) e de uma maior respeito no seio da família e pelos mais velhos. Trata-se de uma afirmação, que aliada à crença de que nesse tempo é que havia "ordem", muito se tem propalado no pensamento português.

Discordo em absoluto da mesma. Reflectindo, em primeiro lugar, sobre a questão da segurança, penso que as considerações das pessoas vão no sentido de que durante o regime salazarista havia menos violência nas ruas, menos assaltos, que se podia andar livremente à noite pelas ruas das grandes cidades deste país e, atá, deixar a porta aberta, que a honestidade do nosso povo, reforçada pelas políticas da "outra senhora", não permitia que fossem cometidos actos criminosos. Em primeiro lugar, e esquecendo o facto de as circunstâncias sociais, económicas e urbanísticas dos dias de hoje serem diametralmente diferentes daquelas dos anos 50 ou 60, não sei onde vão as pessoas buscar provas para fazer este tipo de asserções. Não sei, francamente, se existiam menos assaltos nas ruas de Lisboa ou se as pessoas se sentiam completamente seguras à meia-noite no Cais do Sodré, aquilo que sei é que a violência doméstica sobre as mulheres era plenamente aceite pelo regime que vigorava e, assim, pelo menos este grupo havia de se sentir menos seguro. É que o marido dar meia dúzia de tabefes à mulher (ou aos filhos, ou mesmo á sogra, espantemo-nos) era considerado uma prática plenamente aceitável. "O meu marido bateu-me, mas eu até mereci", diziam as próprias vítimas da altura.

Por outro lado, não percebo como se pode dizer que existia segurança quando era o próprio Estado o maior dos criminosos deste país. Uma pessoa, apenas por pensar de maneira diferente e divulgar esse tipo de ideias no seu grupo de amigos, podia ser encarcerada, torturada e, mesmo, morta pela polícia política do regime. Imagine-se só os abusos que aqui não terão acontecido, com falsas denúncias, prisões arbitrárias, etc. Então se uma pessoa militasse, mesmo, nalgum movimento oposicionista! Enfim, só porque dois jovens, um dia, decidiram, sem qualquer tipo de intenção política (em sentido estrito, digamos), brindar à liberdade foram imediatamente encarcerados. Para além de que, por exemplo, um homossexual (se não pertencesse ás altas famílias) arriscava-se a ser internado e submetido a todo o tipo de humilhações no Albergue da Mitra, apenas por causa da sua orientação sexual.

Não percebo, assim, como se pode falar de segurança, quando o espancamento, tortura, prisão e internamento de cidadãos completamente incocentes era prática estadual recorrente. Não há nada mais seguro do que a liberdade e quando o Estado é o primeiro a atacá-la, só nos resta a convivência com a insegurança mais atroz.

PS: como o post já vai algo longo, a temática do "respeitinho" será tratada num texto posterior, no dia de amanhã.

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