quinta-feira, 21 de abril de 2011

O erro de Melo Antunes.


Melo Antunes, capitão de Abril e primeiro responsável pelo conteúdo político do Movimento das Forças Armadas (MFA) - autor principal do Programa do MFA - foi, provavelmente, a personagem política mais relevante no seio das facções militares entre Abril de 1974 e Novembro de 1975. A partir daí, e apesar de ter continuado a ter alguma intervenção política fundamental até 1982 - foi presidente da Comissão Constitucional que funcionava junto do Conselho da Revolução, foi perdendo, crescentemente, importância. E foi-na perdendo, na medida em que o projecto político que tinha para o país foi derrotado pelas forças que instauraram o actual regime/sistema. Esta derrota teve que ver, creio eu, não com a inexistência de apoio popular às propostas que avançava, mas mais com alguns erros de táctica política que foi cometendo.

Não me interessam muito os acontecimentos e tomadas de posição políticas de Melo Antunes até Março de 1975 (o caminho foi tentar conter a direita spínolista e procurar encetar o processo de descolonização). O meu argumento centra-se em dois posteriores períodos: entre 11 de Março de 1975 e 25 de Novembro de 1975 (PREC), o primeiro e o segundo entre 25 de Novembro de 1975 e 25 de Abril de 1976.

A 11 de Março de 1975, Spínola (primeiro Presidente da República do regime saído do golpe de Abril e que se havia demitido a 28 de Setembro do ano anterior por causa do falhanço da manifestação da "Maioria Silenciosa") lidera (manipulado pela esquerda, pela direita ou de forma absolutamente consciente, não interesse agora discutir) uma tentativa de golpe de direita que falhou. Vasco Gonçalves (o então primeiro-ministro, conotado com o Partido Comunista Português), apoiado, sobretudo, pelos sectores ligados ao PC e, nesta altura, pelo COPCON de Otelo Saraiva de Carvalho, aproveita a ocasião para corrigir o rumo da Revolução Portuguesa num sentido muito mais socializante - é nacionalizada a banca e as seguradoras, empresas de grande dimensão e acelera-se o processo de reforma agrária.

Melo Antunes, neste momento, passa a desconfiar abertamente das intenções de Vasco Gonçalves, acreditando que este último estava verdadeiramente interessado na instauração de um regime comunista de tendência pró-soviética no nosso país. Manobra então, primeiro na sombra e depois da emissão do "Documento dos Nove" abertamente, no sentido de substituir as chefias militares favoráveis ao governo de Vasco Gonçalves e mais próximas do PCP. Contava, para este a concretização deste objectivo, com o aberto apoio do PS de Mário Soares e do general Costa Gomes (que havia sucedido a António de Spínola na Presidência da República). Vasco Gonçalves contava, ainda, com a oposição de um cada vez mais radicalizado Otelo Saraiva de Carvalho.

Como resultado de todas estas pressões, no início de Setembro de 1975, Vasco Gonçalves abandona a chefia do executivo português, dando lugar ao almirante Pinheiro de Azevedo. Derrutada a facção "gonçalvista" faltava, na óptica de Melo Antunes, afastar Otelo da chefia do COPCON, retirando-lhe, assim, os meios militares para intervir politicamente. É isto que acontece a 17 de Novembro de 1975 quando Vasco Lourenço assume a chefia do COPCON. A extrema-esquerda, acossada pelos militares moderados para sair dos quartéis, ensaia uma falhada tentativa de golpe a 25 de novembro e conhece, aí, a sua derrota final.

Aparentemente, neste momento Melo Antunes tinha ganho a batalha pelo controlo da facção militar e poderia exercer toda a presão no sentido da implantação do socialismo democrático que preconizava. Contudo, a vitória tirou-lhe todo o espaço de manobra. Ramalho Eanes havia saído como o grande vencedor do 25 de Novembro e Mário Soares, a grande personalidade no sector civil, ganhava, com o apoio dos partidos da direita - PPD e CDS -, margem de manobra para instaurar a democracia liberal e capitalista que pregava. Melo Antunes apagava, não tinha concordado, sequer, com a nomeação de Pinheiro de Azevedo para primeiro-ministro do último governo provisório.

Os resultados das eleições legislativas de Abril de 1976, com PS, PPD e CDS a garantirem quase 85% dos votos, marca a derrota final do sonho político de Melo Antunes. O capitão de Abril percebia que não existiam forças políticas que apoiassem o seu projecto.

Numa nota conclusiva muito curta, penso que o erro de Melo Antunes foi a excessiva desconfiança do PCP e da extrema-esquerda e o enorme gasto de energia decorrente do combate que empreendeu contra estas forças. Permitiu, por outro lado, e não tendo nunca constituído uma força política autónoma, que o PS de Soares se fortalecesse e fosse constituindo uma teia de alianças relativamente forte com os partidos da direita (PPD e CDS), o que lhe permitiu que, livre dos empecilhos do PCP e da extrema-esquerda, instalasse um regime democrático, não há dúvida, mas capitalista e muitíssimo pró-ocidental (em vez do socialismo democrático não-alinhado que Melo Antunes defendia).

Confiou, por ventura, o capitão de Abril demasiado na próximidade das suas ideias com aquelas que o Partido Socialista defendia? Ou achava que era possível que o exército continuasse a manter a preponderância política que havia assumido depois do golpe de Abril? Estas duas ilusões terão, certamente, pesado nas decisões que Melo Antunes foi tomando. Muito melhor teria feito se tivesse abandonado alguns princípios ideológicos menos essenciais, digamos, e firmado uma aproximação (cautelosa, logicamente) em relação a Vasco Gonçalves e a alguma extrema-esquerda (o que parece que foi quase possível, em relação a estes últimos, no Verão de 1975). É que assim não teria tido de abdicar do fundamental que defendia, como aconteceu.

Sem comentários:

Enviar um comentário