quinta-feira, 14 de abril de 2011

Isto não é socialismo, sr. Fisherman!





Um sociólogo americano, Robert M. Fisherman, na sua habitual coluna opinativa no New York Times afirmou que o factor que levou ao pedido de resgate financeiro do nosso país está foi a pressão exercida pelos mercados financeiros e que as políticas económias postas em prática pelo "engenheiro" José Sócrates tinham "alcançado um sucesso notável". Numa quase entrada num estado de loucura perturbante, o senhor Fisherman afirma que as decisões tomadas pelos mercados no que toca à dívida portuguesa se devem ao exercício de um "preconceito ideológico". Acredita o sociólogo que, em Portugal, se vive uma espécie de socialismo democrático em que as pessoas têm direito a alimentação, casa, saúde, educação e outros bens essenciais a preços irrisórios e em que o governo "socialista" vivia, efectivamente, preocupado com aqueles que menos têm.


Enfim, o senhor Fisherman pertence àquela classe de americanos que se encontra completamante desiludida com o sistema capitalista do seu país e olha para a Europa (e quem sabe, também, para Cuba ou Venezuela) na esperança de encontrar aquela combinação entre iniciativa privada e regulação e assistência pública que preconizará como sendo o modelo de governação política ideal. Encontra-se, porém, redondamente enganado em relação ao nosso país e, sobretudo, em relação à dimensão da nossa dívida pública e do nosso défice.


Em primeiro lugar, em Portugal, tirando talvez um curto período nos governos provisórios chefiados por Vasco Gonçalvez, nunca se conseguiu implementar um sistema socialista democrático. "Temos de pôr o socialismo na gaveta": a frase é de Mário Soares (fundador e principal figura histórica do Partido Socialista português). Deixa-se, o sociólogo, enganar pela terminologia: o Partido Socialista foi, sempre, já desde o PREC um partido de direita (basta perguntar quem é que deu garantias aos governos Nixon e Ford durante o período revolucionário português). O senhor Fisherman comete, igualmente, o erro de olhar para a propaganda do governo Sócrates como se tratando de dados objectivos. A verdade é que a nossa dívida pública tem vindo, sempre, a aumentar em exponencial, assim como o défice - com uma grande ajuda das medidas eleitoralistas do senhor "engenheiro"; ou já ninguém se lembra do aumento dos salários dos funcionários públicos imediatamente antes das legislativas de 2009 (e, portanto, em pleno período de recessão)?


A maneira como José Sócrates tem vindo a manipular as contas públicas portuguesas - a última maquinação seria retirar do défice global o buraco financeiro das empresas públicas de transporte - é que tem provocado o maior abalo na credibilidade financeira do nosso país. Eu sou, convictamente, objector da maneira como os mercados controlam as economias dos países mais frágeis. Não conseguem, contudo, fazer-me crer, como pretende Fisherman, que a forma como estas entidades têm vindo a penalizar o nosso país se deve a algum preconceito ideológico em relação ao nosso sistema alegadamente socialista (ou de mistura entre iniciativa pública e privada) - basta ver-se o montante dos juros das dívidas de países como a Noruega ou Suécia. É que aquilo que na verdade se passa no nosso país pode muito bem ser resumido numa frase que cito de cor de uma crónica numa edição de há dois ou três meses do Corrier Internacional (não recordo o autor): "para os ricos há o Estado, os pobres têm de se safar no mercado".


A realidade, sr. Fisherman, é a de que, ao contrário do que pensa, a assistência social portuguesa está muito longe de suprir as necessidades básicas da maioria dos cidadãos portugueses mais pobres. E as medidas tomadas por Sócrates e que considera muito positivas, não se traduziram em mais nada senão numa sobrecarga brutal dos mesmos de sempre: funcionários públicos e cidadãos dependentes da segurança social. Os bancos e os grandes capitalistas (os mesmos ou descendentes dos mesmos da ditadura, já agora) continuam sem dar um contributo mínimo, pagando impostos bastante inferiores aos daqueles que infernizam a vida de um operário que ganhe o salário mínimo.


É assim, sr. Fisherman, que lhe garanto que o sistema em que acredita e defende não existe no nosso país. O povo português tem escolhido, numa sempre anti-solidária muito típica deste nosso pedaço de Europa, escolher sempre os suspeitos do costume (PS-PSD-CDS), numa preferência por um capitalismo selvagem, deturpado pela excessiva protecção daqueles que mais têm, por uma falta de regulação atroz e fracamente atenuado por uma ridícula imitação de um sistema de assitência social. Isto aqui não é socialismo, sr. Fisherman!



Algumas notícias com possível interesse para a temática:


Polémica em relação aos objectivos da Revolução Portuguesa: Otelo vs Vasco Louranço.








Saiam do Euro I e II.

2 comentários:

  1. Talvez na perspectiva do senhor Fisherman "as políticas económias postas em prática pelo "engenheiro" José Sócrates" tenham, de facto, "alcançado um sucesso notável"... pois o senhor "engenheiro" José Sócrates tem realmente conseguido afundar o país com um sucesso notável. Eu diria mesmo que seria difícil fazer melhor.

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  2. Acho que tem toda a razão, Libélula. O pior é que ninguém vê isso. Enfim, olhe, bem-vinda a este blog. = )

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