quarta-feira, 6 de abril de 2011

Das gentilezas como sustentáculo da discriminação.






Na semana passada fui jantar a casa de uma amiga. Depois da praxe das saudações iniciais, um certo desconforto começou a invadir a minha pessoa. É que a disposição das pessoas naquela sala poderia, perfeitamente, ser a mesma que se observaria, hoje, em Marraquexe ou nos anos 50 no nosso Portugal fascista: as crianças e as mulheres sentadas a comer e os homens encostados a um canto a beber, à espera que vagasse lugar numa mesa em que não dava para nos alimentarmos todos ao mesmo tempo.







Obviamente que logo me referi a esta situação. É que, se me parece absolutamente aceitável que os infantes façam a sua refeição com prioridade em relação aos adultos (são mais frágeis, não podem ficar tanto tempo sem comer, têm de se deitar mais cedo, etc.), já o facto de as mulheres terem assumido, igualmente, essa primazia afigurou-se-me, logo, estranho. É que não considero que as mulheres sejam, de qualquer ponto de vista relevante para esta situação, mais frágeis do que os homens. As minhas amigas justificaram aquela ocorrência como tendo "acontecido". "Nós (as mulheres) fomo-nos sentando primeiro".




Ora, é mais sobre esta justificação do que sobre o acontecimento em si que recai o meu descontentamento e sobre a qual se baseia a minha oposição ideológica, digamos. Considero que a maioria das interacções humanas não ocorre de uma determinada forma apenas porque sim, porque "calha", e a vicissitude do jantar aconteceu (agora em sentido próprio) não só porque os elementos do sexo feminino consideraram que não era indelicado serem os primeiros a sentar-se à mesa, como porque os homens permitiram essa situação. A base desta "delicadeza" situa-se naquele tipo de constituinte da boa educação que conhece a sua súmula na expressão: "senhoras primeiro" e que leva a que os homens deixem as "senhoras" passar à frente quando cruzam uma porta, por exemplo.


Este tipo de conteúdos da "boa educação" sempre me pareceu profundamente machista, na medida em que não podem ter outro tipo de justificação que não maior fragilidade e sensibilidade da mulher. Penso que podem impedir formas mais cruas de violência: as mulheres terem de esperar que o homem se banqueteasse para depois terem direito a alguns "restos", a violência física sobre a mulher, etc. Não impede, contudo, formas mais dissimuladas e justifica, defendo, que, por exemplo, os salários auferidos pelas trabalhadoras sejam, em média, cerca de 10% inferiores aos dos trabalhadores masculinos, funcionando como uma espécie de luso-tropicalismo em relação ao racismo mais directo.





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