segunda-feira, 28 de março de 2011

E se experimentássemos a esquerda?




Na semana passada o primeiro-ministro teve, finalmente, a sensatez de se demitir. Percebeu que o estado a que havia deixado chegar este país (ou o estado em que o colocou) já não se coadunava mais com o desplante de aparecer como o chefe do executivo da nação. Claro que vai voltar a concorrer numas próximas eleições - mantém o lugar de Secretário-geral do PS . Esta retirada foi meramente estratégica, quem sabe para ver se, assim, pode permitir a entrada do FMI sem cair, novamente, em contradição.


Cavaco Silva encontra-se completamente perdido perante esta situação, como é, aliás, habitual na forma de intervenção política a que nos vem habituando desde que ocupou o Palácio de Belém. Sabe, contudo, que terá de marcar eleições ainda antes do Verão. Numa sondagem realizada para a TVI, o PSD é apontado como o vencedor destas eleições, mas sem maioria absoluta, enquanto o PS se mantém um segundo lugar muito confortável. Por sorte não escolhi ciências como a Psicologia ou a Sociologia como áreas de formação. Seria completamente inapto, na medida em que não consigo, de forma alguma, compreender o povo português.


Seria normal, considero, que perante a actual situação, os portugueses optassem por políticos diferentes dos suspeitos do costume (PSD, PS e, também, CDS). Mas não, são estes os partidos que concentram, segundo a sondagem, bastante mais de 80% das intenções de voto nas próximas legislativas. Por mim, gostava de propor uma ideia completamente louca: uma coligação (ampla) de esquerda, juntando o BE, PCP, alguns sectores da esquerda do PS (se é que existe algum que não esteja já moribundo) e, eventualmente, outros micro-partidos da esquerda nacional. Tudo isto apoiado numa base de apoio popular ampla e com um programa muito simples, curto e apoiado nalgumas medidas essenciais: fortalecimento do Estado Social, implementação de melhores mecanismos de distribuição de riqueza, regulação mais eficaz das actividades especulativas, promoção de alguma (moderada) inovação social e contenção dos grandes investimentos em obras públicas. Enfim, no fundo a reinvenção moderna das Frentes Populares dos anos 30 do século passado.


Claro que todas estas elucubrações não passam de fantasias inconcretizáveis. Não por causa do discurso ultra-demagógico que propaga a ideia da impreparação dos partidos da esquerda para governarem, mas sobretudo porque estes, na tentativa de defenderem o seu magro eleitorado, tendem a agarrar-se à mais ínfima diferença entre eles, em vez de procurarem centrar-se nas semelhanças que os poderiam aproximar.


O BE com a insistência quase obsessiva no vanguardismo sexual (legalização da prostituição, adopção por casais homossexuais, etc.) e na luta por causas ultra-minoritárias e, sejamos francos, ligeiramente irrelevantes no "estado a que isto chegou" (legalização da marijuana, etc.). O PCP porque ainda não percebeu que já não existem camponeses e operários para fazer a revolução anti-burguesa e porque insiste em não abandonar o discurso completamente ultrapassado de 1917. A ala esquerda do PS porque imagina que ainda pode tornar o PS num partido de centro-esquerda.


Atenção, que eu identifico-me e defendo acirradamente todo este vanguardismo do BE e concordo com inúmeras máximas marxistas ainda hoje defendidas pelo PCP. Penso, contudo, que hoje cumpre procurar defender os princípios mais gerais da esquerda - igualdade, justiça social, moderação do capitalismo desenfreado, etc. - ao invés de procurar purismos ideológicos mais extremos.


Enfim, pode ser que o nosso povo aprenda com algumas lições islandesas. Infelizmente, acho que não.

4 comentários:

  1. Uma coligação de esquerda seria o desastre total... O português tem de aprender a viver sem o Estado. Todo o povo critica o Estado, mas quando lhe dói alguma coisa, tem que lá estar à disposição, não? Isso é abominável. E não deveria haver Estado social, é uma pouca vergonha que cada um não saiba a quem recorrer sem ser ao Estado.

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  2. Hum...temos aqui um anarquista ou um ultra-liberal de direita?

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  3. Anarquista, nem pensar. Mas é verdade que é abominável todo o povo viver à custa do Estado.

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  4. Então, que solução apresentas? O fim do Estado Social e depois? Como pode ter acesso a cuidados de saúde, de educação uma pessoa que receba o salário mínimo? E que papel reservas para o Estado?

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